Part 9
Perez y Perez entregou a mulher ao diabo, digo, ao Abbade e atravessou a fronteira, dilatando os póros de todo o corpanzil para, como ventosas de tentaculos cephalopodes, absorverem quantas _pesetas_ e _perras chicas_ fosse possivel.
Caminhando por essas estradas fóra, ao terceiro dia, veiu o cansaço; vergava-se-lhe o corpo, dobravam-se-lhe os joelhos, incharam-lhe os pés, pesava-lhe a cabeça: prostrado e doente, abeirou-se da valeta e cahiu succumbido, recordando com saudade as veigas da sua terra, a familia, a vacca e os bezerros, a missa do domingo, o recorte das montanhas, as columnas de fumo que, ao toque das Trindades, se evolavam no esbatido azul dos céos, o balido das ovelhas, o piar das avesinhas, todas essas coisas—emfim—saturadas d’um sentimentalismo feroz e piegas, que tão violentamente agitavam a alma do Justininho, quando elle concebia aquelles preciosos folhetins do _Noticioso_.
N’isto, passa na estrada um almocreve com a sua enfiada de machos e, vendo o gallego n’aquelle misero estado, convida-o carinhosamente a escarranchar-se n’um dos animaes.
—_E quanto xe me dá?_
—pergunta o bruto.
* * * * *
Vossas Senhorias, n’esta estrada do Progresso, são (salvo o devido respeito) uns verdadeiros Alonsos.
Como portuguezes, que põem luminarias á janella no 1.º de dezembro e no anniversario da Carta, devem amar a sua patria; como funccionarios publicos devem interessar-se no engrandecimento d’ella; como homens do seculo XIX, que usufruem todas as vantagens e liberdades que tanto sangue custaram, n’essa sangrenta lucta do despotismo e das trevas contra a luz, devem contribuir para que aos seus filhos seja entregue intacto, pelo menos, o inestimavel patrimonio da Civilização, que herdaram dos seus Papás.
Ora, uns homens que por esse mundo de Christo, consagram toda a sua existencia no estudo dos meios, que podem elevar e engrandecer os povos, reconheceram a enorme utilidade das collecções artisticas, das bibliothecas, dos museus, de todas as instituições, onde se enthesoiram os productos do espirito humano na sua marcha evolutiva atravez dos seculos.
Esses homens dizem a Vossas Senhorias:
Pretendemos reconstruir a historia da Arte portugueza, reunindo e dispondo convenientemente, chronologicamente e por distincção de escholas, n’uma boa sala com ar e com luz, essas telas, que Vossas Senhorias por ahi inconscientemente dependuram em paredes humidas, e imbecilmente inutilizam, mandando, de quando em quando, envernizar, a brocha, pelos _Terrinhas_.
O Estado toma conta d’isso que lhe pertence; e, quando Vossas Senhorias tiverem uns amigos hespanhoes, francezes, inglezes, turcos ou moiros, que lhes perguntem, fazendo obra pelos mais aperfeiçoados diccionarios geographicos extrangeiros, se Portugal é provincia hespanhola, ou ingleza—podem leval-os ao Museu nacional, onde lhes provarão que somos livres, que temos Historia mais brilhante que a d’elles, que temos Arte, que temos Civilização, que temos alma nacional que já se expandiu pelo mundo inteiro com o genio dos grandes heroes e dos grandes artistas.
Dirão mais a Vossas Senhorias:
Se tiverem filhos que necessitem de estudar a Pintura, ou as Artes decorativas, ahi ficam á disposição d’elles todos esses productos que permaneciam dispersos, ignorados e inuteis pelas egrejas sertanejas. Ahi encontrarão, tambem, para o estudo comparativo, exemplares da eschola hespanhola, com as telas de Velasquez, de Murillo e de Ribera; ahi está a eschola flamenga com Rubens; a hollandeza com Rembrandt; a italiana com Raphael, Ticiano, Tintoreto, Miguel Angelo; podem entrar, ver, estudar minuciosamente, copiar—nada pagam.
E, apesar de todas estas incalculaveis vantagens, exclamam Vossas Senhorias:
—_e quanto xe nos dão?_
* * * * *
Vossas Senhorias teem ido, por vezes, a Lisboa.
