Serão inquieto : contos

Chapter 6

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Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza imensa, a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e juro--que em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flôr com orvalho me ungiu assim de sonho, me fêz assim vibrar no impossível dum amor perfeito.

Levantámo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu ri, eu ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que auscultei contra o teu peito--o impossível de um sonho sempre erguido!...

Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti--na tua morte, Suze!--eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei um ar gelado, irónico, impossível, quando queria chorar perdidamente, quando queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um medo horrivel de que os outros me vissem, porque p'ra êles é uma torpeza amar-te assim...

Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. P'ra todos os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos p'ra um crime assim: não tem remissão: é imoral e é grotesco.

É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize o seu olhar de chama, p'ra eu poder dizer como te amava, como te amo.

Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.

Tôda a vida morreu p'ra mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar que eu amei tanto, não me importa.

A vida agora é êste horror: uma sala de _morgue_, mesas ovais de mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre êles, Suze, o teu cadáver.

Como irás tu p'rà cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho, mercenárias.

Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver transe, empedra de martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam pentear; deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro, de uma sêda mais pura, mais de infância...

Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...) sapatos de verniz, ponteagudos... fivelas de oiro... meias de sêda nos teus artelhos finos de cegonha.

Cruzaram-te de certo as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e amarelas, outonais, dizem ainda: «é um _detalhe_ apenas, um _detalhe_...»

E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...

Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to àpressa, sem cuidado. Se te tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava assim mais socegado.

É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quási dia, minha Suze.

Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A minha febre aquece-tas: verás...

Não te descerro as pálpebras. P'ra quê? Está ainda escuro.

Tens saudades do sol, minha pobrinha?... A última vez, quando almoçámos na praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias morrer... Todo o teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguêm.

Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa, simplesmente. Disseste como sempre: _é um detalhe..._

Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto que a tua graça vá dourar uma saudade.

Ninguêm irá ao teu enterro, e ainda bem!

Por tua causa, ninguêm se irritará jantando à pressa; ninguêm irá, de sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.

Não terás latim grunhido por um clérigo, nem essa coisa triste e tão grotesca--um círio laico em ar solemne, com fungagá e arenga humanitária.

Vais p'rà cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos homens, vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és discreta, minha Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.

Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas nuvens, nos _maquereaux_, nas pupilas das jóias, nos crepúsculos...

Ensinaste-me o desprêso sem palavras, a dor sem confidência, feita orgulho. Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.

Quem mas dera guardar p'ra sempre, em mármore; suspendê-las como um _ex-voto_ à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando eternamente sôbre a vida, o perdão dos que a entendem:--o desprêzo.

... Oiço horas. Uma, duas... oito. Oito horas! Se eu pudesse dormir!

E agora mesmo, ao enfiar-me na cama extenuado, eu oiço a voz da Suze, voz de sêda que range, a segredar-me:

--_Mon pauvre ami! Quoi?! Qu'est-ce qui t'attriste? Ma mort?... Mais, tu sais, ça c'est un detail._

Sim, um _detalhe_... como tudo, terminando no mármore frio de uma _morgue_, ou a uma esquina de rua banalmente. Como tudo.

O VEIGA

A Ramiro Mourão.

O VEIGA

É o tipo mais estranho que eu conheço. Que anos terá? Deve ter trinta ou mais. Magríssimo, êsse lúgubre cabide que é o seu corpo, traz enfiadas roupas de outros, muito largas: sobrecasacas, fraks, vestes ricas, esverdeando, já em plena decomposição, e mais vexadas nesse esqueleto curvo de pedinte que numa loja de adelo ou num palhaço.

Decerto o conhecem. Decerto já, cerimonioso e gago, lhes pediu esmola. É um pobre diabo e é doido: o Veiga.

Caricatura das ruas, conselheiral e poética, encontro-o sempre com vagar e ritmo, num abandono corcova de vadio, que daria dandismo a um diplomata.

Pois bem: é só mendigo. Mas não como nós todos, a uma esquina de rua ou a uma porta banal de ministério, a pedir emprêgo ou noiva rica, dez reis ou participação num monopólio. Não é assim: é outro género, é paradoxal, é único!

