Part 17
A qual coisa, molle, pastosa, de côr cinzenta e com o feitio retorcido d’um S fez exclamar a um rapazinho que, de _carrapuço_ vermelho e mãos nos bolsos, a distancia presenciava o caso:
—_Oh que grande caçador de minhocas!_
E campos fóra de Politica, Ex.ᵐᵒ Sr., quando encontro V. Ex.ª armado de ponto em branco com a escopeta da Administração, cartucheira presa á banda azul e branca, matilha de abbades e rafeiros,—quando verifico que V. Ex.ª nem tem animo para disparar o bacamarte d’uma transferencia, nem sabe empalmar uma urna, nem falsificar uma acta, nem dirigir uma borga de _calhos_, nem descascar uma batata, nem deitar um foguete com ropia, nem tocar n’um gaiteiro, nem mentir com cara seria, nem perseguir os professores, nem desgraçar uma familia, nem deshonrar um funccionario, nem amesquinhar um merito, eu, Ex.ᵐᵒ Sr., n’esta occasião em que V. Ex.ª por ahi anda atrapalhado com a escopeta de dois canos que nas mãos lhe metteram, para dar o primeiro tiro contra a opposição—não posso reprimir estas palavras com que, conceituando politicamente V. Ex.ª, parodio o rapazito d’Arão:
—Oh que grande Administrador das _duzias_!
Aos pés de V. Ex.ª, curva-se respeitosamente o
_Zinão_.
XXIII
Compadres e Comadres
Decididamente, não se póde ser rapaz solteiro em Valença.
Segundo reza a minha cartilha, os inimigos do homem são tres: mundo, diabo e carne.
Cá na terra, os inimigos dos rapazes são tambem de tres especies: aguas de Christello, bailes e comadres.
Todos estes inimigos teem procedencia diversa: um nasce na Assembléa, outro fóra de Portas, outro na Coroada.
Todos teem um caminho:—o namoro.
Todos teem um fim:—o casamento.
Epilogo egual para todos:—o _conjugo vos_ do Magalhães e a Sr.ª Dona Maria do Hospital.
* * * * *
Berra-se por ahi contra os jesuitas, contra os abusos dos regeneradores, contra as tyrannias do João Cabral, contra tudo que póde affectar o livre exercicio dos nossos direitos e das nossas regalias.
Ninguem se lembra de requerer uma querela contra as _comadres_ da Coroada, que ha dezenas de annos implacavelmente lançam ao pescoço dos nossos mais airosos jovens as gargalheiras do casamento e a colleira de _paterfamilias_.
* * * * *
Em bella manhã de Abril entra um raio de sol na alcova; acaricia-nos o rosto; faz-nos cocegas no bigode e diz-nos baixinho ao ouvido: _São seis horas; levanta-te, calaceiro! Lá fóra cantam as aves, exhalam aromas as flores; está tão bonita a campina... tão risonhos estão os prados... tão diaphana a atmosphera e tão azul o azul dos ceos... Vem commigo. És livre; não precisas de ajudar a lavar os pequenos. Vamos,—veste-te, que eu espero cá fóra._
Vinte minutos depois, respiramos por esses campos o ether das madrugadas. A nossa alma inebria-se; sentimo-nos alegres, bons, fortes e felizes, porque somos livres. Desejavamos possuir umas botas de _sete leguas_, como as d’aquelles contos da infancia; trepar a todos os oiteiros, subir a todas as collinas, saltar por todas as planicies.
Phantasiamos azas como as da cotovia que se libra nos ares, cantando hymnos de jubilo, de liberdade, de amor.
Horas depois regressamos a casa. Á entrada, a sopeira entrega-nos mysteriosamente uma caixinha dos collarinhos, ou dos pós da gomma, cuidadosamente atada com fita de seda azul.