Lembro-me, até, que muito antes que Succi fosse conhecido com os seus jejuns, já a gente por cá admirava as especialissimas propriedades da membrana mucosa do estomago do sr. Sampaio, que não segrega sómente succo gastrico, mas, tambem, succos nutritivos, como se evidenciou n’aquella viagem, em que Sua Senhoria, tendo sahido da Balagota com o cabazinho repleto de pastelinhos de bacalhau e de girimu, pitos assados, rabanadas e cornuchos, com elle intacto, depois d’uma ausencia de oito dias, na Balagota entrou.
Vossas Senhorias teem ido, por vezes, repito, a Lisboa. Conhecem tudo o que existe na capital.
Extasiaram-se perante a pujança granular do regio corcel no Terreiro do Paço; viram subir o balão que indica o meio-dia; ouviram o carrilhão de Mafra; estiveram no curro de S. Bento; admiraram o leão da Estrella e os macaquinhos do Jardim Zoologico; visitaram a esquadra ingleza no Tejo; sopesaram a _Paulo Cordeiro_; saudaram o Senhor Rei e a Senhora Rainha; viram as mulas do paço e o bicho municipal; conheceram o Rosa Araujo e o marquez de Vallada; foram a todos os theatros; mas o que—com certeza—não viram foi o Museu Nacional, e isso porque... não tiveram tempo.
Teem ido a Lisboa, por vezes; assistiram aos festejos das bodas e dos baptisados reaes, aos da chegada dos reis de tal e tal; foram, até, engrossar a pasmaceira indigena na recepção do Principe de Galles, d’esse exemplar com encadernação de luxo de John Bull—o eterno larapio das nossas colonias, o traiçoeiro Johnston dos makololos, o perfido Wellington de 1828, o astucioso Canning, o desleal alliado da nossa Politica, o insolente comedor dos nossos dinheiros, a quem todo o bom portuguez devia, respeitando as conveniencias da hospitalidade, voltar, com despreso, as costas; mas quando n’aquella capital se realisou a Exposição de Arte ornamental, que foi como o livro aberto onde se descreveu a riquissima epopea das nossas glorias artisticas, então... ficaram na Balagota e na rua Direita porque... não valia a pena!
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* * * * *
Aqui tem Vossa Excellencia, sr. Macedo, os homens que se negam a entregar-lhe os quadros e a cadeira de S. Estevão.
Segreda-se por ahi que muita coisa, reclamada pelo Governo, desapparece antes de entrar no Museu Nacional. Pena é que o Governo não denuncie os roubos, que tem encontrado quando procede ao arrolamento dos bens pertencentes ás collegiadas e congregações religiosas extinctas.
A teimosia da Junta é mais um caso porco, para engranzar no rosario das vergonhas de Valença, onde já brilham a recusa da Eschola Conde Ferreira, a eleição do sr. Serpa... do Batalhão, a Prisão da Santa, a Questão da Musica e essas curiosissimas eleições...
Mas Vossa Excellencia, sr. Macedo, resolve facilmente todas as duvidas; como ellas, em ultima analyse querem dizer:
_Quanto xe nos dão?_
Digne-se Vossa Excellencia mandar ao sr. Agostinho meia duzia de trutas leopoldicas, de S. Mamede, e obtenha Vossa Excellencia do Governo de Sua Magestade, que ao sr. Sampaio seja concedido o diploma do unico cargo rendoso, que lhe falta: o de
sineiro de S. Estevão.
XII
O Senhor Deputado
Mais uma vez manifestou o Circulo eleitoral n.º 3 a sua opinião politica e, pela acção liberrima e independente do suffragio popular, tem hoje uma cadeira em S. Bento, o sr. dr. Queiroz Ribeiro.
Nos campos do partido opposicionista lavra o descontentamento com a decisão dos eleitores; nos arraiaes, em que tremula a bandeira progressista, erguem-se os clamores da victoria e entoam-se hosannas ao novo representante do povo.
Os regeneradores negam a competencia de Sua Excellencia para tão elevado cargo, fundamentando a insufficiencia na pouca edade e escassa madureza para os negocios publicos; alguns, até, os do respeitabilissimo grupo da rua de S. João, exprimem e synthetisam todo o valor e força dos seus argumentos em tres palavras:—até faz versos!
Os progressistas exaltam a aptidão intellectual do seu correligionario; affirmam que é um rapaz que deve _dar alguma coisa_; servem-se do proprio argumento dos adversarios—os versos—, impondo-o á consideração dos eleitores; citam os seus conhecimentos sobre Direito penal, o seu enthusiasmo pela _nova_ eschola italiana, etc., etc., e rematam por asseverar que a escolha foi felicissima.
