Saudades: história de menina e moça

Chapter 5

Chapter 54,186 wordsPublic domain

«E como assim o viu, foi logo dizê-lo a Aonia, correndo, tamanha pressa dava já a fortuna ao desastre, ou era vinda a hora que se não podia alongar. E, como lh'o houve dito, ocupou-se em negocios de casa.

«Levantou-se Aonia, e deitando só uma roupa grande sobre si (que, em camisa, estava ainda na cama) se foi ao eirado, e viu-o estar virado para aquela mesma parte. Mas, vendo-se Aonia no eirado, e vendo-o, lembrou-se logo de que ia toucada de um arrodilhado só, como se erguera; e ou por não parecer que se erguera então, ou já para não parecer mal, lançou uma manga da camisa sobre a cabeça, e se deixou estar assim.

«E, n'isto, começaram as vacas, pascendo, a rodeá-lo n'aquele lugar onde êle estava, que era uma maneira d'outeiro pequeno.

«Andando pascendo élas, umas para cá, e outras para lá, deixou-se de outra manada vir um touro grande e medonho, urrando, e lançando de quando em quando a terra sobre as ancas; e, d'outras vezes, parecia que a queria comer, meneando a cabeça para uma e outra parte.

«E, chegando ás vacas, começou tam feramente a pelejar com outro seu egual, que espanto fazia a éla, lá onde segura estava d'êles, não mais.

«E, andando assim, começaram de se ir chegando, com grande peleja, para o lugar onde êle estava. Mas vendo éla que não se mudava êle, nem tirava os olhos d'aquela parte onde olhava, antes parecia (segundo estava segura) que os não via, senão que isto não era para crêr; quando éla, de todo em todo, viu que os touros se iam chegando a êle, ficou esmorecida; e, tornando a si olhou. E, com o espaço que se metia em meio, tolhendo-lhe os touros a vista d'ele, parecendo-lhe que o tomavam debaixo, caiu para o outro lado, como morta.

«Vendo Bimnarder aquilo (que para outro lado não olhava) deu-lhe logo no coração o que era; e ainda que êle tivesse muitas razões para o duvidar, ou não o haver por certo, (pois de sua vontade, Aonia, não era sabedora, que êle soubesse) comtudo creu; porque assim o quis o bem-querer grande; que todas as cousas duvidosas fossem mais certas, ou por mais certas se crêssem.

«E, cobrando força da melancolia que houvera, pelo que suspeitou, com um cajado grande que tinha na mão, atirou ao touro alheio, que já a melhor do seu levava, e quis a sua dita que lhe quebrasse uma perna. E, lançando-se rijo e acordadamente para ele, o levou por um dos cornos. E como Bimnarder fosse de muito grandes forças, e com a ajuda do seu touro, que por instinto natural conheceu o socorro (e lhe tambem começou, por sua maneira, a ajudar) prontamente deu com o outro em terra; e virando-lhe a cabeça para o ar, o deixou que se não pôde bulir.

«Viram isto todos os de casa, que ao estrondo grande, e urros dos touros, acudiram; e foram todos espantados do esforço grande do pastor, e não falavam de outra cousa.

«A ama, que tambem o viu, foi-se em busca de Aonia, para lh'o contar; mas, não a achando na camara, lembrou-se que estaria no eirado. Indo lá, a achou deitada.

«Chegando-se a éla, a viu como passada d'este mundo, e, dando um ai grande, lançou a mão ao seu rosto; mas, ao brado, acordou Aonia, como cansada.

«E, parece, como trazia o pensamento ocupado do pastor, foi-se-lhe afigurar o que receava, pois cuidou que o que fazia a ama seria com dó do pastor, que assim tambem chorava éla quando lhe contava o que fizera êle o dia antecedente. E a primeira palavra que lhe disse foi:--«E o pastor?...»

«Descansou a ama com isto que lhe ouviu, parecendo-lhe que esmorecêra éla por ver a afronta tamanha em que se pusera o pastor, como é costume das mulheres.

«Mas n'éla era outra cousa maior, que estava ainda ha bem pouco tam longe de poder ser como éla de o poder então cuidar.

«Mas tudo já póde ser; ao longo tempo, não é nenhuma cousa nova.

«Contou-lhe então a velha ama tudo o que passara o pastor. E, tornada em suas forças, se ergueu Aonia, e puseram-se ambas um pouco a olhar para o touro, que no chão jazia.