Abrimos:
Dentro, muito secio e garrido, um palmito; ao lado, teso e perfilado, um cartão de visita:
_Fulana de tal._
Desde aquelle momento, o _bacillo virgula_ do matrimonio inficiona o nosso organismo. Perdemos a vontade de comer, damos ais, suspiramos á lua, fazemos versos, cantamos o _choradinho_ e principiamos a cuidar nas roupas brancas.
Se não mudamos immediatamente de terra, unico remedio efficaz, estamos perdidos.
Que me conste, até hoje, dos atacados pela fatal molestia só resiste um—o Velloso. Se escapa até aos quarenta, vae para o museu do Inglez.
* * * * *
Perde-se em a noite dos tempos a origem d’essa funesta cerimonia:—_a eleição dos compadres_.
Sei que dubia é, ainda, a tradição que a localiza na Coroada; porquanto, auctores varios e jurisconsultos sisudos estabelecem no centro da villa a instituição de tão perfidas solemnidades.
As pandectas da Assembléa, os folios da Collegiada, os annaes da Ex.ᵐᵃ Camara nada informam a tal respeito. Em vão os consulto em frequentes e longas vigilias.
Esta prioridade de direitos na organização do escrutinio annual tem por vezes suscitado controversias violentas e disputas acaloradas entre os pacificos habitantes da rua de S. João e os da Coroada; e se não fôra a sisudez, prudencia, diplomacia e tino politico dos conspicuos inquilinos do Santo Precursor, certamente já teriamos a lamentar successos graves e não pouco deploraveis acontecimentos.
No emtanto, a malquerença entre os dois povos existe e existe evidente.
Na rua de S. João, um habitante da Coroada nunca foi um cidadão da villa:—foi, e é um _pelludo_ da aldéa; e a esta offensa responde a Coroada affirmando a superioridade dos seus costumes e dos seus habitos, allegando, com assaz persuasiva logica, que não tem lá, nem precisa, de Borralhos ou de Egyptos.
A origem de tão lastimaveis dissensões está na eleição das _comadres_.
* * * * *
A epocha d’esta cerimonia não foi, como alguem poderá imaginar, fixada ao acaso. Fixou-se traiçoeiramente para o domingo de Ramos.
Domingo de Ramos quer dizer: Semana santa e Paschoa—isto é—_soirées_ na egreja e na Assembléa e—mais ainda—chavenas de chá sem assucar preparadas pelo Cruz com agua do Christello.
Aos olhos incautos isto nada significa, mas significa muito para o espirito do observador, porque lhe mostra em caminho perfeitamente livre e desembaraçado, juncado de rosas e saturado de aromas,—a comadre e o compadre amarrados um ao outro com as fitas de seda do palmito e da caixa das amendoas. Vão alegres, risonhos, chilreando, sorrindo, despenhar-se no abysmo sombrio do matrimonio, onde o Magalhães, com uma saia de mulher aos hombros, attencioso e mitrado, lhes desfecha quatro tretas de latim.
O palmito aproxima o compadre da comadre: _agradeço a V. Ex.ª—dou-lhe os meus sentimentos, porque foi infeliz na sorte—merecia compadre melhor, e tal, etc._,—diz elle.
—_Oh sr. Fulano! Por quem é!... fui até a mais feliz.—Cá espero as amendoas.—Olhe que é uma vergonha se as não dá.—Quero vêr, eu quero vêr como se porta_—diz ella.
Ao despedir, um cumprimento demorado, um sorriso, um olhar... e compadre e comadre trocam mentalmente, na visão doirada do futuro, o grau do parentesco.
Magalhães surge ao longe, entre nuvens côr de rosa.
A sr.ª Dona Maria do Hospital pisca graciosamente o magano olho esquerdo...
* * * * *
Na quarta-feira santa, entra um rapazito no portal; bate as palmas—_sou eu!—faz favor?_—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita, oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.
No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.
Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de seios, um suspiro, dois suspiros.
Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.
Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e—entra a _comadre_ na egreja.
