Part 16
Então, a sensibilidade das carpideiras explodia pelo canal digestivo em sonoros arrotos.
E n’essa sessão solemne que constituiu a segunda parte do programma—uma verdadeira visita de pezames pela frieza da sala, pelo tremulo discursar dos primeiros oradores, pela hesitação dos _mestres de cerimonia_ e pela presença da bandeira nacional que significava os restos mortaes dos nossos brios e das nossas glorias, tambem se ouviu—permitti que o diga, honrados artistas—um rasoavel arroto:—aquella polka final.
* * * * *
Durante o trajecto do cortejo, a _Musica_ tocou, por vezes, hymnos varios. Excluistes o da Restauração, que só os eunuchos da Rotina hoje podem admittir nas suas manifestações simontadas. Devieis dispensar tambem os outros: o da Carta e o do Rei.
O primeiro lembra a libertação da tyrannia, a emancipação dos direitos do cidadão, a queda do absolutismo, o inicio d’uma nova era de Progresso intellectual que devia esmigalhar as algemas de instituições odiosas e impulsionar-nos na bemdita estrada da Civilização, livres das trevas e dos espinhos que amarguraram os dias dos nossos antepassados.
Recorda, pois, um facto—a outorga da Carta—que trouxe jubilos, alegrias; e não é em horas de tristeza e de desalento que n’elle devemos procurar lenitivo.
O segundo solemnisou a coroação d’um monarcha—uma festa nacional em que houve bailes, recepções, salvas reaes, paradas, espectaculos de gala.
Pelo anterior argumento devia ser excluido.
O _ultimatum_ inglez é, apenas, a primeira bala do assedio que essa côrte de debochados planeou contra o nosso dominio d’alem-mar.
A espoliação de Bolama que elles tentaram em 38; a de Goa, Damão e Diu em 39; a das ilhas de Lourenço Marques em 62; a redacção da _Royal Charter_ que ultimamente concedeu a Lord Fife os terrenos a oeste de Moçambique; a necessidade que elles teem de possuir, na costa africana oriental, um bom porto que dê expansão ao desenvolvimento das colonias estabelecidas no interior á sombra de perfidos protectorados; as recentes ameaças sobre as ilhas da Madeira e sobre Lourenço Marques—revelam claramente o plano da usurpação violenta de que mais tarde ou mais cedo, com pretexto ou sem elle, Portugal será victima.
Os nossos terrenos africanos, se pouco teem produzido até hoje pelo abandono a que os condemnamos, podem ser no futuro elemento valiosissimo de riqueza e de prosperidade; e na tristissima situação em que as nossas finanças se encontram, com o enorme desequilibrio que annualmente se denuncia entre a receita e a despeza, quando os encargos da divida absorvem, já, metade dos rendimentos, importantissimo é o problema colonial, porque a solução d’elle póde evitar funestissimas perturbações, póde evitar a ruina da Nação, e mais do que isso—a perda da sua independencia!
E dizei-me agora, honrados artistas e commerciantes:
Se no dia trinta e um de dezembro, quando fechaes o vosso balanço annual, reconheceis que o _passivo_ excede o _activo_—quando perante esse _deficit_ encaraes, com olhar vacillante, o futuro, onde vêdes sombras e não auroras—se no anno seguinte uma nova especulação, uma nova industria vos proporcionar meios com que possaes capitalizar uns centos de mil reis collocados depois, _á ordem_, no Roriz,—se um dia o _Primeiro de Janeiro_ vos annunciar a quebra d’aquelle banqueiro e, com ella, a perda do vosso capital, a destruição completa dos elementos com que esperaveis viver com abastança no futuro—acaso a vossa alma se póde regosijar com o Hymno do Rei ou com o da Carta?
Pois as situações são as mesmas.
Vós e a Patria tendes annualmente um enorme passivo.
O capital que estava no Roriz—o vosso futuro—é o dominio d’alem-mar—o futuro da Patria.
A noticia da fallencia é a noticia do _ultimatum_, com esta differença apenas: uma originou-se na adversidade dos negocios, outra na ambição d’um _lord_.
Vós sois a Patria; viveis n’ella; sois a alma e o braço d’ella.