Ora eu, meus senhores, sou tambem eleitor e recenseado na freguezia de S. Maria dos Anjos; não estou filiado em partido militante da actual politica, porque sou, como os srs. José Narciso e Santa Clara: legitimista, genuinamente legitimista, por convicção e por tradição. Acceitar, n’estas condições, a faculdade do voto equivaleria a approvar e reconhecer, tacitamente, a legalidade dos poderes que nos regem e, procedendo assim, faltaria ás minhas convicções e ao respeito que tenho e devo ao meu Rei, a Sua Magestade Fidelissima o Senhor Dom Miguel de Bragança, que Deus guarde.
Estou, portanto, n’um campo perfeitamente neutral e insuspeito, ao abrigo do tumultuar das paixões partidarias, n’uma região serena de paz e livre reflexão e posso, n’estas circumstancias, dar a minha opinião sobre a escolha dos eleitores, depois da rigorosa apreciação que fiz dos argumentos apresentados pelos dois partidos.
Vou ter a honra de a apresentar a Vossas Excellencias.
Na futura Camara electiva devem reunir-se cento e tantos deputados. N’esse numero entram estrellas de primeira grandeza na constellação brilhantissima da nossa politica. Ha talentos de raça; espiritos previlegiados, que honram e ennobrecem o paiz; ha oradores fluentissimos como os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre; ha polemistas de irresistivel logica de argumentação, como os srs. Ferreira d’Almeida; ha celebridades em todos os ramos das sciencias e da publica administração.
Pois, meus senhores, com verdade lhes digo, que é a seguinte a minha convicção:—entre todos esses homens, entre todas as individualidades aptas no nosso paiz para as funcções da representação popular, ninguem—absolutamente ninguem—nos poderia satisfazer tanto, comprehender as nossas ideias, adaptar-se melhor á nossa politica, interpretando-a e assimilando-a nas suas aspirações—como Sua Excellencia o sr. Dr. Queiroz Ribeiro.
—Ora essa! (ouço eu bradar aos meus amigos, os srs. Joaquim e Abilio, os mais fogosos caudilhos da politica regeneradora), fará o favor de provar.
A isso vou, meus senhores, e com argumentos leaes, solidos, porque os sustento com a irrefutavel demonstração, que vou estabelecer dentro do campo positivo das sciencias abstractas: a logica e a mathematica.
Vejamos, meus senhores, o que é a Politica em Valença? O que foi, o que é, d’onde vem e para onde vae? Como se poderá e deverá classificar n’uma terra em que, se a gente vae á estação do caminho de ferro assistir á recepção do sr. Marianno de Carvalho, ou do sr. Barjona, ou do sr. Lopo Vaz, ou do sr. José Dias Ferreira, ou do sr. Rodrigues de Freitas, ou do sr. Consiglieri Pedroso, vê sempre na gare—além dos _engajadores_ dos hoteis e do sr. Capellão[36]—as mesmas caras, as mesmas casacas e as mesmas cartolas, que, depois, vão acompanhar Suas Excellencias até Cerveira, com ruidosas e enthusiasticas demonstrações de adhesão e fidelidade partidarias?
O que poderemos julgar da Politica d’um concelho em que a padralhada, com o seu rebanho de carneiros votantes, vae, submissa, para onde a toca a aguilhada da Administração, sem consciencia, nem orientação, nem ideal politico?
N’uma terra, em que os mais importantes caudilhos teem, na opinião, a variabilidade constante do catavento de Santo Estevão e em que ha potestades eleitoraes que, vistas de Coura, são regeneradoras, vistas de Valença são progressistas e não são barjonaceas e republicanas, porque ninguem as examinou ainda de Gandra ou de S. Pedro da Torre?
Estudemos os chefes, senhores, que devem representar as tradições, a opinião, a respeitabilidade dos partidos. Temos d’um lado—o progressista—o Sr. Dr. Ladislau; temos do outro—o regenerador—o Sr. Dr. Pestana.[37]
O Sr. Dr. Ladislau sahiu, approximadamente ha seis annos, dos bancos da Universidade e filiou-se, franca e desassombradamente, no partido do sr. José Dias Ferreira; hoje obedece ao sr. José Luciano, isto é, duas opiniões diversas, oppostas, heterogeneas, como as que separaram e dividiram os guelfos dos gibelinos, os armagnacs dos borguinhões, os jacobinos dos girondinos, os da rosa branca dos da rosa vermelha, os malhados dos realistas.
