Sinapismos

Part 11

Chapter 113,756 wordsPublic domain

E continuando a empregar o methodo deductivo, visto que esse caso foi o producto d’uma laboriosissima gestação politica, com muita vigilia, muita tactica e muito estudo, por isso que foi cuidadosamente preparada pelos dois partidos contendores—visto que elle symbolisa e exprime os valimentos intellectuaes e politicos dos chefes e maioraes—afoitamente podemos dizer, synthetizando: tudo isso e todos elles não valem um bufo! (_b_)

Politiquemos:

* * * * *

Os dois partidos prepararam com longa antecipação, no remanso dos gabinetes, esse estupendo acontecimento.

Mediram-se as forças, calcularam-se os accidentes, preveniram-se as hypotheses, estudou-se cuidadosamente o terreno, escolheu-se a hora e inventou-se o pretexto. A malandragem de Ganfey foi assoldadada para deitar fogo ao rastilho.

Na vespera de rebentar a bomba, descobriram-se os jogos e todos ficaram logrados. Um dos chefes recebia ordem para ficar ás ordens do outro; este, esbarrava a cabeça na estupidez do Zé Povo e nos barrancos que a sua inepcia cavára.

Cá a gente (já se vê) n’essas alturas, arrebitava a pança com o brodio, a vêr os toiros de palanque; e, como elles ainda escabeceiam no curro, vae-lhes mettendo a sua farpa muito honradamente.

Depois da explosão da _coisa_, principiou a desembestar-se por ahi a mais sordida mistela de pilherias apanascadas, que tiveram echo no districto, como se o ridiculo de tudo isso não fosse bastante para nos fustigar o rosto e alvoroçar o sangue.

A partida perdeu-se. Quem a pagou (e foi carita) chorou sete dias e sete noites. Os pyrotechnicos metteram-se em copas. É da praxe: nas barracas do _Pim-pam-pum_, quem ageita os bonecos não paga entrada. Entra pela prenda...

* * * * *

Farpeemos...

Depois d’essa dejecção politica, os campos conservam-se armados, medindo-se os adversarios com rancor. No meio d’elles, lá está o sôpro, o bufo (caso _b_)—eterno pômo de discordia.

Progressistas teimam em obstar que a gente em occasião de festa, possa, á noite, dar a sua gaitada por essas ruas e muralhas.

Regeneradores, pela penna auctorizada do Senhor Joaquim, como Juiz da Senhora da Saude, invectivam o Ministerio, reclamando a livre expansão do bufo (_b_).

E agora, que estamos em maré de syndicatos, n’esta carencia de bufo (_b_) muito dinheiro podiam ganhar alguns senhores cá da terra e aquelle barqueiro de Vigo...

Ha coisas que, guardadas, engarrafadas, servem para occasiões de falta e dão muito dinheiro...

* * * * *

O certo é que não se obtem licença para Musica dentro de Valença; ou porque seja negada por mero capricho do Senhor Administrador, ou porque a recuse o Lippes.

Porque nós—louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo—somos cidadãos tão portuguezes, como os de Coura; pagamos decima, como os de Coura; damos votos, como os de Coura; fazemos filhos para o exercito, como os de Coura, mas não temos as liberdades civis, que teem os de Coura.

Pelos modos, ainda nos corre nas veias algum resto d’aquelle bulhento sangue dos nossos antepassados, os soldados de Viriato, que, segundo diz o Senhor Joseph Avelino, tanto assarapantaram o mundo com os seus feitos; e o Governo, em vez de uma auctoridade administrativa, manda-nos duas!

—Quer V. Ex.ª dar a sua gaitada? Precisa de dar o seu _bufo_?

Tem de ir pedir ao Administrador e á Praça; e antes de transitar por essas ruas tem de bufar, voltado para a casa do Governo. Se offerece as primicias do _bufo_ á Camara, ou á Administração, a Praça amua e ha baralha, como succedeu com a _fanfurrilha_ gallega.

—Tem V. Ex.ª fogo em casa?

Acodem, logo, da Praça e da Administração:

—Mando eu.

—Não mandas tu.

—Apago eu.

—Apaga tu.

Levanta-se questão; tudo grita, tudo berra, e V. Ex.ª, para se livrar de prejuizos, o que tem a pedir ao seu Anjo da Guarda é que o deixem ficar sósinho com o fogo, que é mais socegadinho e pacato.

