Sinapismos

Part 13

Chapter 133,504 wordsPublic domain

Olha que, politicamente falando, entre Fonsecas, Vices & Abbades, ou Moraeses, Agostinhos & Cunhas

venha o diabo e escolha.

* * * * *

Agora, dá-me a bandeira e grita commigo a esses _patriotas_, que te querem levar para as freguezias:

=Abaixo as mascaras!=

Vae socegado para tua casa, e deixa-me com elles, porque lhes quero dizer, ainda, duas coisas, antes que saiam da Coroada.

* * * * *

Já podemos rir, respeitabilissima Commissão _patriotica_:

Arrancadas as mascaras, _vocellencias_ ficaram o que realmente são: não patriotas, mas politicos de gaiteiro.

Disse eu, no principio d’este artigo, que a _manifestação_, quer tivesse o caracter politico, quer o patriotico, aviltára Valença. Demonstrei a asserção relativa á segunda das classificações e vou evidenciar a indignidade da primeira.

Estes _banzés_ de musicas, foguetes, vivas, archotadas, cómes-e-bebes, brindes etc., etc., podem fazer effeito entre abbades sertanejos, dos que não sabem verdadeiramente quaes são as leis de equilibrio que obrigam a gente a andar com as mãos no ar, sendo a cabeça mais pesada do que os pés.

Esses regabofes trescalam, sempre, essencias do alho, do carneiro assado, do esturro das batatas, da vinhaça, do vomito—essencias que denunciam o suborno, a pressão, a compra de voto, a immoralidade, a inconsciencia e o servilismo.

Os partidos compõem-se de homens, que nos actos da sua vida social, como nos actos da sua vida particular, acertam e erram.

Por estes e por aquelles accidentes sobem ao poder e sahem d’elle. Uns e outros decretam leis inuteis, uteis e prejudiciaes, porque infallivel dizem que só é o Papa e, ainda assim, ha muita gente que embica com essa infallibilidade.

O partido progressista, como o partido regenerador, tem tradições honrosas e tem manchas; o partido regenerador, como o partido progressista tem no seu seio homens dignos, que honram o paiz.

Quem póde, em momentos de reflexão serena, deixar de prestar homenagem de gratidão e de respeito á memoria d’esse homem, que dedicou toda a sua existencia ao engrandecimento da Patria e que, apesar de ter palacios em Londres, morreu pobre e legou dividas:—Fontes Pereira de Mello?

Quem póde recusar-se a honrar o nome de Anselmo Braamcamp, o cidadão prestante, o caracter nobilissimo, a quem o paiz tanto deve?

Os defeitos da Politica portugueza, desde 32: os arranjos, as ambições, o desperdicio dos dinheiros publicos, o desamparo das instituições proveitosas, o abandono da Agricultura, da Industria, das Colonias, são communs, e d’elles teem eguaes responsabilidades todos os partidos.

Esses defeitos vem de cima e vão para cima. Apparecem nas imposições eleitoraes, na recommendação governamental dos candidatos, na necessidade das maiorias etc.; e nascem alli, nas pretensões do Sr. Abbade, que precisa de livrar os mancebos X e Y do recrutamento, nas exigencias do magnate Fulano, que pretende uma estrada para a quinta etc.

De cima vem as imposições; de baixo vão as exigencias. Ora, n’esta permutação de generos, por conta propria, ou á commissão, ganham sempre os de baixo e os de cima; e, sendo assim, claro é que deve haver um terceiro para os prejuízos:—ha o Paiz.

Isto é coisa velha e sabida.

_Vocellencias_ terão a ingenuidade de suppôr que haja alguem, n’este anno de Christo, que repute sinceras, emanadas d’uma profunda convicção politica, essas ruidosas manifestações?

Na _fantochada_ de 14 o que se evidenciou foi isto: a explosão partidaria de quem estava _por baixo_, a pirraça aos Moraes_es_, o nectar das abandalhadas vinganças, os mancebos livres do recrutamento, a provocação da _beiça_ e outros elementos que a ignorancia gera.

