# Só

## Part 4

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E, assim, sósinha com a aia, Ao sol, se assenta sobre a praia, Entre os bébés, que é o seu logar... E o Oceano, tremulo avôzinho, Cofiando as barbas cor de linho, Vem ter com ella a conversar...

Fallam de sonhos, de anjos, e elle Falla d'amor, falla d'aquelle Que tanto e tanto a faz penar... E o coração parte-se todo, Quando a sorrir, com tão bom modo, O Mar lhe diz: «Ha-de sarar...»

Sarar? Mizerrima esperança! Padres! ungi essa criança, Podeis sua alma encommendar: Corpinho d'anjo, casto e inerme, Vae ser amada pelo Verme: O bichos vão-na desfructar...

Sarar? Da cor dos alvos linhos, Parecem fuzos seus dedinhos, Seu corpo é roca de fiar... E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina, Eu julgo ouvir n'uma officina Taboas do seu caixão pregar!

Sarar? Magrita como o junco, O seu nariz (que é grego e adunco) Começa aos poucos de afilar, Seus olhos lançam igneas chammas... Ó pobre mãe, que tanto a amas, Cautella! O outomno está a chegar...

Leça, 1889.

*A Poezia do Outomno*

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena! Tardes de sonho em que a poezia escorre E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas Por entre os verdes cannaviaes, esguios, São como estradas liquidas, e as estradas Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos, O chale pedem a quem vae passando... E nos seus leitos nupciaes, os ninhos, As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento. Abrem as boccas, aparando-o, os goivos... E a larangeira, aos repellões do vento, Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega O val sem fruto, a terra arida e nua! E o Padre-Oceano, lá de longe, prega O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena! Outubro! Mez de Maio, na lareira! Tardes... Lá vem a Lua, _gratiae plena_, Do convento dos céus, a eterna freira!

Porto, 1886.

S.^{ta} Iria

N'um rio virginal d'agoas claras e mansas, Pequenino baixel, a santa vae boiando... Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças, Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando, E, com a graça etherea e meiga das crianças, Formosa Iria vae boiando, vae boiando...

Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_, E, ao verem-na passar, phantastica barquinha, Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

Ella entra, emfim, no Oceano... E escuta-se, ao luar, A mãe do pescador, rezando a ladainha Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar...

Leça, 1885.

*Enterro de Ophelia*

Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar... Deixal-a! (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou...) Como padres orando, os choupos formam ala, Nas margens do ribeiro onde ella se afogou...

Toda de branco vae, n'esse habito de opala, Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou, Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_, D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!...

O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella, Que a perseguia sempre, em palacio e na rua, Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...

Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros, E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua, Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

Leça, 1888.

*Ballada do Caixão*

O meu vizinho é carpinteiro, Algibebe de Dona Morte: Ponteia e coze, o dia inteiro, Fatos de pau de toda a sorte: Mogno, debruados de velludo Flandres gentil, pinho do Norte... Ora eu que trago um sobretudo Que já me vae a aborrecer, Fui-me lá, hontem: (era Entrudo, Havia immenso que fazer!...) --Olá, bom homem! quero um fato, Tem que me sirva?--Vamos ver... Olhou, mexeu na caza toda... --Eis aqui um e bem barato.

--Está na moda?--Está na moda. (Gostei e nem quiz apreçal-o: Muito justinho, pouca roda...) --Quando posso mandar buscal-o? --Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro: (Poz-se o bom homem a aplainal-o...)

Ó meus amigos! salvo-erro, Juro-o pela alma, pelo céu! Nenhum de vós, ao meu enterro, Irá mais dandy, olhae! do que eu!

Pariz, 1891.

*Á Toa*

O Primeiro Homem

Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha! Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

A Montanha

Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios E veias do meu corpo os azulados rios.

Os Rios

Nós somos o suor que o Estio asperge e sua, Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

A Lua

Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra...

A Terra

E eu uma das maçãs, entre outras a primeira, Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

A Macieira

Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as! Abanae a macieira e cairão estrellas!