Quando abre o livro das orações, já não atina com o _Padre-Nosso_ nem com a _Ave-Maria_. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres seguintes:
_Minha senhora._
_Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem, ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia_
_até á morte_
_V._
* * * * *
Durante as _licções_, n’aquelles intervallos em que o Albino canta o seu _macarronico_, o Padre Alexandre gargareja o melhor e o mais brunido do seu latim e os outros padrecas se revezam, previamente annunciados pelo rapaz sacrista que, de saiote vermelho, vae apagando, um a um, os treze tocos da girandola—compadre e comadre libram as suas almas pelas naves d’um mystico arroubo, ebrios de felicidade, de esperanças risonhas, e dulcificados fartamente com amendoas de Tuy e rebuçados de avenca.
Á noite, na visita ás casas do Senhor, o compadre acompanha a comadre. Atraz, cochicham o futuro sogro e a futura sogra. As beatas, ao longe, segredam mais um casamento... Compadre e comadre já se tratam por tu. Fica combinado o _gargarejo_.
—_Amo-te_—_boas noites_—_até amanhã_.
Domingo de Paschoa.
Baile na Assembléa.
A _comadre_, quando alguem a pede para dançar _de roda_, está sempre compromettida. Só dança com o _compadre_.
_Compadre_ escolhe os melhores doces para a _comadre_; rodeia de attenções a Mamã da dita _comadre_; entretem o cavaco com o Papá da dita _comadre_; é _vis-à-vis_ do Mano da dita _comadre_.
As amigas da _comadre_, quando o _compadre_ está em pé, arranjam-lhe logo um logar ao pé da _comadre_.
—_Comadrinha vae, compadrinho vem._
No fim da noite, entram já na conversa as roupas de linho, de panno cru, as caçarolas, as panellas.
Lá ao longe, muito ao longe, sempre em nuvens côr de rosa, a fugitiva miragem d’um cavalheiro, irreprehensivelmente encasacado, gravata e luvas brancas,—curvado em graciosa mesura perante o Papá e a Mamã.
Um pedido—um _sim, Papá!_—uma lagrima da Mamã—um _ai!_ e um fanico.
Dois mezes depois, Padre Magalhães dá o nó; e o mesmo raio do sol, que em Abril nos despertava, penetra indiscretamente na alcova nupcial e segreda-nos ao ouvido:
_forte lôrpa!_
Annos passados, quando compadre e comadre teem quatro filhas casadoiras, são elles que reclamam a eleição.
Cada _palmito_ que sai de casa é um anzol.
Para o Velloso—oh Paes de familia!—só a _coca_ ou o botirão.
* * * * *
Gentis senhoras da Coroada!
Por piedade! Acabae com este tributo mais violento e mais horrivel do que o tributo de sete mancebos e sete donzellas que, outr’ora, Athenas pagava a Creta.
Por piedade, senhoras!
Arrebataes, annualmente, lá para cima, a melhoria dos mancebos, a nata da mocidade, a fina essencia da juventude, que depois abandonaes a essas ruas—obesos, gordurosos, crivados de callos, _paterfamilias_ de _cache-nez_, lenço tabaqueiro e barretinho d’algodão.
D’aqui a pouco não ha um rapaz solteiro em Valença; e como as estatisticas demonstram que, para cada mancebo casadoiro ha, entre nós, vinte damas em disponibilidade, attentae que não é risonho o vosso futuro, porque está provado á evidencia, que os rapazes de fóra sabem escapar á magia dos vossos palmitos.
Vêde o Velloso, o Leopoldo, o Gomes da Artilheria, o Prado, o dr. Brandão.
Transijamos, pois, gentis damas:
Nós estamos promptos a enviar annualmente para a Coroada, quarenta arrobas de amendoas e quarenta dictas de rebuçados dos melhores e dos mais ricos que tenham o Có-Có, e o Telmo Parada.
Outrosim nos compromettemos ao pagamento d’um tributo annual de tres mancebos casadoiros, que vos serão entregues no domingo de Ramos, ao meio dia, em frente das _Alminhas_, com os respectivos bahus de roupa branca: camisas, ceroilas, piugas, barretinhos de dormir, pannos da barba.
