Part 8
O sr. Abilio, nos paroxysmos de um enorme enthusiasmo, apparecia de gravata branca, casaca, no pé direito uma bota de polimento, no esquerdo um chinelo de liga, representando a Associação Artistica!
E no meio de todo este contentamento, nas expansões de todo este delirio, um unico nome soava, tangido constantemente pelo enthusiasmo popular, nas praças, nas ruas, nas lojas, nos clubs,—nome que parecia ser o fóco convergente para todas aquellas ruidosas manifestações, nome que n’esse dia tinha mais prestigio que o da Senhora do Faro, nome aureolado, nome querido de—Elyseu de Serpa!
Victoriava-se Elyseu de Serpa Discursava-se sobre Elyseu de Serpa Telegraphava-se a Elyseu de Serpa Rezava-se a Elyseu de Serpa
e Clero, Nobreza e Povo, fraternizando, hombreando, felicitando-se, davam largas á plenitude da sua gratidão a Elyseu de Serpa.
Jurava-se aos deuses, pela nossa consciencia, assim dardos de Jupiter nos partissem, se durante a nossa existencia, embora ella attingisse a longevidade de um Mathusalem, que viveu, segundo diz a Biblia, 900 annos (o que eu acredito) outro homem se sentasse nas cadeiras de S. Bento com o nosso mandato, porque Valença tinha contrahido com elle uma divida sagrada, immorredoira, imperecivel, immensa, de profunda, eterna e vivissima gratidão.
E se alguem, mais pratico em coisas do mundo se atrevesse a revelar pouca confiança na estabilidade d’aquelles fervorosos protestos, recordando que já lá vae o tempo dos Eros, dos Scevolas, dos Martins de Freitas, dos Egas, etc.,—oh Christos de Villar!—corria grave risco de ser lançado aos fossos, empalado no pau da bandeira, ou esquartejado pelo primeiro magarefe, que por ahi apparecesse, em ociosa disponibilidade.
Pois, meus senhores, ahi vae a Moral do conto mais um tento para a marca preta e um documento para a nossa historia politica. Poucos mezes depois, mettia o sr. dr. Lopes o seu nariz na Administração do Concelho e aquelle grande vulto (não o do nariz) absorvia, completamente, todos os enthusiasmos que descrevi!
A urna entrou mais uma vez no templo, para servir de leito nas sensuaes orgias do voto com a immoralidade e o sr. Elyseu de Serpa, o mesmo, em carne e osso, a que me referi—obtinha em todas as assembleas eleitoraes do nosso concelho:—cinco votos!
Ora, um povo que denuncia tão vehemente firmeza de convicções e de sentimentos, está—digam lá o que disserem—reservado para grandes destinos.
Abençoado torrão este, da Patria minha!
* * * * *
Com os argumentos irrefutaveis, que os factos nos fornecem, estudamos até aqui a politica de Valença nas suas espheras mais elevadas, isto é, na villa e entre as camadas illustradas; e, indubitavelmente, não existe no nosso espirito outro sentimento, que não seja o baseado em tristissimo desalento...
Vejamos agora, em breves palavras, antes das considerações geraes, o que o povo imagina e sabe de toda esta engrenagem que lhe rouba os filhos, dinheiro e... os votos.
Ha annos, Ramos Paz, que aqui dignamente exerceu as funcções de Sub-Inspector de Instrucção, presidia a uma conferencia pedagogica nos Paços do Concelho. Extranhando as theorias apresentadas por um professor, sob a intervenção da auctoridade administrativa na legislação municipal, relativa ao professorado, perguntou alizando aquellas grandes barbas á D. João de Castro:
—Então quem nomeia os professores?
—O Sr. Administrador—respondeu o homem.
—Ora essa! Então as Camaras?
—As Camaras são tambem nomeadas pelo sr. Administrador—confirmou ainda, com a má interpretação que dera á pergunta.
Meditemos, senhores.
De feito; na ignorancia d’aquelle pedagogo havia uma grande verdade, que nós, rigorosamente, não podemos refutar.
Luiz XI disse uma vez ao Parlamento, levantando o chicote:
—_L’etat c’est moi!_
Rodrigues Sampaio, não ha ainda muito tempo, que bradava ao paiz:
«O unico poder que entre nós existe é o Rei!»
