Chapter 2
Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao vento, fluctuando... E o vento! O vento! Sabem lá ouvi-lo! Tanto não sabem que quando êle prega, durante o inverno em que êle é todo génio, metem-se em casas grandes, bem fechadas, p'ra ouvir sons, sons, imensos sons... Chamam a isso Música. Conheço-a. Desde que vivo com os homens, perseguiu-me. Nem aqui na gaiola eu lhe escapei. Toca aos domingos horas, no coreto. Enche-me mais de raiva e de miséria. A música das águias como é outra!... Quem a ouviu como eu quando era águia, antes de ser esta carcassa reles! Nas montanhas, no mar, na névoa móvel!... Sobretudo no mar, no grande mar... O que eu viajei nos temporais a ouvi-la! Ás vezes partíamos no vento em turbilhões, asas e asas, nómades, pairantes... Regougos de ondas, nuvens a rasgar-se, e os nossos gritos, bêbedas de espuma!... E mil vozes de formas nunca ouvidas, a voz de tudo, tudo, a voz de Pan! E o silêncio, o silêncio... Certos instantes únicos, supremos, em que êle se ouve, o temporal hesita, e um pânico arrepanha as asas todas... Como é agudo, agudo, êsse silêncio!... Nas meias-noites de estio... o que eu gostava de despertar no éter melodias, ferindo-lhe o teclado luminoso, numa alma de voo, sereníssima... Punha medo com o rumor das minhas asas às nuvens que dormiam extasiadas, e auscultava a noite pelo céu, até ouvir a manhã vibrando tôda, quando o ar é uma orquestra miriadaria e os homens dormem nas alcovas mornas...
Estendeu por minutos seculares o seu monólogo patético de velha, essa arenga evocativa de fantasma, lapidando o meu ser com ironias, em que memórias épicas passavam, como o granizo aos pobres em dezembro. Todo o meu senso crítico se foi na rajada feroz dos seus desprezos: era uma fúria aguda de vingança, de esfrangalhar essa carcassa oráculo, varar-lhe os olhos com a ponteira da bengala, acabá-la de vez, estrangulá-la. Retorqui-lhe então com a voz dura, pondo raivas de morte nas palavras:
--Sim, sim... Diga ainda mais... o que quiser. Cante à sua vontade, minha amiga! Insulte os homens, ria, desgraçada. Nem me dou ao trabalho de a esmagar. Só lhe pergunto isto, apenas isto: quem a tem aí bem presa na gaiola? A si e a êsse mocho seu vizinho? Ao leopardo, ao lobo, a essas feras? Quem lhe dá por esmola bifes podres, e faz de si o riso das crianças, e a há-de empalhar depois de morta?... Você é uma águia tonta, dementada, que a escravidão ensandeceu de vez. Melhor, melhor! Assim faz-nos rir mais. Grasne p'raí; rebente a divertir-nos!...
Parei pr'a tomar fôlego, cansado; mas o relevo imóvel dessa ave, a sua forma heráldica de bronze, alheavam-na tanto desta cólera, do desespero besta em que eu tremia, que me pareceu inútil continuar e me senti um títere grotesco. Era o mais infernal dos casuístas, essa águia impossível de ferir, feita de sombra, emoldurada em sombra, presa nessa gaiola e mais distante que se esgarçasse as asas nas estrelas. Emquanto assim pensava, ei-la que fala:
--Bem certo, sim, bem certo o que me diz! O Homem alastra pela terra como um cancro, pervertendo a vida, corroendo. Reduziu-me a mim, asas e garras, a um animal grotesco de capoeira, meio tonto de dor e de miséria. E as feras!... Exibem-nas nas feiras e nos circos, em gaiolas de ferro, à luz eléctrica, ante o pasmo alvar das multidões, rindo da força mutilada e doente. Cortam as jubas aos leões, abrem-lhes risca, dão-lhes chicote e bifes, civilizam-nos! E quando os tem nas jaulas, sonolentos, sem força e sem instinto, entorpecidos, com as pupilas de oiro marasmadas, com as garras inúteis já sem preza, acham-se heróicos porque os chicoteiam, mesmo quando êles tremem de sezões, mesmo quando êles morrem de saudade!... Não há amor de asas num rochedo à névoa, que o terror dos homens não errice!... Antes disto, porém, já os adoraram. No Egipto, em tardes de colheita, o voo das íbis riscava no ar do Nilo curvas em que êles viam profecias... E outros como Isis, como Anúbis, sucumbiram no tédio de ser deuses, e depois das pompas rituais, de oferendas, de orações, de sacrifícios, são os servos misérrimos do homem, domesticados já, civilizados!
