Part 10
O meu cerebro illuminou-se, então, com aquelles vividos clarões das grandes angustias; pinoteavam-me na imaginação, em infernal dança macabra, todas as vibrações das grandes dôres; vergalhadas cyclopicas açoitavam-me as ideias; a alma rebentava-me com explosões terriveis, minada pela robulite do terror; o coração desfibrava-se esphacelado pelas garras do susto; as cellulas nervosas achatavam-se sob a prensa hydraulica do pavor; o cordão espinal estoirava, esticado pelas furias da raiva; as saliencias do corpo sumiam-se arietadas pela allucinação; na trompa de Eustachio trovejavam as maldições; na retina faiscavam punhaes de odio; na pituitaria abriam chagas os atomos do rancôr; as cordas vocaes rebentavam com a tensão da ira; as papillas da derme eram esmagadas pelos martellões da colera; diabos vestidos de vermelho arrancavam-me os cabellos; harpias esgrouviadas furavam-me a cornea; satanazes com rabo reviravam-me as unhas; demonios acephalos rasgavam-me a bocca; morcegos sinistros esfarrapavam-me as carnes; lebreus hydrophobos roiam-me as cannelas; corujas esfomeadas espicaçavam-me as orelhas; chacaes lazarentos mordiam-me as nadegas; corcodilos e jacarandés trituravam-me os ossos.
* * * * *
E no meio de toda essa _coisa_ phantastica, apocalyptica, satanica, horripilante, onde havia carcavões, fragoas, tenazes, forcas, venenos de Borgias, estyletes ervados, lanças quichotescas, navalhas de ponta e mola, balas de papel, espadas de pau, caçoletas e obuzes, explosões sulfuradas, bofes de leão, tricornios de gazeta, furores de Ugolino, ciumes de Othello, terrores de Machbet, perfidias de Iago, risos de Voltaire, astucias de Loyola, sarcasmos de Erasmo, pançadas de capoeira, chulipas de fadista, rugidos de Adamastor, pedradas de garoto, cobras e lagartos, viscosidades de lesmas, virus de serpente, commissões de _quinzes_ e de _paysanducos_, protestos, duellos, policias correccionaes, boquilhas, aguas sebastianicas, beliscões kilometricos, musas hystericas, zoilos epilepticos...
—quando contemplava aquelle horroroso quadro em que, as tintas de Miguel Angelo, o pincel de Rembrandt e a phantasia de Hans Mackart, pintavam a sede de Tantalo, a insaciabilidade de Gargantua, a podridão de Imperia, o odio de D. Bibas, o servilismo do eunucho e o calcanhar d’Achilles,
—entre aquelle côro infernal de uivar de feras, clamar de moiros, ulular de caraibas, guinchar de idiotas, urrar de quadrupedes, pinchar de macacos, zunir de vespas, silvar de cascaveis, ladrar de _bulldogs_, d’onde apenas se destacava:
Mata! Mata o Zinão!
—senti alguem ao meu lado.
O tal diabo vermelho pinchára da rua para a janella; extendia-me o braço e dizia:
—_Oh Coisa! dá cá um cigarro. Casca n’elles, que ainda bolem!_
e desapertando a carcela das calças, voltou-se para a turba e...
_esguichou-a._
Já sabes, Zé amigo, quem elle era:
O Ridiculo.
XIV
A Questão da Musica
(LEITURA PARA HOMENS)
Ha poucos annos, alli pelo Maio, quando a Primavera floresce os campos e a Natureza parece despertar, com novo vigor, da somnolencia invernal, Dona Politica sentiu pular o sangue nas veias, reclamando folia e brodio.
Teve uns arrebiques eroticos de matrona insensivel á influencia lunar e amancebou-se, clandestinamente, com o Conde de Lippe e com o Senhor Administrador.
Noitadas com um, barrigadas de camarões com outro, lá se arranjou de tal fórma que, d’essas relações, resultou um producto hybrido:—=A Questão da Musica=.
Parto acabado, os amantes disputaram a paternidade do aborto:
—É meu!
—É teu!
—Parece-se commigo!