Nós poderemos plagiar Luiz XI, Rodrigues Sampaio e o pedagogo, asseverando:
N’este concelho de Valença ha só uma força, uma vontade, um poder:—o Senhor Administrador[33]—quer o represente a taciturnidade esphingica do sr. Dr. Lopes, ou a gulliverica estatura do sr. Dr. Ladislau, ou a inoffensiva bandido-mania do sr. Dr. Malheiro, ou a feroz iconoclastia do sr. Dr. Cabral, ou... a paz d’alma e de corpo do sr. Dr. Brandão-Malheiro-Lopes da Cunha-Cabral!
Abençoado torrão este, da Patria minha!
* * * * *
Historiamos até aqui. Philosophemos agora, porque a Historia sem a Philosophia pouco vale e não póde servir, como disse Michelet, para guia do futuro.
É evidente que não temos organização pulmonar, que desafogadamente possa funccionar na atmosphera das nossas liberdades civis.
É evidente que, seja qual fôr o proceder da auctoridade administrativa, só ella póde, quer e manda; e que, no campo a que hoje Vossas Excellencias são chamados—as eleições—, ella exerce para qualquer opposição o mesmo terrifico effeito que, em dilatado feijoal, produz para os pardaes e pardocas, o espantalho armado com dous rabos de vassoira em cruz, cartola velha no vertice e casacão enfiado nos braços, com as mangas pendentes e á mercê do vento.
E, evidenciado isto, para que precisamos nós de deputados, seja qual fôr a chancella que tragam? Que temos nós com o que vae por esse paiz, com o nariz do sr. Beirão, com a marreca do sr. Hintze, com a somnolencia do sr. Henrique de Macedo, ou com os chouriços do sr. José Luciano?
Que necessidade temos nós de fazer perder a gravidade aos Ministros, pondo-os aos saltinhos de contentes, quando o sr. Zagallo, com os seus Mentores e correligionarios lhes officiam, annunciando que... deliberaram apoiar a marcha do Governo—ou que diabo lucramos com a mudança de ceroilas, a que os obrigamos, enviando uma representação dos tres mil negociantes da terra[34] contra a Companhia vinicola, communicando, pelo telegrapho, que estão fechadas as quitandas de Valença e que vate Aurelio Victor Hugo fala ás massas, em imponente e assaz concorrida reunião politica?
Senhores! Por Deus, simplifiquemos tudo isto; todas estas inuteis formalidades, que são proprias para terras civilizadas. Fazem perder tempo, e tempo é dinheiro, como diz o bretão.
Qual é, em ultima analyse, o regimen em que vivemos? O feudal.
Adaptemo-nos, pois, ao que elle nos estabelece e concede. Ahi vae um alvitre:
Sabem Vossas Excellencias o que eram as antigas _behetrias_ da epocha medieva: povoações que tinham o direito de escolher o senhor, que viviam independentes e de portas cerradas, até, aos senhores estranhos. Aqui estava um modelo, mas lá vae outro, talvez preferivel.
Na vertente meridional dos Pyrineus ha uma amostra de estados autonomos—a republica de Andorra.
Tem approximadamente, sem escandalosa differença, a população d’este Concelho. Tem legislação civil, militar e religiosa. Tem Governo civil e militar; Alfandega, Repartições de Fazenda; Camara; Junta de Parochia; o seu Cordão sanitario de quando em quando; lazareto com respectivas rações; reforma de matrizes; irmandades e confrarias; isto é, nicho para todos os pretendentes.
Ora aqui está o que nos serve. É uma organização baratinha e fica em casa.
Proclamemos hoje mesmo a nossa independencia! Behetriemo-nos! Andorriemo-nos! Entregue-se o poder a um só homem, que se denomine Rei, Imperador, Presidente, Syndico, Regulo, Papa, Bispo, Soba ou Cabinda!
Precisamos, verdade é, d’uma auctoridade, para regular as nossas questões e moderar as nossas exigencias.
