Part 6
As beatas arranjam, com a Semana Santa, que contar para um mez.
Quando os escorropicha-galhetas abrem, de manhã, as portas do templo, já ellas entram apressadas e remelosas, escolhendo o melhor logar «_onde o bruto do povo e os pobres não incommodem, onde se esteja á vontade e se veja tudo_». Levam as suas pastilhas de chocolate para a debilidade, a caixa do rapé, o banquinho de tapete, agasalho para os pés e lenço para as lagrimas, que são da praxe, quando o Padre mostra o Santo Sudario.
Installadas assim, com todas as commodidades (tudo pelo amor de Christo, que tanto soffreu na Cruz) no seu ponto de devoção e de observação, gozam á _tripa-forra_ não perdendo um olhar, um sorriso, um vestido novo, uma _tournure_ mais arrebitada...
Á noite vão para casa, consideravelmente alliviadas da consciencia, mas pouco satisfeitas com o Magalhães, que falou em problemas sociaes, em pauperismo, em Philosophia da Historia, em altruismo, em protoplasma e outras coisas, que nem o sr. Joaquim entendeu, apesar de, por vezes, (certamente por delícadeza) abaixar a cabeça, como quem diz: comprehendo, approvo e... estou satisfeito.
O Palmeirão, quando conta imbecilmente pela decima vigesima vez, a tragedia do Calvario—tragedia sublime e benefica para as agruras da nossa existencia, se todos a soubessemos comprehender, mas que por ahi anda como o _libretto_ estafado, nas epochas lyricas da egreja, para especulação, para immoralidades e para descrenças—esse percebe-se e agrada muito mais!
* * * * *
O beaterio tem uns Santos da sua particular estima.
Os Santos, a final, são como a gente, com quem se lida. Ha physionomias que logo inspiram sympathia e ha outras que, sem a gente saber como, nem porque, provocam embirração.
Isto é razoavel e intuitivo. Diga-me, por exemplo, V. Ex.ª quem ha-de gostar do S. Christovão, com aquella grande cara arrenegada, parecendo dizer ás gentes que, se lhe chegam a mostarda ao nariz, corre tudo com a vara, pela egreja fóra, como o Pau-real na feira de S. Bento da Porta-aberta!
Assim, quando rareiam as festas e as bolsas andam exhaustas, com as frequentes subscripções da Assemblea, não havendo possibilidade de se organizar a Semana Santa, então, promove o beaterio umas novenas á Senhora de tal.
«_São umas festasinhas muito razoaveis, porque a musica é mais alegre, são de dia e sempre ha probabilidades de, terminadas as ladainhas e as encommendações, se dar, ainda, um passeio até ao Jardim. Emfim, n’uma terra, que tem poucas distracções e onde a Rosinha se não póde sustentar, tudo se aproveita._»
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O caso da Santa alarmou vivamente os animos d’estas esgrouviadas bisbilhoteiras.
«_Parece impossivel que se não abrisse a Terra, que não viesse um raio, um diabo, que castigasse aquelle pedreiro-livre, aquelle atheu do administrador!_»
O malandro que trazia a imagem e a metteu na taberna da Esplanada, expondo-a ás chufas e obscenidades avinhadas dos comparsas, esperando que o contra-regra desse o signal de subir o panno, para essa asquerosa comedia, da nossa asquerosissima Politica,—o malandro que, com um sebento balandrau, de imagem e prato na mão, por ahi chatina semanalmente, _a meias_, com as crenças do povo, e não hesita em transpôr os humbraes do bordel, _pedindo para a bemdita e milagrosa Senhora de tal_, interessando assim, a religião de Christo no producto que a barregan obtem da venda, em publico, do corpo e da honra—esse icha-corvos torpe e vil, d’uma ganancia mais vil e mais torpe, do que os trinta dinheiros de Judas, que por ahi esfarrapa as poucas crenças, que ainda existem no povo—esse:
_«coitadinho! Mettia dó vêl-o. Estava amarello, aterrado. Foi preciso leval-o, quasi em braços, e dar-lhe café quente, porque lhe podia dar alguma coisa»!_
Ah, baratas de sacristia! Como eu desejava possuir o açoite, com que Christo expulsou os phariseus e de que côr eu vos poria as nadegas...
