# Só

## Part 3

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Meu velho Pedro! meu phantasma de criança! Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança, Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre) Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro! Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro, E eternamente, para espanto de vindoiros: No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.

Mas... toca a recolher. Dou uma falta: embora! Saiamos... Manoel, vamos por ahi fóra Lavar a alma, furtar beijos, colher flores, Por esses lindos, deliciozos arredores, Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais: Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes, Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas! Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas? Santos Logares, onde jaz meu coração! Cada um é para mim uma recordação...

_Condeixa_?

Vamos ao arraial que, alli, ha. --Sol, poeira, tanta gente!--É o mesmo, vamos lá!

Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas, Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas; Arrancam-lhes do seio arfando as violetas, Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas: Que deliciosos estudantes que ellas ficam! Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam, Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo, Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo, Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados: Vêm consultar-nos, porque «somos advogados E sabemos das leis...» O que devem fazer Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas Que estraga as plantações!--Que hão-de fazer? Bebel-as! E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos... Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

_Tentugal_?

Que manhã! E não quereres vir... Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir. É logo alli: quinze kilometros, é perto. Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto, Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado! Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado! Paysagem outomnal, alegra-te tambem! Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem! Outomno, vá! melancholia, faze tregoas! Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas! Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos! Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos! Aves por folhas! Animae-os! animae-os! Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios! Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!) Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha. O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento! E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados! Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados... Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares, Uma colonia de phtysicos, a ares!... Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo: A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus... Ó choupos, até lá... Adeus! adeus! adeus!

Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas; Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas, Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa Á natureza e o sol a semear Justiça! Vão pela estrada aleijadinhos de moletas; Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas. Mas o trem voa á desfilada...--Olá! arreda! (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda...) E assim n'este galope, a charrette rodando, Já de Tentugal se vae quazi approximando: S. João do Campo já nos fica muito atraz... Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz! Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas! Emfim!

Tentugal toda a rir de cazas brancas!

A linda aldeia! Venho cá todos os mezes E contrariado vou de todas essas vezes. Venho ao convento vizitar a linda freira, Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira... Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei: Assim o pastellinho, ó ventura sonhada! Tem de recheio o coração da minha amada. Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver...--Traz?--Não!

Regresso a Coimbra só com o meu coração.

Coimbra, 1888-1889-1890.

*Para As Raparigas de Coimbra*

1

Ó choupo magro e velhinho, Corcundinha, todo aos nós: És tal qual meu avôzinho, Falta-te apenas a voz.

2

Minha capa vos acoite Que é p'ra vos agazalhar: Se por fóra é cor da noite, Por dentro é cor do luar...

3

Ó sinos de _Santa Clara_, Por quem dobraes, quem morreu? Ah, foi-se a mais linda cara Que houve debaixo do céu!

4

A sereia é muito arisca, Pescador, que estás ao sol: Não cae, tolinho, a essa isca... Só pondo uma flor no anzol!

5

A lua é a hostia branquinha, Onde está Nosso Senhor: É d'uma certa farinha Que não apanha bolor!

6

Vou a encher a bilha e trago-a Vazia como a levei! Mondego, qu'é da tua agoa? Qu'é dos prantos que eu chorei?

7

A _cabra_ da velha Torre, Meu amor, chama por mim: Quando um estudante morre, Os sinos chamam, assim.

8

--E só porque o mundo zomba Que poes luto? Importa lá! Antes te vistas de pomba... --Pombas pretas tambem ha!

9

Therezinhas! Ursulinas! Tardes de novena, adeus! Os corações ás batinas Que diriam? sabe-o Deus...

10

Teu coração é uma igreja: N'uma eça dorme, alli, Manoel, bemdito seja, Que morreu d'amor por ti.

11

Manoel no _Pio_ repoiza: Todos os dias, lá vou Ver se quer alguma coiza, Perguntar como passou.

