Part 2
Mas, como estava dizendo, eu turrava com somno, á espera do chá.
De repente, levanta-se o Zéca e diz:
Oh Papá! Que é, que é Que, pela calada, Gosta de dar O Marquez de Vallada?
—_Cou_,[3] diz o Toneca, que acabava de tirar no Diccionario a palavra pescoço. (Só o soube depois).
Levantei-me indignado, enfurecido com aquelle enorme desacato á Moral e á Decencia, praticado nas minhas barbas!
A decifração da charada foi immediata e violenta para os rapazes: duas valentes bofetadas!
Indignação geral da familia. Minha sogra levanta-se irada e chama-me tyranno!
Retorqui-lhe que aquillo era escandaloso, antimoral e era uma falta de respeito á gente graduada, porque o sr. Marquez era um Marquez, estava no seu direito de dar o que quizesse, e ninguem tinha que lá metter o nariz.
Augmentou o barulho, porque os rapazes, defendidos pela mãe e pela avó, cada vez berravam mais.
Levantou-se minha mulher, chamou-os, e lá foi tudo a chorar.
No dia seguinte, minha sogra, fiel ás tradições, quiz requerer o divorcio. Andei amuado oito dias. Data, até, d’essa occasião, o meu reconhecimento á Isabelinha, creada de sala...
Só quando fiz as pazes com minha mulher, é que conheci a origem da resposta do Zéca e a coincidencia do _significado_.
O Toneca, como é mais agarotado, lêra o _Pimpão_ e appetecêra-lhe tambem, sem saber o que dizia, _metter_ a sua farpinha no senhor Marquez.
Mas, tudo isto não teria succedido, se não fosse o diabo do folhetim e se o Justininho não tivesse a mania de chroniqueiro de saias.
Veja V. Ex.ª, como se perturba a paz d’um lar e o socego d’uma familia honesta!
* * * * *
Mas, effectivamente, o Justininho, para charadas, era d’uma perspicacia sibyllina. Como elle, só a Sociedade charadista dos Terriveis de Villa Real.
A gente reunia-se á noite na Assemblea. O Club, n’esse tempo, estava ainda no embryão das sociedades pacatas, porque o sr. dr. Pacheco, se bem que já andasse, como o povo diz, com a barriga á bocca, ainda o não tinha dado á luz.
Ou se faziam charadas, ou se jogava o quino. Duas distracções innocentes e engraçadissimas! Que saudosas noites! Que piadas! Que pilherias e facecias!
Que espirito fino, alegre, saltitante, amenisava aquellas horas!
Quem mexia sempre nas bolas era o Melim. Uma mania como outra qualquer.
Cartão, dez réis; _corda_, sessenta réis.
Marcava-se a feijão carrapato.
Quem recebia as pagas, dava os trocos e quebrados, era o sr. Agostinho.
Cada _quinada_ era recheada de surpresas, ancias, esperanças e decepções!
—Trinta e tres, dizia o Melim.
—Annos de Christo, exclamava sr. João Ignacio, erguendo-se, todo contentinho, para gosar o effeito da pilheria.
Andavamos aos tombos com riso, e quem poderia resistir?
—Vinte e dois!
—Patinhos a nadar—berrava o sr. Baptista.
Ai que demonios aquelles! A gente até chorava!
—Trinta e sete!
—João Pimentel Castanheira—lembrava o sr. Elias.
Não se podia continuar; estava decidido! Pois se até a ceia nos queria trepar á bocca!
—Venha a precisa, ó vizinho e chegue-se cá, que quero bulir nas bolas, dizia o sr. dr. Pacheco.
—Oh diabo! Isso não, que podem ver as irmãs da Caridade, aconselhava eu, sempre prudente e cauteloso.
—Sessenta e seis!
—Quinei!—berrava o sr. escrivão Brito.
—Ora sebo!—murmurava tristemente o sr. dr. Evaristo. E eu que já tinha cinco quadras! Bem se vê, que os padres não nasceram para trabalhos com bolas.
Estavamos todos tristes, como a noite.
—Alto! Foi rebate falso. Siga!—dizia o sr. Brito todo rejubilante pela facecia, e casquinando frouxos d’aquelle seu riso, tão patusco e tão original: ki-i, ki-i, ki-i...
Afinal, quem quinava sempre era o Leopoldo. Este diabo, lá com os capellães arranja-se sempre bem...