—Não se parece comtigo!
Zangaram-se e ficaram de mal.
Nunca mais se puderam vêr.
A desavergonhada, ora sorri para um, ora para outro; acirrando, assim, pela sua inconstancia e bandalhice acadellada, o odio dos dois rivaes.
O _mostrengo_ (sahiu femea) veiu ao mundo com todos os defeitos dos Papás e da Mamã: vaidosa, ridicula, traiçoeira, caprichosa e porca.
Ao nascer, embirrou que não queria Musica. Papás e Mamã teem-lhe feito a vontade. Qualquer dia, embirra que quer Musica; teremos, então, de soffrer e pagar as furias dos paus-tesos, até hoje refreadas.
O que por ahi não irá!
* * * * *
A _Comedia da Santa_, ou antes, a =Comedia da Musica=, absorveu e absorve toda a actividade dos nossos politicos—dos homens que se apresentam á consideração do povo, allegando serviços e pedindo votos.
E em que diabo hão de pensar esses santos varões, se o Concelho voga em mar de rosas, com vento fresco e bons timoneiros?
Examinemos, de relance, as instituições da nossa terra:
Camara Municipal
Praça de toiros com serviço permanente. Emprezario: o Senhor Administrador. Intelligentes: o Senhor Joaquim (por procuração), ou João Cabral.
N’este anno, as corridas promettem. O _primeiro espada_, Senhor Abilio, foi occultamente a Madrid adestrar-se com Lagartijo e com Frascuelo. O gado, do lavrador Ladislau, é manso. Tem fraca _pinta_ e pouco _pé_. A casa está passada para as primeiras corridas semanaes. Ha toiros para curiosos.
* * * * *
Agora, duas tiradas a serio:
A administração do nosso Municipio anda como V. Ex.ª sabe, querido leitor, em bolandas e ao deus-dará. Muito lhe poderia dizer a tal respeito; mas esta gente séria da terra, tanto me tem soprado aos ouvidos com aquella preventiva phrase de:
_Nem todas as verdades se dizem_
que, _por emquanto_, ainda me resolvo a conservar na minha carteira os curiosos apontamentos que d’estas coisas de Valença, cuidadosamente tenho colligido. Prosigamos.
—Approvou-se ultimamente um novo traçado de estradas para o districto; todos os concelhos foram contemplados, menos o de Valença. Pelos modos, lá nas secretarias das Obras publicas ainda se não descobriu, ao certo, se isto pertence a Portugal, se á Galliza. A Camara podia elucidar este caso e requerer, ou instar por concessões a que tem direito. Os politicos, porém, teem mais em que pensar... Ainda se não decidiu a =Questão da Musica=.
—Alli, na Esplanada, amontoam-se, sem ordem nem regularidade, as novas construcções. Ora, apesar da opposição dos paysanducos, a futura povoação de Valença ha de extender-se por esses campos fóra, e esta latrina acastellada com muralhas, poternas e tenalhas, passará a ter o merecimento historico das ruinas de Lapella, hoje excellentes para ninhos de morcegos, luras de toupeira e tocas de grillos.
Portanto, a qualquer cerebro medianamente esclarecido parecerá urgente e indispensavel o levantamento d’uma planta, que desde já disponha, com regularidade, as arterias da futura povoação.
Não se pensa em tal, nem é preciso. Temos a lei das expropriações. A ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar. Temos a =Questão da Musica=.
—No centro da villa, ao lado da Ex.ᵐᵃ Camara, existe uma commua, que chamam: Eschola municipal.
Quando quizerdes avaliar a civilização d’este povo, que se ri de vós—oh gentes de Monsão e de Coura!—vinde cá, embebei o lenço em agua de Colonia e entrae alli, na Eschola, onde sem ar, sem luz, sem condições hygienicas de qualquer natureza, se atrophiam diariamente dezenas de creanças.
Os rapazes, cá na terra, sahem da barriga das mães, já com a caneta atraz da orelha para escreverem á familia; não precisamos, portanto, de subsidios do Conde de Ferreira, nem de utensilios escholares.
