Part 14
Este pueril e comico incidente, baseado n’uma simples questão de _bufo_, ou sopro, forneceu a Pericles recursos para ruidosamente explorar a estupidez das massas e o fanatismo do povo, que estrebuchava com arrancos de colera, quando via o feroz Attila.
Como já n’essa epocha eu trabalhava para reunir materiaes, com que podesse encetar os projectados estudos sobre a Historia da minha Patria, grandes eram os desejos que nutria de poder assistir a alguma das reuniões d’aquelles homens illustres onde, indubitavelmente, com a lucidez de tão poderosos cerebros se deviam discutir os destinos e a Politica da confederação athenico-cerveirensis.
Pude emfim conseguil-o, subornando os dmoes[53] do sacerdote Pinus Abbates que, mediante vinte talentos[54], consentiram em me occultar na adega d’uma propriedade, a doze stadios[55] ao sul de Athenas onde, como sitio retirado e fresco, de preferencia se reuniam os _Provareis_.
Alli os ouvi; alli tive, a meio passo de distancia, todos esses homens illustres, que tão poderosamente tinham contribuido para o engrandecimento de Athenas e para a sua hegemonia na confederação.
Era uma tarde calmosa; reunidos no escuro subterraneo, os _Provareis_ mais uma vez estudaram as _aguas_ com abundantes e saboreadas libações. Por largo tempo ouvi um craquejar de maxillas e um glugluar de pharynges, indicios terriveis d’essas assombrosas devastações, que depois inspiravam aos servos e dmoes do Abbates estas dolorosas palavras:
—_É impossivel que nas altas horas da noite, quando a pallida Phebe desce a visitar Endymion, Hades, o deus infernal, não mande a estas paragens uma praga de gafanhotos! Que prejuizo soffreram as nossas colheitas, grande Zeus!_
Concluidas as _provas_, ergueu Pericles a fronte; poz o pennacho de pennas de capão, insignia de polemarcho; afivelou a catana e as esporas; limpou os galões brancos e, trepando a um escabello, annunciou com ar solemne o thema da sua conferencia:
UM PROBLEMA POLITICO DA FUTURA ERA DE CHRISTO, SECULO XIX
Amigos e Provareis[56].
É commettimento facil para espiritos medianamente esclarecidos a resolução de problemas na Politica contemporanea. Estudando os elementos ethnologicos, a influencia das civilizações estranhas, as aspirações collectivas e as relações indestructiveis da Historia nos cyclos que as suas leis estabelecem, podemos fatalmente traçar a orientação a que os povos teem de obedecer.
Abandonarei esse campo já explorado pelo vulgo e pelos espiritos d’uma illustração comesinha. Asphyxia o meu intellecto nos acanhados horisontes do Presente. Anceia o meu espirito pelas luminosas regiões do Futuro, na lidima aspiração d’uma visualidade perscrutadora do destino dos povos e da evolução das sociedades.
Rasgar as trevas do porvir, prever as luctas e as contrariedades, guiar a incauta Humanidade nas tortuosas sendas a que o Destino a condemna, leval-a pela mão á beira dos abysmos para lhe bradar carinhosamente: _não vás além!_—é a missão que a Divindade traçou ao Genio, a isto de superior, de maravilhoso, de prophetico, que me distingue do vulgo, que me aparta da plebe, e que dá á minha individualidade, no meio d’este constante marulhar das paixões e da ignorancia humanas, a previdente luz do fanal que, entre escolhos e baixios, guia o amargurado nauta nas cerradas trevas de noite caliginosa.
Transpondo um periodo de dois mil e quatrocentos annos no futuro da Humanidade, eu vou annunciar os perigos amontoados no horisonte dos povos que no seculo XIX d’uma nova era hão de occupar as ignotas regiões, que um grande mar banha e onde os phenicios já estabeleceram dominio e poderio.