É necessario que, quando alguem se lembrar de dizer, que as aguas da fonte de S. Sebastião pertencem á Camara, haja quem garanta as reclamações justissimas com que o sr. Joaquim prova á evidencia que são suas, muito suas, embora não se recorde da gaveta onde conserva as provas, o que póde succeder a toda a gente; quando a vizinhança do sr. C. Dias, incluindo a Excellentissima Camara, continue a esticar a guita dos limites das suas propriedades, avançando sobre a que aquelle bom e innocente amigo possue no Caes, haja quem faça respeitar os seus direitos e impedir, que nas terras da Saibreira se não possa continuar a observar o extraordinario effeito da dilatabilidade da Materia sob a acção dos raios solares, phenomeno alli tão evidente e precioso para o estudo das revoluções geologicas do globo; quando o sr. Agostinho se lembrar de mandar vir do extrangeiro casas feitas para os seus terrenos, haja quem lhe apresente esse doirado codigo, que é o palladio das nossas liberdades civis—o regulamento do Senhor Conde de Lippe dado ás gentes em 1700 e tantos.
É preciso, emfim, um braço e uma cabeça.
E quem devemos escolher?
Quando me lembro que estou n’uma terra que não quiz o legado do Conde de Ferreira; n’uma terra em que, se a gente tiver um nariz, como os dos srs. Cunha ou Ladislau, e se collocar em noite de eclypse, sobre o telhado da sua casa, para espreitar a lua, ou escutar a harmonia das espheras, vem logo o estalão do Conde de Lippe verificar, se dos cabellinhos da venta á soleira da porta existe, realmente, maior distancia de que 4 metros, 5 decimetros e 6 millimetros e meio do regulamento;—eu, meus senhores, para o poder supremo da nova organização politica que proponho, só me lembro de dois homens, que tenho a honra de apresentar á vossa apreciação e para os quaes, desde já, peço o vosso suffragio, porque estou plenamente convencido de que hão-de satisfazer ás exigencias e aos deveres da actividade, firmeza de convicções e orientação politica, que a vossa orientação politica, a vossa firmeza de convicções e a vossa actividade lhes impoem.
Eil-os:
O Fileiras,
ou o
Cachimbo dos melros.
Em 20 de outubro de 1889. Dia da eleição de deputados.
X
Violetas
As imagens até aqui reflectidas no foco da minha lente ficam delevelmente estereotypadas n’essas paginas, porque é indeciso o traço, debil o colorido, irregular o contorno e imperfeitissimo o relevo.
Falta ahi a luz indispensavel á nitida percepção de todas as minucias das individualidades sociaes, que a minha critica envolve, porque não é dado a espiritos vulgares o emittil-a.
Encontro na expressão escripta as difficuldades caracteristicas d’essa lesão cerebral, que os physiologistas incluem na classe das _aphasias motoras_, sob o nome de _agraphia_; e, se até aqui deplorei as consequencias d’essa lesão, que se oppõe á reproducção fiel das minhas impressões sobre a sociedade em que vivo, sincero é o meu pesar, reconhecendo-me incapaz de avivar a imagem d’um vulto, que já desappareceu sob a loisa dos tumulos, mas que deixou luminoso rasto de bondade e de honradez nas sombrias atmospheras onde, implacavel e feroz, se trava a eterna lucta pela existencia.
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Schopenhauer filia-se n’essa eschola philosophica, que poderemos denominar _pessimista_, em que sarcasticamente se dissecam as fibras do coração humano, negando-se-lhe sentimentos affectivos e a possibilidade de alimentar aspirações puras e nobres.
Na fria analyse, que o philosopho allemão nos apresenta do homem na sociedade e na familia, resaltam os exaggeros d’um espirito sombrio, em que poderosamente influiram a acção morbida de temperamento e a acção do _meio_: mas ha tambem nas suas paginas grandes verdades que nós, dissipada a má impressão originada na rudeza da phrase, intimamente não podemos refutar.