Pede para comer, mas não come como nós todos: por comer. É p'ra viver a Vida, a Vida toda! Esperem um instantinho: é extraordinário.

Deixem-me antes contar-lhes como êle era.

O Veiga, quando eu dei por êle, era empregado num cartório. Às dez, todas as manhãs, enfiava com unção manga de alpaca. Assim ficava até às três, todo curvado, cumprindo religiosamente, riscando o papel selado com uma letra estilada e redondinha, tão correcta e tão banal que faria o desespêro de um grafólogo.

Tipo neutro, _nem vou lá, nem faço minga_, gozava em todo o tribunal uma simpatia benevolente e desdenhosa. O escrivão, os colegas diziam dêle: é um pobre diabo.

Era bem um pobre diabo.

Sofriam os seus nervos destrambilhados com o drama quotidiano do tribunal, êsse espectáculo de miséria em carne viva, explorada pelos outros que viam nela a melhor posta, extra-oficial e lucrativa, o verdadeiro emprêgo.

O Veiga, coitado, não explorava: sofria. Às vezes, copiando interrogatórios, mandados de captura ou de penhora, tinha os olhos rasos, e umas rovoltas frustes de nervoso crispavam-lhe as mãos magras na caneta, perturbando em trémulos sem arte o seu lindo e banalíssimo cursivo.

Em muitas dessas prosas rígidas, onde se amortalha em formulas destinos, ia o gráfico da sua emoção romantisada, o patético mapa dos seus nervos.

No cartório, melhor do que nos livros, sem gangas literárias, sem imagens, o Veiga ouviu a maré rouca da desgraça: a sua caneta atenta correu-lhe os sete círculos fatídicos; soube-a de cor, como um folhetim vivo, gritado aos seus ouvidos, que êle recolhia em papel selado a 20$000 réis por mês.

Naquelas laudas oficiais folheava a vida social como num índice; lia como numa partitura, tôda a harmonia humana. E que harmonia, Santo Deus!

Tinha vontade de fugir, de tapar os ouvidos, de se meter sòzinho num buraco. Ali roçou, mais encolhido, aspirações, quimeras ulceradas. Como era um fraco, de uma nervosidade romanesca, sentiu terror: tinha vontade de chorar. Não embotava como os outros num cinismo comodista: cada vez destrambilhava mais.

Claro que não podia ter amigos: era ridículo, era diferente, era um sòzinho. Riam-se dêle com benevolência, estendiam-lhe a mão com um ar de obséquio.

Quando se afastava de algum grupo, sob as arcadas conventuais do tribunal, ia aflito, a querer sumir-se, com vontade de morrer, pois bem sabia que se riam dêle, das palhetas desafinadas, da gaguez.

Vivia com a mãe e sem mais parentes. Mal chegava a casa, ia esquecer, queimar no braseiro interior essas misérias, e com a luz de tão má lenha, fazia nimbos p'ro seu sonho.

Com que sonhava êle? Com o Amor.

Vira-o nu, reduzido a autos; ouviu-o debater-se bem imundo na camisa-de-fôrças que é a Lei; acotovelou-o no cartório, em todas as formas, da prostituta de viela ao adultério rico; e assim mesmo, persistiu em amar imbecilmente, convencido,--o desgraçado! de não sei que sarcástico destino que o talhara p'ra amoroso, com uma carcassa humilhante de fantoche.

Amou.

Era uma loira muito chromo, filha da loja de miudezas lá da rua. Escreveu-lhe em insónias de delírio, cartas imensas em papel azul. Chamou-lhe tudo e ela respondeu-lhe. Durante umas semanas viu cor de oiro, andava estonteado, como em sonho, suspenso dos fios dessa trança, pairando à altura de um terceiro andar.

E mesmo na saleta do cartório, se o deixavam só alguns instantes, fechava como os misticos os olhos, para forrar as pálpebras com ela, sussurando baixinho devoções.

Que lhe importava agora o tribunal, essa tragédia amorfa, sem estilo, tantas palavras que condensam dramas e que êle por ofício, copiava! Escrevia a pensar nela, envolto em vago, como numa nebulosa redentora, e já não via no papel um mar pautado, em que bóiam cadáveres de destinos, frangalhos de esperanças, vidas podres...

