Sinapismos

Part 4

Chapter 43,606 wordsPublic domain

Quando assisto á entrada de Sua Excellencia, solemne, magestoso, omnipotente, rutilante de oiro e pedrarias, constellado de _crachás_, faiscante de venéras,—no templo de Santa Maria, em festividade da Semana Santa, para mandar prevenir as auctoridades civis e ecclesiasticas, que superintendem no cerimonial, que está alli, para, como unico e fiel representante de Sua Magestade El-rei, n’estes burgos,[16] depôr o osculo de respeito nos chagados pés do Senhor dos Passos, exactamente como, á mesma hora, faz o mesmo Augusto Senhor Rei, no templo da Graça—quando o vejo aproximar vagarosamente da veneranda imagem, n’aquelle passo grave, solemne e arrastado de solas, com que os prophetas de barba de guita e cara borrada com pós de sapato, acompanham em Tuy o sagrado esquife, e o ouço depôr o respeitoso osculo, confundindo assim, em edificante e enternecedora homenagem, a magestade dos céos com a magestade da terra—quando sigo, depois, Sua Excellencia na retirada do templo, rodeado do seu luzido e brilhante Estado-Maior, essa pleiade de homens illustres, que representam o que ha de mais intelligente, nobre e indispensavel nas instituições militares do meu paiz, homens encanecidos em mil batalhas contra columnas cerradas de algarismos, cifras e cifrões de indomitas contas de feijão e batata, do rancho geral, ou dos cadernos da arrecadação dos puxa-frictores, morteiros, colubrinas, missagras, lanternetas, chapuzes, cepos, boldriés, sacres, caçoletas, falconetes, lanadas, cucharras, soquetes, munhões, sotroços, trinque-bales, tira e mette-buchas e outros tarecos velhos, que nas dependencias da Praça são do exclusivo dominio e usofructo dos ratos e aranhões, formando, no seu conjuncto, collecção superior, em inutilidade, á feira da Ladra—quando eu vejo tudo isso, meu Senhor, sinto-me mais pequeno do que um feijão fradinho; mais sumido, do que um certo parasita que Vossa Excellencia, d’essas alturas em que vive, não enxerga, mas com o qual, eu, infelizmente, estou relacionado, desde que commetti a imprudencia de (com licença de Vossa Excellencia) verter aguas, detraz das portas do Meio, onde tambem o faz a soldadesca!

Vossa Excellencia deslumbra-me; offusca-me; tem para mim as proporções d’um semi-Deus; mas quer Vossa Excellencia saber, respeitabilissimo Senhor?

Ha, por ahi, gente tão nescia, tão ignorante, tão alheia ao mechanismo d’esta complicada engrenagem das instituições sociaes, que chega a perguntar (perdõe-lhe Vossa Excellencia) para que serve o Governo da Praça, alliando, ainda, á ignorancia, a grosseria de lastimar que, do que a gente paga nas decimas, do que se rouba ao trabalho honrado e aspero do lavrador e do padeiro, se desviem 500 e tantos mil reis mensaes, obra de sete contos por anno, para ter ahi (que malcreados!) n’um rasoavel sybaritismo, cinco ou seis servidores da patria, equiparados escandalosamente (dizem elles) em honras e proventos, ao official, que nos corpos atura, diariamente, o brutal trabalho do quartel, com enorme responsabilidade, com necessidade de instrucção e arriscado a, d’um momento para outro, receber ordem para expôr a caixa craneana á bala do trabuco assassino, que anda a monte, ou ao zagalote do bacamarte desordeiro e avinhado, nas grandes borgas eleitoraes.

Eu, até, já ouvi dizer, Excellentissimo Senhor, que se isso era por causa das procissões, das missas pela alma do Senhor D. Pedro IV, ou da recepção das musicas gallegas, o Governo podia muito bem contractar, para tal effeito, os _gigantones_ de Tuy, ou os _barbacenas_ da Guarda romana, porque eram de mais apparato, era outra limpeza e ficava muito mais barato.

