Sermão contra o Filosofismo do Seculo XIX
Part 2
Mas não he este o lugar para esta discussão, he tempo sim de confrontar uso de razão com uso de razão, o uso que eu faço com o uso que vós fazeis, ou vos considerei como discipulos, ou vos assoalheis como irmãos terriveis, e veneraveis: e se esta disputa terminar em desvantagem vossa, sereis obrigados a confessar racionavel a minha fé, depois que tantas vezes a tendes escarnecido, e me tendes provocado, e até reprehendido como rebelde ao bom sizo, como desprovido de razão, e até ingrato á humanidade. E porque? Oição este porque os Povos mais selvagens, e incultos da terra, e digão senão he nova até entre elles tanta extravagancia, e tanta brutalidade! Porque a despeito de hum arbitrario fabricador de systemas, de hum arguto, e sagaz filosofante, de hum fantastico pensador, tenho dado credito, e o dou ao Supremo Ser, á Suprema, e primeira verdade, que fallou em todos os Seculos, que fallou em todas as lingoas, que fallou em sua propria pessoa, ensinando-nos por si mesmo dogmas unidos, e ligados entre si com hum laço maravilhoso, e, se nem todos são accessiveis ao entendimento humano, são todos conformes aos dictames da recta, e natural razão.
O que acabo de dizer, que a minha fé, e a minha crença tem alguns artigos que parecem inacessiveis ao entendimento, humano desabafa alguma cousa meus implacaveis accusadores da consternação, e aperto em que os lançou a primeira parte da indicada confrontação: porque, se he verdade, dizem elles, como eu confesso, que a Religião tem alguns dogmas não perceptiveis ao entendimento humano, eis-aqui porque eu Christão, a respeito dos mysterios da Fé, sou obrigado a renunciar o lume da razão natural: em quanto nós... Em quanto vós, oh! Pitavais, oh! Rainais! sois obrigados a renunciar o lume da razão natural a respeito dos mysterios da Natureza. Esta minha resposta assim vibrada, talvez seja pouco sucosa, e muito restricta, he preciso que eu a exponha com mais perspicuidade, e extensão.
Assim como he hum indispensavel dever do homem pensar segundo a razão natural, tambem he hum dever indispensavel do mesmo homem conhecer os confins, ou as balizas que a Natureza constituio a esta razão; e ainda que exacta, e precisamente se não possão determinar quaes sejão estas balizas, conhece-se com tudo que existem muito á quem das cousas invesiveis, e imateriaes. E que conta se dá a si mesma esta tão orgulhosa razão das cousas corporeas hum pouco superiores, ou distantes dos nossos sentidos? Que conta se dá daquellas mesmas cousas que temos entre as mãos, e que com o olho armado de lentes subtilissimas examinamos todos os dias? Que razão nós damos do movimento de hum insecto, da sobida de huma lavareda, da tendencia de huma pedra para o centro da gravidade, da respiração de hum animal, do fenomeno regular do fluxo, e do refluxo, da causa immediata do magnetismo, dos espantosos effeitos da electricidade, das fases da lua, da marcha excentrica, e irregular de hum Cometa, do movimento de hum Planeta, da sua acceleração na razão inversa do quadrado da distancia ao centro da revolução? E quem seria tão desasisado que em lugar de confessar limitada a sua razão, negasse pertinazmente a existencia destes objectos porque os não comprehende? Que conceito formariamos daquelle profundo pensador, que porque os não entendia os julgasse, e reputasse a todos outras tantas imaginações sem fundamento, ou outras tantas illusões da fantazia, e dos sentidos? Não se dirá de hum menino, que tocasse apenas o septimo anno de sua idade, que não usa da sua razão, e que injuria a Natureza que lha communicou, porque senão levanta com o entendimento a especular os mysterios, e a resolver os problemas da mais recondita Filosofia? Dir-se-ha com verdade, que considerando a molleza de suas fibras, e a immaturidade de seus orgãos, estes pensamentos altos, e estas profundas especulações não são ainda para elle, e que muito faz, attendida a sua idade, se se adianta hum pouco em o material conhecimento das letras, e em huma superficial combinação das syllabas. E se este menino por não poder penetrar, e conceber sciencias maiores que estes seus primeiros rudimentos da leitura, negasse que existião mais sciencias, e mais reconditos conhecimentos das causas, e dos effeitos, todos se ririão, e