—Ha _banzé_ no theatro, ou na rua? Lá os temos em disputa.

De fórma que, se um dia, V. Ex.ª por esquecimento, por descuido, larga o seu bufo (_b_) na cara d’uma das auctoridades, e sem a devida licença, leva pancada dos dois.

É preso. Chega um paysanduco e agarra V. Ex.ª pelo braço direito. Vem o Balagota e agarra-o pelo esquerdo.

—Venha para a Praça!

—Venha para a Administração!

Puxa um; estica o outro.

V. Ex.ª atrapalha-se, reclama, gesticula, bufa... (_b_)

Se o faz na cara do paysanduco, mais pancada leva. Se mimoseia o Balagota, este põe-se ainda mais amarello do que é, e apita.

Santo nome de Maria! O que ha-de a gente fazer?

Sem musica, sem _bufo_ não se póde passar. Fossem-no lá prohibir ao Senhor A. Seixas! Estoirava... de raiva.

Dentro de casa, felizmente, ainda V. Ex.ª póde mandar tocar a Musica e dar o seu _bufo_; mas eu estou a vêr isto de tal fórma que, d’aqui a pouco, se V. Ex.ª, em qualquer sitio, na sala de visitas, na cama—por exemplo—lhe appetece bufar, tem logo, ao seu lado, um paysanduco e o Balagota, procurando, investigando, cheirando, esmiuçando, por cima e por baixo da cama, levantando, até, a roupa para metterem os narizes (imagine V. Ex.ª a sua desgraça se, para essa operação, lhe apparece o nariz do Dr. Ladislau...) e berrando depois, irados:

—_Aqui deu-se um bufo!_

E V. Ex.ª terá de pedir perdão, confessar o crime, ou desculpar-se humildemente, dizendo:

—_Não dei, não, senhor! E se dei... não foi por querer..._

Ora a nossa desgraça!

Oh gentes do Kalakana! que dizeis a isto?

* * * * *

Esta interrupção dos tubos... musicaes—claro é—vem a acabar; e com a mesma imbecilidade, com que actualmente os progressistas impedem a livre circulação do _bufo_, os regeneradores, subindo ao poder, hão-de metter cá dentro, quanto nedio folle por ahi haja, previamente reforçado com alimentos explosivos.

E n’esse dia anti-pituitario, em que tenho de encontrar: uns, de vexados, em casa ou fugindo de corrida ao apupo; outros, de pança tesa e cara alegre, abraçando-se por essas ruas—e todos, supinamente idiotas e essencialmente ridiculos—cá me tendes, oh _bufos_ e _anti-bufos_!, para vos estralejar nas ventas a mais sonora gargalhada, que gentes de Valença teem ouvido!

E tenho tambem uma idea...

Emfim, vocês merecem recompensa, pelo enthusiasmo com que teem tratado d’essa questão, de grande valor e importancia para a terra. Mastigae já em secco e ouvi lá marotinhos: (mas caluda, por emquanto):

Nos _cómes-e-bébes_ dos philarmonicos hei de misturar umas gottasinhas d’um certo elemento drastico

—Oleo de Croton Tiglium—por exemplo, para que elles, nas ruidosas e puxadas explosões dos seus _bufos_, vos possam dar tambem—oh progressistas e regeneradores do pataco!—algo mais de...

...solido!

Toca a aguçar a dentuça, Politiqueiros de meia-tigela!

XV

As Muralhas

Em que condições vivemos?

Com pejo hesito em denuncial-as.

Vivemos acorrentados ao estupido regulamento, dado ás gentes, ha perto de seculo e meio, pelo Conde de Lippe.

Vivemos como os forçados e os grilhetas—cercados de muralhas.

O que significam, hoje, as muralhas?

O retrocesso, o dominio brutal da pedra; isto é, Pasteur, Edison, Comte, Jenner, Spencer, Hugo, Castelar, Capello, Ivens, Herculano, Pestalozzi, Broca, Kossuth, Humboldt, Chevreul, Wurtz, Lesseps, Eiffel, arremessados para a barbarie dos tempos primitivos, para a idade paleolithica, em que o homem usava cuecas, cozinhava de cocoras, contava pelos dedos e pescava trutas á unha, porque desconhecia, ainda, a engenhosa disposição do anzol e a grande vantagem da minhoca.