Mas quer Vossa Excellencia saber ainda mais? Ha, até, n’esta terra de cafres, quem reponte com a posição original que Vossa Excellencia dá á sua boquilha, quando, nas ruas, se delicia com os aromas d’um bom charuto! Como se Vossa Excellencia, pelo simples facto de não ter Tosão, d’Oiro, que dá honras de principe e direitos a poder fazer a gente o que quizer, não tenha a plenissima faculdade de trazer uma coisa (a boquilha), como muito bem lhe appetecer, horisontal, ou ao dependuro, e como se esta ultima posição não fosse, realmente, a mais decente e apropriada á edade de Vossa Excellencia!

Ora diga-me Vossa Excellencia, agora que desceu commigo a estes profundos abysmos da ignorancia popular, se é, ou não, necessario applicar, de vez em quando, a estes barbaros, umas espadeiradas á Macedo, ou quatro _mimos_ com o historico chicote do Bruto, digo, do Barão do Rio Zezere...

Excellentissimo Senhor!

Eu folgo de ter encontrado pretexto, para manifestar o meu respeito e veneração a Vossa Excellencia, mas, como esta já vae longa, abrevio o muito que lhe tinha a dizer e contar.

Não se incommode Vossa Excellencia com as más linguas. Nosso Senhor Jesus Christo perdoou aos que não sabiam o que faziam. As realezas da terra, meu Senhor, são representantes legitimos da realeza dos céos. Affonso Henriques, quando em Ourique dava tapona na moirama, a folhas tantas, olhou para o céo e de lá fizeram-lhe um signal com a cruz, que queria dizer: _vences_. Constantino, quando se viu atrapalhado com os barbaros, olhou tambem para lá e o Padre Eterno fez-lhe o que a gente faz, quando está sentado na praia com o namoro, deante do futuro sogro e da rabujenta futura sogra e, não podendo dizer á rapariga: _amo-te, oh filha!_ escreve sorrateiramente essas palavras na areia, com a ponta da bengala. Pois o Padre Eterno foi-se ás areias do céo e, com a vergastinha com que tosa a canalhada miuda dos anjos e seraphins, escreveu tambem disfarçadamente:

_In hoc signo vincis._

Ainda ha mais exemplos, mas eu sou muito fraco em mnemonica.

Ora, sendo as realezas da terra representantes da realeza dos céos, e sendo Vossa Excellencia representante da nossa realeza, como muito e muito bem disse e declarou, ao annunciar o seu osculo nos chagados pés do Senhor dos Passos, _ergo_, por irrefutavel syllogismo, Vossa Excellencia é tambem representante n’esta terra, de Nosso Senhor Jesus Christo! Isto não falha.

Por conseguinte, Vossa Excellencia póde e deve perdoar, aos que não sabem o que dizem.

Eu não lhe aconselho isto com interesse directo, meu Senhor. Vossa Excellencia nada tem que me perdoar.

Eu adoro tanto as instituições da minha Patria, reputo tão necessarias e consentaneas, com as aspirações da epocha hodierna, as disposições dos regulamentos do sr. Conde de Lippe (que o diabo levou ha perto de 200 annos e podia, mesmo, ter levado logo ao nascer) das quaes, a mais branda e attenciosa é mandar varar por uma bala[17] o desgraçado, que tenha o atrevimento de—utilizando-se da unica applicação d’essas muralhas e torturado com as ancias e arrancos de urgentissima necessidade corporea, sem poder esperar um unico segundo,—baixar as calças, (permitta-me Vossa Excellencia a liberdade que vae expressa, ainda assim, em portuguez de lei, do que usava o Padre Antonio Vieira) que, se tivesse alguma importancia politica, se fosse homem de prestigio e d’estes que valem uma eleição, como os srs. Joaquim, Cardoso e seu amigo P. Cunha, Alvares d’Oliveira, Santa Clara e Agostinho que, unidos todos no mesmo partido, belliscados para a victoria do mesmo candidato, são capazes de levar á urna, não digo 6, mas, talvez, para cima de 3 votos, se fosse homem d’essas craveiras, repito, era capaz de ir a Lisboa, apresentar-me ao sr. Zé Luciano, ao Senhor Rei, se tanto fosse necessario, e reclamar energicamente, como indispensavel ao brilho das nossas instituições, ao prestigio do nosso exercito, á manutenção da nossa dignidade nacional, mais um segundo Governador, com um segundo... (não me lembro do nome... ah!) Estado Maior.

