Part 12
Os homens que a promoveram não teem direito á consideração e, muito menos, ao applauso dos seus conterraneos, porque não são patriotas sinceros, nem politicos dignos. São escravos inconscientes da politica sertaneja, d’essa degradante aberração de principios sãos, de crenças firmes, de convicções honestas, que desorienta, humilha e arrasta pela lama da indignidade, caracteres respeitaveis e talentos privilegiados.
Envolveu-se n’essa _manifestação_ a responsabilidade de Valença.
Pois, em nome dos brios d’um povo que é portuguez, em nome d’uma terra que amo, e que se faz respeitar no paiz pela auctoridade intellectual dos filhos que a representam nos mais elevados cargos sociaes—eu =protesto= contra o labeu infamante, com que o grupo organizador da manifestação de 14 do corrente aviltou a nobilissima attitude da Patria na desaffronta d’um insulto e na defeza de direitos conquistados pelo sangue d’esses heroicos luctadores que,—transpondo novos oceanos e descobrindo novas constellações, arrostando os ignotos perigos do _Mar Tenebroso_ que a phantasia popular envolvera na nebulosa dos mythos, luctando contra a aspereza de inhospitos climas e contra as rudes vicissitudes da guerra,—ás mais remotas regiões, ás mais distantes e mysteriosas paragens, levaram o nome portuguez, desfraldando a bandeira, onde não se lia, como nas dos modernos exploradores inglezes: =Infamia= e =Oppressão=, mas:
=Liberdade. Civilisação. Progresso.=
* * * * *
—Impulsionou-nos, dizem, o amor da Patria.
Discutamos, então, a manifestação, sob esse aspecto.
* * * * *
Lord Salisbury, representante d’um povo egoista, perfido e covarde, cuja Historia tem a gangrena da infamia, as pustulas da devassidão e o excremento das villanias, fustigou com o chicote do seu _ultimatum_ as faces de todo o homem que se honra com o nome de _portuguez_.
A grosseria avinhada do insulto, a brutalidade do attentado contra todos os direitos estabelecidos, a ferocidade do egoismo, a covardia da imposição d’uma besta superior em força, a dolosa argumentação abonatoria do _ultimatum_ e—sobretudo—a consciencia da nossa fraqueza e da nossa impotencia para a defeza energica de direitos indiscutiveis,—afistularam dolorosamente o coração da Patria e, de norte a sul, de oriente a poente, da cidade ao burgo, homens de todas as classes, de todas as condições e partidos, sentindo despertar, redivivo e forte, o espirito da nacionalidade e o orgulho d’outras eras gloriosas, ergueram-se, gritando: =Infamia!=—e occultaram o rosto, para que n’elle ninguem visse o rubor da vergonha e o vasquejar do desalento.
A Imprensa, o Exercito, a Academia, a Magistratura, o Commercio, a Industria, os Municipios, as Sociedades recreativas, as Agremiações de classes, o banqueiro e o artista, o pobre e o rico,—arrebatados, galvanizados pela mesma chispa de acrisolado patriotismo—disputaram primazia de nobreza nos seus protestos.
Mas no rosto de todos esses homens, na eloquencia dos seus discursos, no ardor das suas invectivas e no esgrimir da sua argumentação, eu vi sempre, evidentes, sinceros, expontaneos e fervorosos, os impulsos de nobilissimos sentimentos.
Resaltava-lhes dos labios a indignação e, a espaços, no avincado da fronte e no amortecido do olhar, eu descubri o anciar d’uma grande dôr e o revolutear infernal do insulto humilhante, que não se póde vingar.
* * * * *
Um cortejo grotesco, esfarrapado, ululante, recrutado na Parada-velha e avolumado por essa massa anonyma e inconsciente de povo, babugem na onda de todas as manifestações e comparsa indispensavel em todas as farças que tresandem a borga e a quartilhos de vinho, precedia o grupo promotor da _manifestação patriotica_ valenciana.
Lá na frente, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.
No conjuncto, uma arruaça carnavalesca, uma desordenada _fantochada_, scintillante de archotes, tocos de sebo e phosphoros de espera-gallego; ruidosa de gaiteiros e caixas de rufo, latas de petroleo, assobios de barro, arrotos, berros asselvajados, graçolas de bordel, acclamações roucas e avinhadas.