Significam os combates dos barbaros; a bruteza dos despotas; as luctas fratricidas; o assassinato legal; a ambição copulada pela força; a lucta braço a braço, arca por arca, alma a alma; a feroz e brutal sensualidade do vencedor, que sorve dos labios do vencido o ultimo alento; o escabujar do moribundo nas vascas de cruissima agonia...

Significam as pontes levadiças, o embate de duas ondas humanas que se chocam, se enroscam, se atropelam, se mordem e se agitam por fim, convulsivamente, n’um montão disforme de farrapos, de carnes ensanguentadas, onde rouquejam as maldições, os estertores, até que as rodas da carreta, ou as patas ferradas d’uma mula acabem de esmagar, de confundir e triturar.

Significam o assedio, o bombardeamento, o incendio, a fome, as mil privações e sobresaltos; a viuvez, a orphandade, o lucto—a morte; isto é: quatro pás de terra sobre um corpo amado, que jaz hirto e nú, ahi para qualquer canto, sobre o monturo, proximo á _Sexta_; as canções roucas e truanescas dos coveiros do Hamlet; o uivar sinistro da canzoada lazarenta, que escancara as mandibulas, esgaravatando a terra para esfarrapar as carnes; o crocitar lugubre dos corvos, que revolteiam no azul dos céos, espreitando lauto e succulento festim no rebordo ensanguentado das feridas...

Significam a agonia lenta, afflictiva; o velar-se da vista nas sombras da Morte e, n’esse debil bruxolear do espirito, a visão meiga e então dolorosa da familia, da infancia, dos affectos que nos ligaram á vida sem que, collados os labios, confundidos os alentos, n’um derradeiro olhar e n’um derradeiro beijo, se possa desprender a alma entre almas que nos amaram.

* * * * *

Com que veneração e respeito eu conservaria uma das tuas cans, benemerito Pasteur, apostolo bemdito do Bem, e com que tremendo pontapé eu te esmigalharia o busto, se aqui o tivesse, feroz Napoleão, negro chacal da Morte, para quem são poucos todos os horrores e tormentos, que a genial e portentosa imaginação de Dante phantasiou nos seus nove circulos!

* * * * *

Felizmente, toda esta sentina de granito que os espiritos bellicos e phantasistas denominam _formidolosa Praça_, nunca teve um real de importancia, na historia militar do nosso paiz.

Isto foi sempre o que hoje é—uma _feira da ladra_ de tarecos velhos e de cacada guerreira.

Quando em 1809, Soult atravessou a fronteira, o aspecto d’esta carcassa não o atrazou um minuto na marcha. Passou ao largo, sorriu, atirou cá dentro meia duzia de obuzes e continuou em paz o seu caminho. Palpitou-lhe que não valia a pena subir a Gaviarra, porque não tinhamos custodias d’oiro para roubar, nem preciosidades artisticas; n’essa epocha não existia o muzeu do sr. Sampaio, nem se falava na mystica collecção do Albininho.

Em 34, Napier, a cavallo n’um burro pôdre, veio de Caminha a Valença, seguido por um pelotão de marujos inglezes. Sem estribos, com a volta das meias cahidas sobre os sapatos, rindo com bom humor, berrou alli da Esplanada: «_Ao governador de Valença! Senhor: tenho uma esquadra em Caminha e se vos não entregaes, mandarei buscar cem peças de artilheria, cercarei a praça e a vossa guarnição será passada á espada._»[38]

D’alli a um quarto de hora, Napier estava cá dentro.

Depois d’isso, os grandes successos militares da nossa terra limitam-se a breves assedios, nas luctas civis de 37 e 47. Houve muito susto, muito fanico nos dois sexos, alguma granada para espalhar tristezas, e assim se arranjou um simulacrosito pacato e economico d’um cerco em regra, como o que soffreu, ha 19 annos, Strasburgo—(senhoras e senhores, que ainda fallaes com pavor de 37 e 47)—em que aquella desgraçada cidade teve constantemente, vomitando a morte e a ruina para dentro dos seus muros, umas 170 boccas de fogo—ninharia que devia fazer um poucochito de barulho...

