Part 7
Mas cá no fôro intimo, nada provoca, mais fortemente, a minha consideração, como umas alças, uns suspensorios, d’aquelles de tres cores, como a bandeira franceza—com as suas fivelas doiradas, as suas prezilhas de coiro unidas, symetricamente, aos quatro botões alinhados pelo buraquinho do umbigo.
* * * * *
Este meu culto ás alças já me originou grave desgosto na familia.
Minha filha mais velha, D. Fagundes, namoriscava o filho do nosso procurador em Monsão. Ha cinco annos entra o mocinho na sala de visitas e, deante da rapariga, balbucia trémulo de commoção:
—Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!
O Senhor passou bem?
Eu vinha pedir a mão de sua filha D. Fagundes d’Atouguia. Tenho 25 annos; sou camarista na minha terra; as minhas propriedades rendem 40 carros e 60 pipas; tenho doze contos nominaes em inscripções; vinte obrigações das Aguas de Melgaço e de S. Pedro, cinco acções do piano da Assemblea e dez do Theatro Valenciano...
—Perdão, interrompi eu; e emquanto ás ultimas, pagou todas as prestações?
—Não, senhor; assignei, mas só paguei a primeira prestação de 10 p. c.
(O homem convem-me, disse com os meus botões, já vejo que é _agostinhado_.)
—Serve-me para genro; mas, um esclarecimento apenas, que é o mais importante: o meu amigo usa suspensorios?
—Ora essa! exclama o joven, acaso é isso importante no meu futuro marital? Pois a minha barriga é que tem de _crescer_...
—Basta, senhor! Visto que ridiculariza uma coisa tão seria,—nada feito! Queira bater a outra porta.
E Fagundes ficou solteira...
Ora ella está longe de ser uma belleza e, ás vezes, tem _telha_; mas para Monsão servia e, servia, até, muito bem.
* * * * *
Recebi hontem á noite um telegramma de Bismarck, pedindo informações urgentes ácerca das sessenta cartas. Como sou correspondente da _Gazeta da Allemanha_, tratei de averiguar o caso inspirador d’aquellas Catili—digo—Quimtilinarias.
Eis o que descobri:
Na ultima reunião dos _quarenta-maiores_, o Fonseca, subitamente atacado de violenta verborrhea, poz em pratos limpos a historia do _mandado_, segredada ao bichinho do ouvido por um _amphibio_.
Os senadores ficaram aterrados e os municipes bateram palmas, porque tinham farejado escandalo.
Fonseca exaltou-se, berrou, vociferou; e, por vezes, para o acalmar no furor do seu zelo pelos interesses do Municipio, teve um prestimoso amigo de lhe molhar a palavra, com agua da Fonte de S. Sebastião, que é a mais fresquinha[27].
A final serenou e retirou-se satisfeito.
Jantou e soube-lhe bem; mesmo muito bem. Com o enthusiasmo _entrou_ de mais n’um arrozito de _berberichos_.
Retirou-se para o seu escriptorio.
Os _berberichos_ principiaram, porém, a _repontar_ com elle, provocando-lhe, em certo apparelho, uns beliscões diabolicos.
Lembrou-se de ir convidar o Leopoldo a dar um passeio nas muralhas; mas, por outro lado, a rigidez e a austeridade dos seus habitos aconselhavam-n’o a ir ter com o Capellão, certamente para se desobrigar dos peccados do dia.
Mas, n’isto, no lusco-fusco da sua somnolencia, viu apparecer e avançar o vertice d’um angulo de 25°, angulo que foi alargando, alargando, sustentando sempre, um dos seus lados, em parallelismo com os olhos do Fonseca.
Linhas irregulares, verticalmente dispostas, desenharam, depois, uma cabeça collada a esse grande appendice angular; novas linhas configuraram um corpo, como appendice d’aquelle primitivo appendice.
Appareceu um nariz com perninhas!
Em seguida, surgiu uma coisa redonda, muito arrebitada e rechonchuda, que foi, tambem, crescendo, crescendo...