* * * * *
Reunia-se, pois, gente fina e perspicaz.
—o Veiga, que viu no Jardim das Plantas uma _ziboia_, com sessenta metros de comprimento;
—o Izidoro que, como V. Ex.ª sabe, descobriu as aguas de S. Pedro, é amigo do amigo Lopo e tem a Grão-cruz da Sociedade de Geographia e da ordem do Sol, do Japão;
—o Serrão, que viu um comboyo, que levava dez regimentos de infanteria, dez de cavallaria, oito de artilheria, um de engenharia; tudo em armas, officiaes a cavallo, etc., etc. (Isto foi no tempo d’uma guerra qualquer).
—o Machado, que, assistindo a um baile da Assemblea até ás duas horas da madrugada, apparecia, ás cinco, na praia d’Ancora; lá ao longe, entre as brumas do mar, dentro d’uma bateira, e já em regresso da ilha da Madeira.
—o Maximino, que sem perceber uma palavra da lingua de Milton, encontrou uma _ingleza_, com quem se entendeu muito bem.
—o Leopoldo, que viu e apalpou os pendulos e o ponteiro do relogio, que ficou entupido, nas alturas do coccyx, ao larapio da rua do Ouvidor.
—o Abilio, que conheceu o pae da mãe, do tio, do pae do dito larapio—Rua da Quitanda, 23, sobreloja.
Emfim, tudo gente fina e perspicaz.
É verdade: tambem lá estava sua Excellencia, o Senhor Governador e sua Excellencia, o Senhor Vice.
Na Academia real das Sciencias não havia melhores cabeças; nem na Camara dos deputados, se exceptuarmos os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre.
* * * * *
Para arranjar charadas, quem tinha mais gosto e geito era o sr. Polycarpo Monteiro. Pelos modos, carteava-se com o mano de Lisboa, a tal respeito.
Elle pensava um pouco e dizia:
Que é, que é Que faz: pum! pum! Quando lhe arrima O Vinte e um?
Justininho escrevia, logo, qualquer coisa n’um papelinho; collocava-o debaixo do seu chapéosinho e... sorria.
Nós andavamos ás aranhas.
Tira d’aqui, põe acolá...
Nada!
O Senhor Governador, forte em Mathematicas, punha logo o caso em equação:
2 pum + 21 = _x_
tirava os logarithmos, deduzia todas as formulas da triangulação:
Nada!
O sr. Zagallo, que não estava para contas, lembrava-se dos nomes de todas as terras de Hespanha, por onde transitou no tempo das guerras...
Nada!
Ninguem falava. Ouvia-se o zunir d’um mosquitinho.
De repente bradam duas vozes:
Adivinhei!
—É o chapéo alto do meu subordinado Durães—dizia o sr. Borges.
—Não é, não senhor. É um chapéo, mas o do sr. Monteiro, dizia o Senhor Vice-Governador, que já, n’aquelle tempo, era o homem mais fino cá da terra.
É! Não é! Levantou-se uma questão dos demonios.
—Fala o Justininho!—bradamos nós, como quem recorre a um Juiz.
Justininho abriu o papelinho e mostrou, sorrindo:
Zabumba!
Rompeu nova celeuma. Ninguem queria ceder. A final, depois de muito berrar, descobriu-se que todos tinham razão.
Havia alli um caso, como o da Santissima Trindade: tres pessoas distinctas e um só Deus verdadeiro. Eram tambem tres coisas, todas distinctas, todas eguaes e uma só verdadeira: o zabumba—do Justininho.
* * * * *
N’outra noite, o sr. Polycarpo, entrou na Assemblea, muito contente, e esfregando as mãos, debaixo do seu chale-manta.
Trazia uma charada muito difficil, que lhe levára seis horas a compôr.
O sr. C. Barros offereceu logo, como premio, um exemplar do seu drama: _Marilia_, ou a _Moira dos bosques_.
Reuniu-se o povo todo, e ouviu:
Quem é, quem é, Que faz a desobriga E, sendo capellão Tambem é rapariga?
Esta, é que nos deu agua pela barba. Fazer de homem e de mulher, é que nunca podemos comprehender.
O maroto do Leopoldo, esse, parece que a percebeu. Sorriu-se, porque tinha entrado n’aquella occasião e, pelos modos, vinha de se confessar...