A Estrellas

No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar, E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_...

O Mar

Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos: Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

Os Relampagos

Nós somos (o contrario, embora, seja escripto) Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito...

O Infinito

Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança. Aqui, vem desagoar o rio da Esperança...

A Esperança

Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes, No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

Os Cyprestes

Para apontar os céus, como dedos funereos, Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios...

Os Cemiterios

Porão, beliches, tudo cheio!... Os céus absortos! Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

Os Mortos

Seculos tombam uns sobre outros, como blocos, E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

Porto, 1885.

*A Vida*

Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes! Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes! Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor! Ó olhos negros como noites, como poços! Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos! Ó puros como o céu! ó tristes como levas De degredados!

Ó Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias: Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias, Ó velas do perdão! candeias da desgraça! Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça! Olhos accezos como altares de novena! Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna! Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas, Lume dos que no mar andam botando as linhas... Ó pharolim da barra a guiar os navegantes! Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes, Mais os que vão na diligencia pela serra! Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra! Ó janellas de treva, abertas no teu rosto! Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto! Luas d'Estio! Luas negras de velludo! Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo Quanto ha de branco: véus de noivas, cal Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal, Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas! Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas! Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha... Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha... Olhos tranquillos e serenos como pias! Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos, Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos! Estrellas do pastor! Olhos silenciozos, E milagrozos, e misericordiozos, Com os teus olhos nunca ha noites sem luar, Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar! Olhos negros! vós sois duas noites fechadas, Ó olhos negros! como o céu das trovoadas...

Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes! De que te serve ter uns astros sem eguaes? Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves? O mar a uivar! A espuma verde das marés! Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja! Toda uma cathedral de lutas, uma igreja A arder entre clarões de coleras! O orgulho Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho! Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica! Quantos lares sem lume e quanta gente rica! Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias! Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias! Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças! Quantos suores sem proveito! quantas taças A trasbordar veneno em espumantes boccas! Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas, N'este macomio do Planeta! E as orfandades! E os vapores no mar, doidos, ás tempestades! E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia! E aquella que não sae por ter uzada a saia! E os que sossobram entre a vaidade e o dever! E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer! Olha essa procissão que passa: um torturado De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado, E para ser feliz fez todos os esforços... Olha as insomnias d'uma noite de remorsos, Como dez annos de prizão maior-cellular! Olha esse tysico a tossir, á beira-mar... Olha o bébé que teve Torre de coral De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal, Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada, Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada! Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas... Olha essas rugas que têm certos diplomatas! Olha esse olhar que têm os homens da politica! Olha um artista a ler, soluçando, uma critica... Olha esse que não tem talento e o julga ter E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever! Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade! Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade! Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos! Olha um moço a chorar seus crueis desenganos! Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal! Olha aquelle que habita uma Torre de sal, Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas, Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas! Olha um velhinho a carregar com a farinha E o filho no arraial, jogando a vermelhinha! Olha a sair a barra a galera _Gentil_ E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil! Olha, acolá, no caes uma outra como chora: É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!» Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão...

Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos, Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos! Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama, Foi para ver, coitada! essa bola de lama Que pelo espaço vae, leve como a andorinha, A Terra!

Ó meu amor! antes fosses ceguinha...

Pariz, 1891.

*O Somno de João*

O João dorme... (Ó Maria, Dize áquella cotovia Que falle mais devagar: Não vá o João, acordar...)

Tem só um palmo de altura E nem meio de largura: Para o amigo orangotango O João seria... um morango! Podia engulil-o um leão Quando nasce! As pombas são Um poucochinho maiores... Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo! Deixal-o dormir, deixal-o! Callae-vos, agoas do moinho! Ó mar! falla mais baixinho... E tu, Mãe! e tu, Maria! Pede áquella cotovia Que falle mais devagar: Não vá o João, acordar...

