Chapter 7
--Sim, sim, meu filho, tu és bom. Deus trouxe-te outra vez. Pedi-lho muito. Eram as más companhias... os malvados... Por pouco te matavam, meu filhinho. Matavam-nos a ambos, Manoel. A tua mãe já não podia mais. E tu... e tu... estás tão magrinho!...
--Hoje começa vida nova. Não se aflija. Hei-de ser forte outra vez, vou trabalhar...
Interrompeu-se de repente, como se uma ideia de terror viesse gelá-lo. A mãe, sem compreender, continuava:
--Trabalhar... ora ahi está, é o que é preciso. Foi por isso que te esperei deitada à porta, com mêdo que entrasses e saísses sem te eu ver--como nos últimos dias sucedera... E eu, pobre de mim, que tinha medo, não sabia como to havia de dizer!... E afinal tu mesmo o reconheces. Louvado Deus! Tudo é pelo melhor. Ora vê tu--mas que cabeça a minha!--pus-me p'raqui a falar e nem to disse... Esta tarde, o senhor Sousa esteve cá...
--Quem?
--O snr. Sousa escrivão... êle... o teu chefe.
--Ah! disse o Veiga e pôs-se cor de cal.
A mãe, sem reparar, dizia sempre:
--Devo-lhe muito, é muito nosso amigo. Que outro no seu lugar--tu bem o sabes--tinha-te posto fora do emprêgo. Mas êle não. Só quer que tu te emendes. Diz que te espera hoje sem falta, às dez em ponto. Verás, Manoel, tudo se arranja bem...
Êle olhava-a com os beiços a tremer:
--Estás contente com isto? An! Manoel?...
--Não, minha mãe, não volto ao tribunal. Não posso mais... não posso mais lá ir...
--Ora essa, meu filho, tu que dizes?!...
--Não, minha mãe, não posso mais lá ir...
Por mais que perguntasse, que insistisse, sempre a mesma resposta em voz sumida, como a última decisão de um agonisante:
--Não posso... não posso... É-me impossível
E de repente, chegando-se p'ra ela como um petiz com terror, pôs-se a dizer baixinho:
--Quem sabe se não é uma cilada... O Sousa quere-me lá p'ra me prender... Sabe que sou um anarquista... quere vingar-se...
Continuou neste tom ainda algum tempo. Ouvindo-o sem poder interrompê-lo, com o coração a desfazer-lhe o peito, a mãe era forçada a perceber que aquele desgraçado que ali tinha, guardado nos seus braços outra vez, precisava mais de si que em pequenino, porque Deus lhe tirara o entendimento.
Quando êle lhe contava as suas noites, como na rua a polícia o perseguia, o que havia na nèvoa, a certas horas,--interrompeu-se bruscamente e ainda mais baixo, transido de pavor, colado a ela, pediu-lhe que fôsse ver ao patamar... tinha ouvido passos... era alguêm... Para o tranquilizar, ela fechou a porta à chave, com os olhos rasos, a conter-se, e pôs-se então a ver se o adormecia.
--O que precisas, Manoel, é de dormir, tens mesmo os teus olhos a fechar-se...
Êle não queria dormir. Era impossível. Podia vir o Sousa... alguêm prendê-lo... Só se ela ficasse ao lado, de vigia.
--Eu fico, eu fico ao pé de ti. Sossega. Despiu-o então como em pequeno. Tirava-lhe a roupa devagar, ia-o beijando com meiguice, em despedida: e deitou-o por fim sem resistência, como se fôsse uma criança sonolenta. Aconchegou-lhe o cobertor bem contra os hombros--tão magrinho, Senhor, um esqueleto!--e à beira da cama, de joelhos, sentindo-o adormecer, ia dizendo:
--Dorme, meu filho. Dorme... dorme... dorme...
Quando o sentiu adormecido, ergueu-se.
--E agora?!... perguntou no quarto escuro. O filho doido... a morte em tôrno dela... e ninguêm, ninguêm que lhe valesse...