Trazia no chale-manta palheiras da muralha...
Foi o Abilio, que o traz de ponta, quem descobriu isso.
Ninguem matou a charada, mas desconfio que alli andou tambem influencia do premio... Parece-me que afugentou um pouco as ideias.
Isto é mera supposição.
* * * * *
Depois d’essa, appareceu outra do sr. Zagallo, mas _matou-se_ logo. Foi:
O que é que é Que dá _sól_ e _dó_ E se o Cruz lhe bufa Faz: Pó, Pó!
V. Ex.ª certamente, já adivinhou.
É um _figle_. Não teve graça.
Pois o sr. General podia apresentar coisa melhor. Bastava que nos dissesse:
Ora digam cá, Sem hesitar Se hoje na camara Occupo logar?
Claro é que ninguem responderia, a não ser que se verificasse o conteudo do mais recente, do que tivesse ainda a tinta fresquinha, dos officios com que sua Ex.ª, oito vezes por mez, participa ao Senado que,
por motivos justificados—sahe que, por justificados motivos—entra e vice-versa e versa-vice.
* * * * *
Este sr. Zagallo, na Camara, lembra-me o Conego Vaz.
Eu fui sempre muito agarotado e por isso me não admirei, do que queria fazer o Tonéca ao Marquez de Vallada. Se por ahi houver alguma mamã, com filha casadoira, disponivel—francamente—que não tenha saudades da minha pessoa, porque lhe não serviria, ainda que fosse _numero um_.
Quando não podia dar a minha _gazeta_ á aula do Conego, escapava-me sempre que podia, cá para fóra, para a muralha, onde os Guerreiros e os Garções jogavam o pião e o _escabicha_.
Juntos, eramos insupportaveis. O Ignacio Soares e o Zé, quando passavam por nós, tiravam com todo o respeito o seu chapéosinho e tratavam-nos por Excellencia, mas ainda assim, levavam o seu puxão de orelhas porque, quando estavam encarrapitados na varanda de ferro, e se lhes dizia cá de baixo:
Presos como os macacos!
cuspiam, e atiravam com botas velhas.
O Zé, hoje é homem de genio e palpita-me que, na Politica, ainda chega a ser importante; mas n’aquelle tempo andava com o _hora, horae_, e isto de latim é coisa, que debilita muito a gente.
* * * * *
Como estava dizendo, quando me juntava aos Guerreiros e aos Garções, andava tudo, por ahi, n’uma dobadoira.
Pelo Maio, já tinhamos organisado uma inspecção rigorosa á producção do concelho.
Era-mos, assim, uma especie de agronomos.
Se nos perguntassem:
Quem é, que n’este anno vem a ter:
melhores peras?—o Chico Veiga.
melhores melancias?—o Boticario.
melhores melões?—o Ascencio.
melhores uvas?—O senhor José Rodrigues.
A este senhor José Rodrigues sempre tivemos muito respeito. Quando, por acaso, nos encontrava perto do Prazo, ou da Boavista, (a gente, já se vê, andava a _passear innocentemente_) falava logo em tiros, mortes, carabinas, punhaes, ratoeiras, facadas, cães de Castro Laboreiro... o diabo!
Por isso, não era como os outros:
o Chico Veiga, o Boticario, ou o Ascencio;
era: o Senhor José Rodrigues.
A final, foi sempre um santo, e pagava o seu tributo em bellas uvas e bons melões, como os outros.
Eu falei no boticario...
Era assim nos outros tempos, mas hoje é camarista e chama-se—o sr. Fontoura.
Este senhor é que nos pregou um susto! Eu conto, se não me torno massador para V. Ex.ª
* * * * *
As propriedades, como disse, estavam debaixo da nossa vigilancia permanente.
Logo que a uva principiava a pintar, a pera a mudar de côr, a melancia a ganhar casca—dava-mos assaltos medonhos!
Uma vez, combinamos o ataque ás melancias do sr. Fontoura. Ainda estavam verdes, mas duas, ou tres, principiavam a carregar na côr.
O calor abrazava. Era necessario ser um Santo, para resistir á tentação.
Á hora combinada, entramos na propriedade, cautelosamente, sorrateiramente, como quem anda aos grillos.
Tinhamos, já, duas melancias cortadas e tratava-mos de metter a unha, em certa parte das outras (de que eu não digo o nome, porque póde ser lido por senhoras) para verificar se estava molle ou rija, quando ouvimos gritos de _agarra! agarra!_ e logo, após, o estampido d’um tiro!