lhe não darião o nome de louco em attenção á sua muito tenra, e delicada idade. Direis que eu discorro com clareza, mas he porque se trata de huma razão tenra, e noviça, mas que o argumento não tem força onde se trata de huma razão perfeita, e chegada á sua devida maturidade. Seja embora a razão madura, e perfeita, dizei-me póde ella acaso transgredir seus naturaes limites? Póde acaso deixar de ser razão anuviada do sentido material, e céga para todos os objectos que não forem corporeos? E não são próvas desta verdade alguns incredulos escarnecido por vós mesmos, por terem a affirmado como Mirabaud, que nada mais existe em o Universo, que corpo, e materia: ou por haverem affirmado que esta materia he Deos, que esta materia he a Providencia, que esta materia he aquella immaterial substancia, Arbitro supremo, e separado da Natureza, que eu, simples, temo, e adoro como hum ser infinito, de ordem superior, e todo espiritual? Lembrai-vos, que he identico o vosso caso, e o do tenro menino, que porque não tem entendimento capaz de formar idéas mais sublimes, cuida que toda a sciencia humana consista em saber contar hum pouco melhor, e em combinar com mais facilidade algumas syllabas materiaes.
Torno outra vez ao campo com as empunhadas armas do parallelo, e vos peço, que me digais se acaso seja honrar a humanidade, ou pizalla, e desprezalla furiosamente depois de ter com mil provas conhecido a limitada capacidade da razão, até no conhecimento, e analyse das cousas sensiveis, que são de sua immediata jurisdicção, atrribuir-lhe tanto dominio, e dar-lhe huma vista tão aguda, e penetrante, que nem das cousas invesiveis, nem da Natureza Divina, nem das Divinas operações, se não deva acreditar, nem mais, nem menos, senão aquillo que a mesma razão póde comprehender, e isto com tanta segurança ensinado pelos Veneraveis aos adeptos dos primeiros gráos, ou dos primeiros momos, ou visagens, que quem pensar d'outra maneira se deva logo constituir á carga cerrada na classe dos brutos animaes, desprovidos de razão, e de conhecimento. E he isto conhecer, como he de obrigacão de todo o mortal raciocinante, os limites do entendimento humano, e do humano discurso? Em que direis vós que estes Veneraveis, ridiculamente mitrados, annunciando enfaticos o ramo d'Acacia, e que a carne deixa os ossos, se distinguem de hum insensato, que com azas postiças presuma levantar o vôo, e girar em torno das orbitas dos Planetas?
Porém os crentes não fechão voluntariamente os olhos da razão? Não se immergem voluntariamente nas trévas da Fé? Vós aqui dissimulais com vossa costumada perfidia, e malicia ter visto a clara luz que eu vos mostrei na manifesta palavra de Deos, a cujo clarão inextinguivel nós caminhâmos, e confundis com hum de vossos ordinarios sofismas as trévas do entendimento com as trévas da razão: mas eu vos farei bem depressa conhecer quaes sejão, e a quem pertenção as primeiras, quaes sejão, e a quem pertenção as segundas. Trévas de entendimento são aquellas de que se vê rodeado nosso espirito, quando, por mais que investigue, e procure descortinar certos arcanos da Religião, não chega a conhecer, nem o seu modo, nem o seu fim, nem a sua causa: eis aqui aquelle abysmo insondavel á vista do qual bradava o Apostolo--_oh altitudo_! Mas isto são trévas necessarias a que podemos chamar sagradas sombras, em quanto se derivão, e se derramão da incomprehensivel Natureza do Ser Divino, e das Divinas operações, e por isto são trévas universaes para todos os entendimentos creados, são trévas para mim, e para os profundos pensadores; são sombras minhas, e sombras vossas por mais que vos chameis illuminados, nem são mais dos Egypcios, que dos Hebreos, nem mais dos Gregos, que dos Romanos, nem mais dos incredulos, que dos infieis, ou dos idolatras. Porém quando, ou por hum estranho orgulho não se queirão nem conhecer, nem confessar estas trévas, ou conhecendo-as, e confessando-as se fechão os olhos á luz da divina palavra, que torna firme a nossa fé no meio destas mesmas sombras, então as trévas que erão só do entendimento passão para a razão, e se tornão trevas voluntarias, e por isso trevas culpaveis, trevas deshonrosas, trevas de homem, que por ser pertinacissimo, renuncia os dictames da recta razão, e desce, e se faz semelhante aos mesmos brutos.