A Patria é tudo isso que vos rodeia: familia e amigos, affectos e carinhos; é tudo o que ha de bom, de generoso, de nobre e feliz na vossa existencia; é a limpidez d’este formosissimo céo peninsular, a risonha paizagem do nosso Minho, a irradiação das nossas alvoradas, o oiro dos nossos crepusculos, o matizado dos nossos campos; é essa dulcissima melancholia que ao _toque das trindades_ inunda a nossa alma com a toada longinqua das canções populares, é o nobre orgulho que em vossos olhos brilha quando escutaes a epopéa das nossas gloriosas façanhas; é essa formosa cabeça de velho que vos sorri, é a esposa carinhosa que vela a vossa doença, é a creança—esse pequenino sêr feito com raios de alvoradas e crystallizações de sorrisos—a quem chamaes filho[62].
Quem offender a Patria—offende-vos.
Quem a roubar—rouba-vos.
Quem toca o hymno da Carta quando ella soffre, toca-vos o hymno do rei quando, com a fallencia do Roriz, reconheceis perdidas e inutilizadas as esperanças do vosso futuro.
* * * * *
Despedi, pois, os gaiteiros, amigos.
Não lhes faltará que fazer.
Ahi estão os paysanducos esperando a _borga_ das eleições. Lá estão os de Monsão que d’elles necessitam para as farças publicas do entrudo, em que figuram makololos e Serpa Pinto.
Uns e outros: paysanducos, makololos e santascocas provam á evidencia, pela sua immobilidade mental, que, realmente, não havia razão para os sabios repellirem com tanto ardor as theorias de Darwin.
Nos cerebros de todos elles, existem irrefutaveis vestigios de hereditariedade chimpanzéca.
Distingui-vos d’elles!
* * * * *
Á sympathia que me inspira a vossa Assembléa deveis estes periodos, onde podereis encontrar phrase aspera de sinceridade, mas não phrase humilhante de ironia.
Não vos offendaes, pois, por eu declarar que estou intimamente convencido de que nenhum de vós conhece exactamente o valor, a extensão, a situação geographica, os limites dos terrenos que a canalha dos _lords_ nos pretende roubar; como sinceramente creio que a mesma ignorancia existe no espirito da maior parte dos patriotas que promoveram a grande _rusga_ de 14 e que por ahi, ainda hoje, erguem as mãos ao céo, falando de _roubos_, de _direitos indiscutiveis_, etc., etc.
Tirae-me do grupo promotor da _fantochada_ umas tres ou quatro cabeças, e demonios me levem se as restantes vos disserem para que lado fica a Africa, se fica perto ou longe de Taião e se lá vivem homens civilizados como nós, se paysanducos, se orangotangos.
Em vós, tudo desculpa essa ignorancia. Sois homens do trabalho. Quando o dia nasce, principiaes a lucta pela vida; quando o sol se esconde, procuraes no repoiso, vigor para a tarefa de ámanhã. Não podeis, portanto, dispensar o tempo necessario ao estudo d’estas questões que a Historia, a Geographia, o Direito internacional, etc., esclarecem.
Essa ignorancia existe, ainda mais profunda nas camadas populares inferiores á vossa.
Berraes, pois, que vos roubam sem conhecerdes, quanto, o que, e onde.
Consultae a consciencia e dizei-me se isto assim não succede, e se não consideraes censuravel que um homem nas ruas grite contra um ladrão, ignorando os direitos que tem de o fazer e só porque ouviu as exclamações dos outros.
* * * * *
Reconhecereis, portanto, que podia condemnar a vossa manifestação de 28, mas se acreditaes na sinceridade d’essa sympathia que eu vos affirmei nutrir pela _Assembléa Recreativa_, se a opinião d’um homem que se ri dos que, n’outras espheras _mais illustradas_, fazem das luvas—uma coisa que o meu cocheiro usa—distinctivo irrefutavel _de sentimentos dignos e cavalheirescos_ (!) permitti que em poucas palavras vos indique a fórma como eu entendo que vós devieis ter organizado a manifestação.
Nada de musicas; nada de procissões pelas ruas!
Um de vós pediria o theatro. Tres ou quatro iriam em commissão convidar qualquer dos officiaes do Regimento—que os tendes ahi illustrados e competentissimos—para uma conferencia sobre a questão do Chire-Nyassa, em que vos expozesse claramente, perante um mappa, a situação dos nossos dominios e a legalidade dos nossos direitos.