Eu não posso explicar o que succedeu. Parece que nos agarraram pela golla da jaqueta e nos levaram, pelo ar, até á Esplanada!
Alli paramos, porque já não havia ar no mundo para os nossos pulmões. Consideramos no caso...
Apalpamo-nos cuidadosamente, demoradamente. Estendemos primeiramente uma perna; depois outra; depois um braço.
Cuspimos. Passamos a mão pela cabeça.
Não havia sangue.
Serenamos. Voltou-nos a voz.
Só então verifiquei que, no auge da afflicção, _sem querer_, tinha trazido as melancias!
Não estava tudo perdido. O que é o instincto da conservação!
Ainda nos incommodava a ideia, de que o sr. Fontoura fosse fazer queixa ás familias—o que significaria uma valente tapona.
Felizmente não succedeu isso, porque elle, no auge do seu furor, (do qual V. Ex.ª pode fazer idea, quando o ouve ameaçar céos e terra, clamando, á porta da pharmacia, contra os seus devedores) não nos conheceu.
Parece que Deus não o dispoz para a nobre carreira das armas, porque, ao apontar a espingarda, fez como os pretos e os soldados brazileiros—voltou a cabeça.
Quando novamente olhou, diz elle, que só viu fumo. Não era só fumo; eram nuvens de pó, que nós levantavamos.
Eu contei agora este caso, porque somos todos de maioridade, paes de filhos, eleitores, elegiveis, e já não temos receio de tapona em casa. Mas, até hoje, tem estado debaixo d’um certo segredo.
Como d’aquelle endiabrado rancho sahiram tão bons paes de familia, é que eu não sei.
São effeitos da edade.
A gente muda muito.
Eu conheço pessoas, que na juventude faziam o que podiam. Chegaram, mesmo, a dar nome; e que agora, sendo uns santos, em certas occasiões embicam com qualquer coisa, e nem sequer consentem, que no theatro se aqueçam os pés.
Isto vae tambem muito dos genios... e dos corações.
São como Deus os quer.
Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo...
* * * * *
Mas, veja V. Ex.ª como eu perdi o fio ao discurso! Tudo isto veiu a lume, para dizer que o sr. Zagallo, na Camara, me lembrava a aula do Conego Vaz.
Eu queria-me safar, como disse, e, volta e meia, dizia ao Conego, levantando o dedo:
—Senhor Mestre, dá licença de ir lá fóra?
O Conego, ou dizia: vá,—ou:
—Está lá gente.
Mas aquillo tanto vez se repetia, que o Conego principiou a desconfiar que era doença, como teve o sr. Sampaio nas noites do cordão sanitario, doença que tanto dinheiro deu a ganhar á lavadeira...
Uma vez disse-me elle: Oh, senhor! Eu não sei para que cá vem. Nunca tenho a certeza se o senhor está fóra, ou dentro. Ao menos, quando sahir, deixe aqui ficar um papelinho.
E foi d’este papelinho que me lembrei, com os officios do sr. Zagallo.
* * * * *
Voltemos ao Justininho.
Justininho escrevia nas gazetas. Inventou o _Mensageiro das salas_, aquella interessante secção, que eu nunca deixo de ler, em todos os jornaes, porque é muito mais barato remedio, do que o Sedlitz Chanteaud.
Foi tambem elle, quem arranjou as seguintes classificações para as differentes posições sociaes:
Juizes integerrimos. Delegados meritissimos e dignissimos. Medicos habeis.[4] Negociantes probos e honrados. Bispos e Padres virtuosos prelados. Proprietarios abastados. Cavalheiros de fino trato. Officiaes do exercito illustrados e briosos. Galopins eleitoraes valentes candilhos.
Meninas galantes. Noivas gentis e encantadoras. Senhoras solteiras gentilissimas damas. ditas casadas virtuosas esposas. ditas viuvas inconsolaveis. Quarentonas interessantes senhoras. Jarrões respeitaveis damas.
Creanças que nascem robustos meninos. ditas que vivem interessantes filhinhos. ditas que morrem innocentes anjinhos. ditas que, nem nascem, nem morrem, nem vivem mallogrados.[5]
Estudantes intelligentes e esperançosos. Meninas... de fallar infelizes peccadoras.