«Estava ahi muita gente, dos oficiaes da obra e de casa; e se não fôra pela vergonha que havia Aonia de a verem, que era em extremo bem acostumada, não se fôra éla d'ali. Mas comtudo foi-se, já um pouco tam declaradamente contra sua vontade, que o entendeu éla; porém como era aquele o primeiro cuidado, não lhe pareceu de todo o que foi, senão que já consentia éla a si mesma cuidar que, se êle não fosse pastor, logo lhe quereria bem.

«Recolheu-se Aonia para a camara, a vestir-se; e, em se recolhendo, acertou de vir de fóra uma mulher de casa, que tambem, parece, saira a ver a peleja dos touros; e, entrando na casa onde ficara a ama, começou, um pouco alto, a falar-lhe, dizendo:

--«Quereis vós, senhora ama, saber?»

«Aqui, calou-se, como muito maravilhada.

«A esta palavra, que Aonia ouviu, se pôs a escutar detraz da guarda-porta da camara.

--«Quê! O pastor?» lhe tornou a ama.

--«É uma maravilha grande, lhe respondeu a mulher. Deveis saber (não sei se vos lembra) que este pastor é um cavaleiro que n'aquela ante-manhan, que a Deus prouve levar Belisa para si, chegou aqui e falou a Lamentor. Eu me acertei de estar então ahi, e o vi sair da tenda com os olhos cheios da senhora Aonia, e d'agoa; e, todo o tempo que ahi estivera d'antes, sempre a olhou de uma maneira como que não podia outra cousa fazer, e que não desejava fazer outra cousa. Que vos hei de dizer?! Verdadeiramente, me pareceu que se ia êle então como que lhe ficava ahi o coração. E, por isto que entendi, saí logo após êle para ver onde ia; e êle foi-se sentar junto de um freixo grande que ali está, onde foi a peleja dos touros. Eu não olhei mais o que êle fizera, nem o tempo era para isto disposto, senão agora, que fui ver aquilo que êle fez; e, em lhe pondo os olhos, deu-me logo a sombra d'êle, e tomei isto por mais misterio; porque, quando então, estava eu bem fóra de cuidar n'êle; por esta imaginação subita que me veio, tornei a atentar mais n'êle, e vi que não podia tirar os olhos de cá. E, quando vós vos fostes do eirado, ficou triste, mais que d'antes. Quanto a mim, bastou aquilo para confirmar a minha presunção; porque êle era aquele, como Deus é Deus!»

«Era esta mulher um poucochinho lingoareira; porém, era avisada, se o alguem era. Mas, pelo outro defeito que tinha, quis-se a ama encobrir d'éla; e, posto que aquilo tudo logo se lhe assentasse na alma, para o desfazer, disse-lhe que se fosse d'ali; que éla conhecia aquele pastor, e, por lhe ver um dia tanger uma flauta bem, perguntára por êle, e disseram-lhe que era filho do maioral de uma grande manada de vacas e gado que n'este vale anda.

«E assim se despediu d'éla; porém, a velha ama ficou crendo, por que bem sabia éla que os acertos em todas as cousas podiam muito, e no querer-bem mais que em todas élas.»

CAPITULO XXI

De que maneira Bimnarder se viu com Aonia

«Aonia, que estava escutando, ouviu toda esta pratica; e, comquanto a ama contradissera a outra, éla o creu. E não fôra isto nada, senão que, após a crença, foram todas as outras cousas que as crenças, n'estes casos, costumam trazer após si; que logo teve desejos, pensando em querer-bem; e já não havia dia nem hora que êle fosse certo de sua vontade para que se não apartasse d'ali por algum desastre, que éla começou a recear,--porque o verdadeiro bem-querer não póde estar muito tempo sem receios.

«Vêdes aqui como se namorou esta donzela de Bimnarder, que pareceu cousa feita de acinte; porque ambos se começaram a querer-bem sob uma sombra de piedade; e como haviam de acabar ambos de uma mesma maneira,--começaram assim tambem, ambos de dous, de uma!

«Aonia, logo que se determinou consigo, não pôde mais descansar.

«E como êle tivesse por costume vir sempre por derredor d'aqueles paços (que sumptuosos se faziam, á maravilha), por uma fresta alta, que na camara onde éla dormia fôra feita só para o lume, se subiu Aonia, sabendo que êle andava ahi.

«E, como o viu, com os desejos que tinha de o ver, e com o que consigo tinha assentado, pareceu-lhe não tam só assim como êle era, mas como éla queria que fosse.