Há muitos dias, o Veiga era quási um ser de sonho. Dizia à mãe em casa coisas vagas, comia talvez menos, mas radiava.

Tinha grandes cuidados de _toilette_. Mandou brunir o seu antigo frak, que agora sem pêlo era espelhento, e arranjou ainda um côco preto que o magoava pouco na cabeça. P'ra ser em segunda mão, era magnifico. Vendera-lho um colega no cartório. Andava cheio de felicidade como um ovo. Era uma vontade doida de sorrir, de beijar as crianças, dar esmolas, de agradecer a Deus o sol e a chuva, e de dizer a todos que era amado.

Tinha ido apreçar um anel de oiro, e fazia economias prodigiosas para lhe dar em breve essa _aliança_. P'ra ele o anel era um símbolo supremo: fundiria p'ra sempre os seus destinos.

Só iria falar-lhe, gritando-lhe da rua o seu amor, quando pudesse levar êsse aro liso, que ela enfiaria olhando-o perturbada, como numa liturgia nupcial.

Chegou o dia. O Veiga nem comeu. Meteu o anel no bôlso, pôs o côco, beijou a mão à mãe comovidíssimo, e partiu rítmico e mudo, mui solemne, como se pisasse a aresta do destino.

Era ainda cedo. Vadiou nas ruas, braços pendentes, lânguido, scismático, a construir projectos de futuro: outra casa melhor e em poucos anos--um lar com ela, imortalmente loira.

Caminhava, alheado, fluctuando, sem olhar, sem perceber aspectos, fumando o seu monólogo de sonho, sentindo com prazer que a noite vinha.

Parou por fim, cravando olhos de febre nessa varanda do terceiro andar.

Esperou... esperou e ela não vinha!... Há quanto tempo olhava êle a varanda? Há cinco minutos talvez, talvez há uma hora. Perdera a noção do tempo. Não sabia. Súbito moveu-se o transparente... Era ela. Olhou um instante, viu-o, e retirou depois de um modo brusco.

«Coitadinha! Não pode vir agora. Talvez gente de fora... Esperarei»--pensava o Veiga com as pernas a tremer. E esperou, esperou, numa agonia.

Por fim deram dez horas muito fortes, badalando-lhe dentro da cabeça. Ergueu os olhos. Não podia mais. Batia os vidros um luar de opalas fluidas, e ela apareceu na claridade, muito branca, ao mesmo tempo que lhe deu um encontrão um caixeiro ajanotado que passava.

«Foi decerto sem querer»,--pensou o Veiga, mas viu-o logo voltar-se a provoca-lo.

«Que tem êle comigo? Que lhe fiz?» E interrogava-se assim ingenuamente, quando o viu fazer sinais p'rò andar dela e opontá-lo a rir, com um ar de troça.

Cessou em torno dêle tôda a vida. Deixou de ver, deixou de ouvir, ficou imóvel, numa aura de vertigem que o lambia, cara p'rò alto, lívido, inconsciente. O outro então aproximou-se dêle, fisgou-o pela gola, muito têso, e com bruscos sacões foi-lhe dizendo:

--Que faz você alí, seu grande lorpa? Não percebeu ainda que o troçaram? As suas cartas trago-as eu aqui, p'ràs ler aos meus amigos, p'ra me rir. Você sempre é um ponto de primeira... Você ouve ou não ouve?...

E deu-lhe um sacão último mais forte.

--Não há que ver. É mouco como um muro.

O Veiga olhou-o atónito, sem gestos. Não teve uma palavra. Empedrou todo. Vergava de fraqueza, mal ouvia, e nos olhos de febre, muito abertos, um desencanto imenso, emparvecido, um vazio de assombro, semi-louco... Estava em frente do outro sem o ver. Todo o seu corpo magro de humilhado corcovava ainda mais de decepção, como se o esfrangalhasse uma rajada. Parecia esperar uns braços p'ra cair. O outro olhou-o num desprêzo besta, e rematou com o punho em murro junto dêle:

--Agora rode! Senão parto-lhe a cara.

O Veiga nem buliu. Ficou inerte.

--Não ouviu, seu burro, não ouviu?

