Scenas da Foz

Chapter 10

Chapter 103,969 wordsPublic domain

Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso: «Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. _Leocadia._»

Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça. Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do pai de Leocadia.

Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.

Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai passar-se na sala do coronel.

IX.

Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. Não viu alguem, e parou, ao segundo passo, com as mãos juntas na aba do chapéo, e os olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.

A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mão direita estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canapé, entrou, affavelmente encarado, como Vasco o não vira nunca.

«Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como dous homens velhos--disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo outro ao mancebo.--Já toma o seu cigarrito? A apostar que sim?

--Não senhor, não fumo.

«Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros começa a ter boa hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a mocidade, apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do cigarro, e aprende logo a resfolegar o fumo pelo nariz. É o tom, dizem elles, desde 1820 para cá. Parece-me que esta geração sahida do ovo, e a outra que está no chôco, hão-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a modo de nabal espigado. Não sei se me entende: quero dizer que a seiva forte de nossos pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores e fructos, cada cousa em tempo proprio, dará fructos temporãos, bichosos, desses que passam sem termo medio do verde ao podre. Não acha?

--Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu--disse modestamente o moço.

«E pensa bem para a sua idade. Os vicios são de todas as épocas, mas o do cigarro é muito moderno entre nós, ha-de confessar!

Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se, um d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não era de certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de Borgias, que envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas orgias dos outros...

«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber--disse Gervasio Leite--o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...

Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse nome.

«Minha filha Leocadia--proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro na ponta do segundo--tinha lá um segredo no coração, mas não segredo para o snr. Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes muito com os maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca pela roupa. Este ruim vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o cigarro.

O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não tinha recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco, ou parecêra-lhe grosseiro de mais o confronto do segredo santo da filha com o perfido da adultera.

Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor, continuou:

«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas razões respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é rapaz, ambos sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro cego, valha a verdade, que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que elle seja mais do que cego... em quanto a mim é surdo, por que não ouve razões, é cego por que não vê precipicios, é mudo por que só tem lingua para fallar a linguagem que não está nos diccionarios, nem póde applicar-se a estes objectos da vida real que se veem, e apalpam, e sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil cortejo da realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe ao meu genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar a vida como se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos o mesmo X, dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me esta rhetorica de tarimba.

Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do meu general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel do general Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É necessario ter cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da alma, para conciliar duas idêas contrarias: ter compaixão de duas pessoas que se julgam felizes unindo-se. Ora eu me explico, e, quando não entender o meu vocabulario cá debaixo do mundo real, falle.

A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella, junto ao meu soldo, difficilmente tem chegado para a educação de Leocadia. Minha filha é pobre.

--Oh senhor!--interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.

«Diga, diga, o que ia dizer.

--Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.

«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher que se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem amei uma mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me levantei uma bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que tinha umas leiras que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil reis, o maximo. Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão das mais racionaes que eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para apparecer n'um baile em Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da esterilidade de Sara. Desde esse dia, meu caro snr. Vasco, quiz-me parecer que a minha situação de solteiro era melhor que a de casado. Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um posto inferior áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces chimeras de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que me descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para viver e morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a tractei, algumas dividas que ainda estou pagando hoje.

Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e eu, com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os generos e feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa criança sem mãi, filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu poderia; mas legar-lhe um patrimonio, como é preciso que uma senhora o tenha, para poder escolher um marido, não podia. Um pai, que ambiciona avaramente para seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e sabe como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher aborrecida, por que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho, herdeiro de um grande casal, e além de todas as probabilidades favoraveis ao meu pensamento, estipulamos, eu e ella, a condição de que Leocadia seria mulher do meu enteado.»

Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira, branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando os olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.

«Então, snr. Vasco, isso que é?--disse Gervasio, tomando-lhe affectuosamente a mão--Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que faça justiça ao pai da mulher que será sempre sua amiga. É preciso que sejamos tres no sacrificio.

--Qual sacrificio?--balbuciou Vasco.

«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos, seja o meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe tracei, convencendo-se um e outro de que serão infelizes, desobedecendo-me.

Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos. Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com intimativa:

--Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.

X.

E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da sala, e desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça para agradecer ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da sala.

No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe levava as cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no barril, examinando os pregos dos sapatos, e calculando talvez os emolumentos que cobrára da sua posição importantemente diplomatica entre dous corações rendidos.

Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos interiores da jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com o barril para o hombro, e não esperou resposta.

Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de ser visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um canto do pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais copiosas, debaixo da pressão do lenço.

«Que dirá esta carta?»--perguntava elle ao seu coração--«Será o adeus de Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»

Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no pateo um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com grande tropel. Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco não o vira nunca; mas pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á campina, e bota branca de canhão alto, conheceu o enteado do coronel, em que Leocadia lhe fallára algumas vezes, porque sua madrasta lhe estava sempre elogiando o talento, e encarecendo o grande morgadio.

Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado, e cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para receber nos braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao recem-chegado se encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta; porém, lembrou-se de que a pergunta provocaria outras. A este tempo descia com grande alvoroço a mãi de Francisco, com os braços abertos; e o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu o braço á mãi, que estava gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.

D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:

«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que desgraça nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas bellas esperanças não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a vontade de meu pai; mas o juramento que fiz de amar-te eternamente é superior a tudo. Sou mais tua do que de mim propria, meu querido Vasco. Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu pai; não posso; porque me lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não podemos esperar que o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que só hontem me foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra o tal homem. Decide, meu amigo. Em ultimo recurso, eu fujo de casa para ti; e depois... o que Deus quizer. Não seremos tão infelizes como meu pai diz, não achas, Vasco? Diz-me que não; dá-me animo para lhe desobedecer. Não sei se te demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao gallego, que te espere com esta carta.

Tua L.»

Quando Leocadia (ahi vão reflexões philosophicas) me mostrou, entre outras, esta carta, pasmei, como a gente pasma, até certa idade, das maravilhas que se fazem no coração das raparigas! Aqui ha trinta annos, se me dissessem que uma donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das mestras dos collegios de então, namorada pela primeira vez, pouco ou nada lida em novellas, e menos ainda experimentada nos romances ineditos de portas a dentro, se me dissessem que essa tal, contrariada pelo pai nas suas virginaes affeições, escrevera similhante carta ao namoro, eu não acreditaria, sem vêr a carta reconhecida pelo signal publico e razo d'um tabellião de provada moralidade.

Pois não parece incrivel?

Hoje que não ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijões da alma--porque esta geração veio realmente estropeada e canhota do espirito--hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar sereno e puro do collegio, comparo-a eu á rôla creada na gaiola, que nunca esvoaçou, nem sabe a serventia das suas azas, está contente do espaço, e da abundancia que tem, não sente o captiveiro... e, se, por descuido, deixaes aberta a porta da gaiola, a boa da rolinha mette primeiro a cabeça ao ar livre, sacode as pennas das azas virgens, desfere um vôo rasgado, sobe, sobe, e adeus!

«Era o instincto!» dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe fugira. Pelo instincto é que eu, philosopho de toda a passarinhada, explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que ellas se vão do ninho para as altas regiões dos açores e dos milhafres, onde, quando o diabo quer, dão grande banquete ás aves de rapina que são tantas como os nossos peccados, por esses céos d'anil, onde os poetas imaginam colonias de amantes felizes.

Isto é hoje, que só me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que Deus formou d'uma costella homogénea:--mas, ha vinte e oito annos, quando Leocadia me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar palerma, e disse-lhe:

«V. exc.ª, quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extensão da loucura que fazia, entregando-se assim á descripção d'outra criança, sem casa, sem vida, sem habilitações para o trabalho?

--Então o senhor não sabe o que é uma paixão!...

«É que eu cuidava, minha querida irmã...

Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu seriamente a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou tres pessoas ás quaes eu chamava irmãs, disse-me, sorrindo, que tinha dezesete irmãs assim. O meu amigo pertence á geração nova, em que estas fraternidades não tem provado bem, porque, ordinariamente, os parentescos complicam-se de modo que não é facil saber-se quando se é tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo está virado! No meu tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje se chamam _não-comprehendidas_ na terra, ou porque entre ellas e outras de eleição paternal e intervenção ecclesiastica não havia analogia de gostos, ou porque as posições sociaes não permittiam um enlace, ou, finalmente, porque era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente desalojar-se--em qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no catalogo dos parentescos honestos, e ficavam irmãos toda a vida. Eu hoje conheço netos das minhas irmãs de então, e glorio-me de ser tio-avô de creanças muito gordinhas, que puxam ás avós as rêpas escassas das tranças d'ebano e ouro dos meus bons tempos...

As _irmãs_ de hoje...--diz muito bem o meu amigo--arranjam-se ás dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade não as reputa incestuosas...

