Sinapismos

Part 15

Chapter 153,596 wordsPublic domain

V. Ex.ª puxa do _Bull-dog_, ou _Abbadie_; o cocheiro aponta um revolver enferrujado, ouve-se uma detonação, depois outra; um grito, um rugido, uma praga. V. Ex.ª salta do carro, desfecha outra vez, avança, recua, tropeça no corpo d’um _barbaças_ que escabuja, perde o equilibrio e cae.

Quando tenta levantar-se, jogam-lhe uma paulada valente, que lhe fractura o craneo.

Não sabe do mais que se passou. D’alli a quinze dias principia V. Ex.ª a coordenar umas ideas vagas que em rapidos momentos lucidos surgem no seu cerebro. Sente-se excessivamente fraco; reconhece que está na cama; leva com difficuldade as mãos á cabeça, apalpa, e encontra um turbante de pannos humidos e ensanguentados.

Balbucia uma pergunta. Recommendam-lhe silencio, que não faça esforços de memoria.

—_Muito socego e muito juizo_, diz o Esculapio.

Tres dias depois, o cerebro associa as idéas.

—_Como foi isto?_—pergunta V. Ex.ª á esposa.

—_Foi d’esta e d’aquella forma._

—_E os homens?_

—_Um morreu; tres estão presos._

—_E o dinheiro?_

—_Roubaram-t’o com o relogio._

Epilogo

_Está ou não provado?_ etc., etc.

=dez annos de degredo.=

* * * * *

Ao ratoneiro que, talvez para matar a fome, levou cinco alqueires de milho, deu a lei—trinta dias de cadeia. Ao _barbaças_ que arriscando a vida, de peito descoberto, roubou o relogio e as oitenta moedas, disse o Codigo penal: dez annos de degredo.

Ora, o milho e o dinheiro pertenciam a V. Ex.ª por indiscutivel direito de propriedade. A falta do primeiro originou um desequilibrio insignificante nas suas finanças, que foram gravemente perturbadas pela subtracção do segundo. V. Ex.ª teve de limitar as suas despezas diarias e não poude, n’aquelle anno, mandar seu filho para Coimbra, ou para o Collegio militar, porque faltaram os meios e não quiz contrahir emprestimos.

A lei, garantindo a propriedade do cidadão puniu severamente os individuos que prejudicaram V. Ex.ª

_Neminem laede_—era a formula de Kant na sua theoria sobre a Philosophia do Direito.

Lesaram V. Ex.ª e a lei puniu.

* * * * *

Comparemos os factos:

As vinte moedas representam o rendimento da quinta _tal_, em algures, que a V. Ex.ª pertence por um titulo de acquisição ou posse, legalmente reconhecido.

Os duzentos mil reis que V. Ex.ª gasta com as despezas da sua transferencia e os juros ou encargos de doze mil reis annuaes, serão retirados do rendimento da propriedade que V. Ex.ª comprou ao Estado com os dois contos da formatura, ou com os _direitos de mercê_ e com o seu trabalho diario—compra de que possue o devido titulo que é um diploma, a _patente_, _etc._

Associadas as idéas, comparados os factos, consideremos agora o _barbaças_ e o marau _transferidor_.

Que differença póde haver entre o primeiro, que na _Tomada de Barros_ reclamou, de bacamarte em punho, as vinte moedas, e o segundo que, desfechando o bacamarte da _transferencia_, a V. Ex.ª origina um prejuizo de duzentos mil reis?

De qualquer d’esses factos não resultou o mesmo desequilibrio nos elementos economicos da sua existencia?

Não significam elles o mesmo attentado contra direitos legalmente reconhecidos?

Não houve n’elles a mesma responsabilidade, a mesma _premeditação_, a mesma consciencia da illegalidade?

Eu de mim annuncio que só reconheço uma differença entre o João Brandão, o Papa-Assucar ou Zé do Telhado e _quem quer que_ fosse que promoveu a transferencia do sr. Camisão, e _quem quer que_ seja que promove as transferencias que, á puridade, por ahi se annunciam.

Essa differença é a seguinte:

João Brandão, Zé do Telhado e Papa-Assucar, na classe dos ladrões são ladrões honrados e dignos. Apresentam-se na estrada, de peito descoberto, fronte erguida, expondo a vida e arriscando a liberdade.