Eu me magôo, e penalizo, oh espiritos incredulos, devendo dizer-vos que esta tão tenebrosa, e aviltada razão, he pontualmente a vossa, a tanto mais me penalizo quando mais conheço que vós quereis ser homens pensadores fóra do uso commum, e da vulgar esfera. Mas talvez que vos lembre alguma resposta, que vos livre ao menos em parte desta vergonhosa infamia. Pensai, estudai, meditai, consultai os vossos mais meditabundos Veneraveis, lê-de, e relê-de vossos amados livros, o vosso Tindal, o vosso Collins, o vosso Bolimbrocke, o vosso prezadissimo Oraculo de Fresney, vê-de se nesse erario de paralogismos podeis achar algum argumento, alguma palavra que vos possa destruir o vergonhoso labéo de serdes em materias de Fé homens desprovidos de razão. Eu mesmo, não posso encontrar, por mais que subtilize, huma só vereda por onde vos possaes escapar. Vós me concedesteis já, não o podeis negar, que existe Deos, vós tambem me deveis conceder que elle haja revelado aos homens o culto com que quiz ser adorado pelos mesmos homens, que o revelou, e manifestou de huma maneira descoberra, e sensivel, milagrosa em cada huma de suas circumstancias que este culto, para ser digno delle, devia conter verdades superiores á esfera do humano entendimento, e que de outro lado este humano entendimento he tão pouco penetrante, que não póde presumir sem loucura que conhece, e entende todas as verdades fysicas, e naturaes. E porque estes Dogmas da Fé se envolvem em magestosas sombras, e sagrada obscuridade, vós recusaes acredita-los sem que se vos torne evidente sua possibilidade, ordem, e economia; e nós os fieis que os acreditâmos sem tão filosoficas delicadezas somos tratados por vós, profundissimos pensadores, e accreditadores das verdades, do Monitor, de estupidos inimigos do bom siso, e de pessimos raciocinantes.
Nós, continuão os Veneraveis a clamar, não dizemos que vós sois pessimos racionantes, dizemos sómente que conservaes em estupido ocio a razão, e o discurso. Isto he huma retirada que eu não podia esperar, mas esta mesma retirada não os salva de serem seguidos, e feridos com as armas da razão. Dizem pois, que eu por ser crente, sou constrangido a conservar em ocio vituperoso o discurso humano, sepultando o maior talento, ou dom da Natureza, que he o lume da razão. Grande Deos! E era de esperar isto de homens que tem olhos para ver, e razão para discorrer! E era de esperar huma semelhante impostura? Entrai oh incredulos, em alguma daquellas respeitavel Bibliothecas conservadoras, e depositarias da sapiencia Christã, e alongai a vista para o assombroso, e surprendente número daquelles volumes cheios de amplissimas provas da verdade da Religião Evangelica, e para que não digaes que constituo ante vossos olhos alguma Legenda crédula, algum Mistico a que chamais Visionario, lê-de unicamente Grocio, e Locke ambos defensores, ambos demonstradores da verdade do Christianismo, e de seus augustos Dogmas. Aqui achareis demonstrações luminosissimas, e levadas até a evidencia; os quaes os mais pertinazes das vossas nocturnas, e tenebrosas escolas não se atrevêrão ainda a responder, e os mais atrevidos não tiverão ainda outra resposta que dar mais do que vilipendios, e motejos plebeos: e quando tem querido dar resposta, como serios argumentantes, não tem feito mais que oppôr ás provas daquelles dois