«_O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada. Encontram-se n’elle cavalleiros, frades, soldados, doutores, advogados, padres, philosophos, que mais sei eu? Mas não são o que representam ser; são simples mascaras, debaixo das quaes se occultam, a maior parte das vezes, especuladores de dinheiro._
_Um toma, assim, a mascara da justiça para melhor ferir o seu semelhante; outro, com o mesmo fim, escolheu a mascara do bem publico e do patriotismo; um terceiro a da religião, da fé immaculada._
_Para toda a especie de fins secretos, mais de um se occultou sob a mascara da philosophia, como tambem sob a da philanthropia. Ha tambem mascaras vulgares, sem caracter especial, como os dominós nos bailes, e que se encontram por toda a parte; estes representam a rigida honestidade; a polidez; a sympathia sincera e a amizade fingida._»
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Ora, observando a nossa actual sociedade, n’esta epocha de egoismo, de ambições, de illegalidades, com que por ahi se conspurcam e desprestigiam as mais nobres instituições,—n’esta epocha de Wilsons, de Hersents, de bonds e de processos _da fava_—poderemos, com intima convicção, acoimar de exaggeradas essas linhas do pensador allemão?
A consideração social chatina-se vilmente nas Bolsas, onde se expõe á venda com as inscripções de tres por cento. Os titulos do governo teem, como _bonus_, uma certa maquia de respeito publico; por consequencia, o valor d’este está na razão directa da quantidade total, que cada um possue dos outros.
Quem tiver duzentos contos, póde ser um larapio e um canalha; mas, com certeza, é um homem de consideração.
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Antonio da Silva, aquelle carpinteirito da Esplanada, ganhava dezoito vintens por dia; sustentava mulher e tres filhos.
Adoeceu: contrahiu dividas no mercieiro, na botica e na padaria; deixou de pagar ao senhorio; pôz no _prego_, a pataco por corôa ao mez, o relogio de prata, os brincos da mulher, os cobertores do inverno e a ferramenta.
Esteve dois mezes de cama.
Voltou fraco e abatido para o trabalho. Tentou desempenhar-se. Fazia serões. Não poude pagar uma divida.
Os credores perseguiam-no.
As mulheres e os filhos não tinham roupa; tiritavam e... choravam.
Um crédor requereu a penhora; levaram-lhe a cama.
Na alma d’aquelle homem havia um inferno porque era honrado—o pateta!—e era doido pela familia.
Um dia, collou a massa encephalica nas paredes da latrina com a balla do rewolver.
—Um criminoso—disse o abbade.
—Um caloteiro—disseram os do pataco por mez.
—Um pobre diabo—responsaram as almas piedosas.
—Um pateta de menos—resmungou a sociedade.
A Santa Madre Egreja, toda Caridade e Amôr, recusou-lhe o latim da padralhada—esse latim tão sonoro, tão vibrante, tão repenicado, quando responsa o negreiro e o ladrão de gravata, que deixaram quarenta moedas, para missas de pinto a duzia.
Foi enterrado no fosso, ao lado d’uma pileca do Guilherme; como responso, teve uma enfiada de pragas dos coveiros, porque estava realmente muito frio e ainda não tinham _matado o bicho_.
—_Oh estupor—disse o Coruja—podias arrebentar a pinha no verão. Não tinhas agora tanto frio!_
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Á mesma hora, Henrique de tal, Conde de Burnay, mandava _photographar_ os bonds do sr. Hersent e mais de trezentas carruagens com fidalgos, bispos, padres, conegos e escorropicha-galhetas varios, acompanharam até aos Prazeres o cadaver d’um beneficiado na _falcatrua hersentica_, portuguez abrazileirado, que mantinha relações illicitas com a irmã—o que era publico e notorio na freguezia, alli para os lados de Penafiel—e que, n’uma terrifica visualidade do inferno, apartára trezentos mil reis, adquiridos n’esse infamissimo trafico de carne humana, para missas cantadas e por cantar.
Viremos folha...
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—Mas, Senhor Zinão,—diz Vossa Excellencia—isso é velho, é sediço, é estafado e massador...
—Esta jeremiada veia a lume, meu Senhor, porque no meio da _reles pataqueirice_ da nossa actual sociedade onde pullulam os Iagos, os Tartufos, os Pausanias, os Wilsons, os Tamandarés—toda essa corja de falsarios, de perjuros e de traidores, que Dante implacavelmente esfarrapa e esphacela com as torturas do nono circulo—a gente póde soltar uma exclamação de surpreza tão ruidosa e tão violenta, como aquella trombetada de Rolando na batalha de Roncesvalles, quando encontra um homem, caminhando sempre, sem tergiversar, no caminho da Honra e da Dignidade.