12

Agora, são tudo amores A roda de mim, no _Caes_, E, mal se apanham doutores, Partem e não voltam mais...

13

Aos olhos da minha fronte Vinde os cantaros encher: Não ha, assim, segunda fonte Com duas bicas a correr!

14

Nossa Senhora faz meia Com linha feita de luz: O novello é a lua-cheia, As meias são p'ra Jezus.

15

Meu violão é um cortiço, Tem por abelhas os sons Que fabricam, valha-me isso, Fadinhos de mel, tão bons...

16

Ó fogueiras, ó cantigas, Saudades! recordações! Bailae, bailae, raparigas! Batei, batei, corações!

Coimbra, 1890.

*Luzitania no Bairro-Latino*

Só! Ai do Luziada, coitado, Que não tem mãe, nem tem avó, Que não ama, nem é amado... Nuzinho Outomno, no mez d'Abril! Que triste foi o seu fado! Antes fosse p'ra soldado, Antes fosse p'ro Brazil...

Menino e moço, tive uma Torre de leite, Torre sem par! Oliveiras que davam azeite, Searas que davam linho de fiar, Moinhos de velas, como latinas, Que S. Silvestre fazia andar... Formozas cabras, muito pequeninas, Loiras vaquinhas de maternas ancas Que me davam o leite de manhã, Lindo rebanho de ovelhinhas brancas; Meus bibes eram da sua lã...

Antonio era o pastor d'esse rebanho: Com ellas ia para os montes, a pastar. E tinha pouco mais ou menos seu tamanho, E o pasto d'ellas era o meu jantar... E a serra a toalha, o covilhete e a sala. Passava a noite, passava o dia Com essas boas irmãzinhas A quem só mingoava a falla Para serem perfeitas criaturinhas... E quando na Igreja das _Alvas Saudades_ Que era da minha Torre a freguezia, Batiam as _Trindades_, Com os seus olhos christianissimos olhavam-me, Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_... E as doces ovelhinhas imitavam-me.

Menino e moço, tive uma Torre de leite, Torre sem par! Oliveiras que davam azeite... Um dia, os castellos cairam do Ar!

As oliveiras seccaram, Morreram as vaccas, perdi as ovelhas, Sairam-me os ladrões, só me deixaram As velas do moinho... mas rôtas e velhas!

Que triste fado! Antes fosse aleijadinho, Antes doido, antes cego...

Ai do Luziada, coitado!

Veio da terra, mail-o seu moinho: Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego, Hoje, fazem-no andar agoas do Sena... É negra a sua farinha! Orae por elle! tende pena! Pobre Moleiro da Saudade... Ó minha Terra encantada, cheia de sol, Ó campanarios, ó luas cheias, Lavadeira que lavas o lençol, Ermidas, sinos das aldeias, Ó ceifeira que cegas cantando, Ó moleiro das estradas, Carros de bois, chiando... Flores dos campos, beiços de fadas, Poentes de Julho, poentes mineraes, Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

Ó padeirinhas a amassar o pão, Velhinhas na roca a fiar, Cabello todo em caracoes! Pescadores a pescar Com a linha cheia de anzoes! Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas, Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada! Ó boi negro entre as capas vermelhas! Ó pregões d'agoa fresca e limonada! Ó romaria do _Senhor do Viandante_! Procissões com muzica e anjinhos! Srs. Abbades d'Amarante, Com trez ninhadas de sobrinhos!

Onde estaes? onde estaes?

Ó minha capa de estudante, ás ventanias! Cidade triste agazalhada entre choupaes! Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_! Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_! Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello! Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia... Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_, Amortalhado em perrexil e trepadeiras, Onde se enroscam como espozos as lagartas! Sr. Governador a podar as rozeiras! Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas! Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

Que é feito de vós? Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_, Pelo porta-voz... Arrabalde, maritimo da França, Conta-me a historia da _Princeza Magalona_, E do _Senhor de Calais_, Mais o naufragio do vapor _Perseverança_, Cujos cadaveres ainda vejo á tona... Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras, Para os vapores a fazer signaes! Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras, Diccionario magnifico de cores! Alvas espumas, espumando a fragua, Ou rebentando, á noite, como flores! Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa, Cheias de brigues como pinhaes... Morenos mareantes, trigueiros pastores!

