Chapter 4
Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma _Belle au bois dormant_ que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas que vi, apenas lembro uma carmelitana, lendo sob uma ogiva, côr de cera, decerto Santa Theresa, _Las moradas_... A última, porém, a mais estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a fonte dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas alagadas, uma cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero viviam irmãmente com os heróis. E não sei que fonte mitológica--uma estátua de Juno, sereníssima, a cabeça nimbada de andorinhas.
O outro álbum era de esboços--desenhos e _maquettes_,--tôda uma arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético parque, inverosímil como o de Poë no _Domínio de Arnheim_.
A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse templo que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto místico, em linhas-versículos de sonho.
Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.
--Construi-lo e habitá-lo... Com _Miss Fountain_... se a encontrar um dia.
O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música, espumante, de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em motivos decorais no sonoro frontão religioso que viveria um dia tão beijado como as asas do mar no temporal.
É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a litúrgica, a _aquática_; era o seu esqueleto quási oculto, e por milhares de ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados, por bôcas inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares donde cairiam chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa segunda, arquitectura sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia criar.
O mármore apparecia, sob a trama arquitectural da água golfante, como através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia às vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura de uma planta de água.
Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura, cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria solar de uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam molemente, em lágrimas, p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde espirravam como flores se esfolham, em graças _platerescas_, em sorrisos.
Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de água, tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave. Mas, como Harry me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente realizável, era um _ensaio de arquitetura musical_. A euritmia dessas linhas de água, tantas volutas líquidas que eu via no amoroso desenho daquele álbum, não tinham só um fim arquitetónico, antes eram a consequência imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da Água revelada por um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a _partitura_ do palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.
Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado. Primeiro o _leit-motiv_ da entrada, cantado no peristilo por três fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da entrada (duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro quási ocultas) que acompanhava as três vozes argentinas. Harry chamava-lhe: _o motivo de saudação_.
Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando as mãos numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um piano a fluidez dionisíaca das frases. Os _graves_ e os _agudos_ conseguiam-se por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos, ampolas, com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito ornamental e acústico.
A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas foscas, claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos mármores da fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons sobrenaturais de um órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu Deus! prazer supremo, ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse vida!
Três melodias _fugadas_ corriam a fachada sem cessar. A que vibrava ao centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais, implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de resonância decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma aspiração de agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem as mãos erguidas das Ogivas. Harry chamava-lhe: _a ânsia de ser nuvem_.
Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram, musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: _a alegria de morrer sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes_. E os três deliam-se numa polifonia liquescente em que a _ânsia de ser nuvem_ tinha o patético de umas mãos erguidas; _a alegria de morrer sorrindo_ lembrava a vida e morte das espumas; e _a saudade dos rios, das nascentes_, nas conchas e recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em acordes quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e orquestrada sabiamente: a nostalgia do coração das rochas vivas, dos açudes, dos campos cultivados que ela regava a chalrar nos sulcos largos.
Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas de ecos sem memória instilando um esquecimento de magia. Inútil descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitectura, Harry compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a notação musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham sido por êle copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder compor a _partitura_ dêsse palácio feérico da Água.
O seu esfôrço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe parecia pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da arquitetura líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.
Mostrou-me ainda detalhes interiores. A _Galeria da Meditação_ tinha vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o casamento do Doge com o Adriático na galera de sonho o _Bucentauro_; Ophélia louca, o cabelo como um chorão de fios de oiro, apartando com mãos de prata fosca os canaviais orando à beira-rio: sereias penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...
No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas, como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do tempo... Ali iria meditar e ler.
Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.
Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento, concentrando-o. Alêm das grades balizando o parque, cinco muros de árvores concêntricas, por ordem de alturas decrescente: a grisalha colossal dos eucaliptos, o veludo dos cedros, choupos góticos, ciprestes tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras sôltas dos chorões... E seria num vale agasalhado.
Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as fontes se fizera vagabundo, para as ver, pr'às ouvir assimilando-as, e poder executar um dia o seu palácio--síntese de todas.