Corre tudo muito bem. Só falta uma coisa: um pelourinho, alli ao pé da _Sexta_, com os nomes dos philanthropos que responderam aos testamenteiros do Conde:
—_Dispensamos o subsidio; não temos terreno para a eschola; está tudo occupado com cacos de guerra e com o Assento dos militares!_
—Diz-se que é util o saber lêr e, n’esta crença, auxilia-se em toda a parte a instrucção do povo, fiscalizando-se o serviço das escholas, animando-se as creanças e estimulando-se os professores.
O pelouro da instrucção (?) no concelho de Valença é um mytho, uma coisa nominal e hypothetica.
Regateiam, por ahi, miseravelmente, os dois patacos de expediente; e na Eschola, como verdadeira commua, não ha mobilia, não ha um mappa, não ha uma esphera, uma loisa, um diccionario. A Camara não gasta dinheiro n’essas ridicularias; gasta-o, mas com outras applicações, que fazem parte dos meus apontamentos particulares...
De quando em quando o bandalho da Politica entra tambem nas Escholas; e d’essa visita, nascem as perseguições torpissimas e ineptas contra homens que, politicamente podem ter todos os defeitos, mas que para o exercicio do cargo que exercem, possuem incontestavel aptidão.
—Construiram-se, no largo principal da terra, os Paços do Concelho. O edificio ficou uma gaiola de grillos, com uma unica porta, para elles não fugirem, quando lhes appetecer a serradela.
As divisões interiores são d’uma disposição perfeitamente apatetada. Com as dependencias do Tribunal, repetiu-se aquelle caso dos _moinhos de Coura_. Lá, só pensaram na agua, quando os moinhos estavam promptos; cá, só depois do Tribunal concluido, é que surgiu na mente dos illustres senadores a necessidade _provavel_ d’uma sala para jurados.
Mas o defeito remediou-se e bem.
Fez-se uma especie de espigueiro, um sotão, como os que a gente tem para extender as batatas por causa do grelo e para lá se manda o Jury. Está alli muito bem, livre de correntes d’ar, e com grande vantagem para os curiosos da terra: muito antes que se pronuncie a sentença, já se póde saber, pela janella das escadas, se o réo vae para a rua, ou para o _cavallinho de pau_.
Não ha dinheiro que pague esta commodidade.
—Na Coroada, admiram os forasteiros a desconjunctada architectura d’uns cortelhos, onde, em nauseabunda promiscuidade, se aconchegam de noite: mulheres, porcos, creanças, bacorinhos, gatos com tinha e cadellas com sarna.
Em terra menos civilizada, já o _senado_ teria estudado o meio de, por uma operação financeira possivel de realizar, sem graves encargos, transformar esses focos de immundicie em habitações economicas, mas hygienicas.
Mas, então, V. Ex.ª não viu na Exposição de Paris, entre tantas maravilhas da Arte, as primitivas construcções dos differentes povos? Pois cá, em Valença, não precisamos de arranjar artificialmente essa exposição. Alli estão os _cortelhos_ da Parada velha, immundos, doentios, nojentos,—como nota caracteristica do nosso Progresso moral e material.
—A gente das cidades tem a mania da Civilização. Abre mercados, rasga ruas espaçosas, aformoseia praças, alinha os edificios e varre as ruas.
Com o pretexto da hygiene e da limpeza faz dinheiro até do esterco.
—_Miserias humanas!—dizem os nossos camaristas. Nas ruas de Valença, o que cai, deixa-se ficar. Podem-nos chamar immundos, mas ao menos, não somos dos futres que vendem carros de lixo._
Cá, a gente é assim...
—O concelho precisa de estradas que unam as freguezias e facilitem as communicações. A estrada de A para B foi considerada, como a mais urgente, pela importancia (politica, já se vê) de B.
Principiou-se a estrada: terraplenagens, aterros, desaterros, etc.
A folhas tantas, desabou a caranguejola ministerial e o que era politicamente positivo em B passou para negativo. Suspendeu-se a construcção da estrada.
Chegou o inverno: lamas, enxurradas, desmoronamentos. O que estava feito inutilizou-se, mas não importa: a ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar: a =Questão da Musica=.