E como êle não tinha um movimento, deu-lhe uma bofetada que o virou. Depois, gozando muito o seu triunfo, encheu-lhe de pontapés o corpo todo, teve-o nas patas ennovelado como um trapo, até que farto, resolveu larga-lo, soltando-lhe magnânimo o perdão:

--Já basta. Tomou p'rò seu tabaco...

Havia um luar de espasmo, amorosissímo, e o imbecil, trepando a rua derreado, abafava os soluços contra o lenço, cerrava a bôca seca como em trismus, e só tinha uma ância a empurra-lo: ir despertar a mãe na alcova escura para chorar baixinho junto dela, como em petiz quando o troçavam no colegio.

Só isto poderia consola-lo: ouvir-lhe a voz, palavras de ternura, sentir-lhe as mãos rugosas nos cabelos...

Fêz um último esfôrço, dominou-se. Foi em bicos de pés até ao quarto, e caíu de bruços sôbre a cama, como se fôsse a cova, p'ra acabar, na humilhação suprema de sovado diante do seu ídolo tão loiro.

Crispou no travesseiro mãos de náufrago, como na carne de alguêm que o acolhesse, um amigo pr'a ouvir-lhe a confidência; disse coisas baixinho, o nome dela, chorou horas e horas, gemeu alto, diluindo nas lágrimas a angústia, sentindo contra o corpo extenuado a moleza da moinha a consolá-lo.

Por vezes chorou quási com prazer, desdobrou-se, assistiu ao seu martírio, como nas melhores noites de teatro, quando ouvia os quintos actos soluçantes, apertado num logar das galerias.

Esteve assim de bruços muito tempo, amolentado, estúpido, pastoso. Não podia dormir: era impossível. E com um grande esfôrço, quis erguer-se. Mas doeram-lhe então as pisaduras, e numa raiva fruste de impotente, feriu a paz do quarto com patadas, com rangidos de dentes e com murros, torcendo-se num ódio corrosivo, menos contra o caixeiro que o tosara, que contra êle, Veiga, gago e reles, sempre curvado em cumprimentos torpes, entre troças e adeuses de desprêzo, sem coragem pr'a um murro ou uma insolência.

Sentiu-se trapo, lôdo, coisa imunda. Teve mesmo prazer em deprimir-se; rolou-se na humilhação quási com gôzo, como outros na glória ou na luxúria, e arrancou do seu misérrimo grotesco, da sua covardia tão cuspida, êste consôlo cristão para aureolar-se:

--Sou uma vítima, uma vítima do Amor e do Destino!

Tinha ainda na cara as bofetadas, ouvia ainda a voz boçal do caixeirola: «Já basta. Tomou p'rò seu tabaco»; mas a única realidade bem tangível, ao sentir-se chorar, assim, de bruços, de côco para a nuca e sobretudo, era esta coisa mágica e inefável:--«Sou uma vítima do Amor, tenho romance!» E com a cara a arder, era um herói.

Já quási madrugada, adormeceu. Acordou-o o sol vindo até êle, e ia voltar-se contra a luz covardemente, p'ra se escoar no sono, p'ra esquecer, quando ouviu passos da mãe que vinha entrando.

Embrulhou-se nos cobertores num gesto brusco, para que ela o não visse por despir; encolheu-se na roupa o mais que pôde, mas ainda assim ficou com os pés de fora, com as botas de elástico enlameadas e o côco amolgado em travesseira.

A mãe entrou no quarto devagar, foi abrir as janelas de mansinho, supondo-o a dormir, bem sossegado. Quando o viu vestido sôbre a cama, com uma palidez desfeita e olheiras fundas, correu p'ra êle, pôs-lhe a mão na testa, e perguntou branca de susto, a tremer tôda:

--Que tens tu, meu filho? Estás doente? Porque dormiste assim todo vestido?!...

O Veiga olhou-a lorpa, emburrecido. Não soube que dizer, não quis contar-lhe; e como se a morte da ilusão o acanalhasse, como se viesse de nascer nêle um outro ser, de secura e vaidade, um reles cínico, levantou-se da cama, espreguiçou-se, e sem olhar a mãe, sem a beijar, foi eructando estas mentiras torpes, surpreendido êle mesmo de as ouvir, travando relações com um novo Veiga:

--Que quer?... Nem eu sei já como isto foi. Uma noitada... mulheres... foi um pagode. Carreguei-lhe no vinho. Ora aí tem...