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As procissões...
Eu não conheço coisa mais estupida, barbara e deshumana.
Felizmente, sou, n’esta opinião, apoiado pelo espirito do seculo que, pouco a pouco, vae terminando com ellas.
Qual é o fim das procissões?
Qual a sua necessidade?
São para avivar as crenças?
Que ha, por esse mundo de Christo, mais ridiculo e caricato do que Santas Cocas, bois bentos, S. Jorges de carne ou de madeira, isto é, com tarracha, ou sem ella, prophetas com barbas de crina, pendões em varas de pinheiro por descascar, gaiteiros aos pinotes, matulões de cara aparvalhada e cabello empastado com gomma de pevides de marmelo?
Que ha, por ahi, de mais barbaro e deshumano, senhoras de Valença, do que essa perigosissima exposição a que, por vaidade, condemnaes os membros ainda tenros das creanças, carregadas com adereços de pechisbeque e diamantes de vintem, peito e braços nus, tiritando e caminhando custosamente, com os pesitos entalados nos escarpes do _uniforme_, e atiradas, por essas ruas, á voracidade das bronchites e pneumonias que o frio origina, ou das febres e meningites que o calor provoca?
Dizei-me: a Christo, se é a Christo que desejaes honrar, não seria mais agradavel que essas duas libras, com que entraes em ajuste d’uma pneumonia para vossos filhos, lhes fossem entregues para, com ellas, na bemdita missão da Caridade, penetrarem n’uma d’essas barracas da Parada-velha e as deporem nas mãos tremulas e descarnadas do pobre velho que tem fome e frio aos 80 annos, illuminando-lhe assim com a luz do céo, com a luz de Deus, aquelle tenebroso occaso de soffrimento e dôr?
E quando a creança voltasse a casa, risonha e feliz, como Deus a sabe dispôr, ao fazer d’ella a mensageira do Bem, não seriam para vós mais agradaveis as lagrimas da gratidão do pobre entrevado que, como perolas, deslizassem ainda nas mãos pequeninas, do que esse immundo cartucho de papel mata-morrão com doces de farinha de milho e assucar mascavado—suprema delicia dos matulões da Urgeira—com que o boçal e estupido Juiz da festa lhe paga o papel de comparsa?
Senhoras de Valença, que tendes filhos! Pensae n’isto...
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A procissão, que os Paes de familia mais respeitam, é a de _Corpus-Christi_.
Quando se approxima, é inevitavel a contribuição de chapéos novos para as senhoras. É uma coisa feia, na verdade, o apparecer-se n’esse dia, consagrado a Deus, com chapéos de inverno...
Pois se o Blanco os tem tanto em conta... Já se não fala em vestidos, porque emfim, dá-se uma _volta_ ao do anno passado e ainda póde escapar; mas o chapéo é da praxe.
As janellas guarnecem-se, n’esse dia, de caras bonitas. Nas ruas, vae e vem, chibante e taful, a juventude da terra; os aspirantes aduaneiros, com Velloso á frente, pimpam o oiro dos seus uniformes; barrigudos camaristas passam, atados á banda bicolor; ha muita gente do povo; colchas espaventosas, flammulas, etc., etc., e, no fim de tudo, a tropa e as descargas.
N’este anno, então, essa ultima parte esteve magestosa. Digo a verdade: manobras assim, tão complicadas e com tanta tactica, só as tenho visto em França, no campo de Chalons, e em Portugal... no largo de S. João. Consta-me, até, que para o anno cá temos officiaes dos exercitos europeus, em commissão de estudo.
Pelo menos, assim m’o asseveram Moltke, Carnot, o Czar de todas as Russias, o Schah da Persia e o Bey de Tunis. Se o affirmam por lisonja, sabendo que sou de Valença, isso é com elles.
Vae pelo preço...
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Agora as romarias.
Diversos pensadores e philosophos consideram as romarias, como indispensaveis e necessarias, attendendo a que o povo que, durante seis dias, labuta e trabalha, necessita de descanço e distracção ao setimo, para que possa retemperar as forças.
Concordo com isso, mas não colhe o argumento na defeza d’ellas, como elemento vivificador de crenças.
Quem é que vae á Urgeira, a Ganfey, ao Faro, a Segadães, que não seja por mero divertimento, por distracção, pela novidade de um caso ruidoso e differente na pacata vida da provincia?