Nos olhos, nas faces, na voz, no gesto dos promotores da _manifestação patriotica_, uma alegria evidente, saltitante, irreprimivel, estoirando nas expansões ensurdecedoras d’um jubilo guindado aos pinos do delirio, pelo sopro bestial d’uma pandorga de encarvoados hottentotes, já celebres na _Questão da Santa_.
Abraços, fremitos de contentamento, chapeos no ar, demonstrações de affecto, apotheoses jogralescas, guizalhadas de truão, vivas a Deus, ao Rei, ao Regedor da Parochia, ao Exercito, ás Artes, ao pendão das quinas, a Serpa, aos abbades, ao João da Gaiteira.
Á frente, um homem de cabellos brancos agitando a bandeira nacional.
Dominando a turba, no frontão dos Paços do Concelho, o escudo da Patria: a honra portugueza aviltada, as tradições gloriosas d’um gloriosissimo passado, a epopea das Indias, a harpa eolia dos _Lusiadas_ vibrando, soluçante, com os derradeiros alentos do Infante navegador, de Vasco da Gama, de Alvares Cabral, de Affonso de Albuquerque, de Gonçalves Zarco, de Tristão Vaz, de Gonçalo Cabral, de Diogo Cam, de Bartholomeu Dias, de Fernão de Magalhães, de Godinho de Eredia, de Affonso de Souza, de D. João de Castro;—a fulgentissima constellação das nossas conquistas: Ceuta, Arzilla, Cabo Verde, Açores, Madeira, o Brazil, a Guiné, Mombaça, Quiloa, Mascate, Ormuz, Diu, Calecut, Goa, Malaca, Cananor, Ceylão—empallidecendo com os clarões avermelhados da archotada.
E quando o nojento e sinistro abutre inglez, sulcando a escuridão da noite, poisava no frontão municipal e perante a _illustre_, _benemerita_ e _patriotica_ Commissão manchava, abrindo um pouco as pernas, o escudo da Patria, com o excremento e com o vomito—quando em todas as povoações de Portugal se erguia, energico, o brado da desaffronta e, dolente, o gemido da humilhação—das varandas d’uma casa que pertence ao Estado e que representa, entre nós, a instituição mais nobre, porque é a fiel depositaria das nossas glorias e dos nossos direitos—essas tres palavras ôcas, golfadas, em comica explosão de inconcebivel calinice, sobre os ervaçaes de Paysandu:
Viva Valença... =restaurada!=
..............................
Fumemos um cigarro para espalhar tristezas...............................
* * * * *
Continuemos.
Á frente, sempre á frente, rindo, e chorando lagrimas de pathetica sensibilidade, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.
E ao longe, mais ao longe, para lá do Minho, essa nação cavalheiresca, como nenhuma, quando offendem os seus brios: a patria do Cid, de Cortés, de Pizarro e de Balboa; povo altivo que diz aos seus reis, em Aragão: _nós, que valemos tanto como vós_; que impõe a Carlos I pela bocca de Padilla, heroico chefe dos _cumuneros_, o codigo das suas liberdades; que ainda, ha pouco, se convulsionava fremente e ameaçador perante a reclamação _ingleza_ do Chanceller de ferro—povo rico de generosos enthusiasmos e enthusiasta de generosas ideas, nosso irmão de raça e companheiro nosso nas aventurosas emprezas d’alem mar—essa nobilissima Hespanha, escutando, absorta e commovida, os ruidos da bacchanal, o tumultuar da arruaça, o cornetear dos hymnos e a vozearia da magna caterva.
E quando esse povo, pela bocca da sua Academia, do seu Exercito, da sua Marinha, das suas Sociedades de Geographia, nos enviava calorosos brados de affecto e nos insufflava alento e coragem—a _illustrada_, _benemerita_ e _patriotica_ Commissão promotora da _manifestação_ erguia aos ares saudações á Hespanha e desfilava perante o representante d’aquella nação, em marcha fandanga, ao compasso esbodegado do hymno da Restauração!
Á nota burlesca, a nota grosseira.
* * * * *
Quem hoje possue vagas noções de Historia patria, no mechanismo da sua evolução politica, reconhece, com verdadeiro desalento, quanto tem sido errado o plano das nossas allianças.