«Depois de o éla estar olhando um pouco, bem á sua vontade, porque êle, ainda que contra a fresta com o rosto acertasse então de estar, acertou tambem de estar olhando para o chão, pensativo como costumava, teve éla tempo para o ver bem. Mas, depois de um pedaço bom, não suportando não ser vista por êle, fez que falava com alguma pessoa de casa.

«A isto, olhou Bimnarder, e, conhecendo-a, transportou-se, e lhe caiu o cajado no chão.

«Levou Aonia contentamento d'aquele desacordo, que bem o viu. E esteve assim mais um pouco; mas não pôde tanto forçar-se que a vergonha natural de donzela (ainda tam moça, e tam guardada, como éla era) não pudesse mais que o seu desejo, e tirou-se depressa da fresta.

«Porém, não estando ainda bem em baixo, tornou a espreitar se se fôra êle, e tornou-se logo a tirar.

«Tambem quisera éla tornar outra vez e outras, mas não pôde tantas vezes decidir-se a fazer o que não devia.

«Veio a noite n'aquele dia mais cedo, para Aonia, do que nunca outra viera. Deus sabe como éla aquela tarde passou! Mas não quero aqui contar muitas cousas, que, por querer-bem, se fazem de maneira que se não podem dizer. A velha e honrada ama, que, com o que suspeitou, entendeu o desassocego de Aonia, que diferente foi logo para quem atentasse n'isso, andava triste, e desgostosa, em parte de si, pelo que lhe contara d'êle. E, por isso, o sentia muito mais, e áquela ceia não pôde comer.

«Mas, recolhidas que élas foram áquela camara da fresta, onde dormiam, e pondo-se a ama a tratar da menina que creava, como costumava,--como pessoa agastada de alguma nova dôr, e quis tornar ás cantigas; e começou éla então, para a menina que estava tratando, a cantar-lhe um cantar á maneira de solau; que era o que, nas cousas tristes, se costumava cantar n'estas partes, e dizia assim:

ROMANCE

«Pensando-vos estou, filha; Vossa mãe me está lembrando: Enchem-se-me os olhos d'agoa... N'éla vos estou lavando.

«Nascestes, filha, entre mágoa. Para bem inda vos seja, Pois em vosso nascimento Fortuna vos houve inveja.

«Morto era o contentamento, Nenhuma alegria ouvistes; Vossa mãe era finada, Nós outros eramos tristes.

«Nada em dôr, em dôr creada, Não sei onde isto ha de ir ter... Vejo-vos, filha, formosa, Com olhos verdes crescer.

«Não era esta graça vossa Para nascer em desterro. Mal haja a desaventura Que pôs mais n'isto que o erro!

«Tinha aqui a sepultura Vossa mãe, e mágoa--nós; Não ereis vós, filha, não, Para morrerem por vós.

«Não ouvem fados razão, Nem se consentem rogar; De vosso pae hei mór dó, Que de si se ha de queixar.

«Eu vos ouvi a vós, só, Primeiro que outrem ninguem; Não foreis vós, se eu não fôra; Não sei se fiz mal, se bem!

«Mas não póde ser, senhora, Para mal nenhum nascerdes, Com esse riso gracioso Que tendes sob olhos verdes.

«Conforto mais duvidoso Me é este que tomo assi; Deus vos dê melhor ventura Do que tivestes 'té aqui!

«A Dita e a Formosura, Dizem patranhas antigas, Que pelejaram um dia, Sendo d'antes muito amigas.

«Muitos hão que é fantasia; Eu que vi tempos e anos Nenhuma cousa duvido, Que tudo é sujeito a danos.

«Mas nenhum mal não é crido; O bem só é esperado? E na crença, e na esperança, Em ambas ha 'hi cuidado, Em ambas ha 'hi mudança!»

CAPITULO XXII

De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia, se pôs devagar a ouvir a ama

«O pastor da flauta (que não era pastor) teve n'aquela noite maneira de, com um pau que colheu, arribar á fresta; e já estava n'éla quando começara o solau.

«Bem conheceu na limpeza das palavras, e na pronunciação d'élas, que a ama era natural d'esta terra, e avisada; por onde logo receou que, se não tivesse n'éla ajuda, teria grande estorvo.

«Encomendou-se á sua sorte.