Rebolava-se uma pança que, avançando, exclamou:—_Oh Quim! Tu falaste bem; mas foi e Zé, quem te deu o papel!_
Approxima-se o nariz, aos saltinhos, e diz tambem, roçando pelo respeitavel dito, do Fonseca:
—_Sim! O Zé deu-te o papel! Foi o Zé! Foi o Zé! Foi o Zé!_
—_Ah, Morãeses do diabo! Bofé, que mentis! A mim, gentes de Verdoejo e de Taião!_
E arremessando para longe as lubricas tentações, o chale-manta e o barretinho bordado com a sua borlinha toda repenicada, a dar-a-dar,—foi-se á escrevaninha e principiou a escrever uma carta; depois, outra; depois, outra;—total sessenta cartas!
No intellecto do Fonseca deu-se, então, aquelle phenomeno da scissiparidade por segmentação.
Cidadãos pacatos e sisudos, pouco versados na mechanica epistolar e affeitos á bolorenta erudição do:
«_Muito estimarei que ao receber estas mal esboçadas regras, esteja gozando perfeita saude, em companhia de quem mais deseja, pois a minha, graças a Deus, ao fazer d’esta, é boa..._»
sahiram-se com puxadas de estylo de rachar tudo, graças á communicabilidade galvanica do intellecto fonsecoide, saturado de rhetorica e prenhe de syllogismos irrefutaveis.
* * * * *
Mas vem cá—oh Fonseca—O que é, afinal, que pretendes dizer na _tua_, com essas sessenta epistolas?
Que diabo te disse o _Noticioso_, que tão violentamente arrepiou a tua espinha, como se te communicasse a irritabilidade nervosa do galvanismo?
Offendeste-te por elle affirmar, que na sessão dos _quarenta-maiores_, o teu esplendido discurso não foi improvisado e que houve, até, quem te desse o _ponto_?
Mas—oh filho—suppões, acaso, que no intimo da alma dos nossos conterraneos não existe, profundamente radicada, a absoluta confiança nos teus dotes oratorios, embora se reconheça, sem desdoiro, que não és, precisamente, o que se póde chamar um Pico de Mirandola?
Então não está ahi, bem pronunciado, no teu luzidio craneo, o extraordinario desenvolvimento da terceira circumvolução cerebral, em que Broca localizou a eloquencia e a arte oratoria?
Olha, Quim, um conselho de amigo:
As tuas sessenta epistolas,—embora, verdadeiramente, se não saiba, ainda, para que as escreveste e para que incommodaste tanto cidadão pacato, tanto cerebro, tanta caneta, tanto bico e tanto papel de chupeta—estão boas; isso estão. Mas ouve, filho, a respeito de litteratices, de cartas—isto é—de escripturas e de lettras, manda-n’os algumas, mas d’essas que tens com hypothecas e com fiadores.
As que para ahi estás a publicar, guarda-as, para quando não tiveres quem te _chegue o papel_...
Não maces mais a gente, que tem de aturar bissemanalmente o _Noticioso_, diariamente o Marilio[28] e—aos domingos,
o João de Ganfey.
IX
Politiquices[29]
Anda coisa no ar...
A horas mortas, nas sombras da noite, quando as venerandas paternidades desatam pachorrentamente os nastros das ceroilas e extendem as delgadas tibias entre a alvura dos lençoes, deliciando-se com a voluptuosa sensação do linho—quando os technicaphilas experimentam a potencia dynamica do coice e a rigidez do craneo contra os muros e bancos de praça, e as sopeiras, sedentas de luxuria e amor, abrem sorrateiramente a janella para sentimentaes gargarejos com almiscarados artilheiros—quando o beateiro resmunga entre bocejos, n’este meio cá—meio lá, da somnolencia, o ultimo _Paternoster_, e dois amigos meus, dos respeitaveis e probos, depois do nocturno repasto, se entregam, extramuros, a indigestos estudos de anatomia... _patriotica_—n’essas horas da noite, repito, nota-se nas ruas de Valença um movimento desusado, extraordinario e inquietador para quem de perto conhece, como nós, a indole pacifica e a habitual obediencia dos nossos conterraneos ao toque militar das oito e meia.
Cruzam-se vultos mysteriosos e sombrios, murmurando rapidamente palavras convencionaes; a frouxa luz dos candieiros projecta nas calçadas a sombra de longos _capindós_, de amplos _libertés_ com que, indubitalmente, conspiradores sinistros, caras patibulares e alvellicas, se disfarçam e acobertam.