Mas apesar d’isso, de nada valeram os ultimos assedios; eu—com franqueza—sinto-me muito mais feliz do que os srs. Manoel Antonio de Barros, José e João Seixas, Santa Clara e outros que assistiram a essas tristes scenas das nossas dissenções politicas; e sinto-me mais feliz, porque, emfim, não me destinou Deus para emprezas guerreiras e contento-me em conhecer os effeitos e propriedades da polvora nas bichinhas de rabear do S. João, ou nos devaneios pyrotechnicos da palerma Urgeira, sem offensa para o sr. Chiquinho Veiga.

* * * * *

Mas vejamos qual é a necessidade de conservar essas odiosas reliquias dos tempos barbaros e qual a razão que se oppõe, a que nos seja permittido o que já conseguiram outras terras da fronteira, como Caminha, Cerveira, Monsão e Melgaço—o arrasamento de tão brutaes construcções.

Será a posição estrategica?

Condições excepcionalmente favoraveis na opposição a uma invasão extrangeira?

O inexpugnavel d’aquella posição?

Cartas na mesa, teias d’aranha limpas e jogo franco, senhores da alta militança, lá das Secretarias da Guerra.

Toda esta coisa, com as suas muralhas, baluartes, fortes, contra-fortes, revelins, fossos, falsas bragas, casamatas, cortinas, tenalhas, poternas, escarpas, contra-escarpas, banquetas, meias-luas, taludes, pontes levadiças, abobadas, etc., etc., que constituem na sua complicada relação a arte de Vauban, toda esta coisa, repito—não vale um pataco sebento do sebentissimo D. João VI!

E tanto não vale um pataco, que apesar do apregoado valor estrategico augmentar com a Ponte internacional e de os engenheiros militares terem lembrado, quando se construiu a linha ferrea, certas obras que garantissem as condições da defeza, prejudicada com os aterros e desaterros—até á data nada se fez, nem se fará, se Deus Nosso Senhor quizer.

E tanto não vale um pataco, que se eu tiver em Lisboa um bom _trunfo_ politico para empenho: se eu fôr, por exemplo, um João da Gaiteira, elevado politicamente em potencia votante, ao quadrado ou ao cubo, obterei, não só licença para construir nos arrabaldes da Praça, como, tambem, limite de altura superior ao que eu desejar, embora a isso se opponham todos os paysanducos e todos os regulamentos do sabio conde de Lippes.

Ora, de duas, uma: é ou não é importante o valor estrategico da Praça?

Não é. Dil-o a sua historia; dil-o a historia das ultimas campanhas europeas e encarrega-se de nol-o dizer o Governo de S. Magestade, quando o apertam com a tarracha do voto.

Será parvoiçada suppor que, no caso d’uma invasão, o inimigo se deteria por um momento com as momices e os esgares d’esta desdentada carcassa.

Perguntem a Strasburgo, a Verdun, a Bitche, a Toul, a Soissons, a Metz, a Schelestadt, para que lhes serviram as vantagens do terreno e as prevenções de Vauban.

E sendo nullo o apregoado valor estrategico, que outra causa fundamenta a estupida prohibição que se oppõe á construcção de novos edificios, ao desenvolvimento de povoação, tornando odiosa a missão d’esse official que, com um curso de engenharia e com a elevada orientação scientifica, que hoje se obtem nas Escholas superiores, ahi está de sentinella ao regulamento senil que tresanda a raposinho, a catinga, e de que a rotina, o egoismo, e por vezes a velhacaria fazem instrumento de valimento e, até, de vinganças pessoaes?[39]

Attende-se á probabilidade d’um cerco, d’um acampamento, e á necessidade de inutilizar, rapidamente, ao inimigo quaesquer pontos de abrigo?

Mas, oh Molkes pataqueiros! Então prohibis que em minha casa possa elevar meio palmo ao cano da latrina, impedis que no meu quintal levante uma barraca para guardar as melancias e os nabos, e deixaes ahi cavar, a dezenas de metros da praça, esse desaterro, onde se abriga uma divisão com as respectivas familias, se tanto fôr necessario?

Impedis que lá fóra, na minha horta, levante um pau com o gallo, para catavento, ou equilibre quatro taboas, que um cão, alçando a perna no exercicio de certa funcção, faz cahir, e mandaes construir essa outra fortaleza de granito—a estação do caminho de ferro?

Admittindo, mesmo, que o inimigo se estabelecesse para cá da fronteira, que seria de Valença se no Faro, no Marco, ou em qualquer outra eminencia, elle assestasse quatro canhões Krupp, Bange, Amstrong ou Fraser, que arremessam projecteis com menos peso do que as vossas cabeças—verdade é, porque não teem tanto municio—a 12 e 16 kilometros de distancia?