«Acabou a ama de tratar da creança, que não foi tratada sem muitas lagrimas d'ambas, d'éla e de Aonia, que penteando-se esteve entretanto, segundo sentiu Bimnarder,--que êle nada de dentro podia bem divisar, pelo impedimento de um pano que diante da fresta estava, para amparo d'éla.

«Acabada a menina de tratar; apagando o lume, se deitaram élas; e, porque a ama tinha sua suspeita, fez que dormia, para espreitar a Aonia; e Aonia, porque tinha seu cuidado, não podia dormir, e ora se revolvia para uma parte, e ora para outra; e outras vezes, após um socego de um pouco, (colhendo folego) dava um baixo suspiro longo, á maneira de cansada d'aquilo que acabara de pensar.

«Esteve tudo a ama notando por um grande pedaço.

«E já Bimnarder estava para descer, cuidando que era outrem a que fazia aquilo, senão quando a ama começou assim a falar para a senhora Aonia:»

CAPITULO XXIII

Do singular conselho que deu a ama á senhora Aonia pelo que suspeitou dos seus amores

«Não dormis, senhora Aonia? E que será, senhora, se não podeis dormir? Parecendo-me vae que esta nossa vinda aqui para desastres foi, e não mais; mas assim de longe os ordena a ventura, que logo ao começo se não podem conhecer.

«Mal cuidara eu o que havia de acontecer á senhora Belisa, quando, aquela noite, depois de dormirem todos, nos levantamos nós sós, caladamente, e pelo laranjal do jardim (que com a espessura do arvoredo fazia então mais escuro) passámos cheias de medo, e vós pegada a mim, toda tremendo, fomos sair pela portinha falsa que acolá, no mais escuro lugar d'êle, estava, onde achámos a Lamentor aguardando-nos já havia pedaço, todo cheio de esperanças tam longas que, emfim, haviam de vir a ser, assim, esperanças, não mais!

«Por isso, cumpre a todas as pessoas (e ás donas, senhora, muito mais cumpre, pois são as que aventuram mais) que, ao principio das cousas, olhem onde élas podem ir parar; que não ha nenhuma tamanha, que no começo d'éla, se lhe não possa resistir, ou deixar sem trabalho; que muitos rios grandes ha ahi que, onde nascem, se podem impedir com um pé, ou levar para outro ponto; e no meio d'êles, ou depois que colhem forças, todo o mundo junto os não poderá tolher ou mudar. Chama uma agoa a outras agoas, e um erro a muitos erros... Em pequeno espaço, crescem de maneira que se não podem depois deixar!

«Gravemente, e com muita prudencia, devia cada um cuidar se o que faz, ou o que determina fazer, é cousa honesta e que convenha; que, se lhe sae bem, todos lh'o teem a bem, e se não, ainda que o mundo lh'o tenha a mal (o que muitas vezes acontece, porque, mal-pecado, já as cousas não são julgadas senão pelas saidas d'elas) não tem ao menos de que se queixar consigo.

«E grande bem é, a meu ver, excusar a pessoa as inimizades entre si, pois não ha lugar cá n'este mundo que defenda a ninguem de si mesmo.

«Pode-se tolher inimigo e inimiga, frio e chuva; cuidado, pode-se tomar, e tolher--não.

«Já quem faz o que deve, saindo-lhe como não deve, não quero afirmar que lhe não dará paixão; que a perda de qualquer proposito (ainda que seja desarrazoado) a dá. Mas, assim, digo que se lhe der paixão, dar-lhe-á sofrimento para éla.

«Bem-aventurado se póde chamar, n'esta vida, quem tem dôr que se suporte; pois, segundo parece, não se póde viver sem éla, assim como assim.

«Nos amores cuidará alguem que não é isto necessario, e que não é costumado; cuido eu que não poderá ser mais necessario. Em todas as cousas se deve haver respeito ao como e ao quando, e ao porque ou para que se fazem, para se não errarem. Maiormente se deve ter este respeito nos amores, pois são tão sujeitos aos erros, que mais mal contado seria, ao caminhante rico, se fosse desprevenido pelo lugar que de ladrões é seguido, que por outro que o não fosse; porque n'este, se lhe acontecesse algum desastre, culparia a ventura; mas n'aquel'outro culparia a si, que são culpas mais graves de perdoar.

«Por isso, senhora, vos peço que aprendaes de mim, que vi culpas, e os danos d'élas, porque assim como toda a pessoa, no bem, é mais amiga de si que d'outrem, assim tambem no mal (quando acontece que haja algum desvario consigo) é mais inimiga de si que de ninguem.