O João dorme... Innocente! Dorme, dorme eternamente, Teu calmo somno profundo! Não acordes para o mundo, Póde affogar-te a maré: Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mae! canta-lhe a canção, Os versos do teu irmão: «Na Vida que a Dor povoa, Ha só uma coisa boa, Que é dormir, dormir, dormir... Tudo vae sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser Um velhinho... até morrer!

E tu vel-o-ás crescendo A teu lado (estou-o vendo João! Que rapaz tão lindo!) Mas sempre, sempre dormindo...

Depois, um dia virá Que (dormindo) passará Do berço, onde agora dorme, Para outro, grande, enorme: E as pombas que eram maiores Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria! Dize áquella cotovia Que falle mais devagar: Não vá o João, acordar...

E os annos irão passando.

Depois, já velhinho, quando (Serás velhinha tambem) Perder a cor que, hoje, tem, Perder as cores vermelhas E for cheiinho de engelhas: Morrerá sem o sentir, Isto é deixa de dormir... Acorda e regressa ao seio De Deus, que é d'onde elle veio...

Mas para isso, ó Maria! Pede áquella cotovia Que falle mais davagar:

Não vá o João, acordar...

Pariz, 1891.

*Ao Canto do Lume*

Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo! Ninguem, viv'alma... O que farão os mais? Senhor! a Vida não é um rapido segundo: Que longas horas estas horas! Que profundo Spleen o d'estas noites immortaes!

Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama...) Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão! E quando todo se extinguir na aurea chamma, Eu botarei (para que serve? já não ama...) As cinzas brancas, meu vermelho coração!

Lá fóra o vento como um gato bufa e mia... Ó pescadores, vae tão bravo o mar! Cautella... Orçae! Largae a escota! _Ave Maria! Cheia de Graça_... Horror! Mortos! E a agoa tão fria!... Que triste ver defuntos a boiar!

Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno, Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil. Nada ha peior que este somnambulo abandono! Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!

A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento! Que felizes, sois prestes a partir! Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!... Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato... o vento... Coitado! é o Georges, tysico, a tossir...

Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer! Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando... Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer...

Oiço um apito. O trem que se vae... Engatar-te Quem me dera o wagon dos sonhos meus! Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te... --Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte! Coitado de quem fica... Adeus! adeus!

Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero. Por toda a parte é vil o homem e bom o céu. --Americas! Japão! Indias! Calvario!... Quero Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero E a Agueda beber agoa do Botareu...

Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha, Paizes raros, Neves, Areiaes; Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha, Armei na França minha tenda de campanha... E tedio, tedio, tedio e nada mais!

Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas, Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae! Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas! Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas, Tal como aspirações irrealizaveis, ai!

Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar. Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o: Agora, trago uma medalha sobre o seio Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.

Espiritos! em vão, debalde por vós clamo: Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim! As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo, E, hoje, não... Porque? Traço o parallelogrammo, Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia Pelo luar da lua de Canaan: Quero passar o _além_ que para além se alteia, A nação de que a Terra é uma pequena aldeia E um logarejo a Estrella da Manhã!

(E a chuva cae...) Meu Deus! Que insupportavel mundo! Viv'alma! (O vento geme...) O que farão os mais? Senhor! A Vida não é um rapido segundo: Que longas horas estas horas! Que profundo Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

Pariz, 1890-1891.

*A Sombra*

Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello São horas d'ella vir. Minha alma, attende! Que já a lua, a sentinella, rende Na esplanada do céu, ás portas do Castello...

Oiço um rumor: talvez... Eil-a, é ella: ao longe, avisto Seu vulto em flor: postas as mãos no seio, Com o cabello separado ao meio, Todo caido para traz, como o de Christo!

Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida! Quantas lembranças d'este peito arranco! Foi assim, que primeiro a vi, de branco, Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

Que luz projecta! Que explendor! Parece dia! Os gallos cantam, annunciando a aurora!... Ide deitar-vos que ainda não é a hora, Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa! Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a... Terá ainda a mesma voz tranquilla? Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça...

Mas ao passar por mim, como d'algum perigo, Foge. (Talvez, já seja tarde...) Ó Clara! Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!... E oiço a voz d'ella n'um murmurio: «Anda commigo...»

