Chapter 3
Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados, a sua vòsinha disse a avé-maria num timbre muito fino de carícia, como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de palavras, dêsses que tem no outono, a horas mortas, certas fôlhas de arbusto a despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já lágrimas nos olhos. Ninguêm tinha coragem para falar.
A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Êle tirou os anéis devagarinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e deitou-se p'ra baixo fatigado.
--Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.
E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa, todos queriam quebrar êsse silêncio, feito de sonho e de apreensões de morte, que avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:
--Esteve hoje um dia lindo, quási quente. Temos à porta a primavera. Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu passeio.
--Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?
--Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, has-de ir para o quintal brincar com os manos. Sabes que a _tua_ árvore, a magnólia, já está cheia de flores muito brancas?
--Ó mamã, mamã, deixe-ma ver,--pediu êle erguendo a cabeça de repente.
--Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.
Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha colada contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da _sua_ árvore, erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e afilados, as flores mais brancas que há na terra.
Deitaram-no. Deviam ser nove horas, pouco mais. E como sempre, levantaram-se todos p'ra partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e ao apertarem-lhe as mãos--adeus Milinho!--êle olhou-os desta vez mais devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em longes de meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria ao dizer:
--Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...
Essa creança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia, encheu-os de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados, que saíram da alcova, que partiram, ouvindo dentro dêles o crocito--nunca mais! para sempre! _never more!_--dêsse corvo fatídico, de lutos, que Poé revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia morrer. Qualquer coisa de lindo ia morrer...
No emtanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e dizia feliz, como em segrêdo:
--Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais pertinho...
--Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa longamente.
--Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de si!
--Deus há-de-te sarar. Verás, verás...
--Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou partir...
--Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.
--Vou-me embora, vou, p'ra muito longe... Não faço falta a ninguêm. Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...
--Se tu gostas de mim, não digas isso.
Êle tornou mais lento, resignado:
--Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fôsse assim... sempre doente, sem saír do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...
--Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho, dorme, dorme...
--Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas suas.
Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarinho, aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o cabelo, deu-lhe um beijo na testa, muito leve.
Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A noite vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem. Como o pai disse recolher mais tarde (uma entrevista no _club_ p'ra negócios) mandou deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao seu filho. Como dormia bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de salva-lo. E numa exaltação, quási feliz, encostou-se à vidraça a olhar a noite.
A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobresinho! Como êle gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um luar assim. Fazia-lhe tão bem: calmava-a tôda. Via ao longe, no rio, as mastreações, e distinguia as vêrgas, o velame, a luz dos estais à pôpa, nictitando. Vila-Nova, a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado empoalhados, e a névoa que se erguera pouco a pouco, era já na colina ao luaceiro uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes, muitas luzes, como se Deus atirasse com amor, às mãos-cheias de estrêlas sôbre a terra. Toda a mole granítica da Sé, galvanisada a lua, se animara: corria luar nas veias dessas pedras, morenas do sol de tantos séculos, e tôda a catedral se eterizava como se as gárgulas aladas das cimalhas acordassem p'ra tentar um voo último. A casaria mesmo, estava absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de lua, gnomos, rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas de toucar por sôbre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa assunção p'ra Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das igrejas, e os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua, andava esparso, como um filtro de sonho, transcendente, propiciando, amando, perdoando.
Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no encantamento sortílego da noite, a esperança subia a aluciná-la despertando o sonho místico de outrora. Aquella figurinha não mentia: os seus olhos de mago eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam, como naquela noite, há já três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus olhos, as mãos do tio Eduardo e da tia Olívia, no silêncio que em roda se fizera. Assim os dois souberam que se amavam, e ficaram a olhar o pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha sete anos ainda então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de médium, reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua voz de concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de oráculo--criança, diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de destinos, em cuja atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se, como um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma bôca de perdão.
Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as pálpebras, ao peso das quimeras debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar nas mãos, subiu-lhe aos seios... Se a beleza da noite, transparente, êste aquário em que a lua abria as veias e a vida da terra ia boiando num abandono de ninfeia aberta, fôsse afinal uma cilada d'_Ela_, um disfarce da Morte p'ra roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível que ela viesse assim, essa maldita, na feeria argêntea dessa noite, com a fouce escondida em musselinas, silenciário carrasco sem memória, correndo em passos de êxtase e de opala, e matando com um hálito de gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual um beijo era grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua entrar na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi até junto dêle, ficou queda. Que imensa paz nessa carinha meiga! Pôs-lhe a polpa dos dedos sôbre a testa. Estava muito suado como sempre. Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho estava a sonhar com as fadas de algum conto, onde, como êle às vezes lhe contava, a boa fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo corria bem. P'ra que assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus nervos! E ao voltar-se de novo para a noite, teve remorsos de ter medo dela, de ter desconfiado loucamente que êsse luar de perdão espargelado fôsse um scenário infame de traição, contra aquela flôr--a pobresinha! que era seu filho e Deus ia salvar.
