Chapter 8
--Viajar é a arte de saborear decepções.
--A magia da viagem, tão grande como a do amor, começa no instante do regresso. A do amor chama-se--saúdade, a da viagem--evocação.
--Se na morte tivéssemos consciência--gozaríamos emfim a viagem da vida.
--Um artista numa terra nova tem a sensação de nascer segunda vez.
--As escólas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só matricular-se... e cozinhar.
--Os génios são inclassificáveis: são a promessa falhada de outra espécie.
--A garra do génio é a sinceridade.--Falar _por la bocca de su herida_ é um acto heróico.
--Só são coerentes os factícios.
--Os que se conhecem, são vazios.
--A palavra de honra é uma gazua. Força a credulidade dos ingénuos quando não temos força moral p'ròs convencer.
--A música é o médium do mistério.
--A eternidade é a sensação de _alguns_ instantes...
Às vezes é num grande perigo que a sentimos: certos segundos lúcidos da agonia em que se faz o supremo exame de consciência; antes duma operação grave, quando cada gesto tem um fervor de despedida; nos últimos minutos dum condenado à morte.
Outras vezes, é num grande gôzo que a entrevemos: no espasmo da cópula; na aura do ataque epiléptico (que Dostoïevski diviniza); nos primeiros momentos de admiração por uma obra-prima; na vertigem da criação sub-consciente; e finalmente os místicos, na absorção em Deus, ou, segundo a expressão de Dante, quando «partem do século».
--Uma vez, tomando nas mãos uma cabeça de mulher, disse-lhe baixo, com a vontade perdida nos seus olhos: «Podes fazer de mim o que quiseres».
É isto que eu agora digo à Vida.
--_Testamento dum pobre_--Se eu morrer na primavera, envolvam em feno aromático meu cadaver nu, cubram-me de lilases e de rosas, deixem-me decompor assim--com tantos vermes como borboletas!
Enterrem nos meus olhos de morto já gomosos, pecíolos de rosas de veludo. Não me embalsamem. Que eu seja uma podridão bem petalada!
Ponham-me sob uma árvore florida, p'ra que um vento de cópula passando, sacuda o pólen sôbre o meu cabelo! Depois no roxo outono, morto, o mais feliz dos mortos, cada corvo que vier grasnando--há-de partir de gula o bico curvo contra o meu crânio em que há pétalas murchas...
--O sacrifício é a selecção natural invertida: os fortes servem de degrau aos fracos.
--A incoerência instintiva, absolutamente sincera, tem uma lógica interior--a própria lógica da vida--que os psicólogos profissionais nunca auscultaram. Os personagens de Dostoïevski, por exemplo, ganham tanto mais em unidade e em verdade, quanto mais, p'ra olhos vulgares, se contradizem. Bourget é o psicólogo da coerência...
--O grito de Oswald Alving no último acto dos «Espectros»: «Mãe, dá-me o sol», é o grito que a morte gela em muitas bocas.
--Portugal é um navio naufragado em que a tripulação espera há séculos...
--A arquitectura que eu mais amo é a dos navios.
Os mastros aspiram como agulhas góticas, mas emquanto a catedral se queda em êxtase, as velas seguem entre adágios de asas...
--Adoro o mar. Ando a ensinar ao meu desejo um ritmo de ondas, e à minha dor a arquear de desespero como as vagas--mas a sorrir por fim em pó de espumas.
--A. é um místico (medievalite e hidrofobia), B. vê tudo Wateau (é um requintado...), C. é um grego do tempo de Pericles; eu, tal qual tu me vês, sou um romano...
Quantos homens da Renascença tu conheces!...
O visconde L., por exemplo, é um Medícis...
Como quási ninguêm está nesta época--é bem de ver--quási ninguêm existe. Os que tu vês--são só sobreviventes... almas fósseis...
--Uma estátua mutilada humilha menos a nossa imperfeição: está mais perto de nós, comove mais.
--Conheci um poeta que escreveu a «Imitação do Mar», paralelo á «Imitação de Cristo».
Durante semanas viveu num quarto--só--uma vida de vaga. Encrespou, arqueou num grande esfôrço, foi um côncavo glauco cheio de asas, e explodiu a rir--todo espumante...
Só eu sei que se matou por não poder reviver aquela vida.
--Um livro tem p'rò autor uma outra voz: a do seu sangue a correr pelas palavras.
--O ritmo é o anestésico mais forte.
--O sarcasmo é um soluço que despreza.
--Alguns escritores publicam os retratos nos seus livros. Ignoram, decerto, que a _vera efigie_ de um artista é o estilo.
--Há no fundo do panfletário mais violento, um pobre diabo ingénuo, fascinado, que aspira a _conselheiro_--sem saber...
--Receita p'ra fazer sucesso: condensar a banalidade, dar-lhe êmfase e imprimi-la com maiúsculas...
--Alguns condenam as corridas de toiros e proclamam como uma obrigação--o sacrifício...
--A procurar o sentido da vida, esquece-se muita gente de viver.
--Conheço muita gente que só olha a natureza... emoldurada.
--O processo, em arte, é o _maquillage_ do talento.
--O sucesso faz-se nos jornais:--a glória no silêncio.