Lá fora a manhã subia, com pregões. Mas neste quarto, para a pobre velha, o silêncio era doloroso como um uivo.
Meses depois, encontrei-o uma manhã em Nevogilde, sob um grande castanheiro a desfolhar-se.
Intrigou-me ver o Veiga em pleno campo, saturando-se de outono e solidão. Que podia fazer ali aquele idiota?
Mas quando me aproximei e o vi de perto, espantou-me a mudança que fizera. Era outro: era um pedinte louco, de olhos meigos...
Parei a olhá-lo. Êle cumprimentou-me com maneiras untuosas de prelado... E ficou a sorrir, chapéu na mão, como à espera de que eu fôsse falar-lhe.
--Linda manhã, senhor Veiga, não é verdade?
--Diz Vossa Excelência muito bem... Está linda.
--Então mora por aqui--por Nevogilde?
--Não, senhor... Eu não tenho casa. Gosto disto... aqui. Ha campo e mar...
--Não tem casa!... Desculpe esta pergunta: e onde dorme o senhor?...
Esteve um pedaço a fitar-me, olhos em olhos. Depois--em confidência misteriosa:
--A Vossa Excelência sempre o digo. Eu nunca durmo...
--An?!...
--Eu nunca durmo. Não tenho tempo p'ra dormir. Quero viver! viver!... Não posso perder nem uma manhã nem uma noite. A gente sabe lá quando tem de deixar isto... Sabe-o Deus! Eu já perdi muito. Tenho remorsos. Quando penso nisso... tenho remorsos... Quando eu era empregado, passava dias inteiros sem olhar p'rò céu. Só via gente e ruas... E as noites... tambêm as perdia. Ia p'ròs teatros, p'ròs cafés. Foi só depois--quando morreu a minha mãe--que eu compreendi que ia mal... e resolvi viver. Passei dias de desespero, a pensar que não gostei dela como devia... que a não acarinhei... que a deixei ficar sozinha muitas vezes... Ia dando comigo em doido. Depois lembrei-me--que o que me sucedeu com a minha mãe me podia suceder com a vida toda. E mudei de rumo... Deixei o emprêgo. Fiquei assim... pus-me a viver. Agora, se adormeço num banco uma hora ou duas, zango-me comigo...
Por muito tempo, em palavras de gago, bipartidas, sussurou as razões da sua vida, a sua exegese moral de vagabundo, a sua felicidade e... os seus recursos.
Tinha amigos, pessoas que o conheceram noutro tempo, _antes de êle saber o que era a vida_... E quando precisava de dinheiro (êle afinal de pouco precisava: nutria-se de frutos e de pão) era muito raro recusarem-lho: só se de todo em todo não podiam.
Notou que eu lhe fixava a andaina rôta e sorriu com meiguice desdenhosa:
--Ando assim... todo rôto. Que me importa! E podia andar bem... isso podia. Muitas pessoas me teem dado roupa. Até fatos inteiros... e em bom uso. Pode V. Ex.ª acreditar. Mas às vezes, de noite, pelas ruas, vêem ter comigo às escondidas da polícia, desgraçados com fome... todos rotos... E por boas maneiras ou à fôrça, tenho de trocar a minha roupa pela dêles...
--Imaginam, coitados, que me roubam... Que pode isso fazer-me!... Que me importa!...
Teve uma expressão de piedade em tôda a máscara, e gaguejou com outra voz, comovidíssimo:
--Tenho tanta pena dêles... tanta... tanta... de todos os que foram como eu.... No fundo... é mais triste que a fome e que a miséria... ver como andam na vida _sem viver_... V. Ex.ª perdoe o que eu lhe digo...
Assim, nessa manhã de outono, eu conheci um outro Veiga--o que me interessa.
Perguntei-lhe, almofadando a oferta, se precisava algum dinheiro. Recusou. Tinha já almoçado há algumas horas... Mas como eu insistia, tirou do bolso uma mãocheia de migalhas, e mostrou-mas como um último argumento:
--Ficou-me ainda isto... pr'òs pardais...