Voltou p'ra junto da vidraça, ainda trémula, a sossegar nesse esplendor silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe doirava agora os olhos razos, o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma idea súbita rezou. Não podia dizer a quem rezava, se rezava a Deus ou ao luar... Mas Deus era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que êle vinha p'ra curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo p'ra sará-lo como um beijo de Deus a essa criança.
Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz, misterioso, corria os cortinados de mansinho, p'ra que êle chegasse mais depressa junto ao leito, a sorrir e a chorar, tôda contente. Êle vinha, êle entrava sempre e sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamál-o, as suas mãos de mãe, de veias altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já despertava os móveis, seus amigos, a que ela queria como a confidentes. E doida de feliz, quási riu alto ao ver-se no espelho enluarado. Dizia-lhe baixinho: «entra, entra...» Já a cadeira de braços estava empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em gamas sonolentas. Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus êste luar... E que sossêgo agora, que sossêgo!... Até a bica do tanque se calara. Havia uma atmosfera de milagre, o seu sonho de mística era certo. Os seus pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o pequenino. Por isso Deus descera no luar: era êle, era êle, estava ali... Isto era bem verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a rir perdidamente, num timbre de histeria muito sêco.
De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisál-o, era um pecado... Fugiu então p'rà zona ainda escura, olhou o pequenino adormecido. Pareceu-lhe que sorria extasiado. Sentiu uma alegria semi-louca, um excesso de esperança a sufocál-a. Por fim ajoelhou-se junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada em lágrimas; mas rindo sempre, sempre, a segredar-lhe: «Entra, entra, entra...» Êle vinha, êle vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino. Debruçou-se então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes, numa beatitude arripiada. Foi esperar o luar do outro lado, as mãos nas grades da cama, à cabeceira. Êle dormia sempre, o pequenino, uma mão escondida no pescoço, a outra sôbre a dobra do lençol. Curvou-se para ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura. Tocava os pés da cama: ia subir!... «Sóbe, sóbe, sóbe» ia dizendo. O seu pobre coração endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as mãos: «lá vem, lá vem. Bemdito seja Deus, sempre bemdito».
Havia um clarão no _couvre-pieds_ agora. Uma larga lágrima, redonda, foi lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se viu o veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaíu-a. A mãe vergou-se sôbre êle: «meu filhinho», pôs-lhe as mãos em caricia sôbre as fontes que um suor muito frio perolava, e ia beijál-o, quando ouviu três vezes, como um fio de voz, já muito longe: «mamã, mamã, mamã...» E fechou p'ra sempre os seus olhos febris de grande génio triste depois dessa palavra suprema que era tôda a sua fé.
O luar chegara emfim à cabeceira!
Só quando êle esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que lhe erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida, o pequenino!--recaírem inertes sôbre a roupa, compreendeu o crime, o crime imenso.
--Vinha no luar a Morte... no luar...
Voltou-se então num desespero último, p'ró expulsar, p'ró pisar sob os seus pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o seu sangue. Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o quarto: água lustral de lua, alma de lua, no chão, no ar, em tôda a parte... O seu sangue gelava-se nas veias. Não podia lutar, era impossível. Êle invadira a alcova, asfixiara-a. Estava tudo perdido, tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu ao desamparo, sem sentidos.
O HOMEM DAS FONTES
A Justino de Montalvão
O Homem das Fontes
Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada no Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz alto, de um loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos de névoa calmos e abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra dizer melhor, uma voz de água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e sem lar, vive em perpétua viagem. Encontrei-o em Roma, em Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me feriu intensamente, desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma fonte, concentrado, como se fôsse a caricatura fabulosa que o encantamento de uma ninfa ali prendesse.
Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe, recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.
Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria encher-me de sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de Benevenuto. Tem, como sabem por centenas de gravuras, uma fonte desenhada por Vasári à sombra ameada do Palazzo Vecchio. Caía uma luz melodiosa. Harry desenhava, um caderno de apontamentos na mão fina. Um esbôço da fonte, era evidente.
Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente, pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal; há uma ronda de ninfas alongadas num bronze de _patine_ quási azul; os cavalos marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica e animal, espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, em _verve_ muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda aquele adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos curvos das gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único a morder-me: ver o que Harry Young desenhava.
Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que colhera, quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do que estética, que me parecia absurda, incompatível com um esbôço num álbum de viagem. Ao lado, em frente à estátua de Cosme de Médicis, criados sonolentos iam dispondo as mesas nas _terrasses_. Já havia dois cafés abertos onde gente apressada ia beber. Harry, que continuou alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a uma _terrasse_, e bebendo um copo de leite lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a mesa dando os últimos retoques ao desenho.
Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa igreja, como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os seus olhos estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò convívio enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que não tinha ainda trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via mulheres nem paisagens, absorto neste claro misticismo?