Quando _vocellencias_ passavam, a gente,—emfim, por delicadeza: Maria vae com as outras—sorria e cortejava; mas cá dentro, no escaninho da nossa razão, onde, á noite, guardamos a gravata e o Senso commum, appareciam logo, nitidas e causticas, estas palavras:

=Que sucia de pataratas!=

* * * * *

Quando cahiu o partido regenerador, os progressistas promoveram egual _borga_ por essas ruas; quando, ha mezes, se realisaram as eleições, P. Alexandre atordoou os ouvidos da humanidade com bombas de dynamite.

Toda a gente se riu das _gaitadas_ especiaes que tiveram os Srs. Agostinho, Dr. Ladislau e outros senhores evidentemente progressistas. No coice da procissão, lá iam os nossos paradas-velhas, muito lepidos e repontantes, nariz no ar, chinela rota e fralda de fóra.

Toda a gente se riu dos foguetes do Alexandre e, até, no cerebro de alguem, fuzilaram, como relampagos, vividos clarões de suspeitas exquisitas...

_Vocellencias_ apepinaram o caso, como eu apepinei, porque, emfim, Valença não é o mesmo que Urgeira, Cerdal ou Gandra (salvo o devido respeito a Montes Claros e ao Patriarcha).

Passam os annos, e quando eu suppunha que na mioleira de _vocellencias_ existia algo differente do que se suspeitou no cerebro alexandrino, saltam _vocellencias_ para a rua, transformando Valença no Pandemonium de Milton!

Esses espectaculos são frequentes nos grandes centros. Organizam-se os cortejos nos bairros immundos, onde o _real d’agua_ obtem maior rendimento; onde o Rosa Araujo gasta seis contos na compra de votos; onde o Sentieiro e o Cagaçal conservam fechada e vigiada, durante os tres dias anteriores á eleição, a turba ignara dos cidadãos (?) votantes.

Quando a onda da escoria se alastra pelas ruas centraes, ninguem que possue senso, deixa de encarar com verdadeira repugnancia a babugem do servilismo e da estupidez.

Quem promoveu e planeou essa arruaça de 14? A Politica _pataqueira_ que nas provincias provoca odios de familias, instiga resentimentos, prejudica interesses, origina represalias, prepara transferencias, requer perseguições judiciaes—emquanto que os candidatos protegidos e combatidos riem á mesa do Matta, commentando, em tom faceto, as parvas pretensões dos parvos magnates do circulo.

Foi essa _coisa_ amanhada com a Ignorancia e com a Velhacaria que, ha annos, aqui inaugurou o regime das perseguições e das represalias—regime que ao carrejão d’hontem, hoje feito _trunfo_—concede a faculdade de exigir a transferencia d’um Juiz, se tal idea surgir nas torvas especulações da sua gafada orientação politica.

Ha pouco tempo, censuravamos com phrases de verdadeira e justissima indignação, a transferencia d’um funccionario publico, que lucta com difficuldades para sustentar numerosa familia. Lá foi o desgraçado para _cascos de rolhas_.

Existe, ainda, em nosso espirito o nojo que inspirou esse _processo de nullidade_ tentado contra a nomeação d’um professor, por uma corporação tão zelosa pela instrucção popular, que conserva fechada =ha cinco mezes= a unica eschola que temos para o sexo feminino!

Tudo isso se classificou como indigno, como torpe, como vil.

Mudam as situações; mudam as cabeças e cá temos as represalias—essas infamissimas represalias—annunciando, pela bocca dos bigorrilhas politiqueiros, novas transferencias e novas villanias para _saldo de contas_!

Os homens da actual Politica andam açodados em mysteriosas (?) combinações; escoam-se nas sombras da noite, pelos becos e travessas que conduzem ao centro (!?!); segredam, cochicham, mostram cartas e telegrammas; sorriem, piscam os olhos, ostentando parvoamente á luz do dia as multiplices transformações d’esse implacavel Ridiculo que os envolve, quando a gente se lembra que são os mesmos homens do sr. Serpa e que todos elles, de pernas para o ar, não deitam uma duzia de votos!

Em todo esse afan, em todas essas mysteriosas combinações, em todo esse serzir de esfarrapados planos, imagina V. Ex.ª, querido leitor, que se tratou alguma vez de melhorar as condições materiaes do concelho, de ampliar as suas instituições, ou reorganizar a sua administração? Nem uma palavra a tal respeito!