Quem annuncia em casa á familia a visita á Senhora da Cabeça, ou a S. Campio, que isso não signifique um dia de _borga_ e de folgança?
Vejamos as coisas como são, limpando o prisma da observação e da critica, das teias de aranha, com que a rotina, o uso e a tradição lhe mancham a transparencia.
O que é a «Senhora da Cabeça»?
Um concurso legal de caceteiros.
Perguntem ao meu amigo Joaquim Queiroz, se elle de lá veiu com mais crenças, apesar dos esforços que os salta-pocinhas de Lara e de Lapella fizeram, para lh’as introduzir na massa cerebral.
Perguntem a esse amigo, imprudentemente envolvido por generosa dedicação e por nobre arrebatamento, na batalha de _Montes Claros_, se essas mulheres, que uivavam como hyenas e clamavam em furia horrenda, contra tres homens, não eram as mesmas que se espojavam pelo adro da capella, e se arrastavam de joelhos nas _cinco voltas_ da promessa, com que, sentindo estoirar o bandulho nos arrancos de brutal indigestão, recorreram á fama milagreira da Santa...
Perguntem-lhe se esses matulões, que á porta do Chico Mello o cercavam, embrutecidos pelo vinho, apertando o circulo dos varapaus ferrados, com gritos de chacal e esgares sensuaes de anthropophagos, não eram os mesmos que, horas antes, carregavam, como bestas, com o andor da Santa e abalavam o solo com o poisar da pata na marcha truanesca, pelos atalhos do logarejo.
O que é _S. Campio_?
A prostituição ao ar livre, sob o manto estrellado da noite, como diria qualquer poeta; e a charlatanice, fazendo suar o Santo e... os milheiraes.
* * * * *
A pequena distancia d’esta villa ha um burgo chamado—Urgeira. É feudo do sr. Joaquim. Descendem em linha recta, os seus habitantes, d’aquelles antigos cultivadores de cebolas do Egypto.
Formam um elemento importante na Politica do nosso Hospital e prestam assaz reconhecido serviço, nas procissões da Semana Santa. Chegam em mesnadas, marcham bem, formam, com os seus balandraus, duas alas, já muito razoaveis e, além d’isso, são faceis de contentar: quaesquer tres patacos de borôa e zurrapa lhes enchem as panças, depois da procissão, na sacristia da Misericordia, provocando-lhes sonoro arrôto.
No verão, rara é a noite de sabbado, em que estes pacovios não queimam algumas duzias de libras, com foguetes de lagrimas e bombas de dynamite.
Ora, no burgo ha pobreza e ha miseria; ha velhos, que gemem na cama com o frio do inverno e ha creanças esfarrapadas, que chafurdam no lamaçal dos becos; ha aleijados, que se arrastam até á villa mendigando o _chabo_.
Com esses 500, ou 600 mil réis, que annualmente se gastam em festas, podia a Junta de Parochia fundar um Hospicio para os velhos, e estabelecer uma sopa economica para os famintos.
Mas a pandega? O grande brodio da vespera da festa? A _figura_ que se faz na procissão com a vara de Juiz?
* * * * *
Necessita o povo de distracções.
Verdade é, mas dêem-lh’as que o civilizem e não que o embruteçam. Festas, Romarias e Procissões são ainda vestigios d’aquelles primitivos tempos, em que era necessario inveterar pelo mysticismo, pelo apparato e sumptuosidade das manifestações, o espirito da crença.
Mas hoje, em que para o plebeu entrar no templo até á grade, onde a aristocracia aninha, se lhe exige roupa lavada e calçado decente; hoje, em que elle vae á romaria para jogar o pau, beber vinho e entregar fielmente á _Batota_ a féria da semana—acabem com tudo isso e deixem ficar a Religião nos templos, e só nos templos, d’onde nunca devera ter sahido.
E, para divertir o povo, substituam, então, esses grotescos cortejos de Santos, entre espelhos de pataco e plumas de gallo, por verdadeiras procissões civicas, onde figurem os heroes da nossa Patria, que os temos tantos e tão dignos d’essa apotheose.
