Part 2

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Aqui, no meio d'esta fria soledade, Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro: Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro, Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes, Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes... Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella, E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella, Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo, Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo, Olhando sempre até eu me sumir, a olhar, Que ás vezes não me fosse um carro atropelar. Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado, D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado; Oiço o relogio a dar as horas vagamente, Devagar, devagar, como os ais d'um doente... Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro, Na sala a trabalhar, á luz do candieiro, Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista, Mas que lembrava com seus olhos de ametysta, Meio cerrados, como ao sol uma janella, Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_! E andava á solta pela caza, não fugia, Que aos libres ares o cazulo preferia... Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos, Que tem o nome da mais linda flor dos campos, Que tem o nome que tiveste... Vejo-a, ainda, Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda: Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar No seu vestido rubro, uma papoila a andar... Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas, Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas... Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_, E tu encommendando a alminha que voara... Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_, As capas destraçando, ao verem-te á saccada; Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro, E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro! Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor, Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor! Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas, Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas, Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa, Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa, Mais vejo o figueiral todo cheio de figos, Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos... Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta, Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta, E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira. E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira, Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos, Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os! (Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio...) Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio, D'um lado e eu de outro...

Que abençoado refeitorio!

Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio! E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim! Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos (Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!) O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio (Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio...) Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado (Mas não sei que é, não me parece tão caiado.) A janella ainda tem o mesmo parapeito (Mas já não sou «o estudantinho de Direito».) Na sala de jantar ainda se estende a meza (Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.) Vejo o relogio na parede como outrora (Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora...) O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida (Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.) A diligencia passa, á tardinha, a tinir, (Mas já não tem os olhos teus para a seguir...) Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes (Mas não destraçam suas capas, como d'antes...) Vêm da novena ainda as moças e as donzellas (Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas...) As andorinhas ainda têm o mesmo fito (Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto...) Ainda dobra por defuntos e defuntas (Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.) Ainda lá está o figueiral com figos, (Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos...) O Ruy ainda traz a farda de soldado (Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.) As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa (Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.) O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha, (Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_) Ainda lá estão os cravos, no jardim, (Mas já não são as mesmas notas de clarim...) Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa (Mas já não acho tão branquinha a sua agoa...) A Margareth ainda é a papoila de outrora (Mas a papoila... já está uma senhora!) Ainda lá estão as papoilas em flor (Mas a velhinha já não vae de regador...) Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas (Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas...) Vive ainda o Sol, vivo eu ainda... (Mas tu morreste!) Tudo ficou, tudo passou...

Que mundo este!

Pariz, 1891.

*Os Sinos*

1

Os sinos tocam a noivado, No Ar lavado! Os sinos tocam, no Ar lavado, A noivado!

Que linda criança que assoma na rua! Que linda, a andar! Em extasi, o povo commenta que é a Lua, Que vem a andar...

Tambem, algum dia, o povo na rua, Quando eu cazar, Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua Que vae cazar...

2

E o sino toca a baptizado Que lindo fado? E o sino toca um lindo fado, A baptizado!

E banham o anjinho na agoa de neve, Para o lavar, E banham o anjinho na agoa de neve, Para o sujar.

Ó boa madrinha, que o enxugas de leve, Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais: Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve! Não soffre mais...

3

Os sinos dobram por anjinho, Coitadinho! Os sinos dobram, coitadinho... Pelo anjinho!

Que aceiada que vae p'ra cova! Olhae! olhae! Sapatinhos de sola nova, Olhae! olhae!

Ó lindos sapatos de solinha nova, Bailae! bailae! Nas eiras que rodam debaixo da cova... Bailae! bailae!

4

O sino toca p'ra novena, _Gratiae plena_, E o sino toca, _gratiae plena_, P'ra novena.

Ide, meninas, á ladainha, Ide rezar! Pensae nas almas como a minha... Ide rezar!

Se, um dia, me deres alguma filhinha, Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem: Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha, Com sua mãe...

5

E o sino chama ao Senhor-fóra, A esta hora! Os sinos clamam, a esta hora, Ao Senhor-fóra!

Accendei, vizinhos, as velas, Allumiae! Velas de cera nas janellas! Allumiae!