Depois, com um gesto lento, precioso, em que as taras do amador dramático automaticamente se traíam, tirou do outro bolso muitas pétalas, e ofereceu-me algumas:
--Faz... favor. São de uma roseira que o vento desfolhou...
Ficou curvado a aspirá-las uns segundos:
--Certas manhãs de outono... os perfumes dão vontade de chorar...
Datam daqui as nossas relações. Cultivo nele com estima, com ternura, o único panteísta que eu conheço. E tal qual o vêem pelas ruas, êste pobre mendigo alienado anda «bêbedo de Deus», como Spinosa.
Encontrei-o ontem à noite: conversámos. E as poucas palavras que me disse, cravaram garra em mim: não as esqueço. Êle anda agora esquelético, a cair: o seu boemianismo panteísta tomou uma forma aguda, convulsiva: é uma espécie de delírio ambulatório.
Como eu aludia ao seu cansaço, pedindo-lhe que não andasse dia e noite nessa lufa em que agora o via sempre, êle, que era mais meigo de que um cão, deitou-me bruscamente as mãos aos braços, e com uma indizível voz de raiva e súplica:
--Por o amor de Deus... não diga isso! Olhe que eu não duro muito. Eu sei... eu sei... E tenho fome... fome de adorar... Eu quero como a um filho, à terra tôda...
E falou-me das árvores, do mar.
Disse-me que queria acompanhar a Noite, sem perder um segundo, um só segundo, caminhando com ela, caminhando;--e logo, logo ao despedir-se dela, abrir bem os seus olhos, bem abertos, ao primeiro araiar da madrugada... E seguir depois o sol até à morte, ele e a sua sombra que era triste--como se fôsse já uma saudade...
Era num jardim público, deserto. Caíam dos plátanos fôlhas sêcas... Êle baixou-se, apanhou algumas com cuidado, como se fossem borboletas estonteadas...
--Veja V. Ex.ª veja... Como estão encarquilhadas... tão sequinhas! A minha hora chegou como a hora delas...
E como o vento as fazia redemoinhar, estremeceu e disse bruscamente:
--Passe Vossa Excelêcia muito bem... Queira perdoar... Não posso perder tempo...
E o amante da terra o meu pedinte; não tem tempo p'rá amar, por isso sofre; sente que ela lhe foge a cada instante, e não quer adormecer p'rà sentir sempre, contra o seu corpo de fantoche mártir, com sobrecasacas doutros, fraques doutros, por cujos rasgões entra o sol ao luzir dalva, até que a noite por sua vez se engolfe neles, correndo-lhe a carne de miséria, sensitiva, e amando-o sem nojo horas e horas...
A Morte, quando vier, vai comover-se, ouvindo-lhe na gaguez frémitos de asas, vendo-lhe abrir os braços de esqueleto como p'ra agasalhar a vida tôda, e oferecer-lhe nas mãos roxas e ósseas--pétalas murchas e folhagens sêcas...
Não pode durar muito: é impossível.
Mas nas pedras da rua onde morrer, terá em torno dêle a despedir-se, o Mar, as Árvores, a Aurora, tôda a vida da terra--sua amante...
Apercebia com uma acuidade visionária a orquestração da noite, dita em surdina nas janelas, nas folhagens, e decompunha essa penumbra de ruídos, complexíssima, a que chamamos vulgarmente as «horas mortas».
Quási madrugada, em Dezembro, recolhia eu estugando o passo, porque fazia uma névoa frigidíssima, quando o cruzei numa ruela íngreme. Levei a mão ao chapéu e fui andando, mas instantes depois êle atracou-me, a tiritar de frio, soleníssimo, o côco erguido e o busto em reverência. Era ainda polidez, diplomacia:
--Desculpe V. Ex.ª Teve agora a bondade de saudar-me e eu não pude corresponder... Só depois me voltei e o conheci. É que eu ia distraído, a trautear...