Para o pagamento d’este tributo organizaremos um gremio, como o dos negociantes, na distribuição da decima.
Os tres desgraçados serão indicados pela sorte. Irão esses para as negras penas do matrimonio, mas, ao menos, os restantes poderão em todo o anno andar satisfeitos, alegres, livres de melancholias e de... _palmitos_.
Sou casado tres vezes, senhoras! O Magalhães que o diga...
E tanto ás defunctas consortes, como á companheira actual, quem me prendeu foi a vossa eleição.
Por isso, quando agora vejo um palmito é o mesmo que vêr o diabo.
Em nome da mocidade, protesto contra a
=eleição das comadres!=
XXIV
Ultimas palavras
Na vida social, uma povoação possue a complexidade do organismo d’um individuo. Pode estudar-se physiologicamente e psychologicamente.
Tem sentimentos, expansões, dôres, coleras, alegrias; tem orgãos, musculos, enfermidades e lesões; periodos de vigor, de engrandecimento e de decadencia.
Athenas foi a alma da civilização hellenica; Sparta teve a musculatura dos fortes na hegemonia das cidades gregas; Roma cingiu o mundo com os seus braços de ferro; na gloria dos seus triumphos e das suas conquistas teve a vertigem da sensualidade e do prazer; libertinou-se, effeminou-se e apodreceu na enxurrada das sargetas.
Paris ri; e Londres, embrutecida com o _gin_, com as _fresh-girls_ e com os deboches de Cleveland-Street, offerece o nojento bandulho ao facalhão de Jack, ou escouceia no _match-box_ do Pelican Club, em que dois homens se esborracham a sôco, com grande gaudio d’isso que é a quinta essencia da pelintrice, do egoismo, da ambição, do orgulho, da _pataqueirice_ réles da viella e que nas altas espheras do _High-life_, em _Leicester Square_, no _Regent’s Park_ ou no _Covent Garden_ se intitula pomposamente—um _lord_!
* * * * *
Appliquemos aqui, aquella conhecida theoria de Broca sobre a relação entre o volume cerebral e a intelligencia.
O volume do cerebro pode, segundo o eminente sabio, indicar maior ou menor desenvolvimento intellectual.
Ora, o que é o cerebro?
É a parte pensante do organismo.
N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?
Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto menos culta.
E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra povoação do paiz, com egual numero de habitantes—nas cathedras do Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de filhos, e tão, que não mais, distinctos.
Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações, transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.
O titulo de _burgo podre_, com que realmente este concelho é mencionado em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do grilheta e do forçado.
Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa encha a pança e o _pé de meia_.
Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os _pataqueiros_ destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os toiros no curro de S. Bento.
Esta é a nossa triste condição.
* * * * *
Ha seis ou oito annos que n’este _burgo podre_ se manifestaram uns debeis symptomas de vigorização politica. Regosijei.
Pareceu-me que ainda poderia ver Valença como as outras terras; á mesa do orçamento, com o seu logar marcado e o seu talher, e não como então estava: debaixo do banco, apanhando de quando em quando o osso esfolado e o pontapé do _gajo_ que a levara pela trela do voto.
Vans esperanças! Antes o Passado. Appareceu effectivamente a Politica, mas esfomeada, esqueletica, larvada, com manhas de gato lambareiro e caricias de cadella aluada.
Anichou-se por ahi, comendo á _tripa-forra_ e passando o tempo ao sol, de barriga para o ar e carcela desapertada.
Tem dichotes de histrião e insultos de fadista. É insupportavelmente porca: onde toca deixa baba; onde poisa deixa excremento. Quando fala não deita perdigotos, deita escarros; quando escreve não o faz com tinta, mas com pus.
Se graceja causa nauseas, se chora provoca o pontapé.