Para essa conferencia abririeis as portas ao povo, a esse eterno ignorante sempre explorado, porque o não educam; e se os vossos recursos podessem contribuir para uma verdadeira e util obra de patriotismo, a esse mesmo official pedirieis que vos escrevesse um pequeno volume onde, em linguagem chan, clara, perfeitamente intuitiva e ao alcance de todas as intelligencias, se desenrolasse a historia do nosso Passado e a historia d’essa vergonhosa alliança com a corte dos _lords_.
Distribuirieis depois, oito centos ou mil exemplares d’essa publicação pelas freguezias do concelho, pelas escholas, pelas ruas.
E então, amigos, com os brados de cólera e com as exclamações de desalento que a miragem das nossas gloriosas conquistas provocaria, poderieis compôr um hymno—um verdadeiro hymno nacional, magestoso, triumphante, imponente de enthusiasmos, arrebatador de generosos sentimentos, palpitante de sincero, energico e irresistivel Patriotismo!
Poderieis então gritar:
=Viva a Patria!=
que eu, sobre a cabeça d’esses paysanducos que se riram de vós, responderia com toda a energia de minha alma:
=Honra á Assembléa Recreativa!=
XXII
Carta a S. Ex.ª, o Sr. Administrador
Ex.ᵐᵒ Sr.
De caso pensado reservei para esta data, em que concluo a publicação que tanto tem agitado o espirito dos seus excellentissimos administrados, a manifestação dos sentimentos que agitaram a minha alma n’essa hora solemne, em que V. Ex.ª foi chamado ás graves deliberações da Administração concelhia.
E de caso pensado o fiz, Ex.ᵐᵒ Sr., porque necessitava que o tempo, os factos, me fornecessem elementos com que, ao collocar a individualidade de V. Ex.ª n’esta curiosa galeria de celebridades valencianas, podesse fazer ao publico um pequeno discurso apologetico com phrases e linguagem differentes ás d’essas escalrichadas apotheoses das luminarias da terra, prenhes de _estimados cavalheiros_, de _integerrimos magistrados_, de _robustos meninos_ e outras minhocas que o _Noticioso_ inventa para enfeitar o anzol d’uma assignatura annual.
Hoje, porém, Ex.ᵐᵒ Sr., que tres mezes se sumiram nas voragens do Tempo depois d’essa augusta solemnidade da _posse_, d’esse acto d’uma respeitabilidade indiscutivel em que a imponencia das nossas instituições civis actua sobre o espirito com a pressão de cem atmospheras—hoje, em que a individualidade administrativa de V. Ex.ª, evidentemente se destaca entre as auctoridades da minha terra, marchando a passo d’anjo no coice das procissões, ao lado de Sua Excellencia o Senhor Governador Pericles I e um pouco á frente do seu subordinado o Snr. Joaquim, muito digno e conspicuo Substituto—digne-se V. Ex.ª permittir que eu lhe dedique estas linhas, onde vou synthetisar a opinião que no meu espirito existe ácerca do Senhor Administrador.
* * * * *
Percorrendo a historia dos gloriosos feitos dos antepassados de V. Ex.ª n’essa cadeira administrativa—meditando sobre as diversas aptidões e faculdades que nas sombras do Preterito, ainda hoje illuminam os vultos dos prestantes e muito dignos cidadãos que eu por ahi vi atados á banda bicolor,—comparando os feitos immorredoiros que enaltecem os annaes da Administração valenciana—desde a _borralhada_ da Santa até ao exterminio da Rua Verde, desde a prisão d’aquelle feroz e sanguinario Troppman na _tomada de Barros_ até ás fornadas eleitoraes da Misericordia,—com os actos de V. Ex.ª, eu, Ex.ᵐᵒ Sr.—com franqueza—não posso exprimir o conceito que de V. Ex.ª formo com palavras differentes d’estas:
V. Ex.ª é o _refugo_ dos administradores!
* * * * *
E d’estas palavras escriptas com a rude sinceridade que até aqui arrepia a linguagem dos meus escriptos, acaso poderá V. Ex.ª deduzir intenção desdoirante das suas aptidões intellectuaes, dos seus conhecimentos juridicos, das suas faculdades administrativas?
Se tal succede, erra o seu excellentissimo criterio.
V. Ex.ª é o _refugo_ dos administradores, porque tem uma carta de bacharel, porque sahiu ha poucos annos da Universidade com uma educação politico-scientifica imperfeita, rachitica, insufficiente para as funcções do elevadissimo cargo de que está investido.