Em vez de pulpitos ao ar livre, levantem-se tablados, onde se reproduzam os factos mais gloriosos das gloriosissimas epopéas que, a um paiz de tão acanhadas dimensões, deram a celebridade das grandes nacionalidades.
Organizem-se-lhe jogos, luctas, em que se adestre no exercicio das armas e possa desenvolver os musculos e a energia, de que tanto necessita para a constante lucta da existencia.
Conte-se e mostre-se ao povo o que fomos, e assim, distrahindo-o, lhe incutiremos os germens d’esse sentimento, que é o principal impulsor dos grandes feitos e das grandes civilizações—o amor da patria.[24]
Basta de coisas de egreja. E agora,—beaterio da minha terra!—um Padre Nosso e uma Ave-Maria por este Zinão, que já está ás portas do inferno... mas esperando que entreis, para atrancar solidamente a porta e assim vos acabar com a raça!
_Pater Noster..._
VII
Litteraturas
(DUAS PALAVRAS)
Claro é que, tendo subordinado o programma d’este livro ao titulo de _Estudos sobre a actual sociedade valenciana_, me não posso esquivar a fazer incidir, por momentos, na minha lente de observação, os raios luminosos que os nossos _homens de lettras_, semanalmente, fazem convergir no fóco das _lamparinas_ cá da terra.
N’esta epocha, em que legalmente está em uso, reconhecida e sanccionada, essa nojenta e nociva convenção litteraria do _elogio-mutuo_, que tanto talento atrophia, que tanta intelligencia embriaga com os aromas d’um incenso macanjo, parvoiçada é—reconheço—o meu proposito, que significa perigo eminente nas cannelas, irremediavelmente condemnadas á dentuça dos _critiqueiros_.
Limito a area da observação com as muralhas da Praça e d’ella exceptuo, ainda, algumas individualidades que, demasiado, me ferem a retina com o seu talento, e que a insignificante distancia focal da lente me não permitte abranger.
* * * * *
N’esta nossa terra, a penna serve, unicamente, para estadulho de deslombar politicos, ou nas protervias e diatribes, originadas em questiunculas ridiculas e comicas, como as da _Prisão da Santa_, ou nas pacholices rimadas, com que se visa á critica galhofeira.
A penna photographa a Idéa. A Idéa póde evolar-se, librar-se sobre todas as manifestações da actividade humana, consoante as aspirações que a orientam e as intelligencias que a esclarecem. Póde fixar-se na Arte, na Sociedade, no Homem, etc. Entre nós, embirrou com a Politica e não a larga.
Por isso, chafurda na insulsez parrana, na graçola afadistada, na metaphora besuntona.
Ao _brazileiro barato_, ao _fidalgo sem pergaminhos_ e a outros escarros-piadas, que por ahi fluctuam á tona da enxurrada, corresponde esse constante martellar de bordões estafados, do _gaiteiro_, do _João Bernardo_, com que ainda hoje a fedelhada sahe á estacada, empunhando a babuzeira e acenando a quem passa com outro Ideal e com outras armas: não o insulto soez á familia, mas o sorriso caustico do epigramma á individualidade social.
A Imaginação e a Phantasia vasam-se, por ahi, nos moldes d’uma linguagem mascavada, em que pullula o neologismo pretencioso, d’onde resalta a phrase de sensação dos ultimos figurinos, que o francez atira, por cima dos Pyreneus, como uma bota cambada e velha, e que o rabiscador, prestes, enfia nos pesunhos para, coxeante e rufião, seguir em truanesca marcha, campos fóra da critica e da... tolice.
Esfuzia, frequentemente, o gallicismo inutil nas espalmadas linhas; é constante a referencia ôca á lombada das recentes publicações francezas; e, n’uma epocha em que o mercieiro fala na _Sapho_, de Daudet, ri com as frescuras de Catulle, estremece com as _Blasphemias_ de Richepin, salta com as pinturas realistas de Zola, entretem a familia com os Goncourt e auxilia a chylificação com Maupassant ou Coppee, a arlequinada do rabisca, não só denuncia ignorancia completa da nossa litteratura e dos recursos da nossa lingua, mas, ainda,—com a impropriedade dos termos, apanhados a dente e atacados a soquete sublinhado nos periodos—uma deploravel vaidade e tristissima inconsciencia.