Examinada physiologicamente encontramos-lhe deficiencia de orgãos. É impotente e a impotencia organica reflecte-se na alma, porque não tem enthusiasmos, nem aspirações, nem... vergonha.
Conjuga só um verbo:—comer; só conhece um pronome:—nós.
Muda de patrão de tres em tres annos. Pouco se importa com isso. Se elle a trata mal, agacha-se, servil e humilde; se a trata bem, esfarrapa-lhe uma cannela ou levanta a perna e... molha-o.
* * * * *
Um ataque de epilepsia politica agita actualmente os magnates eleitoraes.
Está no chôco novo deputado...
Indigitam-se dois filhos da terra como candidatos.
A rua de S. João torce o nariz...
Esta rua de S. João representa os mesmos _chimpanzés_ que, em tempos, rejeitaram o sr. dr. Illidio Ayres para facultativo do Hospital e o sr. dr. José Vieira para medico da Camara.
Para que V. Ex.ª conheça bem a gente que o rodeia, sr. dr. Pestana, aconselho-o a que peça pormenores ácerca das discussões que o seu nome provocou nos _centros_.
_Arrufos, gréves, amuos, etc._
Diz V. Ex.ª que o Zinão é _politico_ e _má-lingua_.
Contra a primeira accusação protesto respeitosamente, e rogo a V. Ex.ª que faça melhor conceito do meu caracter.
Emquanto á segunda, direi a V. Ex.ª que tem mais a recear da _boa-lingua_ e da _fidelidade_ dos seus _pseudo-partidarios_, do que da critica zinoica.
Eu defendi sempre a candidatura d’um filho da terra, emquanto que os seus _amigos_... Informe-se, informe-se V. Ex.ª, porque talvez isso lhe seja proveitoso.
* * * * *
Os trabalhos eleitoraes teem peripecias engraçadissimas que davam para novo volume de _Sinapismos_.
Abstenho-me, porém, de explorar esse inexgotavel filão de ridiculos, existente na massa cerebral—grude de sapateiro e pura secreção de rins—dos nossos politiqueiros.
Tenho na minha frente dois filhos de Valença. Não sei, nem quero saber qual d’elles tem mais probabilidades de vencer.
Oxalá que todas as difficuldades desappareçam; que todas as indisposições terminem, que todos os esforços se reunam e que esta terra possa, finalmente, ter em S. Bento um representante util e proveitoso, como deve ser qualquer dos seus filhos.
Seja qual fôr o vencedor e a opinião politica que perfilhe, eu saúdo n’elle o valenciano que recebe o mandato dos seus patricios, e oxalá que a eleição de 30 de março de 1890 seja o inicio d’uma politica digna, purificada de trampolinices, de arruaças, de _borralhadas da Santa_,—independente de histriões e de tartufos, que até á data teem manchado a consideração d’esta terra com o infamissimo labéo de
=burgo podre!=
Eis o que para Valença deseja o _má-lingua_ do
_Zinão_.
NOTAS
[1] Este artigo foi publicado, quando a Junta de Saude inventou o Microbio de 1889.
[2] Este _digo_ não é consequencia d’uma simples abstracção do meu espirito. Originou-se no tratamento, ha dias applicado no posto de desinfecção do Caes, onde os viandantes eram considerados parreiras phyloxeradas e polvilhados com enxofre... a folle de sopro.
É economico e não faz bem nem mal.
Antes pelo contrario...
[3] Isto é francez e do mais decente.
[4] Com esta classificação é que foi ás nuvens o sr. dr. Pacheco. Nunca o vi tão zangado, a não ser quando aquelle barqueiro de Vigo lhe respondeu á lettra...
[5] Salvo seja.
[6] Para partos era o melhor clinico que cá havia. As senhoras viam-lhe a barriga e... suppunham logo simultaneidade de soffrimento.
[7] Justininho.—Desculpa se foi tolice. Faz como o sr. Illydio Dias:—declaração nos jornaes. Eu cá não me zango.
[8] A metrificação é livre, como a setta no ar.