--Nada mais natural, senhor Veiga, nada mais natural...
E p'rò não despedir com brusqueria, fiz-lhe ainda esta pergunta estúpida:
--E que trauteava o senhor com êste frio?
Fixou-me. Depois com um gesto curvo, muito vago:
--Isto... o silêncio... a névoa...
Sem frauta rústica, pobre fauno de quico e butes rotos, o Veiga não imitava, como colegas seus de longes tempos, quando a Terra era ainda uma criança, o rumor claro das levadas rindo espuma, mas apenas o esgarçar dolorosíssimo de uma névoa mendiga de dezembro, que o vento ia rasgando aos empuxões, nos beirais dos telhados, nas esquinas, esquecida talvez de que foi mar ou o chôro das nuvens vagabundas...
E lá foi sob a grisalha a desfazer-se, ouvindo música inédita p'ra todos, êsse mísero fauno arripiado que eu vi uma só vez com uma ninfa...
Foi à beira do rio, em Massarellos. Como era tarde e não havia eléctrico, eu ia a pé p'rà Foz, na noite calma.
No cais, sentado em toros de pinheiro,--madeira para embarque, certamente--havia um par em idílio, muito unido, onde fui descobrir com grande espanto, a silhueta cómica do Veiga.
Por trás, junto a uma faia sonolenta, detive-me um instante a escutar. Era o Veiga que falava à creatura, na sua voz gaguejada e um pouco emfática, em que eu sentia o ex-amador dramático sob uma névoa de lágrimas molhando-a:
--Não se aflija. Eu tenho relações. Ha-de tornar a entrar p'rà fábrica, descanse. De que serve chorar?... Torna a entrar, torna a entrar, digo-lho eu.
E uma voz de timbre fino, adolescente, respondia num chôro sem esperança:
--Não me querem lá mais. Que hei-de eu fazer?...
--Qual não querem! Olha a grande coisa! Mas porque foi que andaram à pancada?
A outra voz choramingava, aos haustos:
--Eu andava na descarga do carvão... Nunca chegávamos à barca ao mesmo tempo. Quando eu trazia o cêsto carregado, voltava ela sempre de o largar... e dava-me encontrões e más palavras. Eu calava-me, mas já não podia mais. Tudo isto, já se vê, por causa dum rapaz que é da Afurada e anda a passar o povo p'rá outra banda. Hoje deu-me um encontrão com tanta força, que me voltou o cesto na cabeça e chamou-me... ainda por cima. Foi então que me atirei a ela como cega--que até lhe cuspi de raiva no cabelo... Depois o inspector veio e poz-me fora. E agora... agora...
Desatou a chorar de encontro ao Veiga. Corria um leste morno de carícia, e êle passando-lhe as mãos magras na cabeça, gaguejava consolações, mui comovido:
--Não chore, não chore, torna a entrar. E há-de voltar p'ra casa ainda esta noite... Eu mesmo vou acompanhá-la... Não tenho nada que fazer. Não me faz monta... Eu falo à sua mãe, conto-lhe tudo. Já ela lhe não bate... então... não vê? Depois volta p'rà fábrica, verá. Eu tenho relações, trato-lhe disso. Amanhã pela manhã...
Não ouvi mais. Nem um sôpro de desejo nessa arenga: apenas o amor por um ser vivo, a ânsia de o erguer que êle teria, vendo um caule partido num caminho ou uma rosa ao abandono, a desfolhar-se.
É que os nervos do Veiga, como os de certos artistas que teem génio, vibravam de amor egual por tôda a Vida, e sentiam nas rosas e na névoa, nas crianças e nos pobres e nas almas, a mesma ância inconsciente de Unidade, o mesmo erguer de mãos para a Beleza.
Vi-o depois na Cordoaria uma manhã de inverno, sob o tufo scismático dos cedros, grisalhos de névoa e de geada.