Desprezaram-se as affinidades da raça, a continuidade do solo, a homogeneidade das aspirações, a reciprocidade dos interesses, a egual fertilidade do clima, a riqueza dos productos, todas essas especialissimas condições de independencia e de defeza que, aproveitadas para beneficio commum em estreita alliança de dois povos—garantidas a liberdade e a autonomia das instituições politicas de cada um—podiam tornar a Peninsula uma facha de terreno inexpugnavel e inaccessivel ás ambições de qualquer despota.
Com o rapido exame d’um mappa, a Natureza nos indica as vantagens d’essa alliança com a Hespanha.
As truanescas manifestações do _Primeiro de Dezembro_ invariavelmente ajoujadas a uma oratoria desenxabida e bolorenta, cinzelada a largos traços pelo escopro da Rotina, mirabolante de imagens sediças colhidas nos marneis paludosos d’um sentimentalismo piegas em materia de patriotismo—acirrando odios contra quem respeita a nossa autonomia, acata os nossos direitos e liberdades, e partilha, com egual dedicação, o nectar das nossas alegrias nas grandes consagrações civicas e o fel das nossas amarguras n’estes tristes dias de decadencia—devem banir-se para sempre em terras, como esta, que merecem cotação intellectual superior á de Paio Pires.
Os sessenta annos do captiveiro chocalham constantemente nos cerebros dos gafados patriotas, para despertarem no povo o espirito da sua nacionalidade e a altivez da sua autonomia. Mas esse periodo sumiu-se nas brumas do Passado e pela heroicidade dos quarenta immortaes—o que é muito discutivel—ou por circumstancias occasionaes e propicias á nossa emancipação, ha duzentos e cincoenta annos que somos livres e independentes, entre as demais nações da Europa.
Transmittimos aos nossos filhos esse odio á Hespanha; sobre os bancos das praças, golfamos, em façanhuda oratoria, rancorosas recordações dos Filippes, das luctas da Independencia, das agruras do captiveiro, do despotismo de Olivares; e, entretanto, entra-nos John Bull em casa, empalma-nos as mais ricas colonias, impõe-nos esses vergonhosos tratados de 1642, 1661, 1703 (Metwen), 1810, 1842, 1878 e esse celebre tratado de Lourenço Marques, em que os dois actuaes partidos da nossa politica teem graves responsabilidades, um porque o redigiu, outro porque o approvou, embora modificado.
A Hespanha subjugou-nos por 60 annos. A Inglaterra subjuga-nos ha perto de tres seculos, dispondo da nossa Politica e absorvendo lentamente todos os elementos da nossa riqueza e da nossa vitalidade. Com a Hespanha não queremos relações, porque todos os nossos affectos são para a Inglaterra, que nos acorrenta a allianças, onde ha perfidias e traições, e nos socorre, quando lhe convém—com exercitos de bandidos que devastam e roubam este desgraçado paiz com sofreguidão superior á do inimigo, que nos forçou a pedir soccorro.
A Hespanha festeja e acolhe bizarramente os nossos exploradores. A Inglaterra sorri desdenhosamente, orgulhosa de Stanley, o feroz Attila dos sertões africanos. E quando nos vê abatidos, impotentes e pobres, insulta-nos pelas boccas do poltrão Bright, do troca-tintas eleitoral Salisbury e por essa horda de bandalhos, redactores do _Times_ e do _Standart_, assalariados para abafarem as asquerosas applicações dos _Telegraph’s boys_.
Todavia, quando Sua Alteza o Principe de Galles vem a Lisboa gastam-se centenas de contos com a sua recepção, e quando a _graciosa_ Magestade, (que graça!) Mamã do dito Principe, solemnisa o jubileu, os representantes do povo portuguez curvam-se, reverentes, em respeitosos salamaleques, aos _graciosos_ pés da _graciosa_ Imperatriz das Indias!
E no _Primeiro de Dezembro_, já se vê, grossa pancadaria de gaiteiros e um nunca acabar de foguetes com tres respostas.
O hymno da Restauração desperta antigos rancores e origina odios, que a Hespanha não merece. Mandar tocar esse hymno, aqui, na fronteira, exactamente na occasião em que aquella nação estremece com o insulto que o inglez nos vibrou, não denota, sómente, grosseria, denota ignorancia.