* * * * *
Junta de Parochia
Instituição composta de differentes membros, sob a direcção do Senhor Sampaio e patrocinio do Senhor Agostinho. Nada mais, creio eu, é preciso dizer.
Essa instituição, que n’outras terras presta valiosos serviços á Beneficencia e á Instrucção, jaz ahi na mais abjecta inutilidade.
A manifestação mais evidente da sua actividade, deu-a na importantissima _Questão da Porta_, com o Senhor Baptista.
A Junta não tem meios; é pobre, vive da graça de Deus. Tem os telhados da Egreja desmantelados; não póde gastar um real em adornos, ou reparos, no interior do templo. Conserva, nos adros, as ossadas dos nossos antepassados—n’esses adros que a gente pisa, onde os cães levantam as pernas e dão muitas voltas, fingindo que se sentam; onde, á noite se baixam as calças e se praticam mil obscenidades. Alli, debaixo d’aquella terra e d’aquella pedra estão os craneos dos nossos parentes, craneos que já tiveram carne, olhos, bocca, labios que acarinharam os nossos paes; estão alli os restos dos braços que aconchegaram ao peito, em noites de amargura e de afflictiva ancia, a cabeça dos nossos avós, quando a febre lhes amortecia os olhos e escaldava as faces.
O respeito aos mortos e o espirito da Religião impõem a urgente exhumação d’essas ossadas e a sua mudança para o cemiterio.
Não póde ser. Não ha dinheiro; a Junta é pobrissima e tem despezas mais urgentes e indispensaveis, como as que se fizeram com a _Questão da Porta_. Pois não era um escandalo? Ainda que se empenhasse a Cruz de prata! Mas não foi preciso; para isso, para a Justiça, ainda a pobre Junta teve as trinta libras, que a questão levou...
Deus, Nosso Senhor, se lembre, para desconto dos meus peccados, da repugnancia com que nego licença á penna, para reproduzir as ideas que, n’este momento, tumultuam no meu cerebro...
* * * * *
—Ascencio José dos Santos deixou á Junta de Parochia de Valença estas e aquellas propriedades, com o encargo seguinte: instituição d’um lausperenne mensal com tantos padres e tantas luzes, etc.
Com o rendimento d’essas propriedades pagaria a Junta as despezas do lausperenne, applicando o restante ao desenvolvimento da Instrucção do Concelho.
A Junta acceitou o legado, vendeu as propriedades e converteu o producto em inscripções que rendem, annualmente, _cento e dez mil reis_.
A despeza total dos lausperennes, pagando-se generosamente, é de _doze libras_, ou _cincoenta e quatro mil reis annuaes_, restando, por consequencia, um saldo importante.
A Junta de Parochia acceitou, como disse, o legado; mas os mezes passam e ninguem ouve falar dos lausperennes, porque não se fazem. O Senhor Sampaio, apesar de ser um homem muito temente a Deus, não quer gastar dinheiro com padres.
Dispõe do que é seu e faz muito bem.
Estas coisas consideram-se, cá na terra, como admissiveis e legaes. Uns chamam-lhes descuidos, outros desleixos, etc. Eu pouco sei de sciencias juridicas; mas confrontando este facto com outros, que por ahi vejo punir na cadeia, não ha quem me tire da cabeça, que o _descuido_ da Junta entra na classe d’aquelles _descuidos_, que a Lei chama: roubos.
Pura e simplesmente =um roubo=; ao culto, á Lei, ás crenças d’um morto, á Moralidade, á fé dos contractos, ás disposições d’um testamento, que em toda a parte se cumprem fiel e rigorosamente.
