Part 3
Nunca pude comprehender o que Justininho, e outros sectarios da sua eschola philosophica, querem dizer na sua—n’uma terra, que não acceitou o legado do Conde de Ferreira, em que a Politica é o que sabemos, e em que os jovens engraçados, que hoje possue, se riem franca e desassombradamente, quando, nos bailes da Assemblea, uma senhora tem a infelicidade de cahir, ou quando, nos bailes de Tuy, onde são obsequiosamente acolhidos, mettem os cotovellos á cara dos infelizes pares, que de perto os seguem.[9]
São tambem opiniões... e feitios.
Ainda hei-de interrogar, sobre este ponto, os srs. Abreu e Oliveira, que são os homens que, por aqui, vejo mais nos casos de fallar de tudo e de todos, com auctoridade e competencia. Esses senhores devem saber muitas coisas e todas a fundo. Basta observar aquella constante concentração de espirito, e completa indifferença, com que encaram este mundo.
São cerebros, que, indubitavelmente, trabalham na resolução de grandes problemas sociaes.
Lembram-me tanto Mr. Prudhomme...
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Justininho tinha muitos diplomas de Socio Honorario e de dito benemerito; tinha pennas d’oiro e de prata, etc. Era um perfeito rapaz de sala; recitava poesias; tinha album para ellas; conhecia uma infinidade de marcas no jogo do Senhor Abbade; e, para os rapazes, tinha uma grande habilidade: assobiava magistralmente.
Atacando um _spartito_ de Mozart, de Verdi, de Gounod, ou a cadencia das valsas de Strauss, de Metra, ou de Waldteufel, aquelle assobio tinha a malleabilidade d’um rouxinol, a limpidez das notas da Patti, o crystallino da escala de Gayarre, ou do Masini. Quando, em noites de luar, Justininho passava na rua de S. João, todas as janellas se abriam para dar passagem, até aos leitos conjugaes, ás ondas sonoras, deslocadas pelo assobio.
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Ora, como V. Ex.ª deve ter verificado, não lhe faltavam condições para inspirar sympathia e, certamente, vae ficar admirado, quando lhe disser, que havia quem embirrasse com elle!
Era o sr. Coronel Almeida. Chamou-lhe, por ironia, _importante_ cá da terra.
Ignoro as razões, que originaram a antipathia de sua Ex.ª
Tambem por cá havia muita gente, que embirrava com o sr. Coronel. O Isidoro diz que elle era um homem muito fino; mas o Agostinho torce o nariz e Agostinho é homem, que se não engana, que é consultado pelas pessoas mais importantes da nossa terra, homem que sabe o que diz, e que não dá _ponto sem nó_.
Seria bom, ou mau, como quizerem. O que eu digo, é que era muito feio; mais feio ainda, do que o sr. dr. Salgado!
Devo ao sr. Coronel um grande serviço e um grande desgosto.
Conto o primeiro:
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Eu tinha ido ouvir um sermão do Padre Capellão, em que sua Reverendissima, desviando-se, completamente, no estylo, na fórma, na sublimidade das ideas, na concepção das imagens, no arrojado da Phantasia, da vulgar Oratoria do Palmeirão e quejandos, me descreveu, d’uma fórma completamente original, intuitiva e concludente, em face da moderna Sciencia, a maneira como o animal homem appareceu n’este mundo.
Foi no Eden. Eva tinha ido aos grillos, mas estes, sahindo rebeldes á _palheira_ e, como ella não conhecia ainda o outro meio _natural_ de os fazer abandonar a toca, andou por montes e valles, cançou-se, e... adormeceu.
Veiu então Nosso Senhor, tirou-lhe uma costella, bufou-lhe e sahiu, já prompto e acabado, o nosso primeiro Pae.
Ora, isto satisfez completamente o meu espirito; dissipou todas as duvidas, porque é, realmente, uma das mais... respeitaveis e maravilhosas concepções dos livros sagrados.
Mas, passado pouco tempo, soube eu que, lá fóra, andavam ás turras differentes sabios por causa de novas theorias de evolução, selecção natural, transformismo, etc., sustentadas por Darwin e Lamark e combatidas por Linneu e Cuvier.
Alvoroçou-se a minha curiosidade e tratei de estudar a questão, com a attenção devida á sua importancia.