«E isto não é para espantar, porque é inimigo de casa, como dizem.

«Ainda mal, muitas vezes, que me foi necessario que vo-lo dissesse, porque o soube para vo-lo dizer!

«Quereis antes, senhora, não ser contente que arrependida.»

«E aqui, fazendo a ama uma pausa, não para acabar, mas sim para descansar (que vontade tinha já de lhe dizer tudo) sentiu dormir Aonia.

«E, cuidando que fosse fingido, esteve um pedaço espreitando-a, e, por derradeiro, pondo-lhe a mão, e bulindo-a, se certificou que dormia. Parece que, cansada do trabalho não acostumado, adormeceu. Éla era moça, e nunca se vira n'outra...

«A ama, ainda que isto lhe fizesse duvidar do passado comtudo, pelo que passara já por éla, pareceu-lhe o que era, porque não ha cousa que traga mais certo o sôno ás moças que a dôr grande: e ás velhas tira-lh'o.

«E com esta fantasia, em que a ama se afirmou, adormeceu tambem.»

CAPITULO XXIV

Em que se conta o mais que a ama passou com a senhora Aonia ácerca de Bimnarder

«Bimnarder, que todo aquele tempo passou como Deus sabe, vendo que assim se calavam, não soube que determinar; porque tão magoado ficou das palavras da ama, pelo dano que temeu de lhe fazerem, que se lhe turvou o juizo, e não soube dar saida nenhuma áquele calar.

«E assim enleado, ácerca do que seria, esteve até que a manhan o levou d'ali, bem contra sua vontade; porém, não se pôde ir para longe d'ali.

«Da mágoa d'êle, não vos quero contar. Era homem; poderia com éla. Mas da coitada da Aonia (a quem as boas palavras da ama não aproveitaram mais que para se guardar d'éla) vos contarei:

«Ergueram-se pela manhan, e, posto que a ama tentasse Aonia, dizendo-lhe se ouvira a noite passada o que lhe éla contara, éla dissimulou altamente. Pela sua idade, e pelo amor de creação que lhe a ama tinha, creu logo de todo, e pelo socego de Aonia, feito por acinte, o acabou de confirmar, e houve o passado por nada. Pareceu-lhe que seria o desassocego de moças: que ás vezes, por mocidade, fazem cousas que não fariam em outra idade, ainda que n'isso fosse todo o seu desejo.

«Assentando a ama n'isto, meteu-se na ocupação de casa (que era grande) porque sobre éla carregava tudo; pelo que a Aonia ficou lugar e tempo que bastava para pensar mais á sua vontade, e para fazer com que Bimnarder fosse certo d'éla.

«Pondo cofres sobre cofres, fechando a porta da camara primeiro, dissimulando fazer alguma cousa, se subiu á fresta. E, ainda bem não era n'éla, viu Bimnarder, que não estava longe d'ali, nem tam perto que a conhecesse logo: pelo que se deixou estar um pouco, para se afirmar melhor.

«Éla, que não suportou já aquela tardança, lançando uma manga da camisa fóra da fresta, fez que o chamava.

«Chegou êle com presteza, e, vendo-a, ficou assim sem lhe poder dizer nada. Mas Aonia, que estava já determinada consigo, ousou falar-lhe primeiro, mas não o que éla quisera, porque não pôde a tanto decidir-se.

«E, mudando o proposito n'aquilo que se acertou, lhe disse:

--«Aqui andaes, pastor, cada dia, sempre!»

--«Essa fresta, lhe respondeu êle, não está ahi, senhora, de noite tambem?»

«Aonia, que o entendeu, muito de manso lhe tornou:

--«Está», ajudando a palavra com o abaixar dos olhos, que de todo então, ao dizer d'aquilo, pôs n'êle.

«E não na entendera Bimnarder, se não fôra por isso, mas não lhe tornou êle resposta. Éla, n'isto, desceu-se, porque se lhe afigurou que buliam na porta da camara; e, tornando os cofres a seu lugar, se foi abri-la, e, não achando ninguem, quisera tornar para a fresta, senão quando, n'isto, eis vem a ama com outras mulheres de casa.

«De maneira que todo aquele dia, não teve outro tempo mas logo, n'aquelas palavras que lhe o pastor dissera, entendeu que eram para que tambem olhasse de noite para êle. E, com esta esperança que se deu a si mesma, passou aquele dia, que tambem Bimnarder passou com sua esperança, que tomou d'aquela palavra derradeira que lhe éla falou, com os olhos mais que com outra cousa!