E luas e estrellas tambem poem velas, A allumiar! E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas, A allumiar...

6

E os sinos dobram a defuntos, Todos juntos! E os sinos dobram, todos juntos, A defuntos!

Que triste ver amortalhados! Senhor! Senhor! Que triste ver olhos fechados! Senhor! Senhor!

Que pena me fazem os amortalhados, Vestidos de preto, deitados de costas... E de olhos fechados! e de olhos fechados! E de mãos postas!

E os sinos dobram a defuntos, Dlin! dlang! dling! dlong! E os sinos dobram, todos juntos, Dlong! dlin! dling! dlong

Pariz, 1891.

*Terças-Feiras*

Ao Alberto

1

Ó condezinho de Tolstoï (Alberto) Santo de minha extrema devoção, Alma tamanha, que adorei de perto, Lá na _Thebaida_ do Sr. João.

Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto! Luar branco na minha escuridão! Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno, D'aquelle que nasceu, em terça-feira E em terça-feira morrerá, talvez...

Quando eu for morto já, noites de inverno, Aos teus filhinhos, conta-as á lareira Para eu ouvir de _lá_:

«Era uma vez...

Pariz, 1891.

2

Legenda do Santo

«Era uma vez um velho, mui velhinho, Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar! Seguia, ao por-do-sol, por um caminho, Dois saccos de Amargura a carregar.

O pobre velho, todo derreadinho, Já não podia mais, queria arreiar; Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho! Eu deito-lhe uma mão para o ajudar...»

E o fidalgo desceu do seu cavallo: Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o E aos hombros carregou com o maior!

E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado! Que linda ermida, n'esse chão sagrado, Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»

Pariz, 1891.

3

Prologo

Em hora de afflicçãô, molhei a penna Na chaga aberta d'esse corpo amado, Mas n'uma chaga a suppurar gangrena, Cheia de puz, de sangue já coalhado!

E depois, com a mão firme e serena, Compuz este missal d'um torturado: Talvez choreis, talvez vos faça pena... Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

Abri-o! Orae com devoção sincera! E, à leitura final d'uma oração, Vereis cair no solo uma chymera...

Moços do meu paiz! vereis então O que é esta Vida, o que é que vos espera... Toda uma Sexta-feira de Paixão!

Coimbra, 1889.

4

Natal d'um Poeta

Em certo reino, á esquina do planeta, Onde nasceram meus Avós, meus Paes, Ha quatro lustres, viu a luz um poeta Que melhor fôra não a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta, Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes, A falsa-fé, n'uma traição abjecta, Como os bandidos nas estradas reaes!

E, embora eu seja descendente, um ramo D'essa arvore de Heroes que, entre perigos E guerras, se esforçaram pelo ideal:

Nada me importas, Paiz! seja meu amo O Carlos ou o Zé da Th'reza... Amigos, Que desgraça nascer em Portugal!

Coimbra, 1889.

5

Ai de Mim!

Venho, torna-me velho esta lembrança! D'um enterro d'anjinho, nobre e puro: Infancia, era este o nome da criança Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro, E recebeu, segundo a velha usança, A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida, Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões, Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera Um bacharel formado em illuzões Pela Universidade da Chymera?

Boa Nova, 1887.

6

Conde

Na praia lá da Boa Nova, um dia, Edifiquei (foi esse um grande mal) Torreão de gloria, o que é a phantasia, Todo de lapis-lazzuli e coral!

N'aquellas redondezas, não havia Quem se gabasse d'um dominio egual: Oh o Torreão de gloria! parecia O territorio d'um Senhor-feudal!

Um dia, não sei quando, nem sei d'onde; Um vento secco de tortura e spleen Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado, o meu condado, sim! Porque eu já foi um poderoso Conde, N'aquella idade em que se é conde assim...

Porto, 1887.

7

Ó Virgens!

Ó virgens que passaes, ao sol-poente, Pelas estradas ermas, a cantar! Eu quero ouvir uma canção ardente Que me transporte ao meu perdido lar...