Phantasiae, amigos, que viveis commigo n’uma peninsula que, por occulta, o phenicio denominou Spania, e que me ouvis discreteando com os homens politicos d’esse futuro seculo:
_Aconselho a alliança das raças latinas. O horisonte da Europa annuncia borrasca._
_Ha negrumes para o Norte. Não receeis o teutonico; temei o slavo! Haja outro Metternich para esse inimigo commum._
_Bismarck é um imbecil. Com a sua germanisação fez-se testamenteiro de Frederico, o Grande. Crispi é um visionario. Salisbury um bebedo. Sagasta uma nullidade. Zé Luciano um comparsa._
_Na Politica internacional o melhor systema é o de Machiavel. Tenho-me dado bem com elle e não quero outro._
_Quando, na conferencia de Berlim, me pediram conselho, disse e repeti: vocês reparem no russo!_
_N’essas regiões do Norte a maré sobe e, qualquer dia, rompem-se os diques._
_Teremos novas invasões. É a lei fatal da Historia: sangue novo para corpo velho._
_Acautelem-se, porém, com o processo da inoculação; o russo é feroz._
_Latinos, teutonicos, toca a reunir!_
_Bismarck, deixe essas coisas d’Africa; você tem um certo fio para isto de Politica, mas ainda está um pouco ingenuo. Appareça lá por casa, ás noites, com o seu rapaz, com o Herbert. Jogaremos a bisca de tres e terei occasião de lhes dar umas noções politico-sociaes mais amplas._
_Emin Pacha cahiu na ratoeira de Stanley. Já quebrou a cabeça com uma tremenda borracheira. É o resultado das más companhias. Soffre as consequencias da indifferença com que ouviu as minhas recommendações._
_Recebi hoje carta do general Deodoro. Eu tinha vaticinado a transformação politica do Brazil. No organismo monarchico apodreceu mais aquelle membro. Cortem até ao osso para que o mal não avance._
_Isto por cá, vae mal. D. Carlos escreveu-me. O rapaz anda atrapalhadote. A Mãe telegraphou pedindo-me para lhes ir valer. Não estou para os aturar._
_Preferiram o Barjona para a missão de Londres. Antes de partir procurou-me e conferenciamos. É dos nossos e deve-se proteger._
_A caracteristica evidente d’esta assombrosa phase da evolução social._
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Subito ruido interrompeu o discurso do grande homem. A porta da adega abriu-se com estrepito. Assustados, os _Provareis_ rodearam Pericles, como as avesinhas implumes rodeiam os paes, quando no azul dos céos paira, ou zigzagueia o milhafre.
No limiar apparecera, offegante e rubro, um paysanduco, que pronunciou estas palavras de magico effeito:
—_Oh filhos! Venho de Tuy. A Noya «matou» hoje, e sempre tem uma «agua», que é mesmo de chupeta! Póde «cortar-se» á faca._
—=Á Noya! Á Noya!=
exclamaram os _Provareis_; e em desordenada carreira, a grandes pernadas, desappareceram ao longe, furando a linha circular do horisonte.
Que mysteriosa influencia seria a d’aquella Noya?
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XVIII
Uma recita de curiosos
(FRAGMENTO)
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Passou-se ao segundo acto.
O panno subiu, e á luz da ribalta appareceu o Nascimento.
Nascimento—diga-se a verdade—não é precisamente um Brazão.
Tenho assistido, por vezes, aos trabalhos d’este actor. Brazão ri, chora, soluça, tem arrancos de colera, tem na voz a doçura d’uma supplica, a suavidade d’uma prece, a meiguice d’um carinho, o vigor d’uma maldicção, o rugido d’uma ameaça.
A melancholia da saudade, as expansões do amor, as torturas do remorso, as angustias do ciume resaltam nitidas, vibrantes, envolvendo-nos a alma—comprimindo-a, dilatando-a—com o fluido subtil de uma verdadeira interpretação artistica.
Por _doze vintens_, eu tenho visto o Nascimento fulgurando na gloriosa constellação—grande Ursa dos nossos céos artisticos—de que fazem parte: Sampaio, Guilherme, Aurelio, Romano, Machado, Ernesto.
Com franqueza:—sem querer irritar a indisposição que no espirito do Nascimento violentamente se denunciou contra o Zinão, sem querer amesquinhar o culto idolatrado que elle nutre pela Arte dramatica, ou apoucar as suas aptidões—direi em homenagem á Verdade: Nascimento é um barbaro!
É um barbaro quando pisa o palco, porque não tem naturalidade, nem expressão, nem relevo.