Os _transferidores_ de cá são ladrões acanalhados, ratoneiros de feira, fadistas de café de _lépes_, traiçoeiros, covardes que se disfarçam com grandes capotes e se cozem ás paredes nas sombras da noite para, em qualquer encruzilhada, combinarem os meios de, impunemente, anavalharem o funccionario publico.

Se eu souber que no pinhal de Ganfey se acoita uma malta de larapios, e se tiver necessidade de lá passar á noite, a prudencia aconselha-me a levar um bom cacete, para quebrar o braço a um e pôr em fuga os outros.

Ora, dos _transferidores_ é que eu não me posso livrar tão facilmente. Só saem quando os lampeões se apagam; só transitam por viellas, mysteriosos, impalpaveis, sumidos. Se, por acaso, d’algum suspeito e lhe arranco o capote para conhecer as feições, encontro uma cara conhecida que ainda ha trez horas me saudava e me sorria.

D’aqui a tres dias, silva a navalha nos ares.

* * * * *

No periodo de 1886 a 1890 instituiu-se n’esta villa o regime das _transferencias_ que legaliza essas infamias, estabelecendo nos differentes partidos politicos a necessidade das represalias summarias, como as disposições do codigo de Lynch.

_É preciso fazer sangue, para que os campos se definam_—disse-me, ha annos, um Machiavel indigena. Apertei o casaco e segurei o relogio. É que na estrada da Velhacaria, a Politica da minha terra avizinhava-se já do pinhal da Azambuja em que hoje vivemos.

Para esta classe de scelerados—os _transferidores_—o Direito romano, as Ordenações e os Codigos nada estabelecem. Mas o Direito positivo funda-se no Direito natural e este tira os seus principios da consciencia humana, em face das leis da Razão e da Moral.

O legislador dá sempre ao magistrado a faculdade de ampliar, segundo os dictames da consciencia, ou de alterar, segundo os usos da terra, as disposições que estabeleceu para a repressão do facto criminoso e para a defeza de direitos adquiridos.

Em nossa consciencia, pela illegalidade das causas e pela importancia dos effeitos, o caso das _quarenta moedas_ e o dos _duzentos mil reis_ teem a mesma classificação: um roubo.

Quem rouba é ladrão; e para nivelar a condição criminosa e as responsabilidades do _barbaças_ e do _marau transferidor_, egualmente perigosos na sociedade em que vivemos, apresento o seguinte additamento ao Codigo penal:

Artigo tantos:

=Todo o homem de bem tem a liberdade de correr a pontapé pelas ruas de Valença, o sevandija que, directa ou indirectamente, influa em qualquer transferencia.=

§ unico:

=Fica revogada toda a legislação em contrario.=

10-2-90.

_Zinão_.

XX

A questão ingleza

(NOTAS SOLTAS)

Alem-mar scintilla na escuridão a iris do abutre.

O leopardo rugiu, saltou, e cravou as garras ensanguentadas no velho Portugal.

Este enorme gigante que teve no encephalo, como cellulas, os craneos de Camões, de Gama e de Cabral; que teve por apophyses as columnas de Hercules, os rochedos do Bojador, do Boa-Esperança, do Razalgate e do Comorim; por articulações Angola, Moçambique, Mascate, Ormuz, Diu, Calicut, Malacca; por veias os filões preciosos de Sofala, de Minas e Cyaté, do Pegu e de Narsinga; por arterias o Tejo e o Zaire, o Quanza e o Limpopo, o Zambeze e o Mandovi, o Ganges e o Amazonas; por cabellos os cedros seculares do Novo Mundo; por musculos os braços de mil heroes; por thorax a amplidão de todos os céos; por limite visual a linha de todos os horisontes; por fronteira o circulo de todos os quadrantes; por dominio a vastidão de todos os mares; por fanal a luz de todas as constellações—esse colosso que teve por servos o Çamorim e os rajahs da India, por thesoiro os abysmos aquaticos de Borneo e de Ceylão; por sonhos os mythos do Preste-Joham; por pesadelos as tragedias de Alcacer-Kibir e de Tanger; e que pela rigidez do seu braço, pela heroicidade do seu valor, conseguiu a crystallização de todas as chimeras e a realidade de todas as phantasias—eil-o ahi, prostrado, corroido pelo fanatismo religioso que ha quatro seculos lhe ulcerou os membros, enfraquecido pelos caprichos de monarchas perdularios, aviltado pela phthiriase de cortezãos servis, cancerado pela ambição insaciavel dos aulicos traiçoeiros, decrepito, pobre, agonisante... mas não morto!