Cantae-me, n'essa voz omnipotente, O sol que tomba, aureolando o mar, A fartura da seara reluzente, O vinho, a graça, a formozura, o luar!

Cantae! cantae as limpidas cantigas! Das ruinas do meu lar desatterrae Todas aquellas illuzões antigas

Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai... Ó suaves e frescas raparigas; Adormecei-me n'essa voz... Cantae!

Porto, 1886.

8

Á Luz de Lua!

Iamos sós pela floresta amiga, Onde em perfumes o luar se evola, Olhando os céus, modesta rapariga! Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga, Meio cerrados como o olhar da rola, Eu ia lendo essa ballada antiga D'uns noivos mortos ao cingir da estola...

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha, Cobria com os seus os teus cabellos E dava-te um aspeto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga! E eu compondo estes versos, tu a lel-os, E ambos scismando na floresta amiga...

Porto, 1884.

9

Desobriga

Os meus peccados, Anjo! os meus peccados! Contar-t'os? Para que, se não têm fim... Sou santo ao pé dos outros desgraçados, Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

A ti accendo cyrios perfumados, Faço novenas, queimo-te alecrim, Quando soffro, me vejo com cuidados... Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

Que eu seja puro d'alma e pensamento! E que, em dia do grande julgamento, Minhas culpas não sejam de maior:

Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca, Um processo a correr n'essa comarca, Cujo delegado é Nosso Senhor...

Hamburgo, 1891.

10

Que Aborrecido!

Meus dias de rapaz, de adolescente, Abrem a bocca a bocejar sombrios: Deslizam vagarozos, como os rios, Succedem-se uns aos outros, egualmente.

Nunca desperto de manhã, contente. Pallido sempre com os labios frios, Oro, desfiando os meus rozarios pios... Fôra melhor dormir, eternamente!

Mas não ter eu aspirações vivazes, E não ter, como têm os mais rapazes, Olhos boiando em sol, labio vermelho!

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso: E não sei, sendo assim, emquanto moço, O que serei, então, depois de velho...

Bellos-Ares, 1889.

11

Poveiro

Poveirinhos! meus velhos pescadores! Na Agoa quizera com vocês morar: Trazer o lindo gorro de trez cores, Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!

Far-me-ia outro, que os vossos interiores De ha tantos tempos, devem já estar Calafetados pelo breu das dores, Como esses pongos em que andaes no mar!

Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos! Não seres tu, para eu o ser, poveiro, Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

No alto mar, ás trovoadas, entre gritos, Promettermos, _si o barco fôri intieiro_, _Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!

Leça, 1889.

12

O Sr. Abbade

Quando vem Junho e deixo esta cidade, Batina, _Caes_, tuberculozos céus, Vou para o Seixo, para a minha herdade: Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

Tomo o regimen do Sr. Abbade, E faço as pazes, elle o quer, com Deus. No seu direito olhar vejo a bondade, E ás capellinhas vou ver os judeus.

Que homem sem par! Ignora o que são dores! Para elle uma ramada é o pallio verde, Os cachos d'uvas são as suas flores!

Ao seu passal chama elle o mundo todo... Sr. Abbade! olhe que nada perde: Viva na paz, ahi, longe do lodo.

Coimbra, 1850.

13

Maes, Vinde Ouvir!

Longe de ti, na cella do meu quarto, Meu copo cheio de agoirentas fezes, Sinto que rezas do Outro-mundo, harto, Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

Para fallar, assim, ve tu! já farto, Para me ouvires blasphemar, ás vezes, Soffres por mim as dores crueis do parto E trazes-me no ventre nove mezes!

Nunca me houvesses dado á luz, Senhora! Nunca eu mamasse o leite aureolado Que me fez homem, magica bebida!

Fôra melhor não ter nascido, fôra, Do que andar, como eu ando, degredado Por esta Costa d'Africa da Vida...

Coimbra, 1889.

14

Sê Altivo!

Altos pinheiros septuagenarios E ainda empertigados sobre a serra! Sois os Enviados-extraordinarios, Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

A noite, sob aquelles lampadarios, Conferenciaes com elle... Ha paz? Ha guerra? E tomam notas vossos secretarios, Que o _Livro Verde_ secular encerra.