Estudam-se, combinam-se, discutem-se _unicamente_ os meios de obter as transferencias de Fulanos e de Cicranos, como medida _inadiavel e urgentissima_. Nas horas vagas d’essas nojentas lucubrações, raspam-se as picheis e lavam-se as gamellas para a proxima bambochata eleitoral.

Ah Saltamontes e Grices dos dois partidos! Muito dinheiro podia ganhar quem vos apresentasse no Colyseu!

A Physiologia demonstra a hereditariedade dos defeitos organicos. A Politica d’esta terra é nojenta e a _manifestação_ de 14, como producto d’essa Politica, apresentou-se com todos os vicios da origem.

Portanto, concluo, repetindo: essa _manifestação_, como patriotica ou como politica,

foi =aviltante= para Valença.

* * * * *

=Nota final:=

O principal heroe da _rusga_ foi um abbade. Chapéo de fadista, casaco de pelles, nariz de furão, ponta de cigarro na orelha—razoavel exemplar d’esse typo muito vulgar pelo Alto Minho:—_o capador de porcos_.

Resolvo rifal-o. Bilhetes a pataco, que desde já estão á venda no _estabelecimento_ do compadre Pedro.

Lembro a V. Ex.ª, querido leitor, que é tempo de semear as ervilhas e convém

afugentar os pardaes.

Valença 20-1-90.

XVII

A Sociedade dos Provareis

(FRAGMENTO DA HISTORIA GREGA)

Como actualmente predomina nos espiritos illustrados uma tendencia absoluta para a analyse e para a investigação, parece-me que não serão aqui mal cabidas as seguintes linhas, que esclarecem, com os informes de um historiador classico, o periodo, indubitavelmente mais interessante e curioso, da civilização grega—o seculo de Pericles.

Na Litteratura e nas Artes estuda-se tenazmente o Passado, arrancando-se das trevas da tradição e das brumas da lenda, as producções maravilhosas dos grandes genios e os elementos constitutivos das grandes sociedades.

Recompõe-se a organização social da velha India; analysam-se os factores principaes d’essa assombrosa civilização hellenica e os do immenso poderio da antiga e soberba Roma; acompanham-se os Carthaginezes e os Phenicios nas suas audaciosas correrias; reproduzem-se as maravilhas da Arte arabe e investigam-se pacientemente as Sciencias, n’esse glorioso periodo dos Omniadas, que tão brilhantes vestigios deixaram da sua dominação na Peninsula iberica.

Assim, tudo o que actualmente póde representar para o homem illustrado, uma reliquia dos povos e das civilizações antigas—um livro, um pergaminho, um papyro, uma inscripção cuneiforme, um hieroglypho, uma lasca de silex, um fragmento de bronze, o dente d’um mastodonte, o coccyx d’um almoravide, o vomer d’um Ramsés, a tibia d’um khalifa—tem o mesmo valor, n’este culto pela Tradição, n’esta religião do Passado, que para o beaterio póde ter um ossinho de S. Francisco, um cabellinho da venta de S. Pancracio, ou uma unha das onze mil Virgens, que ainda hoje, nos grandes estabelecimentos commerciaes de reliquias sagradas e preventivas contra bexigas, massadores e outras coisas más, obtem elevado preço, apesar da enorme edição que se espalhou no mercado:—duzentos mil exemplares!

Nas Academias, nas Sociedades de Geographia, de Anthropologia, de Geologia, de Linguistica, de Numismatica, e congeneres, fundadas em todas as capitaes e centros civilizados, já com o auxilio dos governos, já pela iniciativa particular, organiza-se e apresenta-se ao exame do publico uma verdadeira exposição retrospectiva da actividade e da intelligencia do homem, desde as primeiras manifestações da sua vitalidade no globo terraqueo, até aos nossos dias.

Claro é que Valença não podia ficar indifferente a esta nova orientação dos espiritos cultos; e até, primeiro que n’outras terras, aqui rapidamente se desenvolveu o gosto pelas antiguidades, o culto ás coisas passadas, que o povo, na sua linguagem rude, pittorescamente classifica como: _mania_ de cacos velhos.