Temos, pois, já outra nota:—a da ignorancia; e como burlesca, grosseira, e ignorante, repetimos:
a manifestação de 14 do corrente foi =aviltante= para Valença,
porque aviltou a bandeira da Patria que, á frente, um homem de cabellos brancos agitava.
Examinemos agora, respeitosamente, este homem.
* * * * *
Descubro-me perante elle.
Tem 74 annos.
É um espirito embalado pelas doiradas crenças da velhice, que se assemelham ás ingenuas convicções da mocidade.
Tem enthusiasmos pueris e cultos idolatrados.
Influe a mais rigida honestidade nos actos da sua vida particular.
É um homem antigo, como diz o povo; e n’esta epocha de decadencia, em que na alma da nação existem, narcotisados pela mais criminosa indifferença e pelo mais repugnante egoismo, todos os sentimentos nobres e todas as crenças sans—este homem continúa caminhando impassivel para o occaso da vida, com os olhos fitos n’um Ideal de Honestidade e de Convicções—especie de mytho, com que, apontando para o Passado, tentamos hoje inocular no espirito dos nossos filhos o virus preservativo contra a Descrença e contra o Scepticismo.
Este homem conserva ainda, immarcessivel, a pureza de todos os cultos e de todas as tradições que seus Paes lhe legaram.
Crê na infallibilidade do Papa, na moralidade dos partidos, na sinceridade das convicções, na respeitabilidade dos conselheiros, na seriedade d’um _marmanjo_ sertanejo qualquer, que, sentado no confessionario, descança, hoje, das fadigas que lhe vergam as pernas, depois das arruaças politicas d’hontem.
Atraz das procissões sente-se feliz e orgulhoso com o seu _habito_, marchando, altivo, ao lado do pantomimeiro, que em troca d’uma tranquibernia eleitoral chegará a ser commendador de Malta, ou Marquez, em dez vidas, de Paysandú, ou Chão das Pipas.
É fanaticamente liberal; quando, n’um dos artigos d’este livro, por inoffensivo trocadilho, lhe chamei _miguelista_, teve explosões de colera e arrancos de indignação.
Chamam-lhe: o _liberal de 34_.
Soffreu com as luctas d’essa epocha e com as seguintes.
Foi perseguido; andou a monte, passou fome e foi preso.
Respeita as instituições vigentes. Não admitte manchas na vida politica de D. Pedro IV, o seu legitimo Rei. Desculpa as fragilidades d’esse sebento poltrão, D. João VI. Odeia os republicanos e ajudaria a enforcar um iberico.
Por consequencia, na sua alma existe, profundamente enraizado, o amor da Patria; não o amor originado no funccionalismo da barriga, mas o que parte do coração, o que é verdadeiro, intransigente e expotaneo.
Pois este homem foi ignobilmente explorado para o scenario da _manifestação patriotica_ e, acorrentado pela Politica, exposto por essas ruas ao mais degradante ridiculo.
Dedilharam as cordas do seu sincero patriotismo; falaram-lhe na Patria offendida; mostraram-lhe a bandeira. Abraçou-se a ella, nervoso, soluçando, humedecendo-a com lagrimas.
Empurraram-no para a rua.
Quando na minha frente passou o grotesco cortejo, eu já não vi o velho respeitavel, nem o homem liberal. Vi um macaco vestido de azul e branco, com a corôa real na cabeça, pinchando e bailando ao som dos hymnos esmoidos pelo realejo da philarmonica africana.
De quando em quando, o realejo cessava de tocar.
Um patriota discursava á turba; outro extendia o prato e pedia a esmola dos _vivas_.
O macaco ria, ou chorava.
—_Viva a Reliquia!_—exclamavam á frente do cortejo.
—_Viva o Relicas!_—berravam os paradas-velhas.
Do liberal de 34 a Politica acerdalada fizera aquillo: uma coisa ridicula, comica, irrisoria, tristemente deploravel, porque tinha cabellos brancos. Essa _coisa_ já não era a Reliquia dos homens liberaes de 34; era uma _Reliquia_ falsificada, de contrabando, como seria o rabo do meu gato, exposto em Santo Estevão á veneração das beatas, como uma trança de cabello de Santa Margarida de Cortona.