Coimbra, 1888.

*O Meu Cachimbo*

Ó meu cachimbo! Amo-te immenso! Tu, meu thuribudo sagrado! Com que, bom Abbade, incenso A Abbadia do meu passado.

Fumo? E occorre-me á lembrança Todo esse tempo que lá vae, Quando fumava, ainda criança, Ás escondidas do meu Pae.

Vejo passar a minha vida, Como n'um grande cosmorama: Homem feito, pallida Ermida, Infante, pela mão da ama...

Por alta noite, ás horas mortas, Quando não se ouve pio, ou voz, Fecho os meus livros, fecho as portas Para fallar comtigo a sós.

E a noite perde-se em cavaco, Na Torre d'Anto, aonde eu moro! Alli, mettido no buraco, Fumo e, a fumar, ás vezes... choro.

Chorando (penso e não o digo) Os olhos fitos neste chão, Que tu és leal, és meu amigo... Os meus amigos onde estão?

Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»... Os trez, os intimos, _Aquelles_, Estão na Morte, no extrangeiro... Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

Morreram-me uns. Por elles peço A Deus, quando está de maré: E, ás noites, quando eu adormeço, Phantasmas, vêm, pé ante pé...

Tristes, nostalgicos da cova, Entram. Sorrio-lhes e fallo... Deixam-se estar na minha alcova, Até se ouvir cantar o gallo...

Outros, por esses cinco oceanos, Por esse mundo erram, talvez... Não me escreveis, ha tantos annos! Que será feito de vocês?

Hoje, delicias do abandono! Vivo na paz, vivo no limbo: Os meus amigos são o Outomno, O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

Ah! quando for do meu enterro, Quando eu partir gelado, emfim, No meu caixão de mogno e ferro, Quero que vás ao pé de mim.

Santa mulher que me tratares, Quando em teus braços desfalleça, Caso meus olhos não cerrares, Embora! Que isto não te esqueça:

Colloca, sob a travesseira, O meu cachimbo singular E enche-o, sollicita enfermeira, Com _Gold-Fly_, para eu fumar...

Como passar a noite, amigo! No _Hotel da Cova_ sem conforto? Assim, levando-te commigo, Esquecer-me-ei de que estou morto...

Coimbra, 1889.

*Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*

Memoria A J. d'Oliveira Macedo, Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.

Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_, Quando a formoza Lua, a leiteirinha, Vae dar o leite ás cazas do Infinito...

Ás horas das _Trindades_, á noitinha, Quando ha milagres e sublimes couzas E caza o rouxinol com a andorinha...

Quando a alma das virgens religiozas, Triste se envolve n'um burel de magoa E os anjos noivam mail-as suas Rozas...

Quando o luar azula a espuma, a fragua, E o céu sem fim, a abbobada estrellada, Como que tem os olhos razos de agoa...

N'essa hora indeciza, augustiada, Em que o universo está, meio ás escuras, Que não se sabe se é antes a alvorada:

Eu pude ver, erguendo-se ás alturas, Essa radioza lagryma de pranto Que despedem, morrendo, as criaturas.

E ao vir da noite, livido de espanto, Vi uma estrella a mais no azul do céu: É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

Ás horas do crepusculo... morreu! O simples coração de Julieta Dentro da alma clara de Romeu!

Uma criação de Deus, mas incompleta: Aguia, encerrando um coração de pomba, Cedro que dava folhas de violeta!

Ah, quando vejo alguma flor que tomba Meu coração estorce-se de dor, De Deus minha alma inconsolavel zomba!

Um lyrio branco, o seu primeiro amor, Aos ventos, aos relampagos, ficou N'este Valle de Lagrymas, Senhor!

Quem lhe dera a mortalha que levou Toda coberta do cabello loiro Da mystica menina que elle amou!

Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro, Na janella que deita para o mar, Soltas ao vento as suas tranças de oiro!

Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar, Ó Lua, noiva da esverdeada fera, Deixae do céu a vossa luz tombar!