N’estas coisas de versos, sigo a opinião do Capitão-mór da _Morgadinha_: o papel é para se escrever e não para se estragar com versos de quatro syllabas.
[9] O que arde cura, diz o _Pimpão_ e confirma a sagrada Escriptura.
[10] Podemos fallar á vontade, que isto é grego para o sr. Joaquim...
[11] Do natural.
[12] Copia do natural. Recommendo aos leitores que tomem um bocado d’ar; especialmente aos que soffrem d’asthma.
[13] Ortographia sonica.
[14] Historico.
[15] Um bocado de latim, no meio d’estas coisas, faz sempre bom effeito, porque dá á gente um tom de sabio. Se foi asneira Vossa Excellencia desculpará... Do que me ficou do Conego Vaz, foi o melhor que pude arranjar. Vossa Excellencia tem cara de quem sabe muito latim.
[16] Historico. Anno de Nosso Senhor Jesus Christo 1886.
[17] Para vergonha nossa, direi que tão bello regulamento é o que ainda vigora n’esta terra. Em leis civilisadas, ou Valença, ou as terras do Kalakana...
[18] Esmiuço, aqui, materia conhecida, para boa comprehensão d’alguns, menos versados em Sciencias naturaes. Em questões de tanta magnitude, toda a clareza é pouca.
[19] Nem tudo se póde dizer claramente. Ha sempre quem dê mau sentido ás coisas...
[20] A camara, n’essa occasião, era composta dos srs. Zagallo, Vieira, José Seixas, J. Lopes, Albino, J. Narciso e do orador.
[21] Peço attenção para a redacção das propostas.
[22] Ao verificar a impressão d’estas propostas vejo, com desgosto, que os typographos espalharam por ahi, sem nexo nem intenção, bastantes pontos, compromettedores para a candidez e honestidade de costumes d’alguns Cavalheiros. Ahi fica a declaração para os salvar da intenção criminosa.
São coisas que succedem...
[23] Sinto que as acanhadas dimensões d’este volume me não permitiam incluir um artigo, que esbocei, ácerca da origem do Patriarcha. Tem por titulo: _Aventuras do Patriarcha dos Gandricos e do seu amigo Gargalinho, em Paris da França_. É um estudo realista. Faço, porém, obra para dois tostões...
[24] Não vá este artigo fundamentar suspeitas, ácerca das crenças do auctor. Zinão respeita a Religião e perfilha o que ella tem de sensato; mas só a admitte no Templo—depois de varrido de hypocritas, de traficantes, de escorropicha-galhetas e de icha-corvos—com um Evangelho e um Sacerdocio: a Caridade.
[25] Depois do que expuz, acerca do _elogio-mutuo_, n’estas paginas, onde manuseio ridiculos, poderá alguem attribuir-me intenções provocadoras da tal _convenção_, com a referencia que ahi faço a um homem, que, entre nós destramente maneja a penna.
Declaro que, n’estas e n’outras referencias, digo o que penso e o que sinto; sem pretenções a adulador, independente de preconceitos, de considerações pessoaes e das imposições dogmaticas com que, por ahi, se celebra e incensa muita _coisa_ vulgar e ôca.
Não preparo o exito dos _Sinapismos_ com a offerta de exemplares ás redacções, ou aos amigos, que as frequentam, com aquelles galanteadores e irresistiveis offerecimentos de: _ao distinctissimo escriptor_, _ao precioso estylista_, _etc._, com que se arma ao reclamo,—porque d’este não necessito.
Não viso á honra de ser considerado entre os litteratos, e por isso occulto o meu nome; não escrevo por especulação, e por isso offereço aos pobres qualquer producto do meu trabalho.
Dos defeitos da obra, que são muitos, salvo-me com este desinteresse e com esta independencia de opinião.
Não me dotou Deus com _feitio_ para incensar vulgaridades pretenciosas, nem tambem com orgulho e vaidade para repudiar, ou amesquinhar meritos.