Scenas Contemporaneas

Chapter 6

Chapter 63,812 wordsPublic domain

«As privações de então eram semelhantes, ás privações de agora, com a differença, porém, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, não podia já prometter o futuro da Laura de então.

«Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e pasmemos diante das evoluções gymnasticas dos acontecimentos.

«Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a attenção dos capitalistas, a consideração do governo, e, por via de regra, desafia inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio de vida para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.

«Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais barato ainda, compra o titulo de visconde do Prado.

«Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da politica o pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas, as seguintes allusões:

«O snr. visconde do Prado adscreveu á immoralidade do governo a immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, dil-o-hiam as costas d'Africa se os sertões contassem os horrorosos dramas da escravatura, em que o snr. visconde foi heroe. ...........................................................................

«O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a pobre mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, ninguem dirá em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em que agua-furtada curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. visconde medrava cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades no theatro das suas infamias de esposo e de pai................

«Melhor fôra que o snr. visconde indagasse onde repousam os ossos de sua mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um padrão de marmore, que possa attestar ao menos o remorso d'um infame contricto...

«Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruido em Lisboa. As edições do jornal espalharam-se, e leram-se, e commentaram-se com frenetica maldade.

«Ás mãos de Laura chegou este jornal. Sua mãi, ouvindo lêl-o, delirou. A filha cuidou que sonhava; e a situação de ambas perderia muito se eu tentasse roubar-lhe as côres vigorosas da tua imaginação.

«No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do visconde do Prado. O porteiro respondeu que s. exc.^a não estava ainda a pé. Esperaram. Ás 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem, viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mão ao bolso do collete, e tirou doze vintens que lançava na mão de uma das duas mulheres. Olhou admirado para ellas, quando viu que a esmola lhe era recusada.

«--Que querem?--interrogou elle, com soberba indignação.

«--Quero vêr meu marido que não vejo, ha 26 annos...--respondeu Josepha.

«O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na testa em bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a mão...

«--Pois que?...--interpellou o visconde.

«--Sou sua filha...--respondeu Laura com humildoso respeito.

«O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas á carruagem, e mandou ás duas mulheres que o seguissem.

«O resto no correio seguinte.--Adeus, Carlos.

_Henriqueta_.»

VIII.

«Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha peregrinação. A minha illiada está no ultimo canto. Quero dizer-te que é esta a minha penultima carta.

«Não sou tão independente como pensava. A não serem os poetas, ninguem gosta de contar as suas magoas ao vento. É bello dizer-se, que um gemido nas azas da brisa vai da terra em dorido suspirar até ao côro dos anjos. É bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar á avesinha gemedôra os segredos do nosso penar. Tudo isto é delicioso d'uma puerilidade inoffensiva; mas eu, Carlos, não tenho alma para estas cousas, nem engenho para estes artificios.

«Vou contando as minhas penas a um homem, que não póde zombar de minhas lagrimas, sem trahir a generosidade do seu coração, e a sensibilidade do talento Sabes qual é o meu egoismo, o meu estipendio n'este trabalho, n'esta franqueza d'alma, que ninguem te póde disputar como unico em merecêl-a? Eu te digo. Quero uma carta tua, dirigida a Angelica Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; não tenhas pejo em denuncial-a; associa-te um momento á minha dôr, e dize-me o que farias se tivesses sido Henriqueta.

«Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o lance extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e a... como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.^{ma} filha D. Laura.

«--Pois é possivel existires?--perguntava o visconde, sinceramente admirado, a sua mulher.

«--Pois não me conheces, Antonio?--respondia ella com estupida naturalidade.

«--Tinham-me dito que morreras...--tornou elle com desazada hypocrisia--tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha tinheis sido victimas da cholera-morbus...

«--Felizmente que lhe mentiram--interrompeu Laura com affectada meiguice.--Nós é que lhe tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de pronunciar o seu nome sem saudosas lagrimas.

«--Como tendes vivido?--perguntou o visconde.