Sómente estabeleceria uma condição:—baseada no muito apreço, em que tenho os grandes homens da minha Patria; convencido da necessidade de haver aqui, na fronteira, nas barbas do hespanhol, quem dignamente possa representar o paiz—e seria: que, para fazer pár com Vossa Excellencia, não me dariam outro bis-Governador, que não fosse o grande, o saudoso, o inimitavel

Zé da Rosa!!

* * * * *

E se tal conseguisse, ai que alegria a minha, quando encontrasse Vossa Excellencia na rua de S. João, com a gravidade propria a um representante de Sua Magestade El-Rei, de braço dado ao sr. Zé da Rosa, outro representante de Sua Magestade (a Rainha, não meu Senhor?), seguidos por Sua Excellencia o Senhor Vice, com o seu chapéo de pennas de capão, e com a espada politica de Brenno, ao lado do outro Senhor Vice (quem devia ser? O sr. Roldão, por exemplo. É da arma de cavallaria...) e depois, atraz, o Senhor Baptista da Senhora do Faro com os outros Estados-Maiores; e depois ainda, atraz, muita gente, a sociedade do _Provarei_, o Fileiras, o João de Ganfey, o Senhor Martinho, que deitava _la coca_, o Capellão (o n.º 2), todos os paradas-velhas, etc., etc.

Com que arrebatamento então, meu Senhor, eu perderia as estribeiras e, mandando para o diabo a minha seriedade de Juiz de Paz, de irmão da Misericordia, de pae de filhos, como eu saltaria para a frente de _Vocellencias_ e perdido, enthusiasmado, louco, distribuindo pançadinhas e piparotes e atando nas Excellentissimas trazeiras este raboleva de ridiculo,—que é a suprema essencia de toda essa grotesca mascarada, com que gargalhada homerica, ensurdecedora, colossal, lhes não bradaria:

—Oh que rica tropa fandanga!

—Quebra esquina, minhá gente!

Com o respeito devido a um Representante de Sua Magestade El-Rei, sauda _Vocellencia_ o

_Zinão_.

IV

Uma descoberta do Dr. Charcot

Accedendo a frequentes reclamações diplomaticas do governo de Sua Magestade, o Imperador do Brazil, resolvera o Governo de Sua Magestade El-Rei de Portugal, que o primeiro fôsse auctorizado a expulsar dois cidadãos portuguezes que, segundo officialmente se asseverava, incalculavel prejuizo estavam causando ao regular movimento dos negocios commerciaes e, portanto, ao desenvolvimento material d’aquelle florescente imperio.

Não se fundamentava a necessidade da expulsão na cumplicidade em crimes politicos; attentados contra o Imperador, ou imperial familia; propaganda de ideas reaccionarias; troça ás preciosas producções poeticas de Sua Magestade; capoeirada nos chimpanzés da policia urbana, ou assuada ao Senhor Conde d’Eu.

Allegava-se, unicamente, que esses individuos, penetrando nas repartições do Estado, nos estabelecimentos commerciaes, nos grandes edificios de industria, nas escholas, nas egrejas, nos clubs, nos passeios publicos, nas chacaras e nos _xadrezes_, em qualquer parte—emfim—interrompiam as manifestações da actividade d’aquelle labôrioso povo e creanças, mulheres e homens abandonavam, immediatamente, o exercicio de qualquer mestér, fugindo espavoridos e como fustigados, por mal extranho e desconhecido.

A origem d’aquella nociva influencia, a natureza dos phenomenos que ella produzia, a complexidade dos seus effeitos, escaparam, sempre, á perspicacia dos doutos Galenos das terras do sabiá, porque as mesmas propriedades repulsivas obstavam ao demorado exame, que o caso requeria.

Annunciava, n’essa epocha, o eminente Pasteur os seus primeiros trabalhos sobre Microbiologia, que tão poderosa influencia vieram exercer na orientação das sciencias medicas; e não faltou, no estudo investigador dos clinicos d’alem-mar, a applicação das novissimas theorias, com pacientes trabalhos de microscopio, observações por analyse e por synthese e outros processos que a Chimica medica aconselha e, até, com demoradas experiencias nas fezes em acção sobre os orgãos das cinco funcções especiaes da sensibilidade, incluindo a pituitaria e a membrana, onde se ramifica o nervo de Wrisberg.