Durante muito tempo, nunca tirei o caso a limpo. Se passava por o sr. José Luiz,[10] dizia com os meus botões: vou com Darwin; se passava por o sr. Velloso dizia: vou com Cuvier.
Assim estive muito tempo, hesitando, e sem saber se, realmente, o meu coccyx foi sempre o extremo da columna vertebral, ou se em tempos remotos, esteve ligado a algum appendice, que hoje tem um nome muito sympathico ao sr. Marquez de Vallada.
Chegou o sr. Coronel a Valença e entrou a verdade no meu espirito. Fez-se a luz! Venceu Darwin.
Indubitavelmente, inquestionavelmente, o sr. Almeida não teve a mesma origem, que teve o sr. Velloso; a não ser, que se possa admittir uma hypothese, mas com essa nada tenho, porque não entra no meu programma. É questão de portas a dentro:—que houvesse troca nas vias da expedição...
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Agora conto o desgosto:
Já lá vão quinze annos! Minha mulher andava, com licença de V. Ex.ª, no seu estado interessante.
Uma noite, para lhe combater a insomnia, li-lhe uma historia do Egypto, em que figurava o grande Sesostris, que morreu, como se sabe, ha perto de 4:000 annos e de que existe a mumia n’um museu qualquer.
Havia, n’essa historia, mortes, egypcios de barriga furada, pharaós com as tripas de fóra, creanças desventradas, velhos postejados—uma matança de arrepiar carnes e cabellos.
O livro tinha gravuras e n’uma pagina, via-se o grande Sesostris mumificado por aquelles processos, ainda hoje ignorados, dos antigos egypcios.
Minha mulher não gostou e affligiu-se. Fechei o livro e abri a porta, para ir cumprir uma necessidade urgente.
N’isto, passa na rua o sr. Coronel, e logo que minha mulher o vê, desata a berrar:
—Ai o Sesostris! Ai o Sesostris!
Teve uma syncope e, depois, dôres violentas.
D’alli a duas horas a sr.ª Maria do Hospital aproximava-se de mim e, com aquella amabilidade, delicadeza e fino trato que, infelizmente, lhe conhecemos, dizia-me estas terriveis e significativas palavras:
—Senhor, nada de affligir, porque a _fabrica_ ainda cá fica; mas esta... deu-a para fóra!
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Comprehendi. E no auge da minha dôr, para explosão da minha cólera, só pude exclamar:
Raios partam o Sesostris!
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Deixemos coisas tristes...
Eu fallei no Velloso...
Este Candido Velloso, com os seus olhos negros, com o seu collete branco, o seu collar decotado, a sua perna bem lançada e elegante, o seu pequenino bigode _á mosqueteiro_, e com o oiro do seu uniforme, é o terror dos Paes de familia d’esta região peninsular.
João, é Candido e candido; meigo, carinhoso, delicado, para o bello sexo. Tem a sensibilidade d’um bardo; a alma sonhadora d’um menestrel; o espirito cavalheiresco d’um paladino; a pureza immaculada d’um Abeillard; o lyrismo d’um Romeu; a altivez d’um Quichote—todos os attractivos, emfim, d’um João com Dom e ás direitas.
Cinco seculos antes, e Velloso seria um dos onze companheiros de Magriço, n’aquella cavalheiresca aventura da côrte ingleza.
Apparece em toda a parte, onde ha senhoras. Corteja, sorri, offerece os seus serviços e conta coisas, que entretêm.
A sua organisação affectiva é poderosissima. Com o amôr, as contracções dos ventriculos, para a diastole e para a systole, realisam-se com uma força equivalente a 750 kilogrammetros por segundo.
O seu coração é um enorme _caravanserail_. Tem cem auriculas e cem ventriculos, com a capacidade de 64 metros cubicos cada um. Os amôres cabem lá dentro vestidos, calçados e com guarda-chuva aberto.
Cada um tem o seu quarto numerado. Ao levantar-se, Velloso, passa em revista todos os seus affectos e escolhe para o dia.
Não revela preferencias, para não originar baralhas. Ás vezes desapparece da circulação, porque os Papás valencianos e tudenses, aterrados, inquietos, vão ter com o sr. Silva Pereira e exigem-lhe a deportação do incendiario.