Não! Não está morta a Patria! Ha n’ella quatro milhões de cellulas; e se muitas são inertes ou inuteis, covardes ou egoistas, existe nas restantes força viva sufficiente para transmittir á musculatura do heroe decrepito a energia das grandes crises e o arrojo dos antigos feitos.

* * * * *

N’essa cloaca—a côrte ingleza—escoante de todas as sargetas, deposito de todas as fezes, sumidoiro de todas as immundicies que podem existir na alma humana, as ambições e a perfidia actuaram como acidos d’uma pilha sobre o metal—oiro—dos nossos terrenos da Mashona.

Como reophoro transmissor d’essa electricidade cupida, partiu de Londres—polo negativo—o _ultimatum_ de Salisbury e tocou no coração da Patria.

Immediatamente, outra electricidade se desenvolveu com os elementos positivos da Justiça e do Direito n’essa enorme pilha—a alma portugueza—que já actuou em todo o Universo com a intensidade das mais arrojadas emprezas e com a força dos mais generosos heroismos.

E então, ao contacto d’esse novo fluido, de que n’um bello impulso de ardente enthusiasmo a Academia foi conductor, todos os membros do decrepito colosso se agitaram convulsivamente. Ergueu-se o heroe, d’um arranco, e magestoso de altivez, fremente de indignação—d’ahi, do promontorio de Sagres, d’onde avassallára o Mundo, arremessou para lá da Mancha o escarro do desprezo, unico desforço que a dignidade permitte ás affrontas d’um villão.

Cartel de desafio não se manda a representantes de _lords_. Bright era _quaker_; Crawfurd, provavelmente, é castrado; condições diversas, mas eguaes na intenção—livrar decentemente as regiões trazeiras da bota d’um portuguez.

* * * * *

A excitação da colera e a allucinação do perigo teem por vezes prejudicado a imponencia da nossa attitude perante essa malta de esbodegados borrachões, paus-de-virar tripas encasacados, feitos de esperma de lupanar e de muco leucorrheico, que constituem na sua abjecta individualidade de _lords_ a canalha servil da côrte ingleza.

_Morra a Inglaterra!_ bradamos.

Não! Não se levantam gritos de exterminio contra uma nação inteira. Entre quarenta milhões de habitantes ha, tambem, opprimidos e oppressores.

A podridão e a villania condensam-se nas altas espheras do _high-life_, nos palacios da City, nos corredores de Windsor Castle, no _royal box_ de Covent Garden, no Pelican Club, no Devonshire Club, no Turf-Club, onde impera, infrene, El-Rei Deboche.

Cá em baixo, labuta e moireja um povo trabalhador e geme um mundo de parias. Nos bairros immundos de Londres, no West-End, no White-Chapel, dormem ao ralento, esfarrapados e nús, centenares de velhos e de creanças.

Agonizando pelas esquinas e escabujando nos monturos, morrem annualmente, =de fome=, tres a quatro mil pessoas.

Das camadas que trabalham sahiram Shakspeare, Milton, Jenner, Newton, Davy, Graham, Bacon, Locke, Hume, Priestley, Adam Smith, Stephenson, Wollaston, Boyle, Shaftesbury, Harvey, Stuart Mill, Spencer.

Esses homens alguma coisa fizeram em prol da humanidade e da civilização, e não é justo, portanto, que á sua memoria e ao seu nome lancemos o escarro do insulto e o estigma da maldicção.

_Odio aos lords!_ deve ser o nosso grito, porque são elles, e só elles, os nossos espoliadores.

Odio a essa aristocracia abandalhada que estrangula a Irlanda—mancha vergonhosa da civilização europea e que os magarefes da City por vezes transformam em sangrento açougue.

Odio a esses lacaios de libré que nas sessões da Lords’ House vemos erectos, empertigados, orgulhosos, e á noite se curvam sobre os tapetes do _brothel_—bestiaes, apopleticos, rubros, babados, _falling on one’s jaws_[58] entre saias almiscaradas e amarellas com o liquido da menorrhéa.

N’esse asqueroso quadro de infamias que em 85 a _Pall Mall Gazette_ desvendou á imprensa europea ha, como actores, _lords_, só _lords_—os mesmos canalhas de Cleveland-Street que, ha mezes, uns áltos _personagens_ da côrte protegiam, suffocando a peso de oiro a publicidade das suas novas torpezas. São elles e só elles que fixaram o preço de 15 a 20 libras para as _fresh-girls_—_virgo intacta_—de 13 a 14 annos, que hoje são as 50:000 prostitutas—_black army_ dos _trottoirs_ londrinos.