Ha por ahi muitas collecções e muitos colleccionadores:

* * * * *

Teias de aranha, microbios, tarecos velhos e empregos, collecciona o sr. Sampaio. O sr. Agostinho, partidos politicos e casacophones; chinós, ovos de passarada e instrumentos de vento, o sr. Abel Seixas; o sr. Zagallo, caixas de phosphoros, officios de despedida ao Senado e santinhos; sermões gallegos e patacaria de D. João VI, a Assemblea; o Club, homens pacatos da rua de S. João; commendas e pergaminhos, o sr. Verissimo de Moraes; o sr. Leopoldo, machados de bronze, volumes do _Almocreve das petas_ e coisas das edades paleolithica e neolithica; o sr. Palhares collecciona moleques, macaquinhos empalhados e uma raça maldicta de papagaios, que o diabo inventou, para estoirar a membrana do tympano á desgraçada humanidade.

O Albininho collecciona tudo e é um colleccionador precioso, porque commenta; preparando, assim, inexgotavel thesoiro para as investigações historicas dos posteros.

Conserva cuidadosamente ordenadas por dia, mez, anno e seculo, atadas com fitinha de seda verde, azul, ou branca, conforme o signatario, todas as cartas que tem recebido, desde que traduz lettra redonda. Cada missiva mostra, no verso, uma nota explicativa:

=14 de Outubro de 1876 (e seis)= Fulano de tal. Valença do Minho.

(Pede-me _sete e vinte_ emprestados. Desculpei-me, porque anda n’um _desarranjo completo e, qualquer dia, vae de bruços_.)

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=5 de Fevereiro de 1869 (e nove)= F. ou C. de tal.[41]

(Pede dez tostões—Ficam-me agora a doze e cinco... Preciso de me desforrar.)

* * * * *

=4 de Maio de 1875 (e cinco)=

Officio da Camara, convidando para a procissão de Corpus-Christi.

(Agradeci tão _graduada_ prova de _consideração official_. Estes, não são como os da missa do Rei. Compareci, vestindo pela trigesima sexta vez a minha casaca n.º 3. Chapeo alto n.º 7, do Roxo—Lisboa—(3$570 com correio). Sapatos de polimento n.º 4 (5.ª prateleira, 2.ª estante, á direita). Gravata do Blanco (12 reales e uma perra chica; setim creme, com pintas de prata). Luvas n.º 207, do Baron.

Offereceram-me um logar graduado, ao lado do sr. Joaquim.)

* * * * *

Eu tambem tenho a mania de colleccionador. É uma coisa que não fica mal; é da Moda e até dá um certo tom distincto.

Collecciono alfarrabios, cartas de arrhas, cartapacios, papyros, foraes—toda essa papelada, que por ahi apparece furada pela traça, encarquilhada pelo tempo e com a côr que teriam os rostos d’aquelles esforçados campeões da Guia, quando batiam em retirada, acossados pelo gentio gallego.

Esta mania fez com que, ha mezes, descobrisse uma verdadeira preciosidade, no bazar de antiguidades do sr. Maia.

Imaginem V. Ex.ᵃˢ o meu contentamento quando alli encontrei, entre taboadas e cartilhas, rolhas e torneiras, piões de _faniqueira grande_ e ditos para _nicas_—um volume authentico, genuino, verdadeiro, do grande e immortal Plutarcho!

Tremi de commoção e de respeito com tão veneranda reliquia!

Li-o, reli-o e quasi treslia com elle.

Referia-se ao seculo do glorioso Pericles, áquelle aureo periodo da civilização de Athenas e, entre as suas paginas, fui encontrar—gratissima surpresa!—os elementos que, com verdadeiro afan, ha muito tempo procurava, para estabelecer as bases da historia d’essa mysteriosa agremiação a que Pericles presidia, e que tão poderosamente influiu no engrandecimento do povo hellenico:—a _Sociedade dos Provareis_.

Conhecendo o interesse que em Valença teem despertado os estudos, que outros auctores apresentaram, sobre esta curiosa parte da Historia antiga, offereço tambem o meu modesto subsidio, vertendo para a nossa lingua alguns periodos de Plutarcho, visto que por ahi são escassamente conhecidos os caracteres gregos.

Para os menos versados na Historia hellenica acompanharei a traducção com notas explicativas.

Fala Plutarcho:

Os Provareis

«N’essa epocha (465 A. de C.) era Pericles o chefe do partido popular, que se intitulára o partido regenerador dos costumes, pervertidos durante a supremacia de Cimon Narigangorum e dos aristocratas, chamados progressistas.