E já que o vendaval do Tempo levou os ultimos sons d’essas fervorosas manifestações de Sentimento, que á beira do tumulo d’um homem que caíu fulminado defendendo os interesses de Valença, inspirou tanto necrologio bombastico e tanto discurso farfalhudo—já que em homenagem á memoria do homem que amou, como ninguem, esta terra, porque tinha na alma a rigida austeridade d’um caracter impolluto e sacrificava os haveres, como sacrificou a vida, sem pedir á Politica o salario dos seus serviços—se não ergueu ainda, ahi, uma voz para reclamar da Justiça o cumprimento rigoroso das disposições a que se obrigou a Junta de Parochia, seja-me permittido alterar, por momentos, a feição humoristica d’estes artigos para, com verdadeira indignação, dizer ás auctoridades que, n’esta terra, vigiam pelo cumprimento da Lei:
A Junta de Parochia =rouba=, mensalmente, ao culto os lausperennes instituidos no legado de Ascencio José dos Santos.
Esses lausperennes representam _cento e dez mil reis annuaes_, que são desviados para applicação illegal e ignorada.
Ha, ou não ha obrigação de cumprir as disposições dos legados?
Ha, ou não ha Lei que peça responsabilidades aos auctores d’estes _desvios_?
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—Prosigamos, porque a rabeca desafina.
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Santa Casa da Misericordia
É uma Santa Casa de Politica.
As eleições disputam-se (tudo por philanthropia) como as da Camara, ou do deputado. Impera sempre n’ellas, para suprema humilhação dos valencianos, a massa bruta da Urgeira, porque ha o cuidado de conservar alli a maioria dos _irmãos_.
Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser convidado para _irmão_ da Santa Casa. _Por acaso_, aconteceu sempre isso em vesperas de eleições. Mero _acaso_.
Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 _irmãos_. Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno _carneiro com batatas_ ainda não estava inventado.
Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!
Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.
Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?
Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz fundou—o Asylo?
Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse edificio tão util para os infelizes?
—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um capital de =cento e tantos contos=, em inscripções, escripturas com hypothecas, e =fiadores= com =paes=, =manos= e =cunhados=, tivesse apenas algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.
Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?
Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?
Em coisas da Santa Casa, _por emquanto_, vem só isto á luz do dia.
* * * * *
Ora aqui tem V. Ex.ª um rapido e superficial exame sobre as principaes instituições da nossa terra.
A Politica, a Hypocrisia e a Rotina imperam soberanamente em tudo que póde ser util em Valença. Por isso, quando a gente bate á porta de muitos filhos d’esta terra, que lá fóra, pela sua posição e pela sua fortuna podiam auxiliar novas instituições, só ouve queixas, reclamações e justos resentimentos.
O grande homem da nossa terra seria um velhaco qualquer que em eleição renhida pudesse _empalmar_ o João de Gaiteira, ou o Abbade de Cerdal.
Se alguem conseguisse isso, á noite, na taberna do Pedro, teria uma apotheose de _calhos_ e de chouriço com ovos, de rachar tudo.
* * * * *
—Mas, oh sr. Zinão, dirá V. Ex.ª, então não ha por ahi homens que tenham interesses no Concelho e que lucrem com o seu desenvolvimento?
—Oh, meu senhor! V. Ex.ª sabe quem verdadeiramente mexe os pausinhos da nossa Politica? São os pyrotechnicos da _Questão da Santa_. São dois homens que teem tantos interesses no Concelho como eu, que por duas _perras chicas_ offereço a V. Ex.ª as minhas propriedades. São os que armam as _baralhas_.
Não teem um palmo de terra que os interesse no desenvolvimento da Agricultura; não teem uma capoeira nas freguezias, que lhes faça sentir a necessidade de estradas; não teem relações directas ou indirectas com o Commercio, nem com a Industria. Entre elles e as instituições civis ha um abysmo. Nunca fizeram parte d’uma corporação que tratasse do desenvolvimento do Concelho. De administração municipal sabem tanto, como eu sei quem V. Ex.ª é. Influencia pessoal: como são dois, levam dois votos. Tem Politica de sapa. Ensaiam as comedias, põem os actores na rua, mas quando veem fogo nas barbas da vizinhança mettem-se em casa e fecham as portas.
Posso francamente asseverar a V. Ex.ª que esses homens inspiram na povoação mais antipathias do que affectos. Elles que digam a V. Ex.ª se não teem a consciencia d’isso... Aos que lhes fazem a côrte oiço ás vezes cada arcada, em surdina...