Lembrou-se alguem de classificar aquelles phenomenos, como _suggestões motrizes_ do moderno Hypnotismo; mas Charcot, Richer e Bernheim, consultados sobre o caso, oppozeram-se á diagnose, visto que elles se manifestavam sempre com a mesma intensidade, isto é, que todos os individuos soffriam egual influencia repulsiva e não se evidenciavam as differenças na sensibilidade á hypnose, que nos _sujets_ estabelece, como caracteristico, a diversidade de circumstancias physiologicas e pathologicas.

Nada se podia descobrir.

Havia no organismo dos dois individuos uma propriedade repulsiva, identica á das tremelgas, ordem dos selacios, grupo dos peixes cartilaginosos; mas desconheciam-se os elementos constitutivos d’essas propriedades e elles continuavam a exercer, em toda a parte, e a toda a hora, a sua funestissima influencia.

Uma unica circumstancia se pôde descobrir, graças á perspicacia do mais reputado Esculapio da Tijuca, a quem se deve a preciosa descoberta da cataplasma de linhaça e foi: que diminuia, consideravelmente, a intensidade d’aquelles phenomenos, quando se isolavam os dois individuos, ou quando permaneciam incommunicaveis.

Utilizando-se d’esta descoberta, o Governo do Imperador, attendendo aos laços de sangue e affecto, que unem os dois paizes, resolveu exportar a praga em epocha e vapor differentes. Assim se fez, com effeito.

O governo portuguez, assustado com o flagello, que subitamente cahia no solo da Patria, reuniu immediatamente a Junta de Saude e, por indicação d’esta, foram os dois compatriotas enviados a Pariz—onde, n’outras espheras e com outros horisontes se dilata a intelligencia humana—para lá serem submettidos á analyse dos grandes Mestres da Sciencia.

Após demorada observação e attento exame, o eminente Charcot, encontrou, emfim, a resolução do problema, que largamente foi demonstrada no _Boletim da Academia de Medicina de Pariz_, (mez de novembro de 1876) e, com prodigioso interesse, escutada por selecto auditorio, na mesma Academia, em sessão extraordinaria de 27 de dezembro, do mesmo anno.

Não tendo aqui, presente, a lucida exposição do eminente sabio, limito-me a reproduzir, e certamente d’uma maneira deficiente e incompleta—attendendo á escassez dos meus conhecimentos scientificos—a theoria, em que Charcot baseou a explicação do estranho phenomeno.

* * * * *

V. Ex.ª sabe, como a moderna Sciencia explica, na Acustica, a producção e a propagação do som.

«O som é o resultado d’um movimento vibratorio, communicado á materia ponderavel»—eis a base da theoria, hoje adoptada e conhecida por «theoria das ondulações».

Conhece, tambem, o mechanismo da voz humana. A voz provem da acção do ar nas cordas vocaes. O ar, que sahe dos pulmões, produz, n’essas cordas, vibrações, mais ou menos rapidas, que transmittindo-se ás paredes da larynge se tornam sonoras, e que, depois, a acção combinada da lingua, das maxillas e dos labios, altera modifica e articula.

Conhecido é, tambem, o mechanismo da audição. As vibrações executadas pelas cordas e transmittidas, em ondas, ao ar exterior, chegam-nos ao pavilhão do ouvido e vêm, pelo tubo auditivo, actuar na membrana do tympano. Seguem, depois, até ao ouvido medio, no ar n’elle contido, e, pela cadeia do estribo, do martello, da bigorna e do osso lenticular, reproduzem-se, ainda, nas membranas das janellas redonda e oval, communicam-se ao liquido, que existe no ouvido interno e d’alli, pelos filetes do nervo acustico, ao cerebro.[18]

A potencia das vibrações, o deslocamento, mais ou menos violento, das ondas sonoras depende, portanto, alem d’outras circumstancias, da força com que os pulmões fornecem o ar, e da maior ou menor vibratilidade das cordas vocaes. Por isso, vêmos individuos com voz forte e penetrante, como o sr. Barros, e outros, com voz debil e sumida, como o sr. Nunes de Azevedo, que difficilmente se percebe.