Mutilam as árvores, deformam-nas; exilam certas plantas nas estufas, com saudades do húmus e do sol, e trazem na lapela rosas mártires, que abriam de desejo como noivas, à espera do pólen bem-amado! Não entendem o sangue nem a seiva: vão pervertendo tudo, corroendo! Até que um dia, não mais florestas, catedrais a Pan! A terra será calva como um sábio, e cordilheiras, montes e ravinas serão assassinadas, cavacadas, p'ra que os homens mobilem os palácios, p'ra que tenham poleiros nas gaiolas... Os areais, as deserteiras ruivas onde o mar espadana e se extasia, terão motores, instalações fabris p'ra utilizar a raiva das marés, em quê, deus-sol?... a enriquecer indústrias... Todo o azul será viuvo de asas, e os filhos das águias e das feras nascerão em gaiolas e em jaulas! Ah! Mas tambêm nada haverá mais triste do que os filhos dos homens, as crianças... A inocência, essa graça animal, de flôr e de ave, que êles chamam divina... os imbecis! não mais existirá nos filhos dêles, reflectindo nos olhos já doentes, a farça de viver, como nos velhos... Será assim um dia, será assim. Onde irão depois refugiar-se? Nos braços do amor, do amor dêles, em que um olhar de mulher lembra um naufrágio, e faz que, cada trança, por mais loira, venha a ser sempre a fôrca de um destino! A terra será a catedral do sofrimento, fim da farça sinistra que êles vivem, a inventar anestésicos e dores!
Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo, certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quási paralítica, consola-me pensar que nenhum dêles será nunca o que eu fui, asas e garras, vivendo pr'ó Desejo pelo instinto, e em nomaderias de vertigem, amando tudo, tudo, a terra tôda, na luxúria suprema e inconsciente, de viver, de viver só por viver!
Fêz uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos de delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o meu destino.
Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que um crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.
--Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...
Lambeu-me um calefrio de vertigem.
Era demais, meu Deus, era de mais! Não era já o meu orgulho em chaga, enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo terror era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria de alma tôda, era mostrar-lhe o coração dos homens p'ra que ela o visse bem e tão patente, como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Pr'à convencer daria tudo, tudo. Procurava um meio, sem achar. Sentia a inanidade das palavras. Com uma idea súbita falei-lhe:
--Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.
Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra. Eu continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:
--Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas. Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A noite arqueia ao pêso das estrelas... Uma palavra sua e abro-lhe a porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...
O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fôsse fadiga ou tédio. E num becejo vago, interrogou-me:
--Vai abrir-me a gaiola... mas p'ra quê?...
--P'ra quê?! P'ra que antes de morrer domine o espaço... p'ra sentir a vertigem do infinito...
--Eu?!... repetiu numa fleugma desdenhosa. Eu?!... Saír dêste poleiro, da gaiola? Não sou doida varrida por emquanto. Saír da minha casa, do conforto pr'á incerteza da noite, p'rò mistério?... Sou uma águia mas vivi entre homens. Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me arranca as asas velhas? E se chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem com as garras enluvadas eu me atrevo... Nem que me cubra as asas de impermeáveis...
Nem com um _water-proof_, nem assim...
A águia ria, ria doidamente. Crispei as mãos nos arames, exasperado, e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de confissão, quási febril:
--Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros, imagina...
É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: oiça! oiça!
Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me, acredite. Quero tambêm dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar, contar-lhe tudo...
Bateu as asas com um ruído sêco, e num timbre fatídico de corvo, com uma voz de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:
--_É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao travesseiro._
Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda á esperança, pus-me a gritar p'rà gaiola, tontamente:
--É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu, escute... Queria ser forte e belo, queria...
Falei, falei, falei... Não sei que disse.
Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideas, raivas, desesperos. Parei por fim.
Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o vulto de sombra sôbre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi então uma sineta banalíssima, a pôr-me fora sêcamente: era já tarde. Olhei ainda a gaiola, despedi-me, atirei-lhe p'ra lá um «adeus» surdo. Ao passar na jaula do leopardo, senti um cheiro mau a carne podre. Vi-lhe o vulto enigmático de esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os olhos de oiro fulvo, fuzilando. Se aquele me falasse, o que diria!... Atravessei o parque silencioso, como numa balada, com terror. Vi nas acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado por folhagens onde um langor de outono se esfolhava, e à saída já, p'ra me calmar, molhei as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado.
Achei-me emfim na rua, longe dela.
Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada, disse-me adeus um côco conhecido: dobrava a esquina um eléctrico apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.
Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso mais falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.
O PRECOCE
A João de Barros
O precoce
Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se reuniam no seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade meiga, como se dessa cabeça de precoce, ungida de sossêgo, dos seus olhos de adivinho, de um veludo grande e calmo, se exalasse paz, uma paz clara, em que tudo se perdoasse e se esquecesse.
Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia, p'ra contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente ao doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara fina um pouco vaga, como a de todos os que vivem no silêncio como outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma figurinha de mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de carícia, todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga. Adoravam-no. Mas agora, martirisado de dores, a consumir-se dia a dia, as mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um móvel estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite, a sombra vinha,--tremiam no silêncio, tinham medo, como se disfarçadamente a Morte entrasse, viesse de mansinho p'ra gelá-lo.
Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguêm se voltava, logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a porta de soslaio, como se esperassem alguêm, uma visita...
Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as coisas mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam como fôlhas sêcas e nos olhos de todos havia uma expressão de adeus. Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo a dobra do lençol, de veias altas, entumecidas de ternura, e poisarem numa geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção louca, religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar, numa oração. É que essa creança era a sua própria alma, presa naquele leito como um passarito enfêrmo, abrindo p'ra ela olhos enormes, como p'rá decorar bem, antes de partir; e dizendo de quando em quando: «mamã, minha mamã», num rumor de asa cansada.
Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, bôca de lábios finos, mento curto, bosselado em covinhas, que a magreza já quási que delira. Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e qualquer coisa, o mais simples aspecto, o distraía como numa visão inconsciente.
Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre, doente, a tremer todo, e quando o pai o interrogou, só pôde dizer «que não era nada, que não tinha nada». Mas à noite, quando a mãe ia a deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num chôro brusco, e mal pôde pedir entre soluços, de mãos postas, p'ra não voltar... p'ra não voltar mais ao colégio.
--Sossega, meu filhinho. Quem te fêz mal? Que te fizeram? Não voltas mais, não voltas mais. Que te fizeram?...
--Vi bater num menino.
E outra vez o chôro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho de arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais resolveram que tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse. Ao caír das tardes, com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em pouco tempo, por entre confidências que eram beijos, êle aprendeu maravilhado a ler. O seu amor cresceu ainda, como regado de gratidão. Dizia «mamã» como quem reza.
Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal; chamavam-no, e como êle era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa grande ternura protectora. Êle não ia, desculpava-se. Preferia ficar junto dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.
--Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.
Êle erguia os seus olhos de veludo:
--Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom p'ra mim.
Raro saíam. Ás vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz p'ra ver o mar. Voltavam ao anoitecer. Falavam pouco.
--Gostas do mar, Milinho?
--Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.
Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o pequenino teve tosse e cuspiu sangue.
--Que te dói? Dói-te o peito?
--Pouco, mamã. Não se aflija. Não há-de ser nada.
O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma conferência larga. E foi então que o terror abriu sôbre ela as asas concavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada instante, p'ra ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, p'ra senti-lo. A tosse dêle feria-lhe tambêm o peito; transia-a tôda, como um dobre. Vestia-se à tôa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros filhos, família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe importavam agora, se o seu filhinho estava mal?
E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava a sorrir, muito feliz, como se fôsse um ser de conto preso num lindo encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguem o achar melhor, foi-se esvaindo o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da esperança, galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com tôda a carne e tôda a alma.
O casamento tinha sido, p'rá sua índole delicada de romântica, uma decepção dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises, não sofreu violentamente. Foi um esperecer lento da ilusão; todo o seu sentimento que morria como uma planta à sêde; e ela curvara a cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que se esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um pouco animal, foi-a calmando; o seu passado de sonho estava longe, nas águas mortas da memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os sobressaltos de nervos de outros tempos, uma vida normal e clara, no seu lar, entre os seus. Era uma renúncia sem tortura, inconsciente.
Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do marido vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na memória, na mesma cinza neutra, pardamente. Vivia como se fôsse a própria sombra. Já não esperava ter mais filhos. Quando soube que ia ser mãe ainda uma vez, teve a emoção maior da sua vida. Certo, ela foi sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e muito. Mas agora era diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais que os outros: era o filho dela e do seu _sonho_... Ressuscitou em si mesma: renasceu. O seu sangue resava nas artérias promessas que antes não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que êsse filho era a compensação que Deus lhe dava, quási um milagre, a flôr inesperada em que o seu sonho redivivo iria abrir.