* * * * *
Como V. Ex.ª vê, aqui ha para tudo.
É pedir por bocca.
Esta classificação teve voga. Foi adoptada em Monsão, em Caminha pelo sr. Ricardinho, em Cerveira pelo sr. Romeu, em Vianna pelo sr. Eugenio Martins, em Paris pelo sr. Xavier de Carvalho, etc.
Nas ilhas Sandwich é que eu não sei, mas vou sabel-o.
Ora, nós podiamos fazer um contracto com as redacções: abatiam uns tantos por cento nas assignaturas e mandavam depois, sem adjectivos, os Cavalheiros, os Padres, as Meninas... de fallar, etc., que a gente cá se punha... a dispôr os _virtuosos e finos tratos_.
Esta evidentissima e valiosa manifestação do progresso intellectual do nosso jornalismo deve-se, como disse, ao Justininho.
* * * * *
Justininho era correspondente de varios jornaes.
Tinha um estylo especial, caracteristico, archaico, indigesto, tirante a classico.
Por exemplo: se fosse necessario dizer n’um jornal, que a esposa do meu amigo Fabricio dera á luz um rapaz, e que já estava prompta para outro, eu empregaria, pouco mais ou menos, essas palavras.
Justininho diria:
_Como prenoticiamos, a virtuosa consorte do nosso dilecto amigo Fabricio, probo e honrado negociante d’esta formidolosa Praça, deu á luz na preterita terça feira, um robusto e interessante menino, que presentemente é o enlevo dos seus tão extremosos, quão apreciaveis progenitores, e o encanto de todos os que hoje gozam a doçura ineffavel, d’aquelle pequenino ser._
_A parturiente encontra-se já, graças ao Altissimo, liberta de perigo, devendo, tambem, a sua rapida convalescença ao desvelo e intelligentes cuidados do distincto e perito facultativo, o sr. dr. Pacheco._[6]
_A suas ex.ᵃˢ endereçamos, em nome da redacção, os nossos emboras; e seja permittido ao auctor d’estas mal esboçadas linhas, incluir as suas cordiaes felicitações, que já algures exprimiu, como o mais obscuro, o mais somenos admirador das excelsas virtudes, que exuberantemente adornam suas Ex.ᵃˢ_[7]
* * * * *
Ora aqui tem V. Ex.ª o que é uma imaginação fertil, e a triste figura que faz um pobre Fabiano, como eu, quando escreve nas gazetas.
O sr. Verissimo de Moraes, em tal caso, escreveria, ou não escreveria o mesmo.
Se fosse convidado para a festa do baptisado, usava exactamente d’aquelles termos, e accrescentava:
_Todos os convidados d’aquella esplendurosa e inolvidavel festa se retiraram altamente penhorados, com a maneira fina e delicada, e inexcedivel amabilidade—que só a verdadeira fidalguia de sentimentos e nobreza de caracter podem conceder—com que o Ex.ᵐᵒ Sr. Fabricio e sua Ex.ᵐᵃ Esposa acolheram as pessoas, que tiveram a honra de entrar em sua casa._
_Que perduravel ventura, e immensas felicidades, bafejem o berço do penhor de tantos affectos..._
Se não fosse convidado, o parto e o baptisado seriam assim annunciados:
_A esposa do sr. Fabricio deu á luz um rapaz, que hontem, ás seis e meia da tarde, foi baptisado na egreja parochial de S. Estevão._
E eu faria o mesmo, se tivesse jornal. A gente trata bem, quem bem a trata. Isto já era assim no tempo de Noé e ainda não havia gazetas.
N’esta classe de gazeteiros, quem rasoavelmente se distingue, é o Aurelio.
Tem um estylo _á_ Victor Hugo e _á_ Guerra Junqueiro.
Isso explica-se muito facilmente.
Está provado que a Materia anda n’este mundo, em constante giro; e que as moleculas, que actualmente estão no corpo A, podem muito bem estar, ámanhã, no corpo B.
E sendo assim, não admira que na massa cerebral aureliana, se anichem algumas cellulasitas vagabundas e patuscas dos grandes poetas.
Recordo-me, ainda, d’aquella grande questão, que elle sustentou, no _Primeiro de Janeiro_, contra o Exercito, por causa do Real d’Agua.