Consagro estas linhas á memoria d’um valenciano, que não deixou fortuna nem filhos governadores civis, ou deputados, que possam premiar esta homenagem com um naco do orçamento, como é da praxe pedir e conceder.
Não me conhece a familia que elle deixou; e não é, portanto, o vil interesse, ou a lisonja porca, ou a torpissima adulação, que actuam na minha penna, obrigando-a a vergar-se, a perder a inflexibilidade com que, até aqui, tem fustigado muita importancia ridicula e chata.
Ninguem, no concelho de Valença, até hoje adquiriu maior estima e maior consideração do que esse homem.
Ninguem, como elle, poderia, mais proveitosamente, especular com o affectuoso prestigio, que o seu nome alcançou por essas freguezias.
Era, porém, nobilissimo o seu caracter para que lhe permittisse manchar o nome n’esse bordel de pantomineiros e de histriões que por ahi especulam com a ignorancia do aldeão, fazendo do voto degrau para chegarem á mesa do orçamento e poderem roer as codeas babadas, que os Gargantuas politicos abandonam, ou lamber os productos do vomito, que a orgia e a indigestão provocam.
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Esse homem morreu pobre; não é vergonha dizel-o; mas levem o aldeão acolá, ao cemiterio, mostrem-lhe todos esses mausoleus de marmore e de granito, e perguntem-lhe qual é o nome que, ainda hoje, mais affectuosamente vibra na sua alma rude, mas sincera.
Dizem que as mulheres de Sparta, fazendo ajoelhar os filhos sobre o tumulo dos grandes heroes, alli lhes referiam os feitos gloriosos que insculpiram os seus nomes no livro d’oiro da Patria.
Era assim que ellas preparavam a vigorosa musculatura dos futuros cidadãos da grande republica.
Como ellas, _valencianos dignos_, quando a razão dos vossos filhos estiver preparada para receber os germens, que mais tarde devem fructificar na Honradez, apontae-lhes para essa pagina que, por escrupuloso respeito e por enthusiastica veneração, separo das outras, onde escouceiam ridiculos.
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Zinão descobre-se, perante o nome que alli vêdes.
XI
Os Quadros da Collegiada
A Arte nasceu d’esta nobilissima aspiração do espirito humano para, na investigação do Bello, dar á Materia a fórma das suas idêas e das suas crenças.
O desenvolvimento intellectual de um povo e a sua influencia na obra da Civilização, podem estudar-se nos diversos productos, em que se reproduziu o genio dos seus artistas.
Aos _dolmens_ e _menhires_, aos toscos instrumentos das edades paleonlithica e neolithica succedem essas colossaes construcções das margens do Nilo, as pyramides, os templos, as esphinges; os bronzes, as loiças e esmaltes, já de notavel perfeição, dos antigos egypcios.
Surge, depois, o povo helleno com a sua admiravel architectura; com as formosissimas e inimitaveis estatuas de Phidias e de Lysippo; com a Venus de Milo e o Apollo de Belveder; com as formosas telas de Zeuxis e de Parrhasio; com todas as maravilhas, emfim, d’essa assombrosa civilização tão alta e tão brilhante, que ainda depois de passados vinte seculos, quando no horisonte despontavam os primeiros clarões da ridentissima alvorada—a Renascença—era ainda d’ella que, para geniaes concepções, recebiam inspiração e luz esses divinos artistas, que se chamaram Vinci, Raphael, Ticiano, Carrachio e Miguel Angelo.
Com a Renascença accelerou-se a marcha evolutiva da Civilização; e o espirito do homem, depois de enriquecer as sciencias com preciosas descobertas, de desenvolver as industrias com novas e utilissimas applicações, crystallisa-se em fulgidas creações onde, com toda a nitidez de contornos, com toda a opulência de colorido, com toda a fidelidade de cambiantes e com todos os esbatidos do iris se reproduzem as mais extraordinarias maravilhas da formosissima Mãe—a Natureza.
A Historia da Arte é a Historia da Civilização; é a Historia do Homem no seu _meio_, nas suas crenças, nas manifestações da sua intelligencia, nas aspirações da sua alma, na grandeza dos seus affectos.