--Quando um homem superior é célebre, ou é admirado por defeitos, ou então por qualidades que não tem...
--As metafísicas são a _Belle au bois dormant_ contada em ideas.
--Que frio! Deito ao lume os meus deuses p'ra aquecer... É bom ouvil-os crepitar: lenha divina!
Mas da cinza dos deuses--nascem deuses. Pela janela aberta vejo uma estátua na névoa: o super-homem!
Criar deuses é a mais estranha função da nossa espécie. Nem podemos aspirar as rosas: vivemos asfixiados de divino...
--Já viste uma ave livre--adormecida?... Tem nas asas fechadas todo o ceu. Antes de te deitares, bebe à janela a noite, até caíres...
--A civilização é uma camisa de forças. Há duas maneiras de a rasgar: a arte e o crime.
--A sociedade perfeita é a de Narciso: a própria imagem reflectida numa fonte. É o máximo e o mínimo de convívio.
--A alegria é a pérola dos mergulhadores. Só se descobre com muitas atmosferas de dôr por sôbre os ombros.
--Meditar é viajar através de nós mesmos.
--A lei faz isto: que um homem passe com fome num pomar sem cravar os dentes num só fruto...
--As academias são o _trust_ da glória. Às vezes, são tambêm o asilo...
--P'ra saberes a expressão que teem as rochas, encomenda uma a um escultor. Nenhum ta poderá executar. São mil máscaras fundidas numa máscara.
--A melhor maneira de admirar um escritor é viver segundo o ritmo da sua obra.
--Viver é adorar com o corpo todo. A suprema oração é o desejo, a linguagem--a arte, que é o esfôrço heróico p'rà Beleza.
--Morte! És p'ra mim o sal da vida...
O teu silêncio grita:--andem depressa! Deita mais lenha na ambição, ambicioso; decifrador de enigmas, parte a esfinge; corpo a corpo, amorosos, sonho em sonho; e tu, maníaco de teorias, bom filósofo, coze depressa o teu sistema--anda depressa!...
O teu silêncio excita como uma dança de baiaderas: dá vertigem...
P'ra exasperar em nós a sagrada loucura de viver, para que os homens não percam um instante--ergam-te estátuas nos jardins, nas praças, na cimalha das academias e dos templos, Musagéta da Vida, grande Morte, com a lira de Apolo e olhos vazios...
--O que é o mar para o meu corpo, é a dôr para a minha alma.
--A solidão, _beata solitudo_, é o palácio encantado dos espelhos. Ó alma, corre as tuas galerias. Myríades de retratos, de obras-primas, no dédalo dos corredores, nas salas lúcidas, echoando em reflexos, irisando-se, como a palavra de Deus de estrela em estrela. É o teu povo; és tu, alma: és tu mesma.
--O tacto da alma é a evocação.
--Outono: idílio da Natureza com a Morte.
--O amor é o génio do desejo: um instinto espiritualisado.
--A arte é uma espécie de alchimia: mesmo do crime, extrai o oiro mais puro.
[1] Nietzsche.
[2] C. F., meu ex-condiscípulo, despediu-se de mim para casar, como outros se despedem para morrer. Casou depois de ter vivido intensamente,--como outros se fazem morfinomanos ou alcoólicos: p'ra anular a sua inquietação, a sua febre, na sedativa estupidez da vida séria. Sentia-se sem saúde e sem coragem, quer p'ra viver a vida com nobreza, quer p'ra ir ao encontro ao seu outono, morrendo a tempo--como manda o meu filósofo. Foi há três anos. Nunca mais nos vimos. Soube depois, por os jornais, que é deputado e, o que é melhor... ou pior, que vai ser par. Não sei se o meu amigo conseguiu a paz no anulamento, ou se é o actor duma comédia lúgubre--mascarando de banalidade o seu espírito. Deixou-me à hora da morte (à hora da vida social, da vida _séria_) os seus cadernos de notas--e uma obra de humorismo lírico, de ironia comovida e filosófica:--_A Metafísica de uma borboleta._--Estas notas, que transcrevo de um dos seus cadernos, de entre as que não ferem sensivelmente a moral pública, são talvez--os senhores dirão--curiosas.
Índice
PAG.
Diálogo com uma águia 9
O precoce 47
O homem das fontes 77
Suze 119
O Veiga 155
Words 201
ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO A QUINZE DE JUNHO DE MIL NOVECENTOS E VINTE NA IMPRENSA DA EMPRÊSA DO «DIARIO DE NOTICIAS» PARA AS LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND
ERRATA
A pag. 2, onde se lê: «Colhecem lá o amor etc.», deve lêr-se: «Conhecem lá o amor etc.»
A pag. 73, onde se lê: «... ressuscitava em gramas sonolontas.», deve lêr-se: «... ressuscitava em gamas sonolentas.»
A pag. 86, onde se lê: «Aludimos os», deve lêr-se: «Aludimos aos».
A pag. 93, onde se lê: «Com miss Foutain», deve lêr-se: «Com Miss Fountain».
A pag. 161, onde se lê: «Vivia com a mãe e sem mais parentes.», deve lêr-se: Vivia com a mãe sem mais parentes.»
End of Project Gutenberg's Serão inquieto : contos, by Patrício António