Um quer por força pôr o pé nas muralhas para trepar á tina, onde se tingem as meias. O outro surgiu ahi na tripode das sibyllas sem a gente saber _como_ nem _porque_; dizem que vê as coisas muito ao longe. Ás vezes adivinha, mas se dá a _palavra d’honra_... é tolice certa.
Ora, como na terra dos cegos e dos dorminhocos quem tem um ôlho é rei, os homens por cá vão arranjando a sua vida muito honradamente e livres de vergonhas do mundo.
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Esses dois maioraes representam os dois partidos; porque nós, meu senhor, nominalmente, tambem temos dois partidos, como as terras grandes. A gente é sempre a mesma.
V. Ex.ª recorda-se do que succedeu ha quinze dias, em S. Pedro, com os comparsas d’aquelle _Auto_ dos Moiros e Christãos?
O Zé da Cancella, o Chico da Aguilhada e o Tóne do Pernicas, no primeiro domingo _faziam_ de judeus. N’aquella scena em que, por ordem do Bento Cambádas, que era o Herodes, matam os innocentes, o publico e especialmente o mulherio, _escamou-se_ com elles, mandou-os _p’ro raio que os parta_ e correu-os a _soque_.
No outro domingo nenhum d’elles quiz _fazer_ de judeu e para que a _peça_ se representasse, metteu-se o Senhor Abbade no caso. Os que eram christãos passaram para judeus e vice-versa.
Cá, nas farças da nossa Politica, succede o mesmo. Quem faz de Abbade é o Senhor Administrador.
* * * * *
Ora aqui está, meu senhor, a razão porque o Concelho ganhou o titulo de _burgo podre_ e a razão porque a gente, quando vae offerecer o circulo a pessoas serias, como succedeu ha mezes, é posta no ôlho da rua pelo creado da casa.
* * * * *
Voltemos á =Questão da Musica= e encaremol-a pelo seu verdadeiro aspecto—o comico.
Esta celeberrima questão, decomposta nos seus factores, baseia-se n’uma simples formalidade, n’uma pueril e ridicula ceremonia: a licença do Conde de Lippe, a licença do Administrador, ou uma e outra concedidas ao mesmo tempo.
É um caso comico, como o do Hyssope.
Examinemos:
A Musica é a applicação artistica do som; influe poderosamente em a nossa natureza psychica, quer a agite com as sonatas de Beethoven, em que o Sentimento nos apparece burilado e subtil, como uma cinzeladura de Cellini, quer tumultue nas estranhas innovações de Wagner, em que a Harmonia, á primeira audição, nos fére de imprevista e áspera.
Decomposta nos seus elementos, a Musica reduz-se a simples vibrações, transmittidas pelas ondas sonoras. No caso presente, visto que na =Questão da Musica= se trata d’um grupo de labregos, que selvaticamente mortificam os nossos apparelhos auditivos, essas vibrações que, pela instrumentação, se transformam na Harmonia, partem do organismo humano.
Examinando o organismo humano, verificamos que os elementos essenciaes á potenciação d’essas vibrações podem, egualmente, ser fornecidos pelas duas extremidades do canal digestivo e modulados, ou regulados, pela articulação da maxilla inferior, ou pela elasticidade muscular do esphincter.
A composição molecular d’esses elementos será pois: oxygenio, azote, acido carbonico e vapor de agua (caso _a_), ou: hydrogenios carbonado e sulfurado e acido carbonico (caso _b_).
A sua acção vibratil chama-se vulgarmente sôpro, ou bufo; e n’esta ultima designação, que é a mais geral, para distincção dos dois casos _a_ e _b_ relativos á composição molecular, costuma o povo usar do genero masculino no primeiro caso, e do feminino no segundo.
Assim, por uma rigorosa analyse, de deducção em deducção, chegamos ao seguinte resultado: que a essencia (caso _b_), o valor, a importancia d’essa celebre questão, que fez perigar a paz das nações e que, por ahi, inspirou tanta facecia e tanto remoque de _fino espirito_—é um simples caso de sôpro, é um reles caso de bufo (_b_).