Não ha orientação litteraria, nem eschola definida, nem percepção nitida da idea, nem consciencia na phrase, nem centelha de imaginação que desperte a vibratilidade da nossa alma. Ha, d’um lado, a atrophia voluntaria e criminosa, a que se condemnam faculdades intellectuaes de superior quilate, e d’outro, a ambição ridicula e chatissima de se mostrar á familia—ao papá e á mana, ao titi e á prima, ao namoro e á sopeira—o nome em lettra redonda, claro, ou nas malhas transparentes d’um pseudonymo, que o sorrisinho immodesto descobre ao primeiro e desejado ensejo.
* * * * *
Poderá alguem suppôr com estas minhas reflexões, tão discordantes na fórma, das hosannas, que por ahi se entoam, impostas pela nojenta convenção do _elogio mutuo_, que nego merecimentos, ou repudio aptidões intellectuaes?
Tal não succede.
De quando em quando, aqui e acolá, mesmo n’esses a quem a vaidade e o pedantismo desnorteiam, descubro e reconheço os vestigios d’uma expontaneidade de phrase, evidente; d’um colorido de expressão, notavel; d’uma receptividade emocional, definida; d’uma accommodação visual para a analyse, apreciavel;—propriedades que, vigorizadas pelo trabalho, orientadas pelo estudo persistente nos bons modelos e impulsionadas para um Ideal, podiam educar-lhes o espirito e eleval-os, porventura, á consideração que ambicionam e que criminosamente lhes attribuem.
O que eu desconheço é:—o trabalho; o que eu censuro é:—a inercia; o que eu repudio e calco aos pés, é essa perfida e nojentissima convenção, que faz do _cinco reis de gente_ um Adamastor, do balbuciante bebé um polemista, do Rosalino Candido, um Ramalho Ortigão, ou, como elles diriam, de Prudhomme, um Pierre Veron, ou Albert Wolff.
A penna exprime a Idea. A Idea parte do cerebro. O cerebro significa a Intelligencia, a Alma, isto é, o conjuncto da sensações e sentimentos, que na sua phenomenalidade, separam o Homem do bruto.
A faculdade de sentir e a expressão nitida e clara, pela penna e pela palavra, de todos os phenomenos da natureza psychica, são o que o homem tem de mais nobre.
Triste é, portanto que, na critica d’um facto, na discussão d’uma idea, no desforço d’uma aggressão, eu vá encontrar aptidões intellectuaes com elementos tão apreciaveis, na choldra da Politica, ou descendo, ainda, tanto e tanto, que se não pejam com a pasquinada a carvão nos logares, onde o carrejão usualmente se encosta, para... ensalitrar as paredes.
* * * * *
E no grupo dos que a inercia atrophia, dos que deviam libertar-se para outras espheras mais luminosas e mais puras, porque já possuem na Imaginação e na Phantasia a vigorosa organização do condor, vejo eu um homem—que sabe burilar preciosamente a idea, que filigrana artisticamente a palavra—debater-se, na triste condição de bonifrate, movimentado pelas guitas dos especuladores, transformando o cerebro, d’onde arranca chispas d’um verdadeiro talento, na bola ensebada e porca dos jogos malabares que os politiqueiros por ahi exhibem, visando á esportula dos magnates.
E como se não fosse profanação bastante, o manchar a penna nos bispotes, em que essa megéra—a Politica—diariamente evacua, ainda ha pouco manchou tambem os labios d’onde, palpitante, quente, phantasiosa e bella, lhe resalta a palavra, na dentuça cariada e porca d’um salta-pocinhas eleitoral agargalado!
Suprema humilhação do talento!
Pudesse eu agarrar-te pela golla do casaco e, applicando-te em certa parte do corpo duas palmadas, fazer actuar no teu espirito, incisiva e caustica, a affectuosa indignação, com que d’aqui te brado:
Livra-te d’esse chiqueiro, _homem de Deus_![25]
VIII
Quimtilinarias[26]
Diz algures Macaulay:
«_É nas grandes crises politicas, nas grandes agitações populares, que se denunciam os grandes homens e se manifestam os grandes genios._»
Cá temos a confirmação d’esse periodo do eminente historiador inglez.