«--Pobre, mas honradamente--respondeu Josepha, dando-se uns ares austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céo por testemunha.

«--Ainda bem!--tornou o visconde--mas que modo de vida tem sido o vosso?

«--O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha tem sido o amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos com tamanha crueldade!... Que mal te fizemos nós?

«--Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas?--respondeu o visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancar duas volumosas lagrimas, tanto a proposito.

«--O passado, passado--disse Laura, afagando carinhosamente as mãos paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes de illudir S. Simão Stylita.--Quer o pai saber (proseguiu ella com sentimento) qual tem sido a minha vida? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado incessantemente... tenho luctado com as tentações da penuria, e tenho feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...

«--Bem, minha filha--interrompeu o visconde com sincera contrição--esqueçamos o passado.... D'hora em diante será a abundancia a premio da tua virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu és minha filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?

«--Não, meu pai.--Não meu Antoninho.--Responderam ambas, como se tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.

«--Pois bem--continuou o visconde--vamos a conciliar com o mundo as nossas posições presentes, passadas e futuras. D'hora ávante, Laura, és minha filha, és filha do visconde do Prado, e não pódes chamar-te Laura. Serás Elisa, comprehendes-me? é necessario que te chames Elisa...

«--Sim, meu pai... eu serei Elisa--atalhou a _innocente modista_ com impetuosa alegria.

«--É necessario abandonar Lisboa--proseguiu o visconde.

«--Sim, sim, meu pai... vivamos num sertão... quero gosar, sosinha, na presença de Deus a felicidade de ter pai...

«--Não hiremos para um sertão... vamos para Londres; mas... attendam-me... é preciso que ninguem as veja, n'estes primeiros annos, principalmente em Lisboa... A minha posição actual é muito melindrosa. Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... Josepha, repara em ti, e vê que és a viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta sociedade. Voltaremos um dia, e terás então supprido com a educação pratica a rudeza que indispensavelmente tens.

«Não progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma do visconde foi rigorosamente cumprido.

«Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio dizer-me que acabava de vêr, elegantemente trajada, uma mulher que conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou varias circumstancias da vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo opulento, a quem tal mulher estava associada.

«Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os unicos portuguezes eram Vasco de Seabra e _sua irmã_, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua filha D. Elisa Pimentel.

«Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma illusão.

«No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles gritos barbaros dos serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. Vasco não duvidou em ser interprete do visconde, com tanto que as suas luzes em lingua ingleza podessem chegar ao escondrijo d'onde nunca mais vira sahir a supposta Laura.

«Correram as cousas á medida do seu desejo. Na noite d'esse dia, fomos convidados para tomar chá, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me d'este temor, afiançando-me que se tinha illudido com a semelhança das duas mulheres.

«Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artificio tirou maior partido das maneiras adquiridas em habitos libertinos. Elisa era a mulher de côrte, com os ademans fascinadores dos salões, onde a immoralidade do coração passeia de braço dado com a illustração do espirito. O som da palavra, a escolha da phrase, a compostura airosa da mimica, o tom sublime em que as suas idêas eram voluptuosamente lançadas na torrente de uma conversação animada, tudo isto me fez crêr que Laura era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada á feição do meu espirito.

«Quando agora pergunto á minha consciencia como estas transições se fazem, descreio da educação, lamento os annos consumidos no cultivo da intelligencia, e chego a persuadir-me que a escóla da devassidão é a ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da graça e da civilisação.

«Perdôa-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na vida, que só pelo absurdo se explicam.

_Henriqueta_.»

IX.

«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o coração de reconhecimento. Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de egoismo que entorpece o espirito, e calcina o coração. E, de mais, suppunha-te insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui um disparate, que eu não ousaria balbuciar na presença do mundo. O que vale é que as minhas cartas não serão lidas pelas mediocridades, que se acham em concilio permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas conveniencias, as heresias do genio.

«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu fórmo do homem transcendente em genio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes.