Ora succedia que, por uma disposição especial dos pulmões, da larynge e das cordas vocaes, aquella força expulsiva do ar e a vibratilidade das cordas, existiam nos dois individuos em grau extraordinario e ainda desconhecido para os mais eminentes physiologistas. D’essa disposição especial resultava, tambem, que a voz, já potente e forte, obtinha, ainda, consideravel augmento de intensidade com a reflexão nas paredes da larynge, attingindo o que em Acustica se denomina _resonancia_.

Quando as vozes não encontravam obstaculo, pouco se conhecia esse augmento de intensidade, porque, então, se perdiam na atmosphera; mas, se as ondas deslocadas por cada uma se encontravam, era tal a violencia do choque e das vibrações, d’elle provenientes, que só a poderemos comparar, nos grandes phenomenos da Natureza, á rapidez e violencia das ondas do Oceano quando, açoitadas por furioso vendaval, avançam, chocam-se, equilibram-se com medonha expansão de força, recuam para formar novo salto, até que uma perde a força resistente, e a outra vence, esmigalhando, com espantoso ruido, tudo o que se oppõe á sua passagem.

Este effeito destruidor soffriam todas as peças dos apparelhos auditivos, que o circulo da primeira projecção podia abranger.

As membranas do tympano dilatavam-se n’uma dolorosa expansibilidade; o martello batia desesperadamente na bigorna com o mesmo furor, com que Mestre Borralho batia a sola, quando não era director dos Presidios civis; o estribo andava aos saltos, como anda em corcel fogoso, quando, no meio da batalha, entre o rugir da artilheria e o sibilar das balas, perde o cavalleiro e parte, desvairado e furioso.

Na trompa de Eustachio desencadeava-se um verdadeiro cyclone.

Nem as trombetas de Josaphat, n’esse terrivel dia do Juizo final, poderão egualar o infernal ruido, que supportavam os apparelhos auditivos.

Depois, para aggravar o flagello, dotára Deus os dois individos com uma extraordinaria loquacidade, e constante verborrhea que, de dia e de noite, lhes agitavam nervosamente os labios para questionarem, discutirem, argumentarem sobre tudo e sobre todos, em portuguez, em francez, em latim, em allemão, em quantas linguas vieram de Babel.

Era sempre de funestos resultados, de dolorosas consequencias a sua presença, e por isso, homens, mulheres e creanças fugiam, prestes, ao sentil-os, interrompendo todas as manifestações da sua actividade e todo o exercicio dos seus mestéres.

Desculpavel fôra, pois, o proceder do Governo brazileiro, expulsando os nossos compatriotas.

* * * * *

Ora aqui tem V. Ex.ª, sem exaggero, sem alterações da verdade (que, por ahi, n’este assumpto, tanto tem sido alterada) subordinada a rigorosa demonstração scientifica—a razão, porque regressaram a esta terra, e se respeitam, e se evitam, a ponto de viverem separados pelas grossas muralhas da Praça, os nossos amigos:

Leopoldo Gomes e Abilio Lucas.

* * * * *

Evitam-se e respeitam-se—disse eu, e demonstro.

Um vive dentro, outro fóra. Um foi a Paris em 75; outro em 79. Quando um é da Camara, o outro é da Commissão do Recenseamento. Abilio é socio da Assemblea e frequenta-a; Leopoldo despede-se. Entra novamente Leopoldo; Abilio deixa de frequentar aquella casa. Leopoldo conta a historia dos relogios; Abilio sorri maliciosamente e insinua a duvida; explica Abilio o remedio, que descobrira o ilheu, para salvar a _senhora mãe_; Leopoldo mastiga em secco e pisca o ôlho para os circumstantes. Um faz-se agricultor e trata de terras no Arraial, em Picões, na Esplanada; o outro faz-se politico e «_provarei_». Entra o segundo na Politica activa; desvia-se o primeiro, e trata de terras em Gondomil—polo opposto. Um, gosta do _Capellão_ e _fala-lhe_ a miudo, como homem temente a Deus; outro, não se dá com esse _ministro do Senhor_ e rosna-se, até, que tem as suas questões com elle. Um, move-se, agita-se, apparece de manhã na villa, ao meio dia em Monsão, á tarde em Gandra e sempre a pé; outro, limita o exercicio dos seus membros locomotores á loja do sr. José Lopes, ou do sr. José Seixas.