As _não-comprehendidas_ contam em estylo lamuriante o vasio das suas almas a confidentes denominados _irmãos_, em momentos de expansiva familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra d'este mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo. Ora, acontece quasi sempre uma cousa muito racional: o _irmão_ apresenta-se com procuração bastante do _anjo_, com poderes _in-solidum_. Passado algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o procurador escandalosamente encartado no usu-fructo do dominio e acção d'uma propriedade, que (aqui entre nós) os anjos não quereriam, nem eu, só pela decima, os cinco por cento, e os mais impostos annexos ao merinaque.

A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo, que ella me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo, talvez sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o sorriso parvo ou mau da suspeita correspondesse á melancolica saudade com que vou recordando palavras da minha pobre irmã.

Atem agora o fio partido do dialogo.

«É que eu cuidava, minha querida irmã--disse eu--que o amor na sua idade, e com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem humanos de mais, rasteiramente humanos...

--Que quer dizer?

«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe alguma vez esse acto?

--Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu pai, e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo, estava eu chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga. Não senti aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a acção de fugir á desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim, mortificou-me; porém, entre o remorso e a paixão, a lucta decidiu-se pelo amor.

«E a idéa do seu descredito?

--Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe que as suas analyses tem sido feitas sobre corações muito experimentados. Uma mulher receia o descredito só depois que sabe a maneira como elle se alcança. Eu não sabia nada, meu amigo. Se me dissessem que eu corria risco de ser coberta de infamia por fugir para Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me dissessem que Vasco era capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que me lançára cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que zombava da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente guarda tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer feliz, com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua pureza para o galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e ficar ainda na obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o senhor! As que fallam no seu descredito, se tem de rebater a instancia de sacrificios, essas são as que querem estar bem com a sociedade, conhecem-na, fazem parte d'ella, e lançaram já muitas favas pretas contra o credito de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação dos diplomas de virtude, que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no manto da hypocrisia, ou mascarar o escandalo de qualquer modo.

Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a interrompi. Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas, que eu tive o descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se dizia romanticismo, mas ás mulheres, que fallavam muito e bem, chamavam-lhes os alvares, pais dos que hoje vegetam, _pispontadas_, ou _pronosticas_.

Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria, lhe tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o livro intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das minhas leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes calamitosos tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para luctarem com a materia que as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual elemento!

Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões philosophicas! Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso ser superior a este bacharellar de homem entendido na sciencia das almas dos outros, porque, lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já agora morrerei com esta sphinge cá dentro não sei aonde.

Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo que as primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria; e as ultimas com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.

Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.

Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira perturbado da entrevista com o coronel. De lá a sua casa lembrou-lhe o suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do coração. Convencido de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a, encontrou o remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se doudo: eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta da morte estava aberta.

Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente mortal no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo succedeu o pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no as lagrimas.

Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que Lucifer cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua providencia, não teria um telhado que a cobrisse, porque em casa de Vasco dominava a razão da virtude que não acceitaria uma filha familia fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que absolvesse um filho segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que elle filho segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a pobre menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais a consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai, conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como leprosa de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe disse a razão do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias vigentes da sociedade, austera para uns, tolerante para outros, draconiana para os desvalidos, venal para os poderosos.

Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações contrarias.

Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:

«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se tudo. Isto é tão atroz que parece impossivel. É verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje a minha sepultura. Esperava morrer cêdo, mas tão depressa não queria. Vivia de esperanças, e agora é tudo negro diante de mim. Venha a morte, e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem alma, nem forças. O que me dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão certo para cada dia. Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci de braço e de animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós. Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas espera alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este beneficio. Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar sósinha sem testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu ouro, porque choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não assim. Isto é muito; e para estas agonias é que a morte sahiu das mãos de Deus. O Senhor te faça feliz, e a minha memoria te seja sempre saudosa e compassiva.

«_Vasco._»

Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça. Escondeu a face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava a agonia do vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda e calafrios. Quiz respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue que salpicou a carta. Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na rua o aguadeiro que esperava a resposta. Desceu as escadas encostado ao corrimão, entregou a carta, quiz retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um degrau, susteve o sangue no lenço, encostou a face á cantaria, e murmurou:

«Se Deus quizesse que fosse já?...»

--O que?!--perguntou uma voz perto d'elle.

Era a mãi, que descia para sahir.

--O que, meu filho?!--repetiu ella.

«A morte.»