«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo proclama virtuosos, e sabios. Deixal-os proclamar. O talento não é a sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a sciencia. O talento é a vibração convulsiva do espirito, a originalidade inventiva e rebelde á authoridade, a viagem extatica pelas regiões incognitas da idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós, Voltaire e Byron são talentos. Compara as vicissitudes d'essas duas mulheres, e os serviços prestados á humanidade por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em que luctam o talento com a sabedoria.

«Porque é mau o homem de talento? Essa bella flôr porque tem no seio um espinho envenenado? Essa esplendida taça de brilhantes e ouro porque é que contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?

«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á cabeça d'uma mulher, ainda mesmo reforçada por duas duzias de cabeças academicas!

«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter talento. Pedi-lhe as circumstancias do seu martyrio sublime, e respondeu-me o seguinte com a mais profunda convicção, e a mais tocante solemnidade philosophica: Os talentos são raros, e os estupidos são muitos. Os estupidos guerream barbaramente o talento: são os vandalos do mundo espiritual. O talento não tem partido n'esta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em silencio aquelle fel de vingança, que, mais cedo ou mais tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra desviado do corpo do exercito.

«Ahi tem--acrescentou elle--a razão porque o homem de talento é perigoso na sociedade. O odio inspira-lhe a eloquencia da traição. A mulher, que lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, acredita-o, abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu algoz, e pedindo á sociedade que grite com ella.

«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos acreditar este doudo. Eu por mim não me satisfaço com o seu systema, todavia sinto-me propensa a aperfeiçoar o prisma do doudo, até encontrar as côres inalteraveis do juizo.

«Seja o que fôr, eu creio que és uma excepção e não soffra com isto a tua modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias, escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha Thebaida, sem cilicios, sim?

«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se diz, que não vale nada.

«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. Não era ella, porém, tão intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra não era meu irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o segredo de nossas relações. Bem longe estava eu de comprehender este zelo de virtuosa honestidade, quando a mão d'um demonio me tirou a venda dos olhos.

«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de admiração, mas acredita que foi uma urgencia rhetorica, uma composição artistica, que me obrigou a admirar-me, escrevendo, de cousas que me não admiram, pensando.

«Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher, que despresei o mundo, e me despresei a mim propria para satisfazer-lhe o capricho d'alguns mezes? Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha, supposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle... Vasco amava a filha do visconde do Prado, a _Laura_ d'alguns mezes antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei quantos centos de contos de reis.

«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao é verdade, Carlos? Não devo soffrer um instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com uma grilheta d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para não ouvir-lhe o ruido... a sentença do forçado que o segue até ao fim d'uma existencia farta de opprobrio, e celebre de infamias!

«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma ulcera que não tem cura... choro, porque é intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não tenho lagrimas que não sejam remorsos... não tenho remorsos que não sejam picados pela affronta que fiz a minha mãi, e a meu irmão... Não me doe o meu proprio aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo, algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o desejo de torturar-me...

«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, meu paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e hei-de conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me converter em estatua, como a mulher de Loth, quando olho com attenção para o meu passado...

«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não sei como recebeu o convite; o que eu sei é que os vinculos d'estas relações estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás. Foi ella a propria que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã! Isto é uma atrocidade sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias possiveis! O insulto não podia ser mais despedaçador! O punhal não podia entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de Seabra!... Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo! Tenho direito á tua compaixão, se não pódes estremecer de enthusiasmo diante do heroismo d'uma martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti fugir-me o entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na garganta... horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos labios um sorriso de imbecilidade...

«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha physionomia... Fez-me não sei que perguntas... não me lembro mesmo se aquella mulher permaneceu diante de mim... Basta!... não posso prolongar esta situação...

«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. Pedi-lhe que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; eram minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha mãi.

«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de almoço, visitava o visconde do Prado, escrevi estas linhas:

«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de ter deshonrado Henriqueta de Lencastre. Esta mulher sentia-se digna d'uma corôa de virgem, virgem do coração, virgem na sua honra, quando abandonava um villão, que não pôde infectar da sua infamia o coração da mulher, que arrastou ao abysmo da sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a salvou!»