O entusiasmo de Harry contagiou-me. É possível que amanhã não seja assim, que dêste plano de arquitectura musical que antevejo e anteoiço emocionado, no contágio febril que me vem de Harry, me fique a idea de um projecto fruste, de uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de loucura poética só como documento, interessante.
O templo da Água é para a vida dêste sensitivo, sob uma forma íntima e discreta, a minúscula visão quási infantil, a creancice lírica encantada em que êste poeta semi-louco e ingénuo tenta exprimir em linguagem de arte, com a arquitectura e a música por meios, tudo quanto na terra deslumbrou a sua alma de tritão éxul.
Se amanhã analisar êste projecto longe do seu contacto perturbante, talvez eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas sempre com emoção hei-de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe entrega, sem nenhuma restricção, de todo o corpo, e arde nessa febre dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nómade, de acaso, que o fará morrer ao desamparo no hotel dálguma terra onde haja fontes, ainda fiel a essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em cristais múrmuros...
O palácio da Água!... «Construi-lo e habitá-lo com _miss Fountain_ se a encontrar um dia...» Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de água, clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água, envolvente, fluido, esquecedor, como um nirvana de água inexgotável.
Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um mystico dos sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas composições que agora ouvi. Ou, quem sabe! um arquitecto novo, musical pela assunção das linhas, sem recorrer, vesánico, quimérico, às impossíveis sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa, cuidaram descobrir todo o destino.
Ao ouvir-lhe a voz meíga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe dêste homem, sem família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento por uma sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que era uma loucura essa chimera onde fechou o futuro a sete chaves.
É certo, é natural que isso suceda. Que sabe êle de hidráulica, de acústica? Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, p'ra admitir como exequível êsse plano, que êle fôsse um arquitecto extraordinário, um músico revelador de novos meios e um engenheiro único, de génio.
E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de vertigem, a mais victoriosa das derrotas, condenando pela voz dêsse homem-deus tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry?
Êsse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um prodígio _interior_, não se exterioriza, e só com uma genialidade adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura) a obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes, domínios que pareciam de outras artes.
Se ao menos pudesse conviver com êle e canalizar tão bellas qualidades p'ra qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida se partisse como uma lufada de vento quebraria aquela arquitectura em pratas de água, como um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira noite que falamos e é decerto a última tambêm.
E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão, êste culto das fontes religioso?...
Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da fachada, comecei a dizer que um dos motivos--_a alegria de morrer sorrindo_--me fizera, ali na paz de Roma, uma saudade imensa do meu mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.
--Gosta muito do mar, não é verdade?
Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma onda de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A fonte de Bernini ouviu-se mais: dir-se-hia uma voz de ama milenária a acalentar fantasmas com terror...
Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz, mas elle viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha ância. A sôbre-excitação daquele instante, até o facto de eu ser quási um estranho, a quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a um amigo ou a um conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.
Respondeu-me com agitação de um modo brusco:
--O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi êle que perdeu os meus... Compreendo-lhe a beleza, que é divina, mas não o posso ver, atterra-me, detesto-o...
Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, _vivendo_ as frases:
--Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com _êle_ e adorava-o. Era piloto. Viajava p'rò Norte quási sempre. Filho de marinheiros, tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a bordo do _Baltic_, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então dezassete anos.
Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens por mar interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira) imensamente bela, não é verdade?
Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de histeria, e ao menor obstaculo, com acessos de chôro e grandes febres. Meu tio era o tutor, e longe de a reprimir, estimulava-a mais, lisonjeando-a, com uma adoração de spleenético alcoólico por aquela andorinha semi-louca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela ia fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobresaltos dos seus nervos, e êle ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta de sadismo. Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.
Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma côrte romanesca que alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas que era para êle a mais cruel: _abandonar a vida de bordo para sempre_. Estava tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe arrancassem tôda a alma...
Na véspera do casamento, foi a bordo do _Baltic_ despedir-se. Abraçou os companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um cão sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa noite passou-a a errar no pôrto. Ninguém diria que aquele vagabundo tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã seguinte.
A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade exasperada, como um travo de remorso do mar longe...
Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo nos olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem convívio, num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em vida, lhes doou. Havia no amor dêle a minha mãe devoções de plebeu por um ser de raça, e o sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com longos períodos de abstinência no mar largo, por um corpo de pétala, serpentino, enlaçando com braços e perfumes...
No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como êle evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia mesmo êle pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que fizera, que não falasse do mar diante dêle. E a cada instante, em horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes noites de invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava o espectro do mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via bem amarfanhado, caído como uma coisa ao desamparo, p'ra cima de um estofo, a mascar raivas, erguia-se mais linda que um _tanagra_ e ia beijar-lhe os olhos, dar-lhe a bôca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.
E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguêm. Raro saíam. A vida mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e esgotou-a com uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece em pouco tempo. Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento desigual, não queria humilhar meu pai nem humilhar-se.
Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados qualquer coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor, na mesma jaula de oiro, dia e noite... Enervavam-se um ao outro. Enlouqueciam-se.
Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por êsse tempo. Emagrecera. Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica requintava, em perversões subtis, quási em loucuras. Torturava meu pai continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões que iam atormentá-lo, evitando contudo falar dêle, com uma hipocrisia que era mais cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia paisagens de mar por tôda a parte... E por cima das mesas, dos sofás, como uma obsessão de crime, sempre e sempre, livros, romances e gravuras, com narrações de mar, sempre com o mar...
Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda «ouvir como isto é lindo!» E êle encostado ao piano, junto dela, via os _Lieder_ de Schubert já abertos numa página marcada. E lia: _O mar!..._
Depois que eu nasci, a nevrose de minha mãe, longe de se calmar na maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram enormes. Passavam horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a adorar-me. E como me dizia a velha Jenny, por quem eu soube tudo o que lhe conto, dir-se-ia, naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais, se bebiam com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.
Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.
A virilidade impulsiva de meu pae caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se aos pés dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...
Os criados achavam-nos estranhos, cada vez mais pálidos, mais magros. Eles mesmos pressentiam--no silêncio augural daquela casa onde os viam enlaçados, de olhos loucos--qualquer coisa de trágico, de mau...
Meu pai, que a bordo fôra sempre sóbrio, bebia agora imenso, embebedava-se. Depois, com a idea do mar cravada nele, ia esmoer essa obsessão, calado. Viam-no às vezes falar só, baixinho, escondido nas salas afastadas, dizendo por entre dentes, sufocado, coisas de bordo, vozes de comando, com as mãos em porta-voz, olhando o tecto, como se fitasse os mastros, o velame...
Se alguêm o via, disfarçava, com uma expressão de terror quási idiota. Ia endoidecendo pouco a pouco.
Minha mãe sabia tudo, tudo. A pobre Jenny, sobressaltada, ia contar-lhe; pedia-lhes que se distraíssem, viajassem, que fizesse um esfôrço p'rò salvar. Ela, porêm, só tinha curiosidade p'ra saber se meu pai bebia muito, se falava só, o que dizia...
Ás vezes vinham cartas dos camaradas, dos portos em que o _Baltic_ tocava, falando-lhe de bordo com saudades. Êle lia-as e relia-as muitas vezes. Trazia-as sempre consigo, decorava-as. Mas logo que minha mãe aparecia, mudava de figura, era já outro. O olhar babava adoração. E se um instante se abandonava nos seus braços, pegava nela ao colo como um doido, levava-a p'rà alcova aos tropeções, sem se importar com os criados, com ninguêm.
Afinal minha mãe gostava disto. Era ela que o enlouquecia pouco a pouco. Cada vez mais, sem falar dêle, a propósito das coisas mais triviais, aludia ao mar, com pausas bruscas, em que os ouvidos dêle, alucinados, ouviam o rumor, a voz do largo...
Evocado a todos os pretextos, por essa linda torcionária histérica, _êle_ acabou por ser uma presença: o Espírito do Mar viveu com êles!... Eram três agora no castelo. Passava o inverno com êles, a seu lado. Vivia nas marinhas das paredes, nos livros e no vento, nos ruídos... E mais e melhor: na alma dêles...