Onde estaes, onde estaes?

Convento d'agoas do mar, ó verde convento, Cuja Abbadessa secular é a Lua E cujo Padre-capellão é o Vento... Agoa salgada d'esses verdes poços, Que nenhum balde, por maior, escua! Ó mar jazigo de paquetes, de ossos, Que o Sul, ás vezes, arrola á praia: Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

Corpo de virgem, que ainda veste a saia... Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos! Noiva cadaver ainda com véu... Ossadas ainda com os mesmos fatos! Cabeça roxa ainda de chapéu! Pés de defunto que ainda traz sapatos! Boquinha linda que já não canta... Boccas abertas que ainda soltam ais! Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados! Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa...) Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

Onde estaes, onde estaes?

Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar, Unica flor, n'essa viv'alma de areaes! Na cal, meu nome ainda lá deve estar, Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios! Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes! Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios... Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes! Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_! Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza! Engenheiros, medindo a estrada com a fita... Agoa fresquinha d'_Amoroza_! Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_! Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_, Atracou, diz a Historia, No dia... não estou lembrado;

Ó capellinha do _Senhor d'Areia_, Onde o Senhor appareceu a uma velhinha... Algas! farrapos do vestido da sereia! Lanchas da Povoa que ides á sardinha, Poveiros, que ides para as _vinte braças_, Sol-por, entre pinhaes... Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

Onde estaes?

2

Georges! anda ver meu paiz de marinheiros, Traze o teu livro, toma as tuas notas:

Oh as lanchas dos poveiros A sairem a barra, entre ondas e gaivotas! Que extranho é! Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça, Á espera da maré, Que não tarda hi, avista-se lá fóra! E quando a onda vem, fincando-o a toda a força, Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!» E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar...) Que vista admiravel! Que lindo! que lindo! Içam a vela, quando já têm mar, Dá-lhes o vento e todas, á porfia, Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas, Rozario de velas, que o vento desfia, A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:

_S^{nra} Nagonia_!

Olha, acolá! Que linda vae com seu erro de ortographia... Quem me dera ir lá!

_Senhora Da guarda_!

(Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor) Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda O caçador!

_Senhora d'ajuda_! _Ora pro nobis_! _Calluda_! _Sêmos probes_! _S^{enr} dos ramos_! _Istrella do mar_! _Ca bamos_!

Parecem Nossa Senhora, a andar.

_S^{ra} da luz_!

Parece o pharol...

_Maim de Jesus_!

É tal qual ella, se lhe dá o sol!

_S^r dos Passos_! _Sinhora da Ora_!

Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços! Parecem ermidas caiadas por fóra...

_S^{nr} dos Navegantes_! _Senhor de Matuzinhos_!

Os mestres ainda são os mesmos d'antes: Lá vae o Bernardo da Silva do Mar, A mail-os quatro filhinhos, Vascos da Gama, que andam a ensaiar...

_Senhora aos aflitos_! _Martyr Sao Sebastiao_! _Ouvi os nossos gritos_! _Deus nos leve pla mao_! _Bamos em paz_!

Ó lanchas, Deus vos leve pela mão! Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados, O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_, E das vagas, aos rythmos cadenciados, As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes: «As armas e os barões assignalados...»

Lá sae a derradeira! Ainda agarra as que vão na dianteira... Como ella corre! com que força o vento a impelle:

_Bamos com Deus_!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle Por esse mar de Christo...

Adeus! adeus! adeus!

3

Georges! anda ver meu pàiz de romarias E procissões!