Ora, consultando os trabalhos estatisticos dos mais eminentes socialistas, sobre a longevidade da vida humana, observamos que a media actual é de sessenta annos. (Deus n’este caso a prolongue e livre o Sr. Doutor de dyspepsias hermogenicas, que tão prejudiciaes são á juventude...)
Se quizermos, pois, avaliar rigorosamente a capacidade opinativa de Sua Excellencia, nada mais teremos do que estabelecer uma proporção, admittindo a hypothese mais favoravel—que em egual espaço de tempo não augmentará a volubilidade. Representando, pois, por _a_ os seis annos decorridos e os trinta que a Sua Excellencia faltam, por _op_ as opiniões conhecidas e por _x_ as desconhecidas, teremos:
6 a : 2 op :: 30 a : x.
Operando, encontramos:
x = 10 op.
Reunindo as opiniões conhecidas, temos
x = 12
quer dizer: teremos de pedir, por emprestimo, alguns partidos á Hespanha, porque cá não os ha para tanta opinião; e, aos sessenta annos, o Sr. Dr. Ladislau attingirá um grau de _saturação_ partidaria muito superior á que hoje possue o Sr. Agostinho, que é a coisa mais perfeita e acabada em Politica, que terras de Valença teem produzido.
Agora, o sr. dr. Pestana...
Eu desejava fazer identica demonstração com referencia a Sua Excellencia, e tenho, para isso, elementos e factores ordenados; mas são d’uma tal complexidade e obrigam a operações algebricas tão complicadas, que me abstenho de aqui as reproduzir, limitando-mo a dar conhecimento a Vossa Excellencia do resultado obtido.
Para o sr. dr. Ladislau tivemos: x = 10.
Com o Sr. Dr. Pestana chegamos a: x = ∞ isto é, x = infinito. E como o infinito existe muito para lá dos limites, a que a intelligencia humana póde levar a analyse, está prejudicado o raciocinio.
Temos, pois, n’estas condições, os dois chefes politicos da nossa terra e ha vinte e cinco annos, em que aqui resido, os sub-chefes, as potestades, os abbades e as patrulhas seguem exactamente o mesmo systema.
Os que hontem eram regeneradores, são hoje progressistas, serão ámanhã barjonaceos e no dia seguinte socialistas. No mundo politico somos cosmopolitas, e Valença é para o paiz, o que a casa do Sr. Agostinho é para Valença—um perfeito _caravanserail_!
Synthetisando, eu repito a pergunta, que deu logar a estas considerações, com que desejo fundamentar a minha demonstração:
Como se deve classificar a nossa Politica?
Politica voluvel, incolôr, de... contradança!
Repito:
de _contradança_.
Ora aqui está, justamente, o ponto de reunião entre ella e a individualidade do nosso deputado. Aqui está, onde uma e outra se coadunam, se consubstanciam, se identificam.
Em Politica somos dançarinos. Pois para representar dançarinos e para comprehender as suas aspirações, como o Justino Soares, ou os srs. Roldão e dr. João Cabral se não habilitam a um circulo, claro é que se devia escolher um estranho, versado e perito nos segredos da arte de Terpsichore. E, para satisfazer cabalmente a estas condições (creio que os srs. Joaquim e Abilio se não atreverão a refutar esta minha proposição) ninguem—absolutamente ninguem—se encontraria mais habilitado, do que o nosso actual representante.
Isto não é uma asserção gratuita. A vizinha villa de Cerveira a confirmará, quando se torne necessario.
Porque é que o sr. Visconde da Torre não _provou bem_, como deputado? Porque nunca poderia representar dignamente Valença, com o seu volumoso abdomen, com a abundancia do seu tecido adiposo, com o pouco desempeno dos seus movimentos, com a pouca elegancia (perdoe Sua Excellencia) da sua _linha_. Dançava pouco e mal. Era, mesmo, detestavel a sua posição quando, pela complicadissima tactica das danças, era obrigado a fazer um _en avant_. Não tinha _ropia_ nem _salero_, nem _entrain_.
Mas o nosso actual representante...