Sós, à noite, a ouvir o vento, olhavam-se... E em ambas as bôcas, bem cerradas, cada um lia: «Ouves o mar? É _êle_...» E depois de suspensos um instante p'rò sentirem correr-lhes a medula, afogavam-se nos braços um do outro, com uma fúria sensual desesperada. Foi minha mãe que provocou tudo isto, e acabou por se enredar tambêm, por acreditar como êle, contagiada. Numa cama de amor, dois amorosos, partilham as loucuras como os corpos...
O Espirito do Mar estava com êles. Ainda lhe não tinham pronunciado o nome, mas calavam-se muitas vezes para ouvi-lo, conversavam sôbre _êle_ por olhares...
Uma noite de inverno--ia a fazer três anos que casaram--recebeu do Norte um telegrama.
Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava; mandavam-lhe do _Baltic_ saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio, o seu pano que tanta vez ferrára, vinha naquela noite de Janeiro, dizer-lhe o ultimo adeus da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares de névoa, das veladas na ponte a todo o tempo, dos sonos bons depois no seu beliche, pequenino e estreito como um berço... Rolavam-lhe as lagrimas dos olhos.
A Jenny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa noite ultima.
Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume, bebeu _gin_. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns olhos de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...
Já tarde, ergueram-se. Jenny foi ajudar a despir-se minha mãe. Êle seguiu devagar pelo corredor e abriu a janela tôda à noite negra... Ficou assim algum tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao vento...
Depois, bruscamente, foi pr'ò quarto. Com um tremor de alcoólico nas mãos, foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas de bordo, atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para sempre. Pôs-se então a vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas altas, na cabeça o sueste... Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a sair, quando voltou p'ra trás. Qualquer coisa lhe faltava. Procurou no armário, procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de coiro já puído. Pô-la â cinta e partiu com um andar mais firme, resoluto, como se a bordo, fôsse fazer um _quarto_ em noite má.
Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o esperava. Sem bater, entrou: parou a olha-la. Tinha os cabelos desfeitos, muito branca, num _robe-de-chambre_ que abriu ao vê-lo entrar. E com o colo nu perdeu-se a rir...
«Vaes p'r'ò mar, meu amor? Deixas-me só?...»
_P'rò mar! P'rò mar!..._ Pela primeira vez há já três annos, espantado de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortílego, supremo: «_P'rò mar!_» com uma inflexão pueril, quasi idiota.
A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.
--«Estás vestido p'ra bordo... Estás já pronto...»
De súbito, ela viu-o demudar-se. Com uma inflexão rouca, de bêbedo, tornou; «Está mau... está mau... Está um temporal desfeito. Como querias tu que eu me vestisse?» Ela sentiu terror e aproximou-se. «Ouves a chuva?» dizia êle. «Ouves a noite?... Ouves?... Ih! Ih! Que vento! Que maldito!...» Num lindo gesto meteu-se-lhe nos braços, colando-se contra ele, abandonando-se. O _robe-de-chambre_ descaía-lhe nos ombros. «O pano incha, o pano incha... Ferrar pano! gritou com voz de comando: Ferrar pano!»--Tomou-lhe o corpo nos braços ennovelado. E Jenny, que ao ouvir-lhe a voz correra, ouviu ainda aterrada; «Não aguenta o pano! Cortar cabos!...» Tirou a faca de bordo da cintura, prendeu a bainha nos dentes p'rà arrancar, e cravou-lha no colo até à raiz. Era curva. Dir-se-ia que tinha a inflexão dos seios dela.
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Harry contou-me ainda o processo, o julgamento, e como êle no tribunal acusou o Mar... A opinião dos médicos legistas, foi que êle estava doido irresponsável. Apesar disso, porêm, foi enforcado. A opinião pública, os jornais, eram contra êle.
Harry estava lívido.
--Compreende agora porque odeio o mar.
SUZE
A Paulo Osório
Suze
Oh! dolce, della soglia del lupanare mirar le vergini stelle! --_La meretrice di Pirgo_--GABRIELE D'ANNUNZIO.