Para que nos asphyxiaes, pois, com estas montanhas de pedra, militarões lá das altas repartições da Lysbia, estrategicos de meia tigela, que por ahi inficionaes de rheumatismo, de gotta, de rapozinho e de pingo simontado o que póde haver de proveitoso e util nas instituições militares da nossa Patria?

* * * * *

As muralhas para nada mais servem do que para attestar aos extranhos que—portas a dentro—o Progresso deixou de actuar.

Servem, como pittorescamente disseram, ha mezes, uns lisboetas que ousaram entrar cá dentro: para impedir que a porcaria e... manchem a belleza dos arrabaldes; servem para balde do lixo, das immundicies, e para os habitantes da villa satisfazerem, prompta e commodamente, um determinado numero de necessidades, tanto em funcções de reproducção, como em funcções de nutrição.

Servem para a gente se desfazer das ninhadas de gatos, que a _Malteza_ arranja em janeiro com as suas serenatas ao luar; servem para uma entrevista baratinha e recatada com pudibunda sopeirinha; servem para manter certas artes e officios; servem para fornecer o Hospital militar de bronchites, tysicas, pneumonias e doenças assizicas, que essas desgraçadas sentinellas arranjam em larga copia nas frigidissimas noites de inverno, quando o nordeste, que corta e açoita, as apanha amarradas com a trela da disciplina á carreta d’uma peça rachada, vigiando que o gallego não escale as muralhas e a leve para berloque da cadeia.

E servem, mais, para sustentar essa coisa caduca, ridicula, inutil, offenbachicamente intitulada o

Governo da Praça!

* * * * *

—Governo da Praça!

Raciocinemos logicamente.

Qual é a idea implicita n’este titulo?

Commando, direcção na defeza da dita Praça.

O que exigem estas funcções?

Conhecimentos estrategicos e noções de todos os ramos da moderna Sciencia militar, alliados ao senso, ao valor, á prudencia, ao prestigio e á energia.

A quem tem sido confiado tão importante cargo?

Ao Zé da Rosa...

Ora, meus senhores, com franqueza; eu aposto _aquillo_ de que se faziam as barretinas, quando não eram da pelle d’urso, se—declarada a Praça em estado de sitio e confiado o commando supremo com a direcção de tudo ao Senhor Zé da Rosa—a cavallo n’um cabo de vassoira, com um espeto de assar cabritos, com tres _malzabetes_, dois _paus-reaes_ e um _fileiras_, não tomar Valença e não levar a toque de caixa na minha frente até ás Bornetas, o Senhor Governador e todo o seu Excellentissimo Estado-maior!

E para isto, para conservar a esta latrina uns apparatos bellicos de opereta, estou eu arriscado, por um descuido, por uma descarga electrica, a dar o meu passeio aereo até aos reinos da Lua, com a conservação estupida de milhares de kilos de polvora, que uma noite podem ter a phantasia de condemnar a minha humilde pessoa áquellas maravilhosas viagens de Julio Verne.

Ora, além do perigo, imagine V. Ex.ª a que enormes responsabilidades, a que enormes complicações diplomaticas, a que enormes indemnisações o nosso Governo se arrisca, conservando por cá essa materia explosiva, que dava para tanta _bichinha de rabear_ e para tanto _caganitão_, se lhe quizesse dar applicação differente da que ella hoje felizmente tem: estoirar fragas e rasgar montanhas para facilitar o avanço da locomotiva.

Imagine V. Ex.ª que em noite estrellada de agosto, Don Benito Naveas e sua Ex.ᵐᵃ Familia tomam socegadamente o _té_, na sua _habitacion_ de Tuy.

Don Benito, fiel ao partido legitimista encarece mais uma vez a bondade e os merecimentos de D. Carlos, commentando tranquillamente entre saboreadas fumaças d’um _pitilho_ e goles de _té_, as noticias que, sobre o Pretendente, em o numero de _miercoles_, apresenta _La Integridad_, luminosa gazeta assotaina da inventora dos _malzabetes_.