Denuncia-se, emfim, a effervescencia d’uma agitação occulta, surda, quiçá perigosa e violentissima, que prepara para breve, na historia d’este brioso povo, acontecimentos extraordinarios e imprevistos, que hão-de suscitar aos pósteros um ponto de exclamação tão elevado, tão grande e tão alto, como o sr. professor de Verdoejo, como o nariz do sr. dr. Ladislau, ou como um chapéo siamez que, ha um bom quarto de seculo, eu por ahi vejo, nos dias festivos do anno, luzidio e repontante, contra o ether dos céos.
Mercê da perspicacia e actividade do zeloso Commissario das Policias, o sr. Sampaio, está já conhecida a causa de tal agitação; e á amizade, com que esse cavalheiro me distingue, devo eu a possibilidade de aqui a communicar aos meus conterraneos, para tranquillidade das damas nervosas, das donzellas chloroticas e hystericas, que se tenham inquietado com o que acabo de denunciar.
Trata-se d’uma conspiração politica.
Preparam-se traças; urdem-se planos; consultam-se esphinges; interrogam-se oraculos; assediam-se as potestades eleitoraes; arietam-se as opiniões renitentes; hypnotisam-se os refractarios á conversão desejada, e tudo com a intenção sinistra e machiavelica de attentar, nas proximas eleições, contra a soberania e omnipotencia do senhor feudal d’este burgo, de quem tudo-lo-manda, o muito alto, poderoso, e excellentissimo Senhor Administrador do Concelho!!
Quem diria, senhores, o que no ultimo quartel do seculo teriamos de presenciar n’esta nossa terra tradicionalmente fiel ás instituições, cégamente obediente aos poderes constituidos, amante do seu Rei e de toda a sua Excellentissima familia (como se diz em Monsão)—n’esta terra onde, depois que os legendarios 7:500 bravos implantaram e regaram com o seu sangue o systema constitucional, inaugurando essas grotescas bambochatas, chamadas eleições, nunca os nossos antepassados tiveram a ousadia de contestar a opinião, as ideas do Senhor Administrador, embora ellas fossem tão extraordinarias e tão estramboticas como o dizer-se agora—por exemplo—que o sr. José Narciso não acceita a legitimidade dos direitos do Senhor D. Miguel de Bragança; que o Senhor Velloso, com o seu bigode negro e a alvura immaculada do seu collete branco, não é, para as damas, o mais esbelto e airoso joven, que terras de Portugal téem exportado para a nossa galeria aduaneira, ou ainda, que o Senhor Agostinho não significa na politica um caudilho poderoso, um sectario fiel, seguro e intransigente do partido progressista—regenerador—constituinte—reformista esquerdista—republicano—socialista.
Mas, perguntarão Vossas Excellencias, não faz Valença parte d’um circulo? Não téem os seus habitantes, como os d’outras terras, semelhantemente illustres—Fornos de Algodres, Terras de Bouro, Cannas de Senhorim—direitos e regalias que a Carta Constitucional da Monarchia concede para a amplissima e plenissima liberdade da opinião, em materia de eleições?
Verdade é.
Temos os mesmos direitos e á custa do mesmo preço...
Pagamos religiosamente as nossas decimas, as nossas congruas, sem contestações, nem aggravos, desprezando, até, com generosa e espartana altivez os quebrados, os dois, tres e quatro reis—uma ninharia—que o Senhor Recebedor, escravo dos dictames da sua consciencia, á força nos quer devolver.
Mas, eu recorro á Historia, a que Thierry chama «espelho da verdade» e Michelet «guia do futuro» para affirmar e provar, _urbi et orbi_, a inflexivel immutabilidade das opiniões politicas da nossa terra, recordando factos que, fiel e genuinamente, exprimem e caracterisam a superior orientação, que aqui existe sobre os direitos do cidadão—factos que não architecto com materiaes da Phanthasia, nem illumino nas penumbras dos tempos remotos, porque são rigorosamente exactos e coevos da geração que passa.
Approximava-se, ha annos, o dia em que o povo soberano, forte nos seus direitos, em troca do liberrimo voto a uma tarraçada de vinho, ou a indigestão de _calhos_ na cantina eleitoral de Mestre Pedro era chamado a influir nos destinos da Patria e a metter a sua colherada n’essa sordida e nojenta palangãna, chamada _urna_, onde com putridas exhalações, referve e azeda a mixordia das ambições estultas, das vaidades irritantes, das pressões odiosas, das promessas fementidas, e em que os ambiciosos e especuladores—os Pausanias e Wilsons de todos os tempos—se refocillam e afocinham, disputando, á dentada, o appetecido osso do _arranjo_...