Apresenta-se em todas as scenas com o mesmo fato amarello, de tecido africano, que o Isidoro lhe empresta; tem para todas as surprezas o mesmo =oh!=; para todas as dores o mesmo: =ai Jesus!=; para todas as saudações o mesmo: =ora viva!=; para todos os cumprimentos o mesmo: =Comoestá? Passoubem? Bemmuitoobrigado.=
Os pés soldam-se-lhe ao pavimento: as peças das articulações unificam-se, como se as membranas synoviaes segregassem chumbo derretido; os musculos tomam a rigidez do aço, permanecendo hirtos, inteiriços, refractarios ao imperio da vontade e á malleabilidade dos sentimentos.
Não tem flexibilidade nos movimentos, nem elasticidade nas formas que as diversas situações exigem, porque uma barreira de frieza e de immobilidade—quiçá composto de espessas cellulas philosophicas (?)—se oppõe á intima e immediata transmissão dos phenomenos psychicos aos orgãos e ramificações do systema nervoso.
Predominam em todas as modulações da sua voz aquellas notas seccas, asperas, do: =Carregar! Alto!=
Denuncia-se em todas as posições a rigidez d’aquella linha d’uma convexidade opisthotonica, que a _Ordenança_ militar traça para o =Perfilar=!
E assim, Nascimento, como _Boticario_ da _Morgadinha_, como _carcereiro_ de 1640, ou como _Mano Gaspar_ do _Mano Aniceto_—é sempre o mesmo Nascimento: gordinho, obeso, rechonchudo, espartilhado, vestido de _mabella_ africana.
Todavia, estudando as minuciosidades dos seus trabalhos dramaticos, analysando a mechanica dos seus movimentos, comparando a dynamica dos sentimentos que elle tenta exprimir com as manifestações da sua vitalidade no convivio diario e com os actos exteriores da sua existencia social, eu chego á seguinte conclusão que poderá ser considerada como paradoxal: Nascimento, no desempenho dos seus _papeis_, na interpretação d’um caracter, na reproducção d’um _typo_, consome mais Sentimento do que o Brazão. O seu trabalho psychico é superior ao d’aquelle artista; na sua alma as situações definem-se, as individualidades esclarecem-se, as faculdades actuam. Nascimento pensa, sente e quer, como _Boticario_ de Val d’Amores; mas o que não possue é esse colorido, ou—por assim dizer—essa moldura artistica que dá relevo ás interpretações e vida aos personagens.
E como a sensibilidade affectiva é um requisito indispensavel ao actor, e talvez o mais essencial, porque é ella que o guia nos reconditos escaninhos da alma de Hamlet, Nascimento, que possue essa faculdade em superior grau, tem direito a ser considerado a par de Brazão, dos Rosas, e até, ao lado de Lekain, de Kean, de Rossi, de Irving, de Kronsweg.
Vou demonstrar a existencia d’essa sensibilidade apuradissima no _Boticario_ da _Morgadinha_.
* * * * *
Nascimento tem um sanctuario:—a sua officina.
Alli passa as noites e os dias, com a blusa de operario,—aplainando madeiras, envernizando quadros, esquadrando molduras, curando a _telha_ dos relogios, deitando _gatos_ em terrinas quebradas, endireitando a _espinhela_ a leques, brocando pulseiras, parafusando engrenagens, limando metaes, furando boquilhas, cinzelando coronhas, soldando _rabos_ de colheres, aguçando pinos, collando cacos, cosendo botões, deitando _pingos_ em panellas, enfiando agulhas, inventando flores exoticas de _couvelórinton_, preparando pilhas, misturando acidos, bases, metaes, metalloides, oxydos, protoxydos, bioxydos, azotatos, azotitos, chloratos, chloretos, chloritos, etc., etc.
Nas horas de descanço que as suas occupações lhe permittem, sente-se feliz com as multiplices e encyclopedicas applicações da sua actividade e do seu engenho; consome, pacientemente, sessenta e quatro horas com o encaixe d’uma insignificante peça de metal para a sua locomovel microscopica; aplaina e replaina o _empeno_ d’uma taboa para a sua mobilia; gasta uma noite, duas noites, trez noites com o estudo analytico da reacção d’um acido sobre uma base.
Com a applicação d’uma lei chimica, no desenvolvimento d’uma formula mechanica, na adaptação d’uma propriedade physica, Nascimento concentra todo o seu ser, toda a sua actividade mental, abandonando as distracções, os prazeres, e esquecendo-se até, das horas das refeições.
No seu cerebro amontoam-se os projectos, chocam-se as theorias, amalgamam-se as applicações.