Pericles era homem de compleição robusta, largo arcaboiço, avantajado de estatura; perspicaz, de razão escorreita, assaz prudente, sobrio de costumes e de variadissima erudição, graças á influencia de Zenão d’Elea, que fôra seu preceptor.

Apesar de não ser archonte, ou stratego[42], porque apenas tinha as honras de polemarcho, impoz-se rapidamente á consideração do Archontado, ao respeito do Areopago e ás boas graças do Eponymo Lourdes Domina.

A agudeza do seu espirito, o vasto alcance das suas ideas, a subtileza da sua estrategia e a finura da sua diplomacia, alcançaram-lhe logo no começo da sua interferencia no Governo... da cidade, o epitheto de Olympico, ou Oraculus, com que o povo geralmente o nomeava.

Rodeara-se Pericles de homens illustres e poderosos, que a seu talante dirigia, para combater o grupo, ainda predominante na politica, dos partidarios de Cimon Narigangorum e do seu parente Thucydides Attila—grupo que constituia o principal elemento do partido dos eupatridas, ou progressistas, e que, por todos os meios, tentava condemnar ao ostracismo[43] e desluzir, com protervias e calumnias, o valente caudilho dos contrarios.

Apesar do seu engenho e do seu valor, nem sempre lhe foi favoravel a sorte das armas. Nas luctas com esses inimigos, graves desgostos soffreu, que profunda e dolorosamente abalaram o seu espirito e o seu esforçado animo. Ainda hoje a Historia nos menciona a derrota de Deputarium, no ultimo dia da segunda decada do decimo mez, e o desbarate da Camária, no terceiro dia—da primeira decada, do mez undecimo[44], do mesmo anno da olympiada tal—em que as tropas de Pericles abandonaram armas e bagagens, deante do grande Narigangorum II, ex-rei da Administracónia e do seu parente Thucydides Attila, bojudo stratego e chefe dos _registricos_, povo contribuinte dos suburbios de Athenas, que usava das celebres _camisas de onze váras_[45] e que, por essa circumstancia, era tratado com toda a _consideração official_, pela gente _graduada_.

Tivera, tambem, de valer-se de toda a sua diplomacia e arte para empalmar o pennacho, (que nos strategos do partido era distinctivo de commando) ao archonte Judex Candidatus, homem de pequena estatura, mas de respeitavel influencia, emquanto Pericles lhe não surripiou, por occultos meios, o apoio e a correligionariedade do poderoso Joannus Zabumborum, sabio de reputado merito e de grande consideração popular.

Quando Pericles principiou a exercer a sua direcção politica, libertava-se Athenas, vagarosamente, da inercia em que até alli se conservara, e apurava, pouco a pouco, os seus usos e costumes; mas homens de tão superior talento, como elle, raras pessoas encontravam, na cidade, com quem podessem conviver intimamente.

Escasseava a illustração; o povo não tinha consciencia dos seus direitos politicos. Entre os prytamos[46] da cidade e, mesmo, entre os sacerdotes de Zeus suscitavam-se, a miudo, questões violentas; em que do argumento se passava á aggressão, recorrendo-se a todas as armas, incluindo as do _apparelho roedor_.

Dava-se pouca consideração ás auctoridades encarregadas do Governo da... cidade; censuravam-se as gratificações, que lhes eram arbitradas em occasiões de perigo, como guerras e _epidemias_; reduziam-se _as vias_... do accesso aos grandes strategos; preparava-se, occultamente, a _transferencia_... ao ostracismo para os leaes conselheiros; increpava-se officialmente, escandalosamente, a _admissão_ nas dependencias do Governo... da cidade aos adeptos do partido popular, e nem o proprio Pericles escapava á maledicencia da turba porque, surdamente, o povo, e até, a maior parte dos seus adeptos e cortezãos o accusavam de ambicioso, invejando-lhe os redditos, discutindo-lhe a rapidez e legalidade do accesso... á chefia do partido, amesquinhando a sua illustração e refutando a sua competencia na vasta Sciencia da lettra redonda.

Muitos dos homens illustres, que o rodeavam, soffreram as consequencias d’essa contumaz opposição e implacavel vindicta.