Sentei-me numa mesa perto dêle e pude ver à vontade o seu desenho. Nem um traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras, sob um desenho singular de mulher nua, eu li: _Fonte Adamanti, em Florença._ O quê?! A fonte concebida por Vasári era p'ra Harry Young aquele corpo?... E buscando a relação possível com essa fonte mítica e ingénua, onde em torno a um Neptuno gigantesco farandolam ninfas e tritões, ou fôsse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu senti, ou porque de facto ela fôsse um claro simbolo, pareceu-me que essa forma musical, êsse corpo de oceanide surprêsa esperando o tritão que a possuiria, era a síntese poética flagrante da fonte que Vasári imaginou. Corria o risco de me tornar suspeito na ânsia de ver melhor, de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o seguir pela galeria degli Uffizii e desaparecer ao fundo, lentamente, p'ra êsse scenario onde se evoca Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura nobre das colinas e das águas do Arno romanescas.
Depois voltei p'ra Roma, onde encontrara Harry meses antes.
Muitas vezes me lembrava dêle, eu que tambêm adoro as fontes, com uma simpatia persistente, cúmplice. Por êsse tempo ia eu às noites degustar o rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo rebordo de alabastro da fonte, fronteira ao Pincio, impregnando-me dessa alma sem memória, dessa crónica augusta de silêncio, que é em Roma a atmosfera de magia das praças sem ninguêm, com vozes de água. Ficava assim horas numa tristeza quási sensual, com uma espécie de delírio de grandezas que me permitia dialogar com Roma, calmar a minha incerteza de falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o meu destino como o de um herói num poema antigo.
P'ra sentir esta luxúria psiquica é preciso ter vivido muito ou ter a velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade, agarrando pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos. Era aquela em Roma _a minha hora mais silenciosa_.
Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se horas de convento. É a cidade suprema p'ra viver com um sonho ou com uma idea, velada por formas milenárias que recebem exames de consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado aos pés do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê, pensei em Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa auto-sugestão, nem já admitia dúvidas: era Harry, era o _homem das fontes_ que ali estava. E como uma raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro meses, viajando sem sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.
O lirismo imemorial dêsse silêncio levava-me p'ra aquela criatura, que uma espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como p'ra um ser afim, um quási irmão.
Pareceu-me que êle mesmo se movera, olhara na minha direcção, como esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o silêncio, o convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos museus, o meu desejo de falar com Harry atingiu a plenitude, exasperou-se. Levantei-me. Sem me atrever a caminhar p'ra êle, fui-me timidamente aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei com ar distraído junto de Harry, como se olhasse um dos leões golfando água. Fiquei assim nervosamente alguns segundos.
Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de me falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras palavras que trocámos. Aludimos aos nossos múltiplos encontros, em Espanha, na Itália, na Turquia, por uma coincidência bem estranha, sempre junto de fontes...
Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio fôlhas sêcas. Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza dela Signoria, o desenho da fonte de Vasári que eu vira na _terrasse_ por trás dêle. Harry calava-se surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, p'ra pintar.
--Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande interesse da minha vida...
Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em segrêdo.
Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões que depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um estranho, sem ternura.
Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à promiscuidade forçada e torturante p'ra uma sensibilidade como a sua. Logo que chegou à maioridade, rico e só, foi visitar nos arredores de Londres o castelo em que seus pais viveram. Correu o parque, as salas, as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus brinquedos, onde um pó sem saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num museu.
Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa em que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até os olhos fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra essa visita com que tanta vez sonhara, e saía de lá desamparado, com uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a velhice das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e que perdem com a côr tôda a memória. Esses muros sem alma angustiavam-no. Já atravessava o parque p'ra sair quando ouviu a chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e pareceu-lhe bem distante, vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm amigo, acolhedor! Foi p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a ouvi-la até à noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas. Harry contou-me:
--Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem beleza consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.
Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não terei...
A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara, tudo me comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam... os tapetes, os móveis, as paredes, tinham linguagem agora: compreendiam-me. As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os meus. E como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra lhes dar, espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no meu peito. Vem dessa hora o meu amor às fontes.
Harry erguera-se. Seguíamos pelo _Corso_ lentamente. Pedi-lhe então que me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.
--Só se quiser vir comigo ao meu hotel.
Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um hospital de águas... Faz-me triste.
O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre duas janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais arqueada, como p'ra receber melhor as confidências. A torre della Trinitá del Monte deu onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque subia da praça, propiciando, a voz da fonte de Bernini, _la Borcáccia_, a escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as serpentinas sôbre a mesa. Vi então dois álbuns grandes de viagem, e alguns pequenos mais esguios.
Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes árabes: de Córdova, de Granada _la vieja_, a terra andaluza de _mors-amor_. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de Granada, que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena vive ainda com uma côrte calada de ciprestes...
O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova, musical, nesse jardim interior da Alhambra--jaula feérica da luxúria árabe, onde os corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos pátios, e nas salas de jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos jardins as grandes séstas tórridas, de cópula...
Desenhára o mirador de Lindaraja, com as suas gelosias marchetadas que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra ouvir melhor a voz da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos olhos, nos cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de uma corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um entre todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da praça do Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de oiro e lápis-lazuli, de que a água é sultana única.
Harry representara Schehèrezade, a noveleira das _Mil noites e uma noite_. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante _mil noites e uma noite_, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a matava se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte Schehèrezade.