Debatia-se com grandes gestos aflitos, entre um grupo de garotos que gritavam. Trazia um frak imenso, parecendo ter sido acastanhado, côco preto que a grenha intonsa levantava, e na cara chorinca e acriançada, davam-lhe os olhos rasos, mais que nunca, um ar de melodrama pífio, um cómico angustioso de careta.
Não me sentiu aproximar. Ouvi-lhe a arenga gaguejada: compreendi.
Um dos garotos apanhara, fisgando-o à pedra, um pobre pássaro que outro tinha nas mãos agonizante. O Veiga que passeava, interviera, e entre insultos e risadas, reclamava com palavras patéticas, o pássaro--_para que o não matassem._
--Se o quer, dê-me um vintém por êle, dizia brusco um dos pequenos.
--Quem?! Olha o peneira! gritava outro às gargalhadas.
Dei o vintém, mandei que lho entregassem.
Foi ao ouvir-me a voz que se voltou. Riam-lhe as lágrimas nos olhos. Tirou-me o côco, curvado em reverência. Depois, como o garoto lhe entregava o passarito, recebeu-o com carícia no côncavo das mãos arroxeadas, e hirto, solene, sacerdotal, veio entregar-mo, erguendo muito os braços, como se levasse uma píxide sacrosanta.
--É... é de Vossa Excelência... Muito... muito obrigado...
E sem que eu tivesse tempo p'ra fugir-lhe, beijou-me as mãos e deu-mo ensanguentado.
Encontrei-o muitas vezes de passagem: de manhã, de noite, a tôda a hora.
Às vezes, esquecia-se a olhar muros de quinta, quando caem braçadas de glicínias, e era dêstes p'ra quem o musgo núma pedra é um afago de veludo que comove.
Uma noite, vi-o sair com um embrulho de um bazar. Vinha radiante. Viu-me, flectiu em parábola numa vénia, e foi andando.
Cruzei-o horas depois ao vir do teatro. Seguiu-me. Vi que queria falar-me e esperei-o numa esquina, a acender um cigarro. Abordou-me com o cerimonial de mandarim que êle usa sempre. Supus que ia pedir dinheiro. Mas não: era outra coisa.
--V. Ex.ª desculpe... Está frio e eu venho demorá-lo. Vem decerto do S. João... é só um instante. É que eu devo uma satisfação a V. Ex.ª. Viu-me hoje sair do _Bazar dos tres vintens_, não é verdade? Decerto imaginou que eu fui lá comprar p'ra mim alguma coisa... Não fui: quero contar-lhe...
--Ó senhor Veiga, que idea! Nem pensei nisso.
--V. Ex.ª consente? Eu vou dizer. Fui lá comprar uma boneca p'rà Mariinha... Perdão. V. Ex.ª não sabe quem ela é. É a filhita duma pobre que eu conheço... Tem cinco anos... É um amor de pequenina. Sou muito amigo dela. Até me chama padrinho... A mãe ensinou-lhe. Já V. Ex.ª vê... Era p'ra ela...
--Não era preciso dizer, eu nem notei...
--Era o meu dever. Pela consideração que V. Ex.ª me merece. Queira V. Ex.ª perdoar. Não o importuno mais. Está fria... está muito fria a noite!
Ainda uma reverência e lá partiu.
Estranho Veiga! Como se desentranhou êste ser de hoje, do grotesco banal que eu conheci?
Como dêsse reles títere, amoroso sovado, trapo humano, ex-amador dramático e ex-poetrasto, saiu o panteísta vagabundo, o louco duma misericórdia tão sentida, que eu vi salvar com os olhos rasos um pobre passarito moribundo?...
A pobre velha, morrendo, _iniciou-o_. Nasceu da sua dor segunda vez...