Ó aves, que trazeis a primavera, Para cobrir o solitario ninho, Ide buscar á sua campa a hera!

Ó pombas de luar, pombas de linho, Que ides tão alto, divagando errantes, Quazi mortas, perdidas no caminho:

Do vento sobre as azas triumphantes Prendei a aza e, assim, acompanhae O scismador que vos cantava d'antes!

Elle precorre victoriozo, olhae! Entre espumas de brancas andorinhas O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!

Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas, Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços E beijos com as pallidas mãozinhas...

Mas elle vae boiando nos espaços, Sendo o seu corpo uma subtil galera Com leves remos de marfim, seus braços...

Onde vae elle? a que ditoza esphera Velhinha Morte a sua alma guia?... Que vida immensa, lá no céu, o espera!

Para ganhar o pão de cada dia Cuidará da lavoira, mais das flores, Lavrando as terras da Virgem Maria!

Longe dos vis, dos maus, dos peccadores, N'uma herdade do céu, entre charruas, A cavar entre simples lavradores,

Semeando estrellas e plantando luas... E ainda o choram, que feliz desgosto! O vento passa a uivar por essas ruas...

E um oleo algente, excepcional composto, Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.

E choraes! Quem vos dera a sua sorte! Porque é que vós carpis, agoas da fonte? Não chores mais estrella azul do Norte!

Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte, E, como a juba d'um leao hirsuto, O cedro curva, em tempestade, a fronte;

Os pallidos jasmins vestem de luto... Comtudo o Morto fixa, inconsciente, O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.

Formozo, branco, meigo, sorridente, Com esses olhos que parecem soes, Vaes repoizar na cova, eternamente.

O teu genio legaste-o aos rouxinoes. E allumia-te a bocca de criança, O sorrizo dos virgens, dos heroes!

E o corpo teu na cova, essa esperança Eterna como os seculos e as flores, Entre verduras, afinal, descança...

Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores, Abrem as campas, lugubres cavernas: O coveiro é o melhor dos constructores! Covas que elle abra são cazas eternas.

Leça, 1885.

*Quando Chegar a Hora*

Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade, Oiça isto que lhe peço: Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade, Olhe: eu mesmo lh'a meço...

O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas... O cão pode lá ir: Diga ao moço, que tem a pratica das sachas, Que m'a venha elle abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados, Que toque a Alléluia! Não me diga orações, que eu não tenho peccados: A minha alma é dia!

Será meu confessor o vento, e a luz do raio A minha Extrema-Uncção! E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!) De padres farão.

Mas as aguias, um dia, em bando como astros, Virão devagarinho, E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros, Em tiras, para o ninho!

E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio, N'aquelle dia, ai! Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio, Sugae! sugae! sugae!

Raro têm de comer. A pobreza consome As aguias, coitadinhas! Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome A essas desgraçadinhas...

De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto: Não me lembrei, não vi Que tinha feito com as aguias um contrato, No dia em que nasci.

Seixo, 1886.

*Certa Velhinha*

1

Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_, Que triste velhinha que vae a passar! Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes... Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

Os ventos entoam cantigas funestas, Relampagos tingem de vermelho o Azul! Aonde irá ella, n'uma noite d'estas, Com vento da _Barra_ puxado do sul?

Aonde irá ella, pastores! boieiras! Aonde irá ella, n'uma noite assim? Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras, Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

Contava-me aquella que a tumba já cerra, Que Nossa Senhora, quando a chama alguem, Escolhe estas noites p'ra descer á Terra, Porque em noites d'estas não anda ninguem...

Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_, Que linda velhinha que vem a passar! E que olhos aquelles que parecem luzes! Quaes velas accezas que a vêm a guiar...

Que pobre capinha que leva de rastros, Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez! Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros! É o céu estrellado vestido do envez...

Seu alvo cabello, molhado das chuvas, Parece uma vinha de luar em flor... Oh cabello em cachos, como cachos de uvas! So no céu ha uvas com aquella cor...