«_Con securidad, Don Carlos és muy bueno hombre; una gran cabeza; el unico rey que debia gobernar la Espana; es un hombre de religion, y que tal... y que sei yo..._»

Subito, ouve-se um estampido medonho. A casa abala-se nos seus alicerces; as paredes oscillam; as traves gemem; as loiças tocam nos aparadores e saltam em furiosa dança macabra. Ouve-se um _crac_ medonho, fende-se o tecto e apparece em cima da mesa _del comedor_... quem?—o Senhor Abel Seixas, em pello e em cabello, tal qual estava na cama, sem chinó, pança sumida e olhinhos espavoridos!

V. Ex.ª ri-se? Pois o caso não é para isso. Se chegam uma isca de fogo ao paiol, a qualquer de nós póde succeder o mesmo.

E diga-me V. Ex.ª quanto teria o nosso Governo de pagar a Don Benito pela perturbação do seu socego e—o que é muito peor—pela alimentação d’esse insondavel abysmo—a barriga do snr. Seixas—emquanto este cavalheiro, arrancado bruscamente do seu leito e atirado por esses ares em escandalosa nudez, se recusasse, pudicamente, a ostentar pelas _calles_ de Tuy, no regresso á Patria, as linhas bambaleantes das suas formas esculpturaes.

Matutae sobre o caso, homens da Governança!

XVI

A Manifestação de 14 de Janeiro[40]

(PROTESTO)

Para cá dos limites que tracei á critica dos acontecimentos, por qualquer aspecto evidentes e impressionaveis na chronica politica d’esta terra, disponho hoje, serenamente, os apontamentos colligidos sobre a manifestação de 14 do corrente, para os sujeitar á analyse recta e imparcial, isenta de considerações pessoaes ou collectivas, sem tergiversações de ameaças ou de lisonjas, a que subordinei o programma dos _Sinapismos_.

Á frente d’essa manifestação eu vi homens a quem dedico verdadeira amizade; que respeito nos actos da sua vida particular; que me honram com as suas relações, porque se impõem á consideração de Valença pelo seu caracter digno e pela sua honradez inconcussa.

Esses homens organizaram uma manifestação popular, que annunciaram como patriotica e que outros classificaram como politica. Inspirada no amor da Patria, ou na paixão partidaria, essa manifestação, evidenciada nas ruas e nas praças, discutida na Imprensa como expressão dos sentimentos d’uma parte da população, perdeu o caracter, para mim respeitavel, d’um acto isolado da vida particular e adquiriu a importancia d’um facto social, publico e, portanto, sob o dominio da critica.

Abstraio, pois, do meu espirito as relações que me unem a essas individualidades, e nos periodos que vou ordenar para a composição d’este artigo, declaro, outra vez ainda, que aprecio a manifestação promovida por um grupo anonymo de cidadãos e não por um grupo de individuos, d’esta ou d’aquella classe, d’aquella ou d’esta côr politica.

A violencia da phrase com que tenha de censurar qualquer aspecto d’essa manifestação, que me pareça menos digno, não irá, pois, desvirtuar a sinceridade de relações, mais ou menos affectuosas; nem poderá, tambem, ser reputada como indicio de adhesão a opiniões já manifestadas por quem, em identicas apreciações, se deixa desorientar pelas paixões partidarias que levam a applaudir toda a inepcia d’um grupo em que se está filiado, e a estigmatizar qualquer idea, muitas vezes util e proveitosa, suggerida pelos contrarios.

Esta é a missão do critico e praza a Deus que a consciencia nunca me accuse de escrever o contrario do que ella, á luz da imparcialidade e d’um livre criterio, dieta á minha penna.

Nos periodos d’este artigo abandono a feição humoristica dos restantes. Tenho de me referir á crise dolorosa por que actualmente passa a alma da nacionalidade a que me orgulho de pertencer; e n’essa referencia, quando a humilhação nos ruboriza as faces e a recordação das passadas grandezas nos amargura e entristece, o sorriso seria uma villania e a gargalhada seria uma infamia.

* * * * *

A força inicial dos acontecimentos de 14 do corrente não se póde attribuir á expansão d’um sentimento patriotico, provocada pela recente affronta de Lord Salisbury; na agitação do grupo que promoveu a manifestação não vibrou a alma da Patria: tumultuou o espirito d’um partido.

Mas de qualquer caracter, patriotico ou politico, essa manifestação, nas condições em que se realizou, envolvendo a bandeira nacional e a responsabilidade d’uma povoação, não merece classificação diversa da que se póde exprimir com estas palavras:

foi =aviltante= para Valença.