É evidente, palpavel, esta incompatibilidade, esta heterogeneidade de individualidades, que se origina na intima convicção, que elles teem da sua influencia destruidora e no accordo, ou _modus-vivendi_, que, para mutua conveniencia, secretamente estipularam, ao fixarem a residencia na terra, em que nasceram.

* * * * *

Quando, ha annos, estive em Paris, no regresso da minha viagem de estudo pelo Oriente—á Mongolia, ao Turkestan, a Niphon, a King-Ki-Tao e outros centros da Asia—onde fui recolher materiaes e elementos comparativos de civilização, com os da minha terra, para a composição d’este livro, encontrei-me, na Academia de Medicina de Paris, com o sr. Zagallo, que alli estudava, commissionado pela Excellentissima Camara d’esta villa, a organisação do serviço de Hygiene publica, indicado, por aquella faculdade, á municipalidade parisiense;—missão, essa, que Sua Excellencia, tão brilhantemente desempenhou, e que tão beneficos resultados produziu para esta povoação, como se prova com esse elegante, commodo e original _water-closet_ do jardim publico.

Tive, n’essa occasião, a honra de ser recebido pelo eminente dr. Charcot.

Falando no meu paiz, alludiu o illustre clinico aos dois portuguezes, que em 74 examinára, por recommendação do Governo; e foi grande a sua admiração, quando lhe affirmei, que com elles vivia em Valença, e que, ha dez annos, permaneciam na mesma localidade, se bem que, nas condições especiaes de isolamento, que já referi.

Mas, a minha asserção tocou para Charcot as raias do inverosimil, quando, á supposição, que me apresentou, da existencia inevitavel de graves doenças e perturbações no apparelho auditivo dos meus conterraneos, sujeitos á convivencia e aos perigosos effeitos da presença e communicabilidade d’aquelles amigos, eu lhe affiancei que não eram essas enfermidades, as que mais avultavam nas estatisticas da secção de Hygiene municipal.

Charcot fazia bem em duvidar. Eu faltei á verdade, e a isso me levou a amizade, que a esses Cavalheiros me liga, e a repugnancia, que tive, em tornar odiosa, para o eminente sabio, a existencia de dois patricios, que tanto prezo, acato e... respeito.

Mas V. Ex.ª sabe o que por cá vae...

V

Perfis

Abilio

Examinando-os, apreciando-os isoladamente, reconheço os valiosos serviços que os meus amigos—Abilio e Leopoldo—teem prestado ao desenvolvimento material e intellectual da nossa terra; e não se esquiva a minha consciencia a declarar, que são uteis e, mesmo, indispensaveis, entre nós, as suas individualidades.

Abilio entrou, por um generosissimo impulso de gratidão, na Politica activa de Valença.

Accusam-n’o de violento, de precipitado, de faccioso, ou, como diz o povo, de... petroleiro. Eu classifico todo o seu proceder politico, como o de um innocente noviço, ou ingenuo collegial.

É um homem, meus senhores, que trabalhando ha seis annos em eleições, n’esta terra, independente em Politica, como se sabe, tem sustentado a creancice de seguir um só partido e respeitar uma só opinião—a dos regeneradores!!!

Ora isto, em Valença, se não indica falta de senso, revela excesso de ingenuidade e para esta ultima hypothese me inclino, porque não admitto que, para umas manifestações da mentalidade humana, haja falta de senso e isso se não dê com as outras.

Abilio é, pois, um ingenuo politico e—o que mais é—um ingenuo faccioso. Referindo-se á administração progressista, tem a eloquencia de Danton, a arrebatadora oratoria de Robespierre, a impetuosa dialectica de Cassagnac.

É violento, incisivo, caustico.

N’aquellas medonhas explosões de colera, fere, trucida, chacina, esposteja nas hordas contrarias, como S. Thiago na moirama.

Chega a rubro a temperatura da sua palavra.

«É preciso, meus senhores, mostrar ao povo os seus direitos, para que elle saiba expulsar, a chicote, das cadeiras do poder e _de tudo aquillo_, esses bandidos, sem eira nem beira, que estão delapidando os dinheiros publicos e _tudo aquillo_, que representa o trabalho honrado do povo, o suor do seu rosto, _tudo aquillo_, que ganha para o sustento dos seus e de _tudo aquillo_, que lhe pertence.