A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num automatismo frio e resignado, fôra uma provação, tinha passado: e os seus nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida sufocara, calcado em resignação, morrendo à sêde, renasciam a vibrar de esperança, davam-lhe uma beatitude transcendente.
O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino abençoado, com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar que êle lhe desse, pressentiria um evangelho novo como um beijo a correr-lhe tôda a alma... Tudo mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos filhos, ao marido, que interpretava a estranheza dos seus modos como a mudança de carácter, os caprichos que muitas mulheres tem naquele estado. Se a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões, isolava-se, desaparecia de repente, como alguêm que vive p'ra um segrêdo e receia que os outros lho desvendem. Parecia mais alta, elanguescida, com grandes olhos sempre a olhar p'ra dentro, como teem certas aves e os mármores.
Em solteira, nunca fêz confidências às amigas. Tecia a sua teia no mistério. Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam bem o seu carácter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si mesma e sem vaidade, deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo de pureza à flôr de um lago. Mesmo no seu isolamento da província, onde vivera com os pais até casar, lia pouco e sempre os mesmos livros: vidas de santas, lendas de conventos. Exaltava-se com êles, tinha fé em qualquer coisa que Deus lhe reservava. Durante os serões lentos, costurando, scismava que nascera para freira. Toda a sua energia, a sua força, abrasava o seu sonho, era interior: e quando batiam à porta da sua alma, ela saía distraída, resignada, a obedecer aos seus passivamente. Esperava contudo _um não sei quê_. O Destino dissera-lhe um segrêdo. E sem contar a ninguêm o que pensava, vivia como uma eleita: estava à espera... Os seus vinte anos em flôr eram p'ra êle.
Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a casarem. Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a anestesia na sonolência banal dos seus cuidados.
Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz. Êle era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o. Quando viu que aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga, continuava nos seus braços abstraída, com um olhar desencantado e quási triste, compreendeu que fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um lindo fruto: erguendo o braço. Tentou então insinuar-se pouco a pouco, interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se, desistiu. Como não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o apaixonava, contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lialdade e de doçura, desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu lar, e vivendo p'ra êle, para os filhos, e para aquela vida inviolada que desfocava os seus olhos noutros céus... Como porêm tudo mudara agora!
Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e o médico lembrou que p'rà calmar, era melhor uma mudança de ares, uma temporada na aldeia ou à beira-mar. Partiu então p'rò Minho, para a quinta, e como nem o marido nem os filhos podiam nesse tempo acompanhá-la, levou consigo apenas as criadas, dizendo que preferia ficar só na grande paz do campo, a sossegar.
Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança que subia com as seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que doirava o ar.
Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes quando os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar, e à hora das regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes, quando as estrelas vem, tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros, e nos paúis, pobres poetas liricos, os sapos piam comovidamente. Nunca sentira tanto a natureza.
E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora suprema, querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã que o sol rompesse p'ra descer aos homens...
Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos palácios de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a olhar as jóias, os anéis, a pedras preciosas esparsas na sua mesa de doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas, encantados...
Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por quanto tempo?... P'rò distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e deu-lhos, e como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe tambêm os que traziam. Mas quando iam nessa noite a despedir-se, êle ficou tão triste ao entregá-los, que o tio Eduardo propôs que lhos deixassem e todos imediatamente consentiram.
--Fica com êles, Milinho, guarda-os, guarda-os.
--Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...
--São todos teus, são todos teus, meu filho.
Então em roda todos confirmaram a mentira damor que o alegrava.
Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de gandezas. Mas nesta tarde, ou porque o conto mais o impressionasse, ou porque estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais negros, maguavam-se fitando as pedrarias, êsse baile de côres e de reflexos que pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dêle os contagiasse, tinham fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os olhos fascinado.
--Que lindo, mamã, veja que lindo!
Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos que asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais longe deu Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse a vibrar até ao quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E êle, erguendo os braços de repente, deixou-os ir cahindo sôbre as jóias, cobriu-as com as palmas das mãosinhas, puxando-as contra o peito avaramente:
--São todas minhas, não é? São todas minhas...
--Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sôbre elas com esfôrço, como se fôsse p'ràs beijar, branco de cera, e repetiu ainda extasiado:
--É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguêm. São todas minhas.
Espalhou-as um pouco sôbre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a olhá-los, e sorrindo à idea que tivera, disse baixinho:
--Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante, largos de mais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num desespero mudo, a arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o ajudaram. Levantaram-lhe as mãos quentes de febre, e enfiaram-lhe os anéis nos dedos ósseos, que êle ergueu quanto pôde, deslumbrado.
--Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma avé-maria, vou rezar.