Estudando o Homem, estuda-se a Nação e a influencia que ella exerceu nas outras sociedades constituidas.
São, pois, d’uma benemerencia incontestavel os esforços e os auxilios com que n’um paiz se tenta colleccionar, agrupar, reunir todos os elementos que possam reconstruir a sua historia artistica; e como essa empreza, de larga magnitude e importancia, só é cabalmente desempenhada pelo Estado, dever é do cidadão illustrado cooperar, quanto possivel, no desenvolvimento das instituições que possam mostrar aos extranhos o que o genio nacional produziu e creou.
Com uma vergonhosa teimosia e deploravel inconsciencia, a esse dever se nega a actual Junta de Parochia de Valença, recusando-se a entregar ao delegado do Governo os quadros e a cadeira, que pertenceram á extincta collegiada de S. Estevão.
* * * * *
Senhores da Junta,
ou antes
Senhores Agostinho e Sampaio:[35]
conversemos.
Vossas Senhorias, n’essa manifestação volitiva, (saberão Vossas Senhorias que _volitiva_ significa: emanada da vontade) n’essa tenaz opposição as ordens do Governo, devem estribar-se n’uma razão, n’um argumento, n’uma conclusão qualquer. Mas eu—com franqueza—como conheço perfeitamente, por dentro e por fóra, (deixem-me assim dizer) o que Vossas Senhorias valem em materia de zelo pelas instituições, que estão dependentes das suas luminosas e peregrinas deliberações,—eu, que me recordo muito bem que Vossas Senhorias, que hoje energicamente bradam aos céos contra a reclamação do Governo, são exactissimamente os mesmos que, ha quatro ou cinco annos, deixavam estragar esses mesmos quadros e essa mesma cadeira, consentindo que um _Terrinha_ as borrasse com verniz de portão, depois de borrar, tambem, os peitos da Virgem do leite,—eu que me recordo ainda, que foram tambem Vossas Senhorias os _engenheiros_ n’aquella boçal mutilação da fachada de Santa Maria, parvoamente _restaurada_ ha annos,—eu, emfim, que (sem offensa) avalio a capacidade intellectual dos seus, aliás preciosos cerebros, como insufficiente para conter umas tristes cellulasitas, onde se aniche um errante atomo de intuição artística; porque, afinal de contas, estas coisas de Arte não são precisamente o mesmo que coisas de bombas, ou de receitas eventuaes e decimas de juros,—eu, repito, não posso explicar satisfactoriamente ao meu espirito a causa do proceder de Vossas Senhorias.
Por zelo nos interesses da Junta não é—com toda a certeza—que Vossas Senhorias se revoltam contra o Governo. Isso é coisa averiguada, conhecida, evidente, que não admitte réplicas e a que não convém, mesmo, contestações.
Recearão Vossas Senhorias que esses objectos, passando para as mãos do Estado, se _extraviem_, ou _percam_?
Repillo, como absurda, a hypothese, porque só com tristissimo desalento veria dois funccionarios publicos suspeitarem de _larapio_ o Governo que lhes paga.
O que é, pois, que actua nos seus cerebros?
Não o sabem, mas sei-o eu.
O que obriga Vossas Senhorias a esse tristissimo papel é isto:—o rheumatismo, o barretinho de seda preto, o cano das botas, os suspensorios, o alçapão das calças, a caixa do rapé, o pingo, a caspa; é essa maldicta enfermidade epidemica, peor do que a actual _influenza_, porque não ha profilaticos que a debellem, e que se origina nas exhalações mephiticas e deleterias dos fossos e das muralhas que teem musgo, ratos, corujas, toupeiras, morcegos e silvados coevos do mammuth; é essa coisa que sendo incorporea, invisivel, imponderavel, tem a rigidez bastante para encravar a roda do Progresso; que sendo inerte e fria, tem a temperatura sufficiente para caldear os embolos da Civilização; é—finalmente—a rotina!
Vossas Senhorias, com essa teimosia, recordam-me (salvo o devido respeito) aquella conhecida anedocta do gallego:
Alonso Perez y Perez ouvira dizer na sua terra que em Portugal se ganhava muito dinheiro, mas que era necessario pedir, exigir e reclamar sempre mais do que se recebesse por qualquer serviço.