Uma manhã, em Carreiros, junto à praia, depois das cortesias do costume, pediu-me uns cobres para ir almoçar. E quando eu ia já a despedir-me, reteve-me com um gesto, e gaguejou esta oferta, muito lento:
--Peço licença... p'ra uma pequena lembrança a V. Ex.ª Mas antes prometa-me que a aceita... É uma insignificância, mas cuido que V. Ex.ª a estimará...
Prometi.
Enfiou solene a mão ossuda no bolso da sobrecasaca coçadíssima, que vestia sem camisa, contra a pele, e tirou com infinitas precauções, um asterídeo ainda húmido, perfeito.
--Como sei que V. Ex.ª gosta do mar, pensei em dar-lha. É uma estrela do mar... Perdoe o atrevimento...
E partiu quando eu lha agradeci, com os olhos loucos rasos de alegria.
Nunca, porém, me feriu tão fundamente o seu amor de louco à Natureza, como nessa madrugada em que eu o vi numa rua afastada de arrabalde.
Fazia já um calor asfixiante. Estava em cabelo junto a um muro de quintal, revestido de rosas de toucar, madre-silvas em flôr e clematites.
Todo em gestos litúrgicos, mui lentos, punha rosas a abrir na grenha imunda, perfumava as mãos com madre-silvas, e passava-as nas fontes, extasiado.
De quando em quando descaía os braços, descansava assim alguns instantes, e na cara sugada, pele e osso, os olhos puros riam, muito calmos, numa beatitude transcendente.
Havia já um grupo em torno dêle, de leiteiras que vinham p'rà cidade, de moços de lavoura que estacavam. Olhavam-no a rir perdidamente.
Eu pensava em Ophélia, no Rei Lear, nas loucuras patéticas de Shakespeare, ao ver êsse alienado vagabundo, êsse estranho pedinte de olhos meigos, que trazia só pétalas nos bolsos, e em plena luz polínica de estio, oficiava a Pan, de butes rotos, aspirando perfumes voluptuado...
WORDS...
Words...
(DUM CADERNO DE NOTAS DE C. F.)[2]
--Ao morrer, cada um de nós deve dizer à Morte: «Deixe-me estar ainda um bocadinho. Esquecia-me por completo de viver...»
--Xerxes chicoteou o Helesponto. Quando nós nos queixamos do Destino, somos tão pueris como êsse rei.
--A dôr deve ser como um amante--que nos faz sofrer e em quem batemos.
--Nietzsche definiu a glória «a falta de pudor na admiração». No meu país, é a falta de pudor na incompreensão.
--No silêncio, nascem em nós sentidos: os sentidos p'rà vida do mistério...
--Obsessão a brocar um moribundo:
«Nunca olhei, _sem outra idéa_, para o sol...
--Só a verdade é inverosimil.
--A amizade é uma hipótese divina que só os grosseiros cuidam ter vivido.
--Avaliamos quási sempre os outros pelas opiniões que teem de nós. É por isso que conhecemos menos--aqueles que mais julgam conhecer-nos.
--Os artistas procuram no amor, além da satisfação do instincto, a glória,--na admiração de mãos postas da mulher. Compensa-os de não terem público, e só tarde percebem--que quanto mais beijados... mais inéditos.
--É preciso ser feliz em família p'ra compreender a volúpia de estar só.
--Porque é que os ciprestes entristecem?... Porque, p'ra nós, são um soluço alongado e verde-escuro. É bem possível que êles sejam muito alegres... É por motivos dêstes que muitas coisas nos parecem tristes.
--Alguns dizem: publicar um livro é prostituir-se. Pedantes! O mar recebe nêle os vossos corpos...
--Quem mais injustamente julga um crime? Primeiro o criminoso, que estava _fora de si_, que já não sabe; depois os julgadores oficiais--que estão _fóra de si_ profissionalmente.
--_Aut César aut nihil._ Podes ser um mendigo e ter na tua vida interior êste brazão.
--Sou por tal fórma talhado para amar--que o meu amor cresce com o meu desprêso.
--A maior parte da gente é _honesta_--em virtude da lei do menor esfôrço.