Meteu as mãos nos bolsos do colete, e de pernas abertas, bamboleando-se, vomitou aos puxões o seu programa:

--Isto vai mudar muito de figura. Estou farto de ser burro, vou mudar. De ora avante é outra coisa, é outra vida... Previno-a já. Não tem mais que estranhar...

E apontava-lhe a porta:

--O almôço está pronto? Vamos a isso já. Não quero esperar.

Quási nem gaguejava, o imbecil. Sem as asas-muletas da ilusão, que erguiam êste orango a céus de sonho, êle ficava um tiranete bufo, com um rancor covarde de falhado, a farejar na sua raiva de impotente, uma vítima, alguêm para expiar. Pasmada, a pobre criatura saíu limpando ao avental os olhos. E começou nessa hora o seu martírio.

Nova fase do Veiga.

Iniciou-se então no botequim e com o olhar envernizado de genebra, ouvindo as _mayonnaises_ de ópera que um sexteto melodramático lhe servia, ia pagando bebidas aos amigos...

Foi um ex-colega, que se alcançara havia meses, p'ra fundar um semanário clandestino, que o apresentou aos rapazes do cavaco. Depois, extorquindo-lhe os cobres da bebida, empreenderam tambêm o apostolado.

--E o nosso amigo tem... a _ideia_?

O Veiga não a tinha. Forneceram-lha copiosamente, em noites de catequese desvairante. Era agora um iniciado o meu idiota. As necedades que os outros lhe gosmavam, como uma bíblia obscena de revolta, acolhia-as o Veiga com fervor: o caixeiro agora era o _burguês_, e o seu ídolo loiro o _preconceito_!

Perdia as noites num delírio gago, a proclamar no botequim o _amor livre_. Faltava ao cartório muitas vezes. Inconscientemente, como rezava com devoção até há pouco, absorvia brochuras anarquistas, e tinha à cabeceira, como uma espécie de _Flos sanctorum_ laico, um agiológio patético, ilustrado, com um Ravachol de auréola, hiper-cristo, e os mártires de Chicago nimbados.

Recolhia de madrugada ou noite morta. Nem já tinha horas certas de comer. Alimentava-se de pastéis e álcool. Só ia a casa para insultar a mãe e p'ra dormir.

Mal lhe dava dinheiro p'ra comer. A pobre criatura envelhecia anos cada dia. Por fim já nem falava: tinha por êle uma espécie de terror. Ouvia-o arengar coisas tremendas: a revindita social a dinamite, o «ódio ao burguês», trapos de frases feitas que êle moía e remoía muitas vezes, numa espécie de automatismo cerebral.

--Porque, fique-o sabeado, Deus é o crime... o crime, sim senhor, digo-lho eu... Hei-de dar que falar. Verá, verá...

--Não hei-de ver, meu filho, que eu não tardo... Deus há-de me levar. É grande esmola...

E lá ia a chorar muito baixinho.

Com as noites de álcool e vadiagem, numa exaltação agudíssima e imbecil, a loucura do Veiga emparedou-o.

Não podia dormir o meu fantoche. E depois das palestras de café, em que os outros disparavam burramente trechos de artigos de fundo e anecdotas, vagueava monologando, em falla-só, repetindo na excitação da bebedeira as escórias que mais o impressionaram, e o que era pior, sugestionando-se, desdobrando-se num Veiga que ameaçava, e noutro que o terror lambia todo.

A Sociedade, a Religião, o Estado, eram os inimigos do meu títere.

Ao recolher a casa, noite morta, tomava precauções, dava mais voltas, e era em suores de angústia, em calefrios, que dobrava, na névoa, cada esquina.

Andavam a preparar-lhe uma cilada... Quàsi tinha terror do novo ser que se instalara nêle, inquietante, atulhado de fluído de revolta, como uma garrafa de Leyde subversiva.

Certo, êle não fizera nada, era um pobre diabo inofensivo, mas vivia agora o _outro_ dentro dêle, como uma mina de dinamite, subterrânea, que a Ordem poderia farejar... E entrou a ter medo da polícia.