Nos campanarios sertanejos agitava-se o badalo chamando o servo da gleba que, de roupa domingueira e quinzena nova, se dispunha a, mais uma vez, com boçal inconsciencia, conspurcar o direito do voto—uma das mais bellas conquistas da liberdade na sua sangrenta evolução atravez de seculos de lucta, producto abençoado da laboriosissima reacção que n’essa enorme retorta, a França, na inferioridade do sudra, na degradação de ilota, nas algemas do escravo, na dependencia humilhante do servo—como elementos componentes—provocaram os raios chimicos da formosissima luz d’essa bemdita, mil vezes bemdita, alvorada de noventa e...
Mas, perdão.
Que diabo estou eu a escrever? _Ridendo_... Eis o meu programma.
Ao largo, pois, logares communs de estafada Historia!
Pensamentos tristes, arredae! Acoitae-vos e multiplicae-vos no cerebro do Padre Capellão para, nos sermões de sexta-feira santa, com que, tão auspiciosamente, inaugurou a sua eloquencia n’esta terra, nos descrever mais uma vez, com a voz embargada pelo sentimento, o martyrio da MÃE, as afflicções da MÃE a dôr da dita MÃE.
Continuemos, pois, a rir, senhores, um riso bom, sonóro, vibrante e desafogado, que o riso é das poucas coisas que ainda escapam á rede tributaria, e representa, n’este arido deserto da vida, a frescura vivificante e consoladora do oasis.
Ha annos, ia eu dizendo, em vesperas de eleição, teve um vizionario estranho a ingenuidade de tentar combater o sr. Administrador do Concelho, arrepiando-lhe a submissão dos eleitores, em determinadas freguezias.
O caso engatinhou ás culminancias do desafôro; alcandorou-se nos topes do escandalo!
Apimentaram-se os animos; esturraram-se os genios; apopleticaram-se os mais sisudos e conspicuos habitantes da rua de S. João—esses santos varões, que são na nossa terra os genuinos representantes dos ricos-homens e infanções dos tempos medievaes, sobrios de costumes, austeros no porte, d’um puritanismo feroz; tementes a Deus, ao diabo, ao abbade e ao sr. Joaquim Apollinario.
Reuniram-se, em conclave mysterioso, os mais valentes e poderosos homens d’armas do partido governamental—o unico, n’estes reinos, legalmente constituido.
Mensageiros esbaforidos chegavam, tressuando, de toda a parte com informações sobre os manejos do inimigo e, praça aberta á discussão, depois de grave ponderação e demorada concentração dos espiritos, sahiu d’aquellas venerandas cabeças o plano de combate que, para efficaz execução, para infallivel resultado, urgia communicar immediatamente, sem demoras, nem hesitações, a um rico-homem de Coura.
—Ora, n’aquella epocha, se bem que já estivesse iniciado o caminho das grandes descobertas geographicas e scientificas, que constituem a epopeia gloriosa da humanidade, e se conhecessem já, a America, a Africa, o phonographo, os camarões, o xarope do dr. Gibert e o sabão do sr. Moutinho; existindo já Pasteur, Jenner, João da Gaiteira, Edison, os srs. Zé da Rosa e Roldão; se bem que a Sciencia, em todos os seus ramos, estivesse consideravelmente aperfeiçoada, como por exemplo, a Jurisprudencia em que, no Direito penal, Lombroso, Garofalo, Aubry, attenuavam a responsabilidade criminal, combatendo essas brutaes penas da forca, da guilhotina, do pôtro, e substituindo-as, quando o crime tinha as revoltantes particularidades de Pantin, de Fuencarral, ou de White-Chapel, por uma audição, mais ou menos demorada, do drama do sr. C. Barros, ou d’um discurso do sr. Presidente da Camara—n’essa epocha, repito, ainda o sr. Miguel Dantas não tinha inventado Coura, a preciosa povoação, que tanto deu que matutar aos srs. Fontes e Bismarck, nos procellosos dias da revolução de Bico.