Á porta do Sr. Palhares, a cabeça branca d’esse velho recebia picaresca consagração, n’esta phantasiosa e alcoolica imagem:
—_Viva a Rosa de 74 annos, estramplantada para o nosso Jardim!_
E a caterva parada-velha repetia:
_Viva a Rosa Relicas!_
Do homem liberal ficou para Valença a: =Rosa Relicas=.
* * * * *
Este homem, lendo o que escrevo deve considerar-se offendido pela rudeza da ironia.
Oxalá que a caterva dos falsos amigos, que o guindaram para o andor do Ridiculo, o respeitassem como eu o respeito e venerassem, como eu venero, a sinceridade das suas crenças!
Homem de 34!
Escuta:
A minha idade é muito inferior a metade dos teus annos. Entrei no periodo activo da vida, quando já estavam suffocadas as agitações politicas a que assististe. Não tenho relações intimas comtigo, mas respeito-te, porque és dos homens que trabalharam e soffreram para eu gosar as liberdades d’esta epocha. Não tenho a experiencia da vida que tu tens, mas peço-te que attendas ao que te vou dizer, porque conheço, melhor do que tu, os individuos que nos rodeiam, a natureza dos seus sentimentos e a sinceridade das suas crenças. Quando a minha razão principiou a funccionar, já por ahi lavrava, intensa, a immoralidade, e os homens, pela irrefutavel logica dos factos, encarregaram-se de inutilizar no meu espirito as illusões que tu ainda conservas, porque vives um pouco arredado d’elles.
Escuta, pois!
Quem, como tu, soffreu as deploraveis consequencias das nossas dissenções politicas e provou o fel d’essa malfadada epocha, em que dois partidos, irmãos no sangue, se perseguiam com encarniçado odio, a tiro, a faca, a cacete e a machado,—quem, como tu, avaliou os dolorosos transes e as indescriptiveis angustias que infernaram a alma das familias e dilaceraram os affectos d’uma povoação, constantemente sobresaltada com a incerteza nas vidas e com a noticia das mortes,—quem conheceu os horrores da fome, as tristezas do exilio, os negrumes do futuro,—quem viu o corpo d’um portuguez baloiçar-se, sinistramente, na forca infamante, e viu as costas d’um homem esfarrapadas pela chibata do corneta,—quem teve amigos que foram assassinados a machado em Extremoz, arrastados, semi-vivos, pelas ruas do Porto, espingardeados nas linhas e no reducto dos Mortos, garrotados em Lisboa, fusilados em Vizeu,—quem viu cabeças, gottejando sangue, espetadas em mastros e ouviu falar das ferocidades do Telles-Jordão e do seu _menino_, bestiaes cerberos de S. Julião,—quem escutou por todo esse paiz o choro afflictivo das viuvas, o soluçar das creanças e o estertor dos moribundos entre as ruinas da Patria, ennegrecidas pela fumarada do incendio e avermelhadas pelo sangue fratricida,
homem de 34!
quem viu e ouviu tudo isso, nunca deve contribuir com a sua presença e com o seu applauso para acirrar o odio dos partidos, ou para estimular em terras pequenas, como Valença, essas divergencias de opiniões que, levadas pela allucinação á infamia das vinganças e ao rancor das represalias, podem preparar, no futuro, nova serie de horrores, como os que tu viste e como os que tu soffreste.
Esses cabellos brancos nunca se devem prender ao Passado para trazerem á terra em que vives e onde tens os teus affectos de familia, o bacamarte assassino e o facho incendiario, em que se podem transformar esses archotes do teu sequito de paradas-velhas. Devem prender-se ao Passado, mas para de lá arrancarem com o vigor da experiencia: o conselho, o ensinamento, a reflexão, que podem suffocar o ardor das paixões e prevenir os excessos da allucinação.
Tens umas convicções partidarias; acceitas um _credo_ politico. Respeito essas convicções e a doutrina d’esse _credo_, porque ao teu partido deve a Patria valiosos serviços na honrosissima cruzada do seu engrandecimento, d’onde emanam a paz e as liberdades que hoje fruimos.
Sustenta as tuas idéas politicas, mas descreve, sempre, aos homens de todos os partidos o que foram as luctas e as agitações de 30 a 51.