profundos Filosofos, fabulosas relações, Padres suppostos, Escrituras falsificadas, Authores suspeitos, e desacreditados, e se vós chamais ás provas do Christianismo fructos do ocio Christão, que chamarei eu a taes objecções, fructos da vossa pensadora incredulidade? A respeito pois da Essencia Divina, da sua immensidade, da sua immutabilidade, da sua eternidade, que tem imaginado de grande, e que descobrimento tem feito os vossos profundos pensadores, e os maiores oraculos do maior Oriente, para que se não creia em nossos pensadores Christãos? Tudo quanto disserão sobre a Natureza Divina os Socrates, os Platões, os Democritos, os Zenos, e outros Mestres pelo muito uso que fizerão da razão natural dignos de fama, e de memoria, he apenas hum balbuciamento de tenros meninos a respeito do que ensina o menos profundo dos Theologos Christãos, e o mais superficial, e insignificante dos nossos livros. A causa de tão grande differença entre uso de razão, e uso de razão, se vos dignaes escutalla o mesmo Evangelho a está declarando. De differente maneira edifica aquelle que escolhe para o edificio hum terreno compacto, e pedregoso, do que edifica aquelle, que escolhe hum terreno movediço, e solto; o primeiro não tem medo de levantar alto da terra o edificio que constroe, em quanto o segundo, attendida a natureza do terreno, se vê obrigado a conservar muito baixo o edificio, nem põe huma pedra sobre outra pedra sem receio de que crescendo o pezo cahia tudo confuso, e despedaçado sobre o infiel terreno. De similhante maneira acontece a hum entendimento, que tem fundamentado suas decisões sobre o firmissimo alicerce da sua Fé. Sobre estas bases se póde levantar com a razão, até ao solio do Immortal, para investigar a Essencia Divina, e as Divinas perfeições sem erro, e conhecer sem perigo cousas remotas, e distantes do entendimento humano. Pelo contrario os incredulos, e os Veneraveis que tanto me tem taxado de embecilidade, sem o fundamento da Fé, por pouco que se queirão levantar com a razão, devem sempre temer huma confusa ruina de caprichosos fantasmas, e vergonhosas contradicções.
Ainda com o impeto, e força desta evidencia não emudecem os pertinacissimos impugnadores, ou refutadores analyticos: que ha que dizer (erguem elles animosamente a voz) que ha que dizer a estas nossas livres fantazias, ás quaes se dá o odioso nome de caprichosas! Por ventura, não são elas hum amplo patrimonio, hum direito innato do espirito humano? Custa-vos acaso, que nós os pensadores recusando crêr, nos conservemos na posse daquella liberdade de pensar que a Natureza nos deo, e que tanto tem dilatado os nossos Veneraveis, e da qual tão injustamente nos despoja a Fé? Ah! Illusos fraternizadores, e niveladores! E porque não dizeis, que tambem a Filosofia despoja o entendimento humano da liberdade de pensar? Quantos vôos de engenho he preciso refrear, quantos systemas he preciso regeitar, quantas invenções he preciso sacrificar, ás leis daquella, que segundo o vario gosto dos Seculos se chama boa, e razoavel Fysica? Vos que accusaes a Fé de ligar o entendimento, e de o condemnar a huma individa servidão, porque não accusaes tambem as Sciencias, que todas tem seus principios, suas regras, seus confins, que da mesma sorte que pratica a Fé, põem hum freio, e prescrevem leis ao licencioso entendimento?