Que saudosas recordações não originarão estes periodos ás tricanas e sopeiras de Villa Nova—a chiquita!
Que dulcissimas reminiscencias não entristecerão, por momentos, aquelles formosissimos rostos da terra das solhas!
Que pranto amargo e copioso não verterá a estas horas o bom e fiel Maldonado, socio commandita nos bailes do sopeirame!
A Meca, a terna e legendaria Meca, com que acerbo pungir, não enxugará das mimosas e assetinadas faces as perolas crystallinas, como as do rocio matutino, que a lembrança de Sua Excellencia, a cada momento lhe faz brotar das glandulas lacrimaes!
Redomoinhar vertiginoso das valsas; suave enleio de pequeninas cinturas; exhalações dulcissimas; doces fragrancias de solha e azeite, bacalhau e alho, das formosas tricanas; noites de amor e de phantasia em que vós, encantadoras filhas da—_Chiquita_—vos deliciaveis com os _papos d’anjo_ de Caminha e as _roscas_ da Galliza; noites inolvidaveis de luar, em que os vossos castos seios se alvoroçavam com desconhecidas sensações, quando Sua Excellencia, sob as janellas, acompanhado ao violão pelo fiel Maldonado e pela artistica cohorte dos Figaros, soltava ás brisas, com voz maguada e terna, as melancholicas trovas do:
Gondoleiro, a noite é bella!
Recordações saudosas, miragens gratas e fugitivas... adeus!
Tudo se sumiu na voragem da urna eleitoral!
* * * * *
Eleitores do concelho de Valença!
Nos annaes da benemerita Sociedade Artistica, _Harmonia e Recreio Cerveirense_, registra-se, como um periodo aureo de engrandecimento e prosperidade, a epocha em que o nosso Deputado honrou, frequentando, os salões da Associação.
A arte de Terpsichore obteve consideravel impulso e desenvolvimento. Á voz auctorizada de Sua Excellencia, transformaram-se os _Lanceiros_, floreou-se a _Franceza_ e surgiu, vaporosa e louçã, a moderna valsa _a dous tempos_. Abandonaram-se marcas velhas e rançosas, substituiudo-se por elegantes _couronnes de dames_ e graciosos _moulinets de chevaliers_.
Foi, pois, profundamente civilizadora a influencia que Sua Excellencia exerceu nas classes medianamente abastadas:—sopeiras e tricanas—, porque lhes incutiu os germens d’uma larga intuição artistica e senso esthetico, já com as brilhantes manifestações da arte de Terpsichore, já com mimosas producções musicaes, com que Sua Excellencia as deliciava, acompanhado pelo fiel Maldonado e—em occasiões solemnes—pela brilhantissima cohorte dos Figaros cerveirenses.
Quem, pois, se atreverá a dizer, quem ousará ahi, dos arraiaes da opposição, affirmar que não foi acertada e felicissima a escolha?
Concluo a demonstração, srs. Lucas e Abilio. Pódem Vossas Excellencias refutal-a?
Eleitores do concelho de Valença! Damas e cavalheiros do Club e da Assemblea! Ditas e ditos do Gremio artistico; tricanagem, technicaphilas e paradas-velhas dos bailes do Theatro, eu—Zinão—vos felicito!
E vós, vizionarios, descrentes, que por ahi apregoaes a incompetencia do sr. Deputado, em breve,—eu vol-o affirmo—se dissiparão as vossas duvidas e os vossos applausos hão-de juntar-se, fervorosos e delirantes ás acclamações enthusiasticas da grei progressista quando, no proximo carnaval, assistirdes, nos bailes do Theatro, á verdadeira consagração, á apotheose do nosso Deputado, vendo-o, como _par marcante_, offuscar a fama, até hoje immaculada, dos srs. Trincheiras e Zé do Caes, gritando _ás multidões_, radiante e enthusiasmado, em francez adoptado nos nossos tricanés:
_An ivant! Chevaliers_ dão as mãos e _les Dames ó miliú_.
* * * * *
Ah Esteves! Ah Caetano!
Que futuro brilhante e glorioso não está reservado para os vossos violões!
Emquanto a nós:
_vá de redrò_, Senhor Doutor!
XIII
Carta ao Zé Senso
TERRAS DA PARVALHEIRA
=Burgo de Paysandu.= Terça-feira, 17 de Dezembro de 1887.