--Há um instante na vida em que cada um de nós se julga um deus: com uma doutrina a revelar, um calvário nos longes e um profeta...
--Quando depois de lamentar alguêm o vemos salvo, sentimo-nos _roubados_.
--A arte é o refúgio dos que não podem viver integralmente. E muitas vezes tambêm, uma vingança.
--A mentira e o dever são irmãos gémeos.
Quando naturalmente, por instinto, nós fugimos ao código e à moral, ela apareceu-nos, máscara doirada, para esconder a responsabilidade. Mas há outra, a mentira criadora, que é a asa do Sonho e da Beleza. Os filósofos chamam-lhe:--_Verdade_...
--Umas mãos, um gesto de mulher, um perfume de flôr, ou um velho estofo, consolam bem melhor que Marco Aurélio...
--As mulheres não falam só ao nosso instinto. Falam mais: sem se ouvirem, sem saberem... São quási sempre vazias ou banais. Mas para alêm da frivolidade e do desejo, são verdadeiras fontes de inconsciente. Numas pálpebras descidas, num olhar, no misterioso de milhares de _nadas_, há sonhos e sonhos revelados, a expressão do _irredutível a palavras_.
Elas são na sua vida interior, como crianças a assistir a uma tragédia... Soube lá nunca a Mona Lisa que tinha tudo o que Vinci copiou!...
--Um perfume na sombra tem uma voz de aparição.
--A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quási sempre.
--A humildade corresponde no homem ao mimetismo dos insectos.
--Certas preferências--que nem o raciocínio nem a estesia explicam--despertam em nós sensações de vidas anteriores: um certo perfume, uma paisagem p'ra outros sem encanto, certa feia, uns versos medíocres, um acorde banal...
--Recusei ontem uma apresentação a um «homem de princípios». P'ra quê? Um «homem de princípios» é um homem conhecido: está impresso.
--_Música do mar_--Aquele violinista meu amigo foi viver, por conselho meu, p'rà beira mar. Ia com uma grande febre de compor. Levava um quarteto inacabado, um esbôço de sinfonia, outros projectos... Encontrei-o na praia ontem à noite.--Então... êsse quarteto? a sinfonia?...--Nem quarteto... nem sinfonia... nem violino... Eu já não faço música. Pus-me a ouvir a do mar bem simplesmente.
--A moral é um lastro. Deita-se fora p'ra subir...
--Todos dizem adeus com o mesmo gesto. E êsse gesto é o das asas... Subir é ficar só.
--Quando duas criaturas se amam, não pensam um instante em compreender-se. Uma vaga de inconsciente submergiu-as. Só mais tarde, morto o desejo, se reconhecem com espanto, dois estranhos.
Dizem com desespero: «Um de nós mudou. Já não somos os mesmos».
--De uma maneira geral, temos mais pontos de contacto com os nossos inimigos do que com os nossos amigos.
Amar uma mulher, querer conseguir o mesmo fim, são causas de ódio.
--O nosso inimigo é o nosso cúmplice.
--Os programas de governo estão para a política, como os dogmas para as religiões. Nem os primeiros interessam os partidários, nem os segundos os crentes.
--A liturgia obliterou-se, é de uma teatralidade já sem símbolo. Corresponde à retórica--ou arte de hipnotizar imbecis com gestos e palavras em que se sacrifica à idea ausente.
--Não há esculturas como as nuvens.
--Os homens que construem um sistema, fazem a própria jaula em que se fecham.
--A grande indústria humana--a específica--é a fabricação de deuses.
--P'ra viver puro é preciso durar como as espumas: um instante.
--A tragédia de D. João está no supremo poder de seduzir, de que êle próprio foi a maior vítima. Em nenhum amor matou a sêde.
De mulher em mulher, como outros de idea em idea, êle era, essencialmente, um homem _bêbedo de Deus_, como Spinosa.
--Um perfume é uma confidência: é tambêm o olhar das flôres, e, segundo Hello, o seu estilo.