Tem o arrojo de Lesseps, a tenacidade de Edison, a phantasia de Eiffel.
A sua alma, o seu corpo, os seus orgãos, os seus musculos, estão alli:—no torno, na serra, no serrote, no brocador, no pichel da colla, no arame dos _gatos_.
O seu engenho tem o quer que seja de epileptico: ataca trinta emprezas ao mesmo tempo: mobilias, machinas photographicas, installações electricas, bobinas, telegraphos, telephones, phonographos, campainhas de alarme, etc., etc.
Vencidas as difficuldades, contornadas, cortadas e limadas as peças, nova explosão de inadiaveis projectos interrompe a conclusão dos antecedentes; e assim, Nascimento, fazendo tudo, nada faz, porque a epilepsia do engenho dá ás suas obras a incommensurabilidade do Infinito: todas tiveram principio e nenhuma tem fim.
Como se pode explicar, pois, que, annunciada uma recita de _Santo Antonio_, ou da _Morgadinha_, este homem abandone immediatamente o seu _meio_, o seu sanctuario e enthusiasticamente se venha offerecer para desempenhar o _papel_ de _Mano Gaspar_, ou de _Boticario_?
Pela extrema sensibilidade das suas faculdades affectivas.
Nascimento lê o drama, a comedia, ou a scena _comica_; a sua alma vibrou, agitou-se com o caracter d’este ou d’aquelle personagem; identificou-se com os sentimentos do _galan_, ou do _comico_; e, possuido de irresistivel enthusiasmo, abandona a officina, troca o _alicate_ ou o _saca-trapos_ pelo caderno almaço e lá vae para as muralhas metter na cabeça, em giros constantes—para traz, para deante—os periodos do _papel_.
Este enthusiasmo, em qualquer de nós—no Albino, por exemplo, que já representou de mulher, nos paysanducos, eximios na Comedia—seria uma coisa vulgar, insignificante; mas no Nascimento que nós conhecemos e que eu examinei na officina, revela uma enorme tensão de faculdades affectivas.
Os trabalhos do Brazão são correctos e são artisticos; mas este actor adquiriu já a _physiologia_ dos sentimentos; os seus musculos contraem-se, por assim dizer, inconscientemente, independentes do imperio da vontade, como nas acções reflexas. Mostra no rosto a agitação d’um mar de paixões, quando na alma tem a tranquillidade d’um lago.
Alem d’isso, Brazão tem o scenario de D. Maria; tem o Keil, a luva do Baron; o talhe elegante, o perfil distincto, a perna flexivel, o bigode loiro, o monoculo—todas essas pequenas coisas que emmolduram e aristocratizam o actor.
Nascimento tem o desbotado scenario do nosso theatro, ainda saturado de irritantes aromas dos _meios com cebolada_ que, ha annos, o meu amigo S. Lima arremessava ás fauces de toda a tribu _pica-calcantes_; tem a roupa de _mabella_; a rigidez linear da _Ordenança_ conturbando a flexibilidade dos movimentos; a _reacção dos acidos_ paralysando a acção dos nervos centrifugos; o _ordinario marche_! pruindo compassadamente na sola dos pés e na barriga das pernas...
* * * * *
Examinado pelo prisma da Arte, Nascimento actor é—repito—um barbaro. Mas analysado pelo prisma do Sentimento revela-nos uma organisação especialissima, que seria a gloria de nossos palcos e da nossa terra, se um defeito organico a não prejudicasse.
Nascimento ouve uma valsa de Metra, uma symphonia de Berlioz; ouve Rubinstein e Sarasate, a Patti e a Nilsson. Permanece mudo, quedo, insensivel.
Tem nas mãos uma flôr mimosa: uma _Captain Christi_ ou _Bertha Mackart_; uma _Alba imbricata_ ou _Countess of Derby_; a violeta, o lirio, a sensitiva. Os dedos afastam-se e a bella flôr cae abandonada, cerrando as petalas...
—_Não gosto de muzica; não gosto de flores_—diz o Nascimento.
Poderemos acreditar na sinceridade d’estas palavras pronunciadas pelo homem, em quem os insipidos gracejos do _Mano Aniceto_ exercem tal influencia e inspiram tal enthusiasmo que, arrancando-o da sua Thebaida, da sua officina, o expõem, vestido de amarello, á extatica contemplação dos _loiceiros_?