A Mesologia estava, ainda, no estado rudimentar e não tinha definido e aproveitado a extraordinaria influencia procreadora do clima, que n’aquellas uberrimas paragens, melhor do que a Physiologia de Debay, do que qualquer intervenção abbacial, ou leopoldica, mantem nas robustas camponezas uma fecundidade tal que, annullando por completo as theorias de Fourier, na resolução do importante problema do pauperismo, estabelece para a pittoresca povoação a reputação invejavel e, sobremodo honrosa, de fabrica permanente de amas para bebés.
Coura, emfim, meus senhores, a indispensavel Coura, estava ainda no casulo das sociedades modernas, na pevide das povoações minhotas, no caroço dos baluartes eleitoraes e não podia, portanto, alli influir a civilização como agora, em que o luxo das edificações principia a abandonar o colmo na cobertura das casas, substituindo-o por umas coisas vermelhas e arqueadas chamadas telhas, e em que ha Correio e Telegrapho, com um movimento tão extraordinario e assombroso, que a gente guinda-se aos mastaréos da popularidade, trepa aos carrapitos de um semi-deus, escarrancha-se na celebridade do proprio Boulanger se, n’um só dia, recebe da familia duas cartas e um telegramma!!
Mas... era necessario lá mandar um proprio, unico recurso d’aquelles felizes tempos, em que estavamos livres da Companhia real, e podiamos, sem despeza de testamento, nem afflicções de quem está nas garras da Morte, tentar qualquer viagem.
E tal era a urgencia, a imprescindibilidade da communicação, que o portador devia ir a cavallo!
Ora, esta urgencia, formulada na intervenção do rocinante e lançada á discussão na maior effervescencia do furôr opposicionista, despertou no espirito dos mais sensatos e perspicazes ricos-homens e abbades um subito resfriamento de enthusiasmo.
Perceberam o quer que fosse de sombrio e tetrico, que baixou a zero a ebullição tumultuosa da sua dedicação partidaria.
Como o Mane, Thecel, Phares, que entupiu Balthazar, ou a sombra de Banco que engasgou Macbeth, ou a estatua do Commendador, que foi para o D. Juan, de Molière, o que o vulto do capitão Teixeira de Moraes foi em noite procellosa de inverno, nas cercanias do solar da Balagota, para o Sr. Sampaio[30] a lembrança do cavallo aterrou os mais ousados d’aquelles ricos-homens, que representavam, no seu conjuncto, feudos e rendas superiores a muitas centenas de mil cruzados.
Empallideceram, subitamente, as faces até alli purpurinas e rubras de excitação; baixaram-se, evitando-se, os olhos, até alli coruscantes de furôr; cerraram-se os labios, como se uma pressão de muitas atmospheras actuasse brutalmente sobre as maxillas. Os mais ousados coçavam nervosamente a região occipital...
É que ao longe, lá muito ao longe, na sombra do magro rocinante, percebiam elles, já, as formas indecisas e vagas do burriqueiro, reclamando, com humilde postura—vergado o corpo n’aquelle respeitoso angulo de 65° com que o nosso homem, o supracitado Sr. Sampaio fala, cheio de blandicias e ternuras, ao Sr. Dr. Brito—o meio pinto da tabella para uma viagem a Coura.
Meio pinto, senhores!
Menos do que o Sr. Seixas ganhava n’uma caixa de amendoas, _quando mostrava a factura_; coisa de dois conselhos do Dr. João Cabral; meia dose florindica, pagando á Rotschild; o lucro do sr. Fontoura n’uma tisana de treze vintens.
Meio pinto, senhores!
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Rapida foi a dissolução do conclave. Pretextos futeis, encapotados com razões imprevistas, fizeram debandar, como corvos açoitados pelo furacão, os graves maioraes da politica concelhia.
Foi o mensageiro a Coura, e durante muito tempo, nas altas e transcendentes concepções philosophicas, em que o animalejo constantemente se absorvia—(indecifraveis para nós, os mortaes, como a opinião politica do Sr. Vigario Geral, ou como a origem do subito rejuvenescimento do nosso muito querido Sr. Sampaio ao ler nos jornaes a palavra _Cordão_)—entrou a influir grave ponderação sobre o alcance dos decretos da Providencia, que se apraz em confiar de um misero sendeiro a salvação d’um partido, como do nada, do pó, do humus empapado da chuva, que demorou Grouchy, forjou o camartello possante, que em Waterloo esmigalhou o pedestal d’esse feroz açoite da Humanidade, chamado Napoleão.