V. Ex.ª está saturado de ordenações, de codigos, de paragraphos unicos, de disposições transitorias, de _subsidios_, de cartas de lei, de alvarás; conhece os trabalhos e as theorias de Bentham, de Krause, de Kant, de Grotius, de Blackstone, de Calvo, etc., etc., mas ignora absolutamente e precisamente o que é mais essencial a um Administrador, mercê da insufficiencia dos programmas officiaes e da falsa orientação que na Universidade preside á incubação d’um bacharel.
A educação social do individuo deve adaptar-se ás condições e exigencias do cargo a que se destina. Um medico aprende a curar feridas; um militar a fazel-as; um escrivão de fazenda a tirar camisas; um boticario a preparar tisanas; um paysanduco a contar cucharras; um _espirito-santo_ a inspirar tolices; um Zinão a reforçar sinapismos.
Para lá da esphera profissional que a sua educação lhe circumscreve, o individuo torna-se um ser inutil, prejudicial, incommodo.
É o que succede com V. Ex.ª
V. Ex.ª cursou todas as cadeiras exigidas no programma official d’um bacharelado: direito romano, dito penal, dito commercial, dito civil, dito internacional. Sahiu habilitado para tudo: para defender, accusar, aconselhar, chicanar, fazer do direito torto e do que é torto direito, em questões de aguas de rega, de fóros, de fallencias, de peculatos.
Para o que não sahiu habilitado é para Administrador do concelho.
Tem V. Ex.ª culpa d’isso?
Não. Tem-na quem organizou os programmas para a faculdade de Direito.
* * * * *
Na minha humilde opinião, ao curso de Direito devia accrescentar-se mais um anno, para trabalhos praticos na cadeira de _Politica legal_.
N’esse anno, os futuros bachareis teriam de resolver, praticamente, entre outros, os seguintes problemas:
1.º
Empalmar uma eleição
No meio da sala seria collocada a urna. Alguns alumnos representariam a opposição. Com os restantes constituia-se a mesa: presidente, secretrios, escrutinadores, olheiros, capatazes, abbades e caceteiros.
O examinando teria de satisfazer ás seguintes provas, sem que a opposição percebesse a fraude.
_a_) Introduzir rapidamente na urna um maço de listas governamentaes.
_b_) Riscar os nomes dos eleitores reconhecidamente opposicionistas.
_c_) Incluir na _chamada_ e fazer substituir por _mirones_ todos os mortos da freguezia.
_d_) Inutilizar imperceptivelmente com borrões de tinta as listas dos contrarios.
_e_) Entornar um tinteiro na urna, quando a eleição se considerar perdida.
_f_) _Armar_ uma _baralha_ na egreja; derrubar mezas, cadeiras, quebrar cabeças aos eleitores; dar, até, pancada nos santos e fugir afinal com a urna.
_g_) _Empalmar_ uma acta. (Para esta prova o examinando poderia consultar os tratados especiaes que, sobre tal assumpto, tem escripto o Ex.ᵐᵒ Sr. Dr. M. Thomaz.
2.º
Uma fala aos lavradores
Antes da eleição (modelo _a_):
_Olé amigo! Toque. Dê cá um abraço.—Esta é a sua filha? Está uma fiôr; tem juizo, rapariga!—Sabe que arranjei um subsidio para as obras da torre? Custou, mas arranjou-se.—Você não tem um filho no recrutamento? Recebi hoje carta de Vianna em que me dizem que vae ser isento.—Aquella é a tal propriedade em que esses ladrões lhe lançaram quatro pintos? Eu amanhã arranjo isso na Fazenda; o mais que deve pagar é um pinto.—Pegue lá um cigarro. Com franqueza; fume á vontade, que é brandinho. Não tem lume? Metta á bocca... Prompto!—É verdade: já me esquecia. Você é dos nossos; amanhã é a eleição. Homens honrados são do nosso lado. Já cá o tenho na cabeceira do rol—Diabo! tenho o seu nome na ponta da lingua...—Zé da Portella, exactamente. Aqui tem uma lista. Mande para o diabo a outra canalha.—Adeus. Ás ordens sempre, sempre, para o que quizer.—Dé cá outro abraço que é de amigo. Adeus._
Depois da eleição (modelo _b_):
—_V. Ex.ª dá licença?_
—_Entre!!_
—_Louvado seja nosso..._
—_Que quer!?!_
—_Eu sou o Zé da Portella, aquelle..._
—_Venha logo, venha logo; tenho mais que fazer._
3.º
Organizar rapidamente o orçamento d’uma «borga» eleitoral, dada a capacidade cubica das barrigas dos abbades e a permeabilidade alcoolica dos tecidos intestinaes.