Não! Nascimento é accessivel á vibratilidade das commoções; os seus nervos sensitivos communicam ás cellulas cerebraes toda a intensidade dos enthusiasmos, mas o tal defeito organico—um enfraquecimento dos nervos centrifugos—oppõe-se á transmissão da força necessaria para a mechanica muscular e para a movimentação das situações dramaticas.
* * * * *
Terminou o segundo acto. Tenho de estudar os outros _curiosos_ da Companhia; mas ao despedir-me de ti, Nascimento, permitte um conselho: abandona o theatro. Trata d’esse enfraquecimento do tecido nervoso.
Com seis mezes de cuidadoso regimen, póde ser que um dia, na apotheose das nossas glorias theatraes, como já annuncio:
Sampaio—o Jeremias da Balagota...
possa tambem dizer:
Nascimento—o Irving valenciano.................................
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NOTA
Nascimento amigo:
Este artigo já estava escripto, quando soube das tuas manifestações _anti-zinoicas_. Tem paciencia.
_Quod scripsi, scripsi._ Não vale zangar, porque o _sinapismo_ que te offereço é proprio para senhoras; nem queima, nem faz bolha.
Teu constante admirador
_Zinão_.
XIX
Transferencias
(1886-1890)
CODIGO PENAL, artigo 432.º «Roubo:—=subtracção de coisa alheia...=»
CODIGO CIVIL, artigo 2167.º: «direito de propriedade:—=faculdade que o homem tem de applicar á conservação da sua existencia e ao melhoramento da sua condição tudo quanto para esse fim legitimamente adquiriu e de que, portanto, póde dispor livremente.=»
A lei garante-nos a propriedade dos bens que herdamos, dos bens que adquirimos, dos trabalhos litterarios que produzimos, dos inventos que lançamos aos mercados, das concessões que obtivemos.
O que é hoje um curso, uma formatura?
Uma propriedade que se adquiriu em troca de valioso capital; que se grangeia, que se cultiva, que se aperfeiçoa, para que ella nos forneça os recursos necessarios ás despezas da vida.
Quando a razão principia a funccionar, levam-nos ás regiões da Sciencia, e dizem-nos: ahi tendes esses hectares de terreno, estão asperos, incultos, bravios; ha por ahi cardos, abrolhos, silvados. Trabalhae, limpae, nivelae, lavrae, semeae e colhei. Ahi ficam dois contos para despezas de grangeio.
No fim de dez ou doze annos temos o terreno apto para a cultura. Exgottamos uma boa parte do vigor da mocidade. O cerebro-arado não abriu sulcos só na terra; abriu-os tambem na fronte do trabalhador.
Com os fructos da primeira colheita obtemos uma collocação em qualquer das instituições do Estado; chamam-nos: Delegado, Conservador, Official do Exercito, Medico municipal, Professor, etc., etc.
Se no meio da improba tarefa o desanimo nos assalta, se a força de contrariedades imprevistas inutiliza os nossos esforços, e não podemos cultivar até ao fim todo o terreno que nos limitaram, contentamo-nos com uma pequena leira, esperando que mais tarde, pela persistencia no trabalho, a poderemos augmentar e desenvolver. Ficamos, então, aspirantes da Alfandega, escripturarios da Fazenda, amanuenses das Camaras, etc.
O Estado dá-nos umas tantas libras por mez e exige-nos: honestidade, seis horas de trabalho diario, _direitos de mercê_, habilitações litterarias. É um simples contracto commutativo, com todas as garantias de segurança, porque uma das _partes_ é o Governo, fiscal da Lei.
No decorrer da vida, circumstancias de natureza varia, sympathias pessoaes, assimilação de doutrinas, identidade de aspirações, enfeudam-nos a um Ideal, filiam-nos em um partido, aproximam-nos de um homem.
Temos a Carta constitucional, a epopéa dos _sete mil e quinhentos_, os Codigos eleitoraes,—respiramos n’uma atmosphera serena de tolerancia; é legal e correcto o nosso proceder na vida publica e nada temos, portanto, que recear com a manifestação liberrima das nossas opiniões politicas.