Hirtos e altos, Tayllerands dos montes! Tendes a linha, não vergaes as frontes Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

Voltaes aos homens com desdem a face... Ai oxalá! que Pan me despachasse Addido á vossa extranha legação!

Coimbra, 1888.

15

Sê de Pedra!

Não reparaste nunca? Pela aldeia, Nos fios telegraphicos da estrada, Cantam as aves, desde que o sol nada, E, á noite, se faz sol a lua cheia...

No entanto, pelo arame que as tenteia, Quanta tortura vae, n'uma ancia alada! O Ministro que joga uma cartada, Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

--Revolução!--Inutil.--Cem feridos, Setenta mortos.--Beijo-te!--Perdidos! --Emfim, feliz!--?--!--Desesperado.--Vem!

E as lindas aves, bem se importam ellas! Continuam cantando, tagarellas: Assim, Antonio! deves ser tambem.

Colonia, 1891.

16

Vae para um Convento!

Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos! Torres por terra! As arvores sem ramos! Ó meus amigos! todos nós falhamos... Nada nos resta. Somos uns perdidos.

Choremos, abracemo-nos, unidos! Que fazer? Porque não nos suicidamos? Jezus! Jezus! Resignação... Formamos No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

Troquemos o burel por esta capa! Ao longe, os sinos mysticos da Trappa Clamam por nós, convidam-nos a entrar...

Vamos semear o pão, podar as uvas, Pegae na enxada, descalçae as luvas, Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar...

Coimbra, 1889.

17

A França!

Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!) Por este mar de Gloria, em plena paz. Terras da Patria somem-se na treva, Agoas de Portugal ficam, atraz...

Onde vou eu? Meu fado onde me leva? Antonio, onde vaes tu, doido rapaz? Não sei. Mas o vapor, quando se eleva, Lembra o meu coração, na ancia em que jaz...

Ó Luzitania que te vaes á vela! Adeus! que eu parto (rezarei por ella...) Na minha _Nau Catharineta_, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro! Sobe depressa á gavea, marinheiro, E grita, França! pelo amor de Deus!...

Oceano Atlantico, 1890.

18

Tempestade!

O meu beliche é tal qual o bercinho, Onde dormi horas que não vêm mais. Dos seus embalos já estou cheiinho: Minha velha ama são os vendavaes!

Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho. O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais... Covarde! Que dirá teu Avôzinho, Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

Coragem! Considera o que has soffrido, O que soffres e o que ainda soffrerás, E ve, depois, se accaso é permittido

Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo: Ah! fôra bem melhor, vás onde vás, Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

Golpho de Biscaya, 1891.

19

Continua a Tempestade

Aqui, sobre estas aguas cor de azeite, Scismo em meu lar, na paz que lá havia: Carlota, á noite, ia ver se eu dormia E vinha, de manhã, trazer-me o leite...

Aqui, não tenho um unico deleite! Talvez... baixando, em breve, á Agoa fria, Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_, Sem uma flor, sem o menor enfeite...

Ah! podesse eu voltar á minha infancia! Lar adorado, em fumos, a distancia, Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar...

Minha velha aia! conta-me essa historia Que principiava, tenho-a na memoria, «Era uma vez...» Ah deixem-me chorar!

Canal da Mancha, 1891.

20

Vaidade, Tudo Vaidade!

Vaidade, meu amor, tudo vaidade! Ouve: quando eu, um dia, for alguem, Tuas amigas ter-te-ão amizade, (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade, Tudo vaidade! E, se pensares bem, Verás, perdoa-me esta crueldade, Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna E eu vi-me só no mar com minha escuna, E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto, Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto... E isto em mim não será uma vaidade?

Mar do Norte, 1891.

21

Paz!

E a Vida foi, e é assim, e não melhora. Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão... Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora Com uma taça, ou um punhal na mão!

Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora! Chymeras, sonhos, bolas de sabão. E a tortura do _além_ e quem lá mora! Isso é, talvez, minha unica afflicção...