São elles que para a lucta contra essas desgraçadas creanças, attrahidas infamemente aos subterraneos de West-End, inventaram a _black-draught_ do narcotico.

São elles que para obterem o oiro necessario ás phantasias d’uma sensualidade bestial, constituiram a _Slaughter-House_ contra os desgraçados filhos da Irlanda; que reunidos em _Royal Companies_ ordenaram essas medonhas carnificinas de Pendjab e dos cipayos; e que agora, trocando em casa de Salisbury as fardas bordadas pela jaqueta de _pick-pocket_, _chypram_ do mappa africano o oiro da Mashona.

Esses asquerosos Tartufos, occultando cynicamente nas casacas de _congressistas_ philanthropicos e humanitarios a sua cupidez e insaciavel ambição, propozeram, ha tempos, a Portugal e ao sultão de Zanzibar um bloqueio na costa oriental, de Inhambane a Pembe, que impedisse—diziam—a importação de armas aos arabes do interior, eternos traficantes de carne humana.

O nosso governo accedeu; o bloqueio estabeleceu-se; e poucos dias depois, o governador do Cabo enviava occultamente a Lobengula, feroz chefe dos Matabelles, com quem os arabes se entendem, 1:000 espingardas Martini-Henry com 300:000 cartuchos!

Odio, pois, aos _lords_!

Organize-se contra elles uma nova cruzada de exterminio, e que todo o portuguez tenha o direito de os correr a tiro, como a animal feroz, quando no solo honrado da Patria poisarem as suas enormes patas de tres toesas.

São elles e só elles que nos roubam. Ahi vae a _historia do caso_ Chire-Nyassa.

Lord Fife, duque do dito Fife, é genro de Sua Alteza Real o Principe de Walles; casou com a princeza Luiza, uma neta da _graciosa_ rainha e imperatriz Victoria.

Lord Fife é um pobresinho de Christo; das suas propriedades de Scotland e de outros bens de fortuna tem um rendimento aproximado a dois contos por dia, e como a sua _Ex.ᵐᵃ Consorte_ é de egual pobreza, com mais umas achegas, dotação, etc., nas telhas d’aquelle desgraçado casal caem umas quarenta libras por cada hora de cada dia.

Mas succede que lá, como cá, estas coisas de nobreza custam muito dinheiro, porque é preciso sustentar a respeitabilidade da posição official, como diz o Albino, quando _entra nas idéas e no coração_ da gente para dispôr os _petardos_ das suas transcendentes, nebulosas e philosophicas reflexões sociaes.

Como o povo inglez embicou, ha tempos, com o augmento da dotação da _Royal Family_, lord Fife, para ganhar o seu pataco, fez-se agiota, socio commandita da firma commercial _Samuel Scott and C.º_ e director da _British South Africa Company_, a quem uma _Royal Charter_ concedeu, ultimamente, 400:000 milhas de terreno africano com aquella liberalidade conhecida: _do pão do nosso compadre grossa fatia ao afilhado_.

Mas as libertinagens de West-End, do Cleveland-Street, os serviços dos rapazinhos do telegrapho, as orgias de _champagne_, os _boat-matches_ do Naval Club, absorvem todos os rendimentos de lord Fife e segundo consta, ha poucos mezes, as finanças de His Lordship estavam por assim dizer: _tem-te, não caias_[59].

A concessão feita a Lord Fife, a Lord Abercorn, a Lord Gifford (cá estão os _lords_), organizadores da _African Company_, era tão importante que em Londres, o _Times_ e o _Standard_, fazendo reclamo, annunciavam-na como: _Empreza colossal_. Todavia, as acções conservavam-se na _baixa_ e Lord Fife, nominalmente um dos maiores accionistas, não arranjava com aquelle negocio para pagar um _little boy_.

Surgiu então uma idéa salvadora. Os nossos terrenos na Mashona eram, ha muito tempo, indicados como preciosos para explorações auriferas. Salisbury levou _rasca na assadura_; contractou-se o patife Johnston, compraram-se por baixo preço todas as acções da _South Company_ e no dia seguinte rebentou o _ultimatum_. Em vinte e quatro horas, cada acção obteve um premio de setenta libras. Cinco mil acções—trezentas e cincoenta mil libras.