«Mas não cuidara êle, me parece a mim (dizia meu pae), que havia de ser para tanto como lhe saiu, pelo pouco que entre ambos era passado.

«Porém, por isso estava mais certo, me tornou a mim a parecer, (dizia meu pae) porque como a ventura venha mais em todas as cousas que tudo, quem só a tiver não ha mister de mais.»

CAPITULO XXV

De como Bimnarder, pela fresta do aposento de Aonia, lhe falou

«Como aconteceu a Bimnarder que, vindo a noite, pondo-se á fresta, como as passadas fizera, sentiu-as deitar, e, d'ahi a um grande pedaço, já quando estava desesperado, ouviu pela casa andar de mansinho, e pôrem alguma cousa contra a fresta.

«Estando com o sentido pronto, n'isto sentiu que subia alguem, e não crendo que fosse tanto (como acontece na vista das cousas muito desejadas, e esperadas muito), antes receando que fosse algum desastre, abaixou-se prestes, e deixou-se estar ao pé da fresta.

«Aonia levantou o pano, e, com o escuro que fazia, não viu ninguem.

«Comtudo, deixou-se assim estar um pouco e, não sentindo nada, duvidou de todo, e, indo para descer, disse:

--«Parece que foram só palavras!»

«Conheceu-a, na fala, Bimnarder. Dizendo:

--«Não foram, nem serão», subiu depressa á fresta.

«E éla tambem o conheceu, e subindo, chegando êle, e querendo-lhe falar, disse éla muito devagarinho:

--«Que me perdoeis!»

«N'isto, começou a chorar a menina, e, acordando, a ama se pôs a embalá-la, cantando-lhe; mas, não se querendo éla acalentar, se ergueu a ama, dizendo:

--«Não sei se acharei lume, que esta criança sente alguma cousa.»

«E, desde que abriu a porta da camara, se foi á outra casa das mulheres, a procurar lume.

«Aonia, que viu não haver remedio, querendo-se, depressa descer, chegou o rosto muito á fresta dizendo:

--«Ide-vos embora, que não póde ser mais.»

--«De vós, lhe respondeu êle, me não posso eu ir assim.» E isto, tremendo-lhe a fala.

«E éla, que houve dó d'êle, querendo soltar o pano, amparo da fresta, não se pôde ter que lhe não desse de si alguma presença, e disse-lhe:

--«Pelo que fiz por vós, julgae o que tinha para vos dizer; e perdoae-me (que vos não posso pagar em mais) o soltar d'este pano.»

«E assim o soltou, descendo-se muito depressa, e concertando tudo.

«Quando tornou a ama, já a achou deitada.»

CAPITULO XXVI

De como Bimnarder, estando na fresta de Aonia, adormeceu, e se lhe foram, por sonho, os pès, e caiu

«Deixou-se Bimnarder ficar á fresta, e ali esteve até pela manhan, que tam ocupado lhe ficou o pensamento d'aquelas palavras que lhe Aonia dissera, em se indo, e da maneira como lh'as dissera, que uma cousa e outra não lhe dava a mais vagar, nem tam só para se lembrar de fugir ao tempo.

«Mas como êle não tivesse a noite antecedente dormido, nem o dia que se seguiu, então, como descansado de alguma parte de seus cuidados, adormeceu, não já por os ter menos, mas como acontece a quem traz alguma cousa que muito deseja, e anda, entretanto aquele desejo o traz, sem poder repousar, mas, depois que alguma segurança lhe vem de o ter cumprido, repousa e dorme, como se o alcançára.

«E não podemos dizer que seja então menor o desejo, que antes, com razão, deve ser maior.

«Assim foi Bimnarder, que, parte de cansado, e parte de contente, transportou-se, parece, tanto em seu cuidado, que se lhe foram, por sonhos, os pés e as mãos, e caiu no chão, com o pau após si.

«E, ao cair, lavou toda em sangue aquela parte do seu rosto, que d'aquela banda da parede parece que levou; de que muitos dias esteve mal depois.

«Mas nenhumas cousas grandes se acabaram senão por meio de grandes desastres como aqui vereis; porque esta queda foi causa de Bimnarder ver o que, pela ventura, nunca vira.»

CAPITULO XXVII

De como a ama, sentindo de noite o estrondo da queda, o que sobre isto fez quando foi manhan