Toda a dor pode suspportar-se, toda! Mesmo a da noiva morta em plena boda, Que por mortalha leva... essa que traz...

Mas uma não: é a dor do pensamento! Ai quem me dera entrar n'esse convento Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!

Pariz, 1891.

22

Epilogo

Meu coração, não batas, pára! Meu coração, vae-te deitar! A nossa dor, bem sei, é amara, A nossa dor, bem sei, é amara... Meu coração, vamos sonhar... Ao mundo vim, mas enganado. Sinto-me farto de viver: Vi o que elle era, estou massado, Vi o que elle era, estou massado... Não batas mais! vamos morrer... Bati á porta da Ventura Ninguem m'à abriu, bati em vão: Vamos a ver se a sepultura, Vamos a ver se a sepultura Nos faz o mesmo, coração! Adeus, Planeta! adeus, ó Lama! Que a ambos nós vaes digerir... Meu coração, a _Velha_ chama, Meu coração, a _Velha_ chama... Basta, por Deus! vamos dormir...

Coimbra, 1888.

*Carta a Manoel*

Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa. Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa, Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste, A cuja influencia a minha alma não reziste, Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem? Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem... E pede ao vento que não uive e gema tanto: Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto, Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias De velhas magras, galopando _Ave-Marias_, Peor que um diamante a riscar na vidraça! Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça! Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda, Tal a menina pelas vesperas da boda, Atarefada mail-a ama, a arrumar... O vento afoga o meu espirito n'um mar Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões São todos feitos de luar, recordações. Á noite, quando estou, aqui, na minha toca, O grande evocador do vento evoca, evoca Nosso verão magnifico, este anno passado, (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado, O _tic-tac_ do relogio do fogão)... Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão! Isto, tu sabes? faz vontade de chorar. E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar, Triste, ao clarão da lamparina que desmaia, Na existencia que tive este verão na praia, Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora, Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra, No barco á vela do moreno Gabriel! Vejo passar de negro, envoltas n'um burel, Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações! Phantasmas do passado! encantadas vizões! Que, embora estejam lá, no seu paiz distante, Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo! Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote... E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote, Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_! Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares! Tudo se foi...

Hoje, mais nada tenho que esta Vida claustral, bacharelatica, funesta, N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente! Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente! Bem me dizias tu, como que adivinhando O que isto para mim seria, Amigo, quando O anno passado, vim contra tua vontade Matricular-me, ahi, n'essa Universidade: «Anto não vás...» dizias tu. Eu, fraco, vim. Mas certamente, é natural, não chego ao fim. Ah quanto fôra bem melhor a formatura, Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura! Que optimas prelecções as prelecções modernas, Cheias de observação e verdades eternas, Que faz diariamente o Proff. Oceano! Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_, Manoel! faltava um anno só para acabar Meu curso de Psychologia com o Mar. Porque troquei pela Coimbra inutil, vã, Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan? Talvez... preguiça, eu sei... A _cabra_ é a cotovia: As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava. Era a distancia, o _além_, que me impressionava: Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança. Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança...) Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_ Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas: Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes, Tia Camella... só ficou a camelice.

Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice, Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra! Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra! Que extraordinarias e medievas raparigas! E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas? As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito, Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças! Manoel! tão lindas são...»

Que pena que não ouças!

Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos. Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

Olha... São os _Geraes_, no intervallo das aulas. Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes: Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes Dos navegantes do seculo XVI? Curvam a espinha, como os aulicos aos reis! E magros! tristes! de cabeça derreiada! Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada! --E os doutores?--Ahi, os tens graves, á porta. Porque te ris? Olhal-os tanto... Que te importa? Ha duas excepções: o mais, são todos um, Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum... Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora: Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro, Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro Penedo! Ó Pedro da minh'alma! meu amigo! Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo! Mal diria eu em pequenito, quando a ama Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo, Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo, Imitava-te o andar, que não era bem de homem... Eu tinha birras?--Ahi vem o lobishomem! Dizia ella.--Bate á porta! Truz! truz! truz! E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!