Lá vae para Castro Laboreiro. Quando é necessario por cá, basta pronunciar baixinho, esta palavra:—baile. No aureo tempo, em que João Morães era enthusiasta pelas danças e promovia aquellas _apatuscadas reuniões-familiares_, em que a gente ía á Assemblêa, para apprender a fazer meia, ou para ajudar a dobar maçarocas e novelos ás senhoras—acontecia ás vezes o seguinte:
João Morães lembrava-se d’um baile. Só no seu cerebro se definia essa idea. Matutava sobre o caso. Fechava-se no gabinete e, concentrando todas as suas faculdades, principiava o orçamento.
Calculava e annotava:
=Chá= (póde ser comprado aos homens do papel, que o vendem a 800, o kilo) $372
=Assucar= (Metade do _pilé_ e metade do mascavado) $723
=Pão para fatias= (Cada peça dá 20, cada _cornucho_ dá 12) 1$207
=Manteiga para as tostas= (Vende-a o Coisa a 200, o kilo, com ranço; póde ser misturada) $247
=Carqueja e lumes de pau= $015
=Agua de Colonia= para o _toilette_ das damas (1 quartilho, de Tuy) $060
=Pó d’arroz= (e farinha) $030
=Aluguel do= _Panorama_, ao Albino $120
=Illuminação= (nas escadas póde ser de sebo) 1$473
=Contracto= com 3 cavalheiros para cearem em casa 3$900
=Roscas de Tuy= para os quatrocentos meninos e meninas, que costumam vir aos bailes 12$747
=Gratificação ás amas=, que tomem conta dos que ainda mamem 1$500
=Piões e faniqueiras= para os mais velhinhos se entreterem no salão $140
=Musica de Ganfey= para tocar á porta o hymno real, quando entrar o Representante do Rei, Nosso Senhor 6$000
=Gratificação= a 4 artilheiros para, armados, guardarem os taboleiros, na passagem do corredor 2$000
=Brinde= ao Aurelio para recitar uma poesia tragica: valor de $700
=Idem= ao Roldão para marcar as quadrilhas: valor de $720
=Gratificação= a 6 creados $300
Total 30 mil e tanto. Por cabeça—tanto. João Morães verificava. Tirava a prova dos nove. N’isto, batiam discretamente á porta. João abria e cahia-lhe o Velloso nos braços, offegante, pallido. Vinha do Castro Laboreiro a pé, a cavallo, no comboyo.
—_Sei que projectas um baile. Ahi tens a minha quota. Risca; e olha lá—oh menino—vê se arranjas isso depressa. Passam-se tão bem aquellas horas..._
Este João deve ficar na terra. Deve ser expropriado por utilidade publica. Barcellos, que se arranje lá, como quizer. O Velloso Candido é que para lá não volta. _D. Joões_ temos muitos por cá; agora, candidos, ha só um, que é elle; e esses, é que se apreciam, porque não fazem mal.
Velloso Candido! Trata de te matrimoniar, filho.
Oh diabo!... E a Mé...?
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Em Politica, Justininho foi sempre, como eu—um desgraçado. O mais que podia conseguir, (e n’isso levou-me a palma) era um convite para fazer parte das mesas eleitoraes. Pois arranjou popularidade nas aldeias. Os lavradores respeitavam-n’o e affirmavam, que tinha _lume_ no ôlho.
Em leis do Real d’agua e da Contribuição do Registro era um Salomão.
Ahi vae um exemplo:
Os guardas do fisco trouxeram-lhe, preso, um camponio, que tentára introduzir na villa, sem direitos, um garrafão com meio almude de vinho.
Perguntou o desgraçado quanto tinha a pagar e, aterrado com a multa e tantos por cento, nas barbas honradas da auctoridade, levou o garrafão á bocca e despejou-o d’um trago.
Nada se podia fazer, porque o Regulamento não previne esse caso.
Sahiu o homem, mas ao virar a primeira esquina, sentindo-se afflicto, levou as mãos á bocca e despejou o vinho.
Justininho vê isso e manda-o novamente prender. Intima-o a pagar direitos e multas correspondentes.
—Mas eu bebi o vinho, senhor!
—Bebeu, mas deixou-o ficar na villa, dentro de barreiras. Alli está, introduzido sem pagamento de direitos. Art. 1007.º do Regulamento de 6 de Maio de 1884. Pague!