Ruge, infrene, a colera do povo por causa do _mandado_: e no meio d’essa espantosa effervescencia da nossa politica, ergue-se aos céos da posteridade, dardejando raios mortiferos de oratoria epistolar, um homem, até hoje ignorado na republica das lettras: Quim Fonseca!
Tenho lido muita epistola e muita carta; li as epistolas de S. Paulo aos corinthios; as de Horacio e Cicero; as de Racine e Pascal; as de M.ᵐᵉ de Sevigné e de Girardin; as do Rosalino e Jayme José; mas, coisa tão puxada de rhetorica, tão desembolada de logica, tão _frecheira_, de estylo—é que ainda não pude encontrar nas litteraturas passadas e presentes, desde a sanskrita, até á dos papuas, ou á das gentes do Molembo-Kuango!
Sempre desconfiei que, no cerebro d’este Fonseca, vascolejava algo de extraordinario e de superior. Quando, por ahi, aventavam deformidades psychicas, amesquinhantes do intellecto, affirmava eu sempre:
_Fonseca tem lume no olho! O futuro o dirá._
Ahi estão as suas sessenta epistolas engranzadas nas gazetas da terra, confirmando, plenamente, os meus presentimentos.
* * * * *
Estudei durante muito tempo o Quim Fonseca, auscultando as minucias da sua existencia social e as subtis ramificações da sua politica.
Considero-o como um dos vultos mais importantes da minha terra, porque é o fulcro _diamantino_, onde se apoia a alavanca civilizadora (?) do Progresso. Impõe-se, portanto, á minha observação e ao meu respeito.
Consumi annos n’esse estudo, sem poder formular uma classificação exacta e rigorosa.
Mas, um dia, descobri que Fonseca usava... suspensorios!
Ora, os suspensorios teem para mim uma grande significação; considero-os como elemento precioso e infallivel na investigação do caracter individual—elemento mais precioso e mais infallivel, do que as protuberancias do craneo, na theoria de Gall; os traços physionomicos na de Lavater, ou o volume do cerebro na de Broca. Após minuciosas analyses e confrontações, cheguei á conclusão, de que os suspensorios pódem significar: reflexão, sobriedade, economia, previdencia, sensatez, paz do espirito, pureza de costumes, existencia de virtudes civicas.
Homem que usa suspensorios, sabe de cór quanto produz, livre do imposto de rendimento, o capital de doze moedas d’oiro a tres e meio por cento; sabe em que lua se cortam as madeiras; sabe em que epocha convém semear a couve penca, o rábano, a nabiça e as pevides de marmelo; sabe em que mez se capam os gatos; sabe salgar um porco, dispôr os presuntos no fumeiro, encher um chouriço; sabe _coisas_ de emphyteuta, de fóros, de aguas de rega, de bacellos, de alpórcas e de bens de mão-morta; sabe aparar um callo e applicar um crystel; conhece remedios para o gôgo e para as bichas; conhece as propriedades do sebo de Hollanda; sabe—emfim—de tudo um boccadinho, porque é encyclopedico em Sciencias caseiras e perito em questões de vida pratica.
E V. Ex.ª, que conhece o Fonseca, diga-me, agora, se as aptidões do seu intellecto não estão ahi, nitidamente inventariadas.
* * * * *
Eu venero as commendas.
Quando, em Quinta-feira santa, na vizita ás casas do Senhor, encontro o sr. V. de Moraes, deslumbrando a gente com a sua casaca e com as scintillações da Gran-cruz gallega, onde o sol poente arranca chispas—tiro humildemente o meu chapéo e curvo-me submisso.
Venero a banda bicolor, diagonalando a obesa pança d’um senador; venero a vara d’um juiz de irmandade.
Reconheço tambem, a importancia social dos titulos honorificos.
Um Visconde foi, é, e será, sempre, um homem de massa mais afinada do que qualquer Zinão; um homem estremado entre a peonagem; um homem de sangue _cruzadico_, de alta sabença, de apurado senso. Ahi está o sr. V. da Torre, que, ainda de molleirinha e a fazer _tem-tem_, escrevia os _Preconceitos_, para... _despreconceituar_ a heraldica dos viscondados.
Venero e respeito tudo isso, repito, porque, emfim, Deus que resolveu distinguir na sociedade umas certas pessoas, com titulos e com penduricalhos, lá se entende e lá tem as suas razões...