Ahi vae um trecho e diga-me V. Ex.ª, se lhe não parece que está lendo a _Morte de D. João_, ou a _Legenda dos Seculos_:
A lei é só uma com a espada da Justiça! Palpitam corações nobres, sob as dobras da jaqueta, Como palpitam e se orgulham debaixo da fardeta. Quer se cinja uma espada, quer o cabo da rabiça, Ha leis a obedecer. E com vontade, ou com magua, Das batatas e do bacalhau que gastaes da Cooperativa, Haveis de pagar, inteira, completa e positiva A decima que todos pagam: os direitos do Real d’Agua![8]
Aurelio tem, tambem, incontestavel merecimento no theatro; mas nas doiradas espheras em que, entre nós, a Arte alli se expande e libra, nunca a minha nervosidade e a dynamica do meu espirito foram, tão extraordinariamente abaladas, como n’essa saudosa noite, em que aos meus olhos e sentidos, se patenteou a intuição artistica mais nitida, a percepção psychologica mais frisante, que tenho logrado admirar nos palcos dos grandes centros civilizados.
Alludo á magistral execução e genial relevo que, na _Morgadinha de Val d’Amores_, deram aos seus papeis, os meus amigos Machado e Romano.
V. Ex.ª deve recordar-se...
Representava-se o _auto_ entre moiros e christãos. Figuravam reis, prophetas, anjos, _princezes_, pagens, _donzellas_, pastores e pastorinhas.
Das bandas do Oriente surgem: Manassés—o propheta, e Adonis—o _princez_.
As meias da sopeira, solidamente atadas, com tres voltas de fio de vela e nó cego, acima da articulação do femur com a tibia, desenhavam-lhes as linhas bamboleantes do pernil, escassamente roliço para despertar sensações eroticas; o pé, pequenino e adamado, encafuava se, gentilmente, n’um cambado sapato de entrada _abaixo_, com fivela doirada; o calção retesado limitava-lhes a curvatura das nadegas; dos hombros pendia-lhes graciosa quinzeninha de velludo defuncteiro; na cabeça, um carapucinho patusco, com o seu tope arrebitado.
Nas faces mimosas e assetinadas, espetára a mão endiabrada do Rocha ferozes matacões de caprina pellugem, e enfarruscára as sobrancelhas avelludadas, com repetidas fricções de rolha queimada, embebida no azeite do purgueira.
Marchavam com fronte altaneira, nariz repontante, seguidos pela sua côrte de paradas-velhas, ao compasso do hymno picaresco, que o meu amigo Argar, com a sua finissima intuição artistica, tão caracteristicamente soube conceber, adaptar e colorir.
Ao apparecimento de tão illustres personagens—um propheta e um _princez_—abalaram-se os alicerces do edificio, com a violenta expansibilidade dos applausos. Ao longo da medulla espinal, desde o bolbo rachidiano até á cauda equina, corriam-nos vibrações de enthusiasmo; as senhoras choravam; os homens arremessavam os chapéos; os paradas-velhas e esplanadas do _loiceiro_, impregnando o ambiente, no sonoro explodir do seu arrebatamento, de exhalações duvidosas e aromas assaz compromettedores, irrompiam em galhofeiras invectivas de affectuoso e _intimo_ conhecimento, com os pagens e as _donzellas_ da real côrte:
—Vira para lá a rabáda, oh Transmontana!
—Tens o rancho á espera, oh 35 da 4.ª
—Pica o pé, oh Estrella!
..............................
E na intima audição do meu espirito, entre os fulgores e as scintillações d’aquelle gloriosissimo triumpho, subjectivou-me, subito, o Senso:
Oh filho! Quanto póde a... Arte!
..............................
Mas... onde diabo está o Justininho?
* * * * *
Justininho era o fiel depositario, o mais denodado paladino das gloriosas tradições, que apresentam Valença, como a terra da provincia, em que ha mais convivencia, e em que as senhoras se apresentam, melhor, n’um baile. É uma superioridade, esta, como qualquer outra. Cornelia, Joanna d’Arc, Filippa de Vilhena, Deu-la-deu e outras matronas distinguiram-se a seu modo. São feitios.
Foi elle, tambem, o inventor d’aquella celebre phrase, ainda hoje acceite e adoptada, quando necessitamos occultar a nossa inercia, as nossas fraquezas, ou a nossa ingenuidade provinciana. _Valença é madrasta para os seus e mãe para os estranhos._