—Mas eu _esgumitei-o_[11], senhor!
—O dito Regulamento, no seu paragrapho de isenções, não lembra esse caso. Pague!
E pagou, que não houve volta a dar-lhe. Nem sete doutores o salvavam.
* * * * *
Ora aqui está, o que pude _apanhar_ ao Justininho d’outros tempos. Hoje está homem sério, como eu; já nem escreve nas gazetas, o que é realmente para lastimar, porque nem a gente sabe quantos robustos meninos, por ahi nascem.
Justininho,
boas noites.
III
Carta a Sua Excellencia, o sr. Governador... de Paysandu
Senhor!
Tenho a honra de me apresentar a V. Ex.ª
Sou o Zinão.
Quarenta annos; casado, e com bom comportamento moral, civil e religioso.
Nunca tive contas com o Borralho, nem com o Assiz dos Algarves, nem com o Julinho.
Sou de muito bom genio; depois que vi as caras feias, que fazem os srs. Barros e João Monteiro, quando se zangam, abracei immediatamente as doutrinas philosophicas da eschola optimista, e digo com Leibnitz: «Tudo vae bem n’este mundo, que é o melhor possivel.»
Sou irmão da Misericordia e approvei a admissão das irmãs de Caridade, porque em coisas de religião sou muito temente a Deus, como o sr. José Narciso. Tenho bulla, porque se a não tivesse, quero dizer, se a não pagasse, diz a Santa Madre Egreja, que era peccado comer carne.
Vou á missa e á desobriga; além d’isso, sendo amigo intimo do sr. Baptista e, como affirma o dictado, os amigos dos meus amigos, meus amigos são, tambem sou das relações intimas da Senhora do Faro, que tem tomado chá na casa d’elle, e com quem este senhor se trata por tu, jogando, nas noites de inverno, a bisca e o 31 de bocca.
Tambem sou militar, porque pertenço á terceira reserva.
Respeito a mulher do meu proximo. Sou economico; tenho chapéos ainda mais antigos, que os do sr. Polycarpo.
Como portuguez, amo a minha patria; odeio os ibericos, como o sr. João Ignacio.
Em Politica sou legitimista, como o sr. Santa Clara, porque ninguem me tira da cabeça, que estes reinos pertencem ao sr. D. Miguel e a mais ninguem.
Tenho sido, por vezes, Juiz de Paz e, se na minha terra me não guindei, ainda, ás alturas a que chegaram os srs. Joaquim, que se carteia com o Ministro do Reino, ou o sr. Illydio Dias, que com a sua Bibliotheco-mania telegrapha ao Rei, como amigo velho, quem viver verá, que talvez consiga roubar-lhes o pennacho.
Ora aqui está a minha folha corrida; e por ella já Vossa Excellencia vê, que sou homem sério e que, se não moro na rua de S. João, podia muito bem lá morar.
Excellentissimo Senhor!
Dizem-me que Vossa Excellencia está prestes a deixar-nos, para ir fulgurar na brilhante constellação dos nossos generaes; e não quero que isso succeda, sem apresentar a Vossa Excellencia a homenagem sincera do meu respeito e enthusiastica veneração, porque considero Vossa Excellencia, como um dos melhores Governadores, a quem, para felicidade d’estes povos e d’estes reinos, Sua Magestade tem havido por bem confiar o _governo_ d’esta Praça.
Na pleiade de homens illustres que, ha doze annos para cá, teem _governado_ Valença, Vossa Excellencia destaca-se pelo seu senso, illustração, excessiva modestia e desprendimento das glorias do mundo, que tão tentadoras e offuscantes são, quando, após annos de lucta, de vigilias, de laboriosas lucubrações de espirito, de penosissimo labutar das funcções cerebraes com senos, cosenos, raizes quadradas de _a_ e ditas cubicas de _b_, chega a gente a alcandorar-se nos inaccessiveis pinaculos d’uma tão elevada posição social.