Olha essas moças, olha estas Marias! Caramba! dá-lhes beliscões! Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias, Gula e luxuria dos Maneis! Têm nas orelhas grossas arrecadas, Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis, Ao pescoço serpentes de cordões, E sobre os seios entre cruzes, como espadas, Além dos seus, mais trinta _coraçoes_! Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito, Toca a bailar! Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito, Que hão de gostar!

Tira o chapéu, silencio!

Passa a procissão.

Estralejam foguetes e morteiros. Lá vem o Pallio e pegam ao cordão Honestos e morenos cavalheiros. Altos, tão altos e enfeitados, os andores, Parecem _Torres de David_, na amplidão! Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores! Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde. Contempla! Que tristes os Nossos Senhores, Olhos leaes fitos no vago... não sei onde!

Os anjinhos! Vêm a suar: Infantes de trez annos, coitadinhos! Mãos inviziveis levam-nos de rastros, Que elles mal sabem andar...

Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros! (Assim estava, em _certo dia_, na Judeia) Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!) E aquella outra é a _Lua-Cheia_! Seus doces olhos fazem luar... Essa, acolá, leva na mão os _Dados_, Mas perde tudo se vae jogar. E esta que passa, toda de arminhos, (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)... Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_, Flor de criança que os não tem. E que bonita vae a _Esponja de Fel_! Mal ella sabe, a innocentinha... Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel: Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira! Lá vem a _Lança_! A bainha Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_... Jezus! Que maravilha de criança! O Leão morrera ainda outra vez, na cruz, Entre ladrões, a suar, lá no Calvario, Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança...

Passa o ultimo, o _Sudario_! O corpo de Jezus, Nosso Senhor...

Parece o sol-por! E a procissão passa. Maré-cheia de povo! É o Oceano Atlantico! O bom povinho de fato novo, Nas violas de arame soluça, romantico,

Fadinhos chorozos da su'alma beata.

Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro, O sol em gloria brilha olympico, e de prata, Como a velha cabeça aureolada de Deus!

Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro. Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_! _Pão de ló de Margaride_! _Agoinha fresca da Moirama_! _Vinho verde a escorrer da vide_!

Á porta d'um cazal, um tysico na cama, Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo. E uma netinha com um ramo de loireiro Enxota as moscas, do moribundo...

Dança de roda mail-as moças o coveiro.

Clama um ceguinho: «Não ha maior desgraça n'esta vida, Que ser ceguinho!» Outro, moreno, mostra uma perna partida! Mas fede tanto, coitadinho... Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira...» E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga, Labareda de cancros em fogueira, Que o sol atiça e que a gangrena apaga, Ó Georges, ve! que excepcional cravina...

Que lindos cravos para por na botoeira!

Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina! Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos! Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados! Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos! Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados, Talvez lá dentro com perfeitos corações: Todos, á uma, mugem roucas ladainhas, Tragicos, uivam «uma esmola plas alminhas Das suas obrigações!» Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho! E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar...

Qu'é dos pintores do meu paiz extranho? Onde estão elles que não vêm pintar!

Pariz, 1890-1891.

*Os Figos Pretos*

--Verdes figueiras soluçantes nos caminhos! Vós sois odiadas desde os seculos avós: Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos, Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

--Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras Deixae-o fallar! Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras, Que bom que é amar!

--O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama: Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços. No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

--Quando eu for defunta para os esqueletos, Ponde uma ao meu lado: Tristinha, chorando, darà figos pretos... De luto pezado!

--Os aldeões para evitar vosso perfume Sua respiração suspendem, ao passar... Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume, Os carpinteiros não vos querem aplainar.

--Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso Que incensa o Senhor! Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço Para o meu amor...

--As outras arvores não são vossas amigas... Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes, Com essas folhas, sois como velhas mendigas N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

--Mendigas de estrada! mendigas de estrada! E cheias de figos! Os ricos là passam e não vos dao nada, Vos daes aos mendigos...

--Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente! O goivo é mais feliz, todo amarello, lá. Ninguem te quer: tua madeira é unicamente Utilizada para as forcas, onde as ha...

--Que màs creaturas! que injustas sois todas Que injustas que sois! Serà de figueira meu leito da bodas... E os berços, depois

--Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle, Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!... Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

--Tambem era negro, de negro cegava O pranto, o rosario, Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava, Alguem, no Calvario...

--E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua, Se os figos caem de maduros, pelo chão: Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua, A chorar, a chorar sua alta traição!

--Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras Deixae-o fallar! Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras Cantar e bailar...

Coimbra, 1889.

*Febre Vermelha*

Rozas de vinho! Abri o calice avinhado! Para que em vosso seio o labio meu se atole: Beber até cair, bebedo, para o lado! Quero beber, beber até o ultimo gole!

Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o! Montanhas alagae! deixae-as trasbordar! As ondas como o oceano, ou antes como um rio Levando na corrente Ophelias de luar...

Camelias! Entreabri os labios de Eleonora! Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis! Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora! E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis...

Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas! Apagae-me esta sede estonteadora e cruel: Ó favos rubros! os meus labios são abelhas, E eu ando a construir meu cortiço de mel...

Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra! Que seja sangue o leite e rubins as opalas! Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra, Tintos da mesma cor os corações e as balas!...

Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas! N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz! Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas, Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus...

Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas. Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava! Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o Nas veias do meu corpo estragado e sem cor: Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio, O triste fado que me deu Nosso Senhor...

Scismo já farto de velar minha alma doente, Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede! Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço, Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus, Como se accaso fosse, em catapultas de aço, Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto! Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca: E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto, Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca...

Leça, 1886.

*Poentes de França*

--Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho! Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada...) Ó sol de Normandia! Occidente vermelho, Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

--Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros, Ó poentes de França! não vos amo, não!

--Ó sol, cautella! já a noite se avizinha O Padre-Oceano vae, em breve, commungar: Ó hostia vesperal de vermelha farinha, Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros, Á hora em que passam branquinhos moleiros, Levando farinha p'ra cozer o pão!

--Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante! Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras! Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante, Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

--Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza! Ó poentes de França! não vos amo, não!

--_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores! Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol! Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores! Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza Quando fecha a lojinha a Sra. Roza, Quando vem das sachas o Sr. Joao...

--Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra! Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla: Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra: Varaste os corações d'um exercito em fila!

--Ó hora em que as agoas rebentam das minas... Ó poentes de França! não vos amo, não!

--Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite! Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues! Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

--Ó hora em que passam moças e meninas Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_, Com rozas nos seios e um livro na mão...

--Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho A tua saude erguer a minha taça ardente! Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

--Eu amo os poentes, mas sem agonias, Ó poentes de França! não vos amo, não!

--Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata, A tua porta os marinheiros vão bater: Lá vejo os astros por seus calices de prata, Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber...

Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias! Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_! Ó poentes de França! não vos amo, não!

Pariz, 1891.

*Pobre Tysica*!

Quando ella passa á minha porta, Magra, livida, quazi morta, E vae até á beira-mar, Labios brancos, olhos pizados: Meu coração dobra a finados, Meu coração poe-se a chorar...

Perpassa leve como a folha, E suspirando, ás vezes, olha Para as gaivotas, para o Ar: E, assim, as suas pupillas negras Parecem duas toutinegras, Tentando as azas para voar!

Veste um habito cor de leite, Saiinha liza, sem enfeite, Boina maruja, toda luar: Por isso, mal na praia alveja, As mais suspiram com inveja: «Noiva feliz, que vaes cazar...»

Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_ Que, dentro em pouco, á fria cova A irá de vez acompanhar... O chão desnuda com cautella, Que _Boy_ conhece o estado d'ella: Quando ella tosse, poe-se a uivar!