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Creio inutil dizer que, depois da eleição, para a gamella do burriqueiro havia mais um commensal... um cão![31]
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Prosigamos n’este escabroso trilho da Historia em que, para fiel e rigorosa exposição dos factos, temos de executar os milagres do equilibrio de Blondin, ou de Leonne Doré, entre os exaggeros dos informadores apaixonados e as erroneas reflexões de commentadores pouco escrupulosos.
Serve-nos de maromba a consciencia e oxalá ella nos guie até ao fim d’esta penosa caminhada, atravez da original e curiosissima politica da nossa terra[32].
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Indubitavelmente, o dia 22 de Novembro de 1879 é um dos mais memoraveis para os habitantes d’esta antiga e mui nobre povoação.
Essa data deve estar indelevelmente gravada no livro d’oiro dos grandes acontecimentos historicos; insculpida, a traços diamantinos, na epopea das grandes solemnidades de Valença, ao lado das procissões de S. Sebastião e _Corpus Christi_, grotescas mascaradas, com que no Minho se avivam as descrenças, digo, as crenças, a ociosidade, a pasmaceira, o ar marcial e aguerrido das tropas, os namoros, as bambinelas dos armadores e as transacções do commercio, na sua importantissima secção de: birimbaus, peixe frito e... limonada de cavallinho.
Foi um dia festivo, solemne; d’aquelles em que o caiado das casas nos parece mais branco; a porcaria das ruas menos escandalosa; a atmosphera mais diaphana; o verde das campinas mais vivo; a abobada celeste mais limpida; o aroma das flôres mais penetrante; a cara dos amigos mais risonha—um d’estes dias, em que a gente se sente mais feliz, com menos dinheiro e mais tentações, e em que as fibras do coração que movem o badalo do enthusiasmo, bruscamente se agitam, como se ouvissemos o hymno da Carta, um discurso do sr. conselheiro Silvestre Ribeiro, ou como se os canhões da Coroada, os sinos de Santo Estevão, a bandeira real desfraldada aos quatro ventos, celebrassem festivamente o anniversario da Restauração!
Acotovelava-se nas ruas uma multidão expansiva, ruidosa, com a alegria a pinotear na mioleira; com todos os macaquinhos do sr. Palhares, em borga infernal no sotão; expondo por ahi, escandalosamente, a habitual gravidade, de saia arregaçada e peitos descobertos, em desenfreado e lascivo minuete com as posições officiaes.
Para exprimir tudo, emfim, havia no intimo de cada um, tanta satisfação e tanta alegria, como hoje sentiria o sr. Joaquim se recebesse auctorisação do Ministro do Reino para obsequiar o dr. Cabral com todas as trombetas de Josaphat, sopradas por innumeras legiões d’aquelles anjos e seraphins de bochechinha gorda e purpurina, que por ahi vemos em S. Estevão,—embora, para esse justissimo desforço de cidadão offendido nos seus direitos, de Juiz da Senhora da Saude, affectado nas suas crenças, tivesse de arredar, das suas arcas de nababo, com arrebatado impulso de perdulario enthusiasmo, coisa de doze vintens—captivos a troco!
N’esse dia, meus senhores, era restituido o batalhão de caçadores 7 a Valença, chyprado ao berço da monarchia, á terra dos condes, dos conegos, das cruzes e dos cutileiros, por Sua Excellencia, o sr. Ministro da Guerra.
Nada faltou no programma das recepções festivas: coroas de loiros; discursos do sr. Presidente da Camara; mensagens de congratulação; odes e alexandrinos do vate Aurelio Victor Hugo; bailes; regabofe nos presidios; bodo aos pobres; arcos de triumpho forrados a gazetas; musica, foguetes e luminarias.
O enthusiasmo estonteava os cerebros; alcoolizava os espiritos; absinthava os animos.
O sr. Francisco Durães, homem sério, pacato e já na escala para camarista, deitava foguetes na muralha, como qualquer _careca_ sertanejo em arraial da festeira Urgeira.
Um camarista illustre luctava duas horas, para enfiar no par de luvas, que por engano lhe tinham vendido para a mesma mão—o dedo _mata-parasitas_ na casa do _mindinho_.