Os dois illustres antecessores, que precederam Vossa Excellencia, eram e são muito boas pessoas; mas alargavam demasiadamente a esphera das dependencias da Praça, de fórma que faziam incluir no seu Estado-maior uma certa pessoa, clara já, talvez, á perspicacia de Vossa Excellencia—pessoa que, até alli, tinha a seu cargo o caridoso e humanitario mistér de desobrigar pessoas serias, como eu, Excellentissimo Senhor, e que, depois da chegada de Suas Excellencias, se viram na dura necessidade de, ou desviar para outra applicação a sua potencia vital, como, por exemplo, para o estudo de construcções, principiando com a rudimentar disposição das traves nos tectos, ou a curtir... as suas maguas pelas muralhas, entregando, assim, o organismo á terrivel atonia d’essa perigosa enfermidade, que a todos ataca na puberdade. (Vossa Excellencia tambem devia dar o seu contingente...)
Ora, o tal monopolio, Excellentissimo Senhor, tornou-se muito funesto á povoação. Foi, até, na epocha d’elle, e por causa d’elle, que aconteceu aquella grande desgraça ao sr. Abilio Araujo...
Eu sou muito amigo de Vossa Excellencia e Vossa Excellencia tambem é meu amigo. Sou d’aquelles que, no dia do Anno Novo, apanham o seu quinhão nas _boas festas_ que Vossa Excellencia, lá das alturas, se digna dar, como os antigos senhores feudaes, á burguezada e aos paradas-velhas, cá da terra.
Depois, venero Vossa Excellencia, porque é um homem energico, que tem, como o povo diz (e realmente tem) cabellinhos na venta (com o devido respeito).
Aquella felicissima resposta, que Vossa Excellencia deu ao Padre Magalhães, quando elle foi pedir para a Semana Santa com o innocente sr. Joaquim e com o ingenuo Abbade das Gandras, foi fulminante de espirito; foi á Pombal, á Richelieu, á Pitt, á Bismarck, á Duque d’Olivares; teve a potencia explosiva d’uma bomba á Orsini, ou d’um petardo nihilista, preparado chimicamente, com os mais poderosos elementos endothermicos.
Disse-se, por ahi, que Vossa Excellencia procedera mal; porque, se queria dar carambola ao _Noticioso,_ que lhe chamára General não sei de que, não devia escolher para bola vermelha um homem que ia de preto, que tinha entrado na sua sala de visitas, onde, até a pretalhada do Bonga, que pouco sabe de hospitalidade, recebe e trata bem a gente.
Accusaram Vossa Excellencia de ter faltado, n’essa occasião, aos mais rudimentares preceitos da delicadeza e até se asseverou, fazendo justiça ao caracter de Vossa Excellencia, que a tal resposta foi soprada ao ouvido, por Sua Excellencia, o Senhor Vice.
Eu não sou d’essa opinião. Vossa Excellencia respondeu e respondeu muito bem. N’isto de militanças praceiras, não ha attenções, nem hospitalidades, nem sala de visitas, ha... o regulamento do Conde de Lippe! Quem o não acatar... leva a sua conta, e assim é que deve ser.
O Padre devia ficar ainda mais pequeno do que é, mas Vossa Excellencia tambem escapou de boa! Se elle tem ao lado o Sant’Anna, lá do Porto, Vossa Excellencia bem podia gritar por Sua Excellencia, o Senhor Vice...
Então o caso era serio!
* * * * *
Depois, quem não ha-de respeitar Vossa Excellencia, com a sua variadissima illustração?
Nunca me hei-de esquecer d’aquelle esplendido discurso, que Vossa Excellencia, de improviso, pronunciou na Assemblea, em 20 de janeiro de 1887, quando tomou conta da Presidencia. Sei-o de cór; e tão profunda foi a impressão, que causou no meu espirito, que até n’elle ficaram gravados os ápartes e as interrupções.
Se Vossa Excellencia dá licença, eu repito alguns periodos. Os ápartes, para falar a verdade, são ainda para mim um tanto enigmaticos, mas deve haver por ahi, quem os possa explicar a Vossa Excellencia.