Phidias Cambronneia[47] Negoptius foi retirado do Governo... da cidade; Anaxagoras Mata Marianus foi deportado.

Abstinha-se, pois, Pericles de apparecer em publico e entretinha escassas relações, já porque a nobreza da sua jerarchia o distanciava dos thetas[48] e da plebe, já porque o intimo conhecimento do seu merito e da sua importancia lhe aquilatavam de mesquinhos e ridiculos os demais proceres do Estado.

Foi perante esta necessidade de se isolar, e para reforçar os elementos de resistencia aos rudes ataques dos seus inimigos, que elle fundou a Sociedade, que mais tarde o povo denominou: os _Provareis_.

Com esse grupo de fieis adeptos praticava, então, largas horas em passeio, conferenciando demoradamente; e quando o povo folgava nos jogos olympicos, ou pythicos, se acotovellava no Odeon para ouvir as maravilhosas producções de Eschylo e de Sophocles, ou nos jardins publicos para se deliciar com os harmoniosos sons das magadias, cytharas, lyras e flautas, que compunham as orchestras d’aquelles tempos, não era raro o vêr-se ao longe, no _cabeço d’um oiteiro_, o grupo magestoso dos _Provareis_, que solemnes, graves, com movimentos vagarosos e isochronos, rodeavam o grande Pericles, ouvindo-o divagar philosophicamente sobre a miseria das coisas humanas, sobre a leviandade das gentes e sobre a ignorancia da ignorante humanidade!

No tocante a competencia, Pericles Oraculus reunia todos os dotes necessarios a um completo homem de Estado. Provera-o a Natureza de extraordinaria actividade e de genio inventivo para todos os ramos da publica administração.

Era copiosamente versado nas leis de Lycurgo, de Solon, de Pisistrato e de Lippes, tendo particular predilecção por este ultimo legislador, cujos regulamentos, que a plebe classificava de estupidos, a todo o transe defendia, como indispensaveis á conservação da cidade e dos... seus redditos[49].

Possuia, já, noções muito positivas sobre a futura Sciencia da Economia politica. Considerando a Agricultura como fonte principal da riqueza d’um paiz, tomara a si o desenvolvel-a, dedicando-lhe particular attenção e cuidado.

Por isso, quando com o grupo de fieis partidarios divagava pelos arrabaldes de Athenas, vizitava a miudo os grandes eupatridas[50] e, para obter noções perfeitas sobre a producção dos terrenos, influencia atmospherica e outras condições modificadoras, inspeccionava cuidadosamente as colheitas, examinava os fructos e provava... _as aguas_.

O povo, sempre rude e sempre ignorante, d’essas _provas_ a que aquelles homens illustres frequentemente se entregavam (mormente nas tardes do verão) para interesse da Patria e da Agricultura que nada é, como se sabe, sem abundantes mananciaes que refresquem o solo e possam alimentar a planta—originou o titulo de _Sociedade dos Provareis_, com que, d’alli em deante, designava o grupo de Pericles e seus adeptos, quando lá ao longe, entre os atalhos das aldeias, via uma serie de pontos negros caminhando vagarosamente, ora para o norte, ora para o sul, como previamente o indicara a provavel condescendencia ou a natural liberalidade dos eupatridas amigos e partidarios.

Pericles era tambem escriptor emerito e actor de talento. A fama das suas producções chega, ainda, até nós.

Todos conhecem a _Prisão da Santa_, a _Licença Zagallica Muzical_ e a _Batalha dos Cooperativos_—comedias de fino enredo, astucioso desenlace e primorosa concepção.

Nas horas de descanço que lhe permittia a faina da administração politica, ensaiava Pericles os seus adeptos _Provareis_ que depois, em conjuncção propria e solemne, apresentava em publico, dirigindo-os mui circumspectamente por detraz da cortina e colhendo applausos em barda.

A comedia que obteve mais exito foi a _Prisão da Santa_. Fundava-se n’uma antiga lenda mencionada no Rig-Veda, dos hindus. Era o caso da prisão de Brahma, ao entrar n’uma velha fortaleza, contra as disposições do codigo de Manu, e levada depois pelos kshatrias[51] ao carcere, onde jaziam os infimos sudras[52].