Com effeito, ou se considerem as sciencias, ou se considere a Fé, ou isto em vós he huma grosseira impostura, ou huma equivocação pueril, porque esta liberdade de pensar de que dizeis vos despoja a Fé, vós por certo a julgais, e a entendeis huma liberdade sabia, digna de hum homem racional, e não huma liberdade de fernetico, ou de hum sonhador febricitante. Ora dizei-me em que vos violenta, ou vos constrange esta Fé, cuja prepotencia vós tanto exageraes? Ella vos obriga a dizer que existe Deos, e esta existencia já está demonstrada pela razão natural. Ella vos obriga a confessar que este Deos existente fallára aos homens, e he evidente que elle fallou pelo exactissimo complemento dos vatecinios. Ella vos obriga a confessar, que as palavras deste Deos são infaliveis, e he inegavel que não podem deixar de ser infalliveis pois são de hum Deos que encerra em si todas as perfeições. Fóra disto eu não posso, nem he possivel descobrir cousa em que se constranja, ou tyrannize, como vós dizeis, a vossa liberdade; salvo se vos queixaes de perder aquella liberdade que quereis ter de ajuntar contradicções, de engrazar impossiveis, e de dar ao Mundo (como tendes feito em tantos Livros ineptos quantos ha desde o Militar Filosofo, até ás próvas do Mahometismo, ultima producção de Holbac,) quimericas imaginações por verdades demonstradas. Se quereis permanecer neste estado como vos prescreve o Codigo de Weishaupt, o de loucos varridos ainda he mais vantajoso.
E, á vista disto, que estrepito se não tem feito, e se não continua ainda a fazer pelos subterraneos, que tremem da Policia vigilante, que os faz ir republicanizar, e igualizar em masmorras, sobre a miseravel escravidão do humano entendimento, e sobre o tyrannico imperio, que a Fé, segundo elles clamão, tem usurpado sobre a razão natural? Que queixas eu não tenho ouvido fazer sobre os pequenos progressos que tem feito no Mundo, depois da entrada do Christianismo a profana Litteratura? Que compaixão não fingem ter dos engenhos catholicos, que tendo azas com que poderião sobir acima das nuvens, se curvão, e encolhem ao jugo da crença, abatendo os vôos, e andando quasi de rojo pela terra? Mas se se quizer examinar, ou vêr sómente que cousa seja este remontar-se sobre as nuvens, achar-se-ha que não he outra cousa mais que arrancar do entendimento (á força de pensar livremente) o innato conceito da honestidade, o innato horror do vicio, fazer das acções justas, e das acções injustas huma invenção do interesse, ou apenas huma das ceremonias da vida civíl, e da conducta politica; collocar, e estabelecer na força maior hum justo direito de roubar, e de matar seus similhantes; tirar das mãos aos Principes, e aos Dominantes a espada punidora de suas escandalosas maldades; e fundar toda obrigação que tem os homens de honrar, e obedecer a Deos, não em seu infinito merecimento, e em seu supremo dominio, mas unicamente em seu irresistivel poder. Eis-aqui, dizem elles, hum pensar livre, nobre, generoso, honrado, sublime, e não pensar com humildade, e sugeição de escravos, como fazem os Christãos. Eis-aqui o que se chama despregar soltamente as azas do entendimento, desferir com magestade os vôos como nos ensina o nosso Mestre Veissauph, e todos os nossos Cavalheiros do Libano, eis-aqui o que escutamos aos nossos Veneraveis, quando descalção as formidaveis, e tremendas luvas para nos fazerem vêr a luz em o ultimo dos nossos gráos, que vem a ser, ensinar-nos em Methafysica o Pantheismo, e em Moral, a Igualdade acephala, e anarquica. Eis-aqui o que se chama entranhar-se no conhecimento da verdade, e não querer a vida, se não para a empregar na indagação da verdade, sem levar sempre ao lado o cégo, e molestissimo pedagogo da crença sobrenatural. Eis-aqui o que nos inculcou, e o que nós estudamos nos mais que sobrehumanos escritos do nosso Cidadão Genebrino.