Ao recolher, logo que via um guarda, nem sequer dissimulava o seu terror, rodava nos calcanhares, voltava logo, de uma forma tão flagrante e tão grotesca, que se fazia notar ao mais boçal.

Às vezes esperava o sol, porque de dia não _lhes_ tinha medo, e era na luz lial da madrugada que se esgueirava p'ra casa, rente às portas.

Uma noite em que bebera mais, desengonçou-se em tão cómicos tregeitos ante o primeiro guarda que avistou, que o santo homem resolveu deitar-lhe a luva, e regenerá-lo com parasitas no Aljube.

Lá passou o resto da noite, sem falar, meio sonâmbulo de medo e de genebra, e a única impressão nítida que teve, foi a de ouvir, pouco antes de o soltarem, um fado soluçado como nunca, por um gatuno que dormira ao lado dêle:

Já que eu te não dou o pão, dá-te nua a quem to der; mas guarda-me o coração, a alma que ninguêm quer.

Foi por êste tempo, que êle fez parte do grupo dramático _Luz e Esperança_. Gago e solene, estava a calhar p'ra conde e p'ra _pai nobre_.

Teve triunfos colossais nos arredores. Declamava às noites pelas ruas, corrigia nos espelhos das vitrines a expressão dramática da tromba, e muita vez contrascenou com os candieiros, à hora espectral dos varredores... Fazia, é claro, teatro de combate, peças de intuitos sociais, dramas de tese, e como todos os colegas lá na _troupe_, considerava-se um _actor-apóstolo_. Recolhia cada vez mais tarde, trespassado de frio e de patético.

Uma manhã, chegando ao patamar, procurava a chave pelos bolsos, quando viu um vulto enrodilhado contra a porta. Estacou, varado de terror. O seu primeiro movimento foi de fuga. Quem seria?!... A mãe não,--dormia àquela hora. Mas, olhando melhor, viu que era ela... Estremeceu. Meu Deus! Estaria morta?... Não, não: adormecera ali. P'ra quê?... Não podia perceber.

--Deu-lhe talvez alguma coisa... Coitadinha!

Sacudiu-a de manso, despertou-a. Pela primeira vez há muito tempo, teve um gesto de filho, de piedade: ajudou-a com ternura a levantar-se. A pobre criatura erguia uma cara de espanto, de terror. Vê-lo outra vez meigo p'ra ela como dantes, inquietava-a mais que ouvir-lhe insultos. E ali no patamar, sem gestos, fitaram-se, como dois náufragos, segundos. Não se viam já há muitos dias...

A expressão da cara dela ia mudando à medida que o fitava:--_era o seu filho!_ Aquele rapaz cheio de rugas como um velho, com um tremor nas mãos, no corpo todo, aquele pobrezinho--_era o seu filho!..._

Sempre a olhá-lo, ergueu as mãos que tanto o abençoaram; a sua máscara desfeita iluminou-se, tanto a piedade ardia dentro dela; e com uma voz de misericórdia e de carícia, pôde ainda dizer-lhe:

--Ó meu filhinho!...

E caíu-lhe, tôda em lágrimas, no peito. Entraram abraçados pelo quarto. Lá estava a cama aberta, a dobra feita--como uma carícia dela a recebê-lo... Através das frinchas das portadas, a manhã estava a sorrir no travesseiro...

Então na alma dêste trapo humano o remorso dobrou como um mau sino, fazendo-lhe vêr quanto de bom era possível: a vida antiga com a mãe, a vida calma... Sentia bem que fôra torpe para ela; viu-a com a cova ao lado p'ra tragá-la: e numa lufada de desespero ajoelhou com lágrimas rolando quatro a quatro; gaguejou como uma creança a quem bateram:

--Ó mãesinha... ó minha mãe... perdão

Ficou assim alguns instantes; levantou-se. Ainda outra vez fitaram-se nos olhos--como se um dêles acabasse de chegar, com uma sacola de dor, de muito longe... E agora, entre lágrimas, sorriam. Êle pôz-se a dizer-lhe muito baixo:

--Juro por Deus, minha mãe, juro por si, que ainda a hei-de fazer muito feliz... Hei-de pagar-lhe com amor, com muito amor, os meses de martírio que lhe dei. Verá, verá. Vou ser outra vez o seu filho, vou ser outro...