A resolução d’este problema requer os seguintes conhecimentos:
_a_) Saber o preço dos carneiros, dos _calhos_, do vinho, das batatas, das resteas d’alhos, do pimentão, etc.
_b_) Saber applicar o ammoniaco no caso provavel d’uma borracheira.
_c_) Saber receitar um purgante e manejar uma seringa na delicada operação do crystel.
_d_) Saber ouvir de confissão qualquer bruto que estoire repentinamente com a indigestão.
4.º
Redigir uma informação favoravel á imposição de qualquer transferencia, embora ella vá lançar na miseria a familia d’um funccionario honesto.
Modelo:
_Esta transferencia torna-se necessaria e até indispensavel á boa solução dos nossos negocios. O homem é regenerador. Diz por ahi o diabo do Marianno. Alem d’isso, embirra com o A. Ora este A. segura o O., que vale os seus cincoenta votos. Com o A. não podemos contar, porque é dos amphibios e vae para quem mais der. Por aqui já se rosna na transferencia e todos berram que é uma infamia. O homem tem oito filhos. Que isso não influa no animo de V. Ex.ª. Quanto mais distante fôr a sua collocação melhor, porque mais desafogados ficamos. Espero solução rapida. Resposta telegraphica. A victoria depende d’esta transferencia._
5.º
Conclusões varias sobre a elasticidade do Direito administrativo
_a_) F. (governamental) _tem uma burra. Só paga decima quando fôr da opposição._
_b_) F. (gov.) _tem um rendimento collectavel de reis 100$000. Reduz-se a 50$000._
_c_) F. (opposição) _é professor e politico contrario. Retiradas as gratificações sob qualquer pretexto._
_d_) F. (gov.) _requer uma policia correccional contra X. Pedra nos autos_.
_e_) F. (op.) _é filho unico e amparo da familia. Intimado para em tres horas se apresentar á inspecção._
_f_) F. (gov.) _é forte como um toiro e robusto como um Hercules. Entra ámanhã na inspecção. Isento por tisico._
_g_) F. (gov.) _é gallego e intrujão. Na gazeta do partido illustre correligionario e probo cidadão._
_h_) F. (op.) _é homem de bem; eu tambem o creio... apesar de que dizem por ahi (eu não acredito) que é ladrão e salteador de estrada._
6.º
Dirigir nos campos da politiquice, com a aguilhada da administração, o rebanho dos camaristas.
Este problema exige dois mezes de tirocinio com os boieiros do Alemtejo, para se apprender a deitar o laço e a reunir á manada qualquer boi tresmalhado.
* * * * *
Ora diga-me V. Ex.ª: n’estes tres mezes em que tem empregado a sua actividade nas coisas da nossa administração não encontrou ainda em equação, sobre a sua mesa de trabalho, todos esses problemas?
E resolveu-os?
Não os resolveu, porque a sua consciencia e a sua dignidade esperam, ainda, as provas de elasticidade e de resistencia que necessitam para a tensão das patifarias politicas.
V. Ex.ª tem feito um pessimo logar.
Nem come os _calhos_ dos abbades, nem é paysanduco, nem é _provarei_, nem deita foguetes.
Se não fosse a luminosa e providencial influencia do seu Ex.ᵐᵒ Substituto, homem de assaz provado engenho e competencia em assumptos de Direito administrativo e ilhas adjacentes, V. Ex.ª envergonhava a terra, o partido e os amigos, a cujo numero eu tenho a honra de pertencer.
V. Ex.ª não tem _feitio_ para Administrador.
Em tantos de tal (ainda V. Ex.ª não tinha na gaveta, ao lado das piugas, a banda azul e branca) entraram no seu escriptorio os cidadãos Zé Pita, Tóne do Logar e Manel Cancella.
Este Manel trazia uma questão com o sogro por causa das aguas da rega.
Disse da sua justiça.