_God save the Queen!_ e vamos ás _fresh-girls_!

Odio pois aos lords! E como em Valença as manifestações patrioticas ficaram no _projecto_ d’um telegramma a Serpa Pinto, porque se repetiu, talvez, aquelle caso da subscripção para o _bucephalo_[60], eu proponho o seguinte:

Que se mande a Lisboa uma commissão para escolher e contractar nas viellas da Baixa duas duzias de _ladies_ matrafonas, das mais abandalhadas e nojentas.

A mesma commissão contractará, tambem, dez ou doze grumetes da marinha real ingleza. Esses grumetes serão vestidos, da cinta para cima, com o uniforme dos boletineiros telegraphicos; da cinta para baixo, uma parra.

Matrafonas e grumetes, com seis barris de _cachaça_ de 90°, serão envolvidos por uma forte rede de arame, á qual se atará um solido cabo de algumas milhas.

A gente vae depois alli, a Calais, põe um pé em Douvres e atira com a _isca_ para o Tamisa.

Fica um de nós a ter conta no cabo. Póde ser—por exemplo—o Fernando que é o mais entendido em coisas de pesca, como o prova annualmente na Rapozeira com os seus _botirões_. O Braga tambem póde servir, porque tem habilidade para descobrir peixes.

O Fernando, pois, senta-se em qualquer rochedo, fuma o seu cigarro, espalha as tristezas com o _Noticioso_, ou com as _latinhas_ do Cruz, e quando sentir que a corda estica, signal de que o peixe _pica_, puxa vagarosamente para terra.

A meio cabo, levanta-se e vem descendo pela costa da Mancha: Dieppe, Havre, Cherbourg; Brest, S. Nazaire, Bordeaux; contorna o Golpho, Bayonne, Santander; dobra o Ortegal, Corunha, Vigo, Guardia; entra no Minho e vem subindo pela margem direita até ao _Pau-do-fio_.

A gente põe-se cá de cima, das muralhas, e recebe o cabo. Chamam-se os paysanducos e toca a puxar.

Fóra da agua a _isca_, veremos logo, agarrados a ella, todos os _lords_ da _City_: Lord Fife, Lord Foife, Lord Fufe, Lord Craft, Lord Creft, etc.

O _lord_ é animal amphibio, organização de batrachio; resiste bem debaixo d’agua, como se sabe.

Paysanducos continuam a puxar e vae tudo para o largo de S. João.

Os _lords_ devem apparecer esbodegados, cambaleantes, tropegos.

Vem o _Parádas_ com o _bolo municipal_ e divide-o pelos borrachões.

Duas horas depois, o Gamellas traz a carroça do lixo, carrega, e despeja na _Sexta_.

Extincta, assim, a raça vil, a _City_ fica deserta; e como a Hygiene recommenda a collocação das fossas longe das habitações, faremos do _fashionable_ bairro uma sentina para uso diario.

Ao norte: Para damas.

Ao sul: Para homens.

Para fazer a limpeza e fornecer papeis, ficarão:

Mr. Jacob Bright

e

Mr. Oswald Crawfurd.

2-3-90.

XXI

A manifestação dos artistas

Em 28 de janeiro, a Direcção da Assembléa Recreativa promoveu uma manifestação patriotica, préviamente annunciada nos jornaes da terra com a minuciosidade espaventosa d’um programma de _S. Telmo_ ou _da Agonia_.

Não é meu intento censurar essa manifestação; mas, pelo simples facto de ella ter sido promovida por um grupo de artistas e de homens do trabalho não devo excluil-a do campo critico, onde com estes artigos analyso os factos mais importantes na chronica valenciana.

A meu vêr, essa manifestação teve uma origem que a absolve plenamente d’uns pequenos ridiculos que a amesquinharam. Originou-a um impulso de sincero patriotismo, e basta isso para escudar os promotores d’ella contra a rudeza da phrase com que verberei a _fantochada_ de 14.

Se essa manifestação offerece alguns lados censuraveis, se teve peripecias irrisorias, se não me inspira hoje phrases de caloroso applauso e de sincera adhesão, os seus promotores devem-no, exclusivamente, ás impressões que nos seus espiritos deixou a grande _rusga_ de 14. Aproveitaram parte do programma: musica, cortejo, vivas arruaceiros, procissões _intra_ e _extra_-muros, etc., abandonando deploravelmente os meios que a Razão aconselha para, em occasiões identicas, se dar a qualquer manifestação um caracter significativo de energia, de sensatez e—sobretudo—de utilidade.