Tu és honesto, crente, sincero e bom. Não manches a respeitabilidade das tuas cans n’essas abandalhadas orgias, onde vês como principaes heroes, _exigindo musica e borga_, ministros d’uma religião de paz, de tolerancia e amor, afeitos ás esturdias sertanejas e acerdaladas d’uma politica de barriga, de arroz de forno, e de chouriço com ovos.
Talvez que n’essas horas de esturdia algum pobre velho agonizasse, pedindo, em vão, o amparo de Christo...
Como patriota, modera esses enthusiasmos, que tão violentamente agitam a tua alma.
Crês, acaso, na intensidade d’esta explosão de colera que Lord Salisbury provocou?
Verás como, dentro de dois mezes, não resta uma faula de todo este incendio. Temos á porta novas eleições; o vinho das _borgas_ se encarregará de apagar as labaredas.
Crês na efficacia dos meios, até hoje apresentados para a nossa defeza e para a nossa desaffronta?
_Será_ mais um triste couraçado para, em frente de Belem, chorar as nossas passadas grandezas.
Acreditas na persistencia da lucta commercial?
Dentro d’um anno, a chita e a lona virão outra vez de Manchester, porque lá, custa cada peça menos 2 _shillings_ e 6 _pence_ do que n’outra parte. Em mil peças, essa diferença produz cerca de seiscentos mil reis que, a juro de 6 por cento, rendem oito libras annuaes. Ora, essa diferença, bom homem, não se póde perder. Esta coisa de patriotismo é bonita, fica bem a todos; inspira discursos, que põem a gente a dançar na corda bamba do enthusiasmo, mas... alli, o meu visinho vende o metro da lona a sete menos cinco, e a que eu tenho custou sete vintens em algures. Nós—eu, tu, os teus amigos e os meus—vamos a quem vende mais barato. Precisamos de economizar, porque está tudo, como sabes, pela hora da Morte.
Pensa bem e reconhecerás que, hoje, a Patria não merece essas lagrimas, com que humedeceste a sua bandeira.
Vês este enthusiasmo na subscripção nacional?
Lembras-te do que houve na subscripção do Baquet?
Pois ninguem se lembra das victimas e ninguem conhece a applicação que teve o dinheiro que demos.
Alegra-se a tua alma com este furor contra o inglez?
Tens visto a excitação que se levanta por esse paiz, quando algum _sotaina_ arrebata, do seio da familia para a clausura do Recolhimento, qualquer herdeira endinheirada?
Comicios—representações—protestos—morras ao Jesuita!—abaixo a reacção!—o diabo!
Quinze dias depois, já ninguem fala em tal. A rhetorica entra novamente na gaveta das coisas ricas e asseadas. Depois... Quartel general em Abrantes.
N’esta propaganda anti-ingleza só encontras enthusiasmo sincero nas manifestações da mocidade e na indignação dos velhos—duas epochas da vida, que se assemelham, como sabes.
Esses que te envolveram na _manifestação patriotica_ gastaram, com a esturdia e com as ultimas eleições, cerca de trezentos mil reis. Vae saber quanto elles dão para o couraçado e para os torpedeiros.
Andaram comtigo em charola e adoraram-te, de joelhos e mãos postas, como uma Reliquia dos homens liberaes.
Ataram os seus enthusiasmos aos teus cabellos brancos e elevaram, aos céos da popularidade, o balão flammejante dos patriotismos. Curvam-se arrebatados, extasiados, sensibilizados, perante as venerandas Reliquias dos homens liberaes; mas—ouve lá—pergunta-lhes se alguma vez se lembraram d’esse pobre velho de cem annos, que desembarcou no Mindello, que teve a _Torre Espada_ e que para ahi viveu cego, decrepito e idiotado, com tristes patacos, emquanto que muito...
—Bom homem! Dá cá outro cigarro...
* * * * *
Resumindo, meu velho, aconselho-te a que moderes esses teus enthusiasmos patrioticos, porque excluindo, como disse, as manifestações dos novos que ainda não roçaram as azas pela immoralidade d’estes tempos, todas essas celeumas e gritarias não valem—crê—uma das tuas lagrimas. Isto, emquanto a patriotismo. Ora, ácerca da Politica e dos homens que por cá dirigem os partidos, quando elles te agarrarem nas pernas para o andor da _fantochada_, faze-lhes como eu fiz aos paysanducos, que me quizeram matar por causa da carta ao _Restaurador_:
_esguicha-os_.