Ahi vae uma tirada:[12]
«... As prestimosas agremiações, como esta, com que as Sociedades modernas procuram deleitar e amenizar os espiritos, após as laboriosissimas horas da lucta e contrariedades da vida, nascem, crescem e desenvolvem-se, como essas enormes, vas- (_o sr. capitão Marques da Costa:—Vaz? É o amigo Lopo? Então appoiado!_) tas e florescentes ilhas do Atlantico e Pacifico, formadas pela organisação rudimentar das algas marinhas e de myriadas de seres microscopicos, da familia dos polypos, classe dos coelenterados, grande grupo dos radiados, ou zoophitos. (_Os srs. Roldão, Polycarpo Monteiro, Zagallo e outros cavalheiros versados em sciencias naturaes:—muito bem!_)
«Da Natureza, meus senhores, deliciam-nos as suaves fragancias das flores: a modestia da violeta; a pureza immaculada do lirio; o murmurar dos bosques, os seios tumidos (_o sr. José Lopes, da Principal:—appoiado!_) da donzella, os alvores da madrugada e o canto das avesinhas. (_Os srs. Alberto Marques, Gaspar Durães, Justino Guerra e outros poetas e prosadores da estafada eschola romantica:—muito bem!_)
«Pois na vida social, as horas fugitivas, que aqui deslizam em encantador e aprazivel convivio, com os Cavalheiros de fino trato (_o sr. Verissimo de Morães:—appoiado!_) e com as amaveis, airosas e donairosas e gentilissimas damas d’esta formidolosa Praça (_os srs. Justino Guerra, Eugenio Martins e Soares Romeu, interessantes collaboradores do interessantissimo «Mensageiro das salas»:—appoiado!_) ou com as encantadoras hijas da hidalga y noble Espãna (_o sr. D. Ramon:—Ká! Muy bien! Maunifico! Precioso. Ká! Seño Gobernador: Viva la gracia! Ká!_) bellas, como uma virgem de Murillo e castas, como a esposa de Jacob, de que me não recorda agora o nome (_diversas pessoas serias:—appoiado!_) quando as cingimos em suave enleio, no vertiginoso redemoinhar da valsa (_o sr. Salazar Muscoso: muitobemmuitobemmuitobem!_)[13] ou quando as brindamos com preciosas iguarias e delicados vinhos _(os srs. C. Oliveira, Verissimo de Morães, um Cavalheiro de Tuy e outro de Monsão, que não tive a honra de conhecer:—appoiado!_) essas horas, repito, representam em a nossa vida social aquellas alegrias da Natureza!
«Não ter alma para sentir isto, meus senhores, como muito bem disse o nosso grande ex-historiador[14] Alexandre Herculano, é proprio d’um ser doentio; é, como vulgarmente se diz, proprio de gente pequena. (_Protestos ruidosos dos srs. dr. Ladislau, Alvaro Garção e P. Magalhães.—O sr. dr. Pestana:—peço a palavra para explicações._)
Trabalhar, pois, para esta Sociedade é uma acção de elevado patriotismo; (_o sr. José Lopes, da Principal:—muito bem!_) é uma acção de larga influencia regeneradora (_protestos dos srs. Alvares d’Oliveira, P. Cunha e Agostinho_) para os nossos costumes; é um symptoma da benefica evolução progressista; _(protestos dos srs. Appollinario, Camisão e do dito sr. Agostinho)_ é, emfim, como ainda ha pouco me disse, e disse muito bem, o sr. Capellão (_o sr. Leopoldo Gomes:—qual d’elles? Então Vossa Excellencia também gasta? Por isso eu estive á espera!..._) que aqui me ouve, uma missão altamente honrosa e humanitaria!
«Por isso, meus senhores, unamos os nossos esforços e como os polypos e as algas.................... as algas.... .................»
Que Vossa Excellencia me perdõe o que vou dizer, mas... perdi o fio ao discurso e o melhor é ficar por aqui, porque, n’estas questões de Historia, não quero _metter_ de minha casa.
_Verba volant, scripta manent..._[15]
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Eu atrapalho-me sempre, quando falo de Vossa Excellencia, que representa para mim o que ha de mais alto, mais nobre e augusto, nas elevadas jerarchias e coisas serias da minha terra.
Quando encontro Sua Excellencia nas ruas da vizinha cidade de Tuy, pisando com arrogancia e altivez, genuinamente portuguezas, o solo d’aquelles odiosos Filippes, seguido automaticamente, á distancia regulamentar, por alentado e escolhido artilheiro, como estabelece o regulamento de Sua Excellencia, o Senhor Conde de Lippe, eu tremo de respeito e envergonho-me de mim mesmo—pobre e mesquinho verme da terra.