Não me rio perante as bandeiras que n’esse cortejo distinguiram a Arte, do Commercio, como estulta e imbecilmente o fizeram alguns dos _illustres patriotas_, comparsas na ignobil farça dos abbades. Essas bandeiras significam o trabalho honrado, o homem que labuta e moireja dia e noite no sustento da familia, e que nunca serviu de lacaio a qualquer magnate eleitoral para, á custa do Estado, coçar por ahi, nas esquinas, os seus setenta kilos de ociosidade; significam o artista que contribue efficazmente para a riqueza da nação; o commerciante que concorre com uma boa parte dos seus interesses para as despezas das nossas mais uteis instituições e não o eunucho indifferente a todos os impulsos da Civilização e que, arrastando uma existencia ignobil, como a da lapa eternamente presa ao rochedo, na valla commum dos inuteis desapparece, sem ter conhecido outra energia e outras sensações além das que obteve, comendo, bebendo e dormindo.

Passe, pois, o cortejo, porque perante elle, eu, descubrindo-me, exclamarei tambem:

=Viva a patria!=

* * * * *

A Musica da _Santa_ veiu outra vez espancar os ares com as notas festivas dos hymnos, bufadas para os céos da Patria com a furia d’uma orchestra de Cafres.

É crença arraigada no espirito do povo que não póde haver solemnidade sem gaiteiro.

Era preciso, disseram-me, estimular, avivar o espirito da nacionalidade.

Este argumento defensor dos _paus-tesos_ recorda-me as funcções luctuosas das antigas carpideiras, nas casas minhotas.

Morria o fidalgo.

Expunha-se o cadaver na sala nobre.

As mulheres e as creanças acocoravam-se sobre os tapetes.

Em volta do caixão perfilavam-se, tristes, sombrias e sinistras, seis mulheres recrutadas no auditorio dos Missionarios, entre as mais hystericas e lacrimosas, quando algum dos energumenos descrevia os horrores do caldeirão de Pero Botelho, o rechinar das carnes e os forcados rubros de trezentos milheiros de diabos que pinchavam sobre as cabeças chamuscadas dos condemnados.

Vinham os amigos da familia apresentar as suas condolencias.

As carpideiras irrompiam n’um chorar convulso, com todos os sons da gamma afflictiva, com todas as notas ascendentes e descendentes d’uma suprema dôr: suspiros, gemidos, gritos, berros—berros, gritos, gemidos, suspiros.

Os sentimentos quando se manifestam com violencia exercem uma forte acção de communicabilidade a que nem todos são refractarios. Vêmos lagrimas nos olhos d’uma viuva, ouvimos o casquinar de sonoras gargalhadas e o cerebro, recebendo as impressões d’essas lagrimas e d’esses risos, reproduz em nossa face os sentimentos que os motivaram: rimos quando os outros riem e choramos quando os outros choram[61].

Assim, na scena das carpideiras, ellas, a familia, as visitas, os creados, disputavam primazia em intensidade de sentimentos.

Terminada a cerimonia, os amigos compunham no rosto os traços d’uma grande dôr; distribuiam pela familia arrochados abraços e violentos apertos de mão, exprimindo entre soluços os desejos de se tornarem uteis: _se fôr preciso qualquer coisa—estamos ás ordens—mandar com franqueza—adeus—é ordem do mundo—resignação—adeus..._

Fechada a porta, fechavam-se tambem, com ella, as valvulas das glandulas lacrimaes; e carpideiras e doridos corriam á vasta cozinha, onde pantagruelicamente atafulhavam o bandulho com grossas postas de bacalhau cozido, abundantemente regadas por successivos cangirões de bom e espumante verdasco.

Batiam, de novo, á porta; tudo voltava á sala.

O morto lá estava; amarello, hirto, de mãos ceraceas cruzadas sobre o peito, muito esticado dentro da sua _roupa preta_ perolada de _agua benta_, exhalando fragrancias de _vinagre aromatico_, de nariz para o ar, onde as moscas esgaravatavam com as patitas, na doida e frenetica sensualidade das cocegas que ellas tanto appetecem, e que o finado, dias antes, tão pertinazmente lhes recusára.