Á vista disto, Senhores, eu creio, que ainda quando a Fé vo-lo não vedasse, vós não quererieis huma similhante liberdade de pensar, só para manter o decôro da vossa razão, e para não mostrar ao Mundo que constituis na extravagancia, e na loucura a gloria d'espirito forte, e pensador profundo. Resta pois que os valentes pensadores batão outro caminho que lhes possa lembrar, porque as veredas até agora tentadas os não tem conduzido, nem podem conduzir á sua tão vãmente preconizada victoria. Mas elles são de fecundo engenho, e fertil de estratagemas na guerra anti-christã; acolhem-se á sua ultima trincheira, conforme a tactica do guerreiro, ou campião de Genebra, que he a dos milagres que nós acreditamos como simplices, fundando nelles hum dos motivos da credibilidade da Fé. Milagres, que elles como sabios, e profundos pensadores desprezão, ou orgulhosamente desconhecem. Mas he preciso antes que venhamos ás mãos, que os meus inimigos mostrem boa fé em o seu ataque, e que se não tornem como costumão pessimos pensadores, escrevendo, e divulgando, não sem motejos, e improperios, que nós os fieis somos crédulos em tudo aquillo que se nos offerece prodigioso com tanto, que encerre em si alguma cousa de devoto, e de mistico. Mas eu os considero tão amestrados na Ecclesiastica Historia, que não ignorão oue os tempos de huma tão abusiva, e facil credulidade, ou não existírão na Igreja, ou se existirão em algum Seculo de decadencia, e dominação Gotica comprehendêrão em si hum pequeno numero de pessoas idiotas, e vulgares, fracções infinitezimas em o todo dos illustrados Christãos: elles não ignorão que a derramada luz da severa critica, da sagrada Hermeneutica, e das profundas indagações litterarias tem até destruido, e acabado a sua memoria. Além de que, esta crença dos milagres, exceptuando aquelles que estão registrados nas Santas Escrituras, não he entre nós crença divina, nem absoluta, nem sempre igual; he sim huma crença medida sempre pelo maior, ou menor valor da authoridade em que se firma. E á vista disto, quem póde taixar de aviltamento da razão o uso que nós fazemos do bom siso, a respeito dos acontecimentos milagrosos? Tem por ventura a Natureza ensinado aos homens outra regra de dar credito, ou de o negar ás mais estranhas, e inexperadas aventuras, mais que a qualidade, e o numero daquelles, que nos referem, e testemunhão extraordinarios acontecimentos? Dirão por acaso que usa rectamente de sua razão aquelle, que porque hum facto he milagroso, conta em nada a authoridade, a multidão, o caracter, as luzes das suas testemunhas oculares! Usa bem da razão, quem reputa ignorantes os homens mais doutos, os mais agudos, e penetrantes por insensatos, os mais prudentes por superficiaes, e os mais santos, e virtuosos por impostores?... Mas se os milagres são impossiveis, como he possivel que se acreditem? Tambem a vossa razão vos diz que os milagres são impossiveis? Oh entendimentos felizes! E podesteis desde as vossas tenebrosas, e nocturnas cavernas do mysterio, e das vizagens, sobir aos ceos, e tomar huma exacta medida das forças da Divindade, e, considerando, ou a subita vista de hum cégo, ou a ressurreição de hum morto dicidir magistralmente, que não chega a tanto o infinito poder do absoluto Arbitro da Natureza? Eu na verdade, não tenho medido palmo a palmo como vós fizesteis esta Divina Omnipotencia: todavia, parece cousa fóra de razão, que quem impôz as leis á Natureza, se haja elle mesmo feito escravo destas leis, com manifesta injuria de sua essencial, absoluta, e dispotica dominação. Mas se he preciso, oh grandes, oh profundos pensadores, tirar a Deos o poder absoluto de operar milagres, e considerar, e ter quantos se contão, ou de Moysés, ou dos Profetas, ou os de J. C. por outras tantas fabulosas invenções, então he preciso tambem negar todas as historias profanas, nenhuma das quaes tem por si a centesima parte daquellas próvas, que tornam autentica, e indubitavel a Historia Divina.