Meu Zé.
Recebeu-se, hontem á noite, o 2.º fasciculo dos _Sinapismos_.
Não sei ainda como te conte o que se passou. Ha onze horas que estou de cama, a caldos de gallinha e copinhos de geleia.
O Dr. Pacheco só me deixa chuchar uma azinha de pito, de seis em seis horas, tal é o estado de fraqueza e abatimento em que me deixaram as violentas commoções, que hontem agitaram este pobre corpo.
Vou coordenar as ideas para te descrever o caso mais extraordinario, que fastos de Valença podem mencionar ás gerações vindoiras.
Tu sabes o que é o indigena sem illustração: corpo amanhado com borras de nababo, betume de Prudhomme, com leucocytos de Tartufo e cellulas philosophicas de Sganarello; alma ingenua, pura, immaculada, feita de arminho, gesso cré, grude de sapateiro e saliva de Zé Povo; no todo, uma mescla de tanso, de rufião e de sacripanta.
Sabendo isto, certamente não te admirarás do que vaes lêr.
Quando hontem á noite, já em ceroilas, punha o barretinho de dormir, ouvi na rua um enorme barulho: tropel desusado, gritos, rodar de carretas, patadas de mula, tiros, etc.
Como estava em fralda, disse ao Zéca que fosse á janella vêr o que era, e na minha mente surgiu a idea de que teriamos uma invasão ingleza por causa dos makololos.
—_São os mokololos? perguntei ao menino._
—_Não sei, Papá. São muitos homens que passam correndo; uns com espadas, outros com chuços, outros com chicotes, rewolvers, punhaes, facalhões e espetos, gritando:_
_mata! mata!_
_Vão todos com o sim-senhor á mostra e levam nas nadegas duas manchas vermelhas, como ficam nas pernas, quando o Papá me deita sinapismos. Atraz d’elles vem um diabo vestido de amarello, que traz na mão esquerda umas disciplinas de coiro, com que os fustiga, e na direita um ferro em braza._
* * * * *
Calcei á pressa as piugas e approximei-me da janella para presenciar tão inesperado acontecimento. Com o ruido que fiz, abrindo-a, a multidão parou subitamente. Todas as cabeças se ergueram, todos os punhos se levantaram, fechados com crispações nervosas; abriram-se mil boccas, onde rangiam sinistramente os dentes; insultaram-me; chamaram-me _porco_ e _chulo_; berravam que me haviam de matar, de _escuchinar_, de virar de dentro para fóra, de arrancar as barbas, as orelhas e mais _isto_ e mais _aquillo_.
Reparei que aquella medonha e terrivel multidão se dividia em tres grupos distinctos.
O primeiro era composto de maltrapilhos com feitio afadistado, que uma collareja porca e abandalhada, a quem ouvi chamar D. Politica, segurava pelos cabrestos. Zurzia n’elles, com uma aguilhada de ponta d’oiro, El-Rei buffo, D. Milhão.
O segundo era formado por _patetinhas_, d’estes infelizes, que nos hospitaes de alienados são conhecidos por _doidos mansos_.
Guinchavam, mostravam papelinhos, davam saltinhos, faziam esgares burlescos, descobrindo os dentes sujos. Tinha conta n’elles, dando-lhes, de quando em quando, um pontapé, outra mulher em desalinho e que parecia soffrer de grande myopia. Conheci D. Idiotice.
No terceiro, então, misturaram-se fedelhos e cães; d’estes _tótós_ pequeninos de pello branco e encaracolado, muito nojentos e muito libidinosos, que mostram sempre a linguinha quando veem as amas, que trazem os focinhos molhados com um liquido que lembra, pelo cheiro, a cal e o peixe da Noruega, e que por ahi chamam, _fraldiqueiros_. Ladravam, davam ao rabinho, levantavam-se sobre as patinhas de traz, agitando para cima e para baixo a linguinha, d’onde escorria um fio de baba mal cheirante.
Aquella multidão saturava a atmosphera de aromas insupportaveis; distinguiam-se os do bafio, do arroto dyspeptico; este cheiro particular do azebre, do mofo, da catinga, de pé gallego, de coisas lippicas e rançosas, que tresandam a raposinho e a chulé.
No ruido ensurdecedor de tanto grito e de tanta explosão de colera, apenas se percebiam estas palavras:
Mata! Mata o Zinão!
* * * * *