V. Ex.ª ouviu, pensou e aconselhou.
Zé Pita, cidadão que tem as suas fumaças de doutor _lareiro_, metteu a colherada no caso, muito lepido e escorreito com umas objecções ao douto conselho de V. Ex.ª
V. Ex.ª ouviu, pensou e refutou: _artigo tantos_, _paragrapho tal_, etc.
Vae n’isto—o Tóne do Logar, _home_ de representação e de lettras gordas na freguezia, chegou-se tambem _ao rego_ da discussão, e metteu o bedelho, descobrindo ainda outra hypothese.
V. Ex.ª ouviu, pensou e concluiu.
Ficára o caso liquidado entre os quatro doutores, digo, entre V. Ex.ª e os tres cidadãos.
—_Quanto é?_ perguntou Manel.
—_Dezoito vintens!_ respondeu V. Ex.ª
Ficou estarrecido o homem. Nunca imaginára pagar um conselho por mais de tres patacos, muito especialmente agora que o João Moraes os annunciava a _quatro menos cinco_, para quem se avençasse ao mez.
—_Sôr Doutor... talvez seja engano de Vóssoria, mas foi só um conselho..._
—_Foram tres e não um!_ respondeu V. Ex.ª com aquella cara muito arrenegada que ás vezes tanto assusta a gente.
—_Tres, meu senhor?_
—_Você não falou?_
—_E depois não falou outro?_
—_E não falou depois outro? Tres vezes seis, dezoito._
* * * * *
Justissima era a reclamação.
Nem os sete sabios da Grecia poderiam contestar a legalidade e a exactidão d’aquella operação arithmetica.
Este simples facto revela a rispida e austera execução que V. Ex.ª dá aos sacratissimos principios da Justiça e da Equidade e revela, tambem, a incompetencia de V. Ex.ª para um logar onde, tendo tres, oito, dez ou vinte consultas diarias, nada poderá reclamar, quando venham recommendadas por o sr. Joaquim, ou por outro qualquer confrade politico que se lembre de fazer favores e de adquirir popularidade, á custa dos dois contos que V. Ex.ª gastou na formatura.
Para estas coisas de Politica é preciso vêr muito ao longe, ter vista de caçador, e V. Ex.ª mesmo como caçador, é um desastrado.
Nunca me hei-de esquecer d’aquella surriada que lhe fizeram os rapazes de Arão, quando V. Ex.ª lá appareceu com todo o seu arsenal de guerra.
Um dia, o Rocha e o Leitão suggeriram no cerebro de V. Ex.ª as glorias de Nemrod.
Depois de jantar, sahia V. Ex.ª com todos os petrechos de caça, inoffensivamente mortiferos. Uma solida _escopeta_ de carregar pela culatra; á cinta, um grandecissimo facalhão para escuchinar javalis; no bolso direito, uma enorme navalha de furar lobos; a tiracollo, d’um lado a cartucheira com trezentas cargas de polvora e bala; do outro lado, o canudo de cortiça com vinte e sete furões e furoas; no bolso direito do collete, um revolver de oito tiros; no esquerdo, um _box_ de quebrar dentes a cães e vinte exemplares do _Noticioso_ para _necessidades urgentes_; nos pés, aquellas grossas botas de sete solas impermeaveis, até, no Rio Minho; aos hombros, o capindó de borracha, gemeo do outro com que o Albino attrae a chuva por essas ruas, em dias claros e formosissimos de Primavera; atraz de V. Ex.ª, ladrando, farejando, saltando vallados e alçando as pernas, seguia a terrivel matilha, recrutada na Parada-velha: podengos de todas as raças e feitios, para coelho, para perdiz, para lobo: o _Nilo_, a _Fuinha_, o _Gigante_,—tó, _Nero_!—volta, _Farrusca_!
Assim disposto e precavido, seguia V. Ex.ª por essas aldéas fazendo tremer o solo, os ceos, a terra, os mares, com o aspecto apavorador da sua ferocidade venatoria.
N’isto,—alli ao pé de Arão, um triste pintasilgo risca no ar uma curva e vae poisar no arvoredo proximo.
A matilha _amarrou_.
V. Ex.ª toma ar, carrega a escopeta, aponta... toma outra vez ar... desfecha e olha.
O passarito soltára uma gargalhada de escarneo e batera as azas, voando...
Quando passou sobre a cabeça de V. Ex.ª, lá do azul dos ceos cahiu uma coisa sobre o seu excellentissimo nariz.