«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui á estação dos caminhos de ferro.

«Dous dias depois entrava n'um paquete.

«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as mãos, e chorei... Era a vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céo. Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.

«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não m'a negou. Aluguei uma agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; onde, ha quatro annos, comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilicios do meu remorso.

«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não haja um indicio da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs.

«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que disse que seu marido a abandonára, chamando-lhe _Laura_. Aquella está punida...

«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma pequena aventura, que aproveitei para tornar menos insipidas aquellas horas, em que me acompanhaste... Foi uma rival que não honra ninguem... uma _Laura_ com os respeitos publicos, e as considerações que se barateiam a corpos ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era feliz, quando o infame amante d'essa mulher me dava aquelle annel, que viste, como oblação de sacrificio que me fazia d'uma rival...

«Escreve-me.

«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.

«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:

«Não me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da historia, que te contei?

_Henriqueta_.»

X.

É natural a exaltação de Carlos, depois de erguido o véo, em que se escondiam os mysterios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do bello, e pela poesia da desgraça, Carlos não teve nunca impressão na vida, que mais lhe incendiasse uma paixão!

As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem esperança. Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, imprimiu-os n'aquellas cartas escriptas, debaixo de uma impressão, que lhe roubava a tranquilidade do somno, e o refugio d'outros affectos.

Henriqueta respondera concisamente ás explosões d'um delirio, que nem sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta não podia amar. Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do coração. Esterilisaram-lhe a arvore dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instinctos do carinho brando, que acompanham a mulher até á sepultura.

Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um estalão moral para todas. Confiava no seu ascendente, em não sei que mulheres, entre as quaes lhe não fôra penoso nunca fixar o dia do seu triumpho.

Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel, adquire uma nova feição, e converte-se em paixão, como as paixões primeiras, que nos sopram a tempestade no limpido lago da adolescencia.

Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos pés d'aquella mulher, que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos.

Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginação, quando lhe occorreu a astuciosa lembrança de surprehender a morada de Henriqueta surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas, subscriptadas a Angela Michaela.

Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos empregou n'esta missão um vigia insuspeito.

No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.^o 628. O que a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e este homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo Ovidio. Feliz das vantagens, que lucrára em tal commissão, correu a encontrar-se com Carlos. É ocioso descrever a precipitação com que o enamorado mancebo, espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa. Em honra de Carlos, é necessario dizer que aquellas libras representavam a eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu favor, por isso que, á vista das informações que tivera da pobreza da casa, concluiu que não era alli a residencia de Henriqueta.

Acertou.

A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para dizer-lhe duas palavras.

A velha, que não podia receiar alguma aggressão traiçoeira aos seus virtuosos oitenta annos, franqueou os umbraes da sua possilga, e prestou ao seu hospede a cadeira unica do seu camarim de tecto de vigas, e pavimento de lages.

Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com que Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a á abertura da prosa, e conheceu de prompto as vantagens de ser classico, quando convém. A velha, quando viu cahir no regaço duas libras, sentiu o que nunca sentira a mais carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo. Luziram-lhe os olhos, e dançaram-lhe os nervos em todas as evoluções dos seus vinte e cinco annos.

Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes termos:

«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser repetido, se vm.^{ce} me fizer um grande serviço, que póde fazer-me. Vm.^{ce} recebeu, ha pouco, uma carta, e vai entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas minhas mãos. Estou certo que vm.^{ce} não ha-de querer occultar-me a morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O serviço que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, é este; póde fazer-m'o?

A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir de encontro á legenda, que D. João V. fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com mais algumas reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil á tentação do ouro, que lhe roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado refugio.

Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da _rua dos Pelames_, subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta. Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapéo de senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o rapaz fallou, e a porta foi immediatamente aberta.

Henriqueta estava sem dominó na presença de Carlos.