Succede, porém, que um marau qualquer, sufficientemente villão para rojar sem escrupulo, pela lama do servilismo, a sua dignidade de cidadão e para extender a consciencia, como um capacho de crina, nas soleiras das alfurjas onde pernoitam os politiqueiros,—por estes e por aquelles motivos embica com as nossas opiniões, incommoda-se com a nossa influencia e resolve em conciliabulo secreto da velhacaria com o rancor—promover a nossa transferencia para os Algarves, ou para as ilhas de Bijagóz.
Assobia á matilha dos rafeiros eleitoraes, promette um osso aos abbades, mostra uma codea aos fraldiqueiros e apresenta-se, com a cainçalha atrelada, ao deputado do circulo.
Ao espirito dos deputados—homens geralmente illustrados—repugna sempre a cumplicidade em taes infamias; mas perante a dentuça afilada dos rafeiros que ameaçam esfarrapar-lhe a candidatura nas proximas eleições, a dignidade hesita, vacilla e cede por fim.
D’alli a oito dias, o _Diario do Governo_ annuncia a nossa transferencia para o regimento n.º tantos, para a Comarca tal dos Algarves, ou para a repartição de Fazenda X da Beira.
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Sou casado, tenho tres filhos e sustento uma irman viuva. A transferencia obriga-me á venda da mobilia, das loiças, dos _tarecos_; e a urgencia d’essa venda deprecia consideravelmente o valor dos objectos.
Primeiro prejuizo.
As condições economicas de minha existencia são perturbadas pelos encargos d’um emprestimo de duzentos mil reis, que tenho de contrahir para as despezas da viagem, da nova installação, e que um nababo qualquer me empresta ao juro de seis por cento, depois de eu satisfazer umas pueris formalidades, umas cerimoniosas ninharias que a praxe recommenda—como são as assignaturas de dois bons fiadores e respectivas consortes, e a escriptura de hypotheca sobre boas propriedades, livres e allodiaes.
Cumprido isto, recebo o dinheiro, e com elle, um titulo de eterno feudo e dependencia moral, tanto para mim como para meu filhos, ainda que, decorridos seis mezes depois de registada a _transacção_, eu me desfaça do credor, devolvendo capital e juros com muitos apertos de mão e phrases de eterno reconhecimento[57].
Parto para a minha nova collocaçeo; despezas de caminho de ferro, transporte de bahus, carros, carroças, nova acquisição de moveis, de _tarecos_, etc., etc.; os duzentos mil reis desapparecem.
Voltemos á lei:
CODIGO PENAL, artigo 421.º: «=Aquelle que commetter o crime de furto, subtrahindo fraudulentamente uma coisa que lhe não pertença, será condemnado:=
=1.º A prisão até seis mezes e multa até um mez, se o valor da coisa furtada não exceder a 10$000 reis.=
=2.º A prisão até um anno e multa até dois mezes, se exceder a esta quantia, e não fôr superior a 40$000 reis.=
=3.º A prisão correccional até dois annos e multa até seis mezes, se exceder a 40$000, e não fôr superior a 100$000 reis.=
=4.º A prisão maior cellular de dois a oito annos, ou, em alternativa, a degredo temporario com multa até um anno, em ambos os casos, se exceder a 100$000 reis.=
Associemos as idéas.
V. Ex.ª tem aquella quinta em algures. Uma noite, penetram n’ella tres ratoneiros, arrombam o espigueiro e levam cinco alqueires de milho. Os cães ladram, um creado grita, o regedor acode, os ratoneiros fogem, os _cabos_ encontram-nos e a Borralho abre e fecha a cadeia.
—_Como foi? como não foi?_
—_Senhor! Tinhamos fome_...
—_São uns desgraçados_,—diz o advogado de defeza.
—_É preciso garantir o direito de propriedade_,—exclama o sr. Dr. Delegado.
—_Trinta dias de cadeia_—conclue o sr. Dr. Juiz.
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D’essa mesma quinta, vendeu V. Ex.ª para Monsão vinte pipas de vinho a quatro moedas. Vae receber o seu dinheiro—oitenta moedas—e regressa a Valença, á noite.
Ao passar na _Tomada de Barros_, um homem com chapeo largo põe-se á frente dos cavallos e, de bacamarte em punho, diz ao cocheiro: _Faça alto!_
Outro _barbaças_ enfia pelo buraco da portinhola o cano d’um revolver e diz: _Venha p’ra cá o bago!_
Apparecem mais tres vultos embuçados e V. Ex.ª ouve aquelle _crac_ secco e sinistro de tres bacamartes que se armam.