Saudades: história de menina e moça
Chapter 4
«E, a direito do cavaleiro, topou com outro mateiro, que para o mato ia, que lhe preguntou, vendo-o vir assim sem lenha, para que fôra ao mato, respondendo-lhe o mateiro queimado, falando-lhe galego, estas sós palavras:
--«Bim n'arder.»
«Olhou o cavaleiro para o barbarismo da letra mudada na pronunciação de _b_ por _v_, e pareceu-lhe misterio; porque ele era aquele que tambem se fôra a arder,--quis-se chamar assim d'ali ávante.»
CAPITULO XV
De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este ordenava fazer ali uns paços e do mais que lhe aconteceu com a sombra que lhe apareceu
«Não passou muito que, por aquele lugar, não viesse um dos servidores de Lamentor, que atravessava para o castelo.
«Quando Bimnarder soube d'êle que Lamentor tinha ordenado fazer ali uns paços grandes, e morar n'êles toda a sua vida, algum repouso mais deu isto a Bimnarder; que, d'antes, a pouca certeza que tinha da estada de Aonia n'aquela terra lhe dava grande fadiga ao pensamento.
«Mas, afrouxado da parte d'este cuidado, entrou n'outro:--do que faria de si, e para onde se iria; no qual esteve até a noite, sem poder assentar nada consigo. Porque se o ir-se d'ali para outra parte, lhe era já grave; ficar, parecia-lhe impossivel cousa poder-se esconder do seu escudeiro.
«Combatido assim de uma cousa e de outra (ainda, porém, sem determinação nenhuma) ergueu-se,--como forçado da noite, mais que da vontade.
«Buscando o seu cavalo, onde o deixára o escudeiro, não o achou. Tornando-se então para o freixo onde antes estivera, para d'ali olhar se fôra beber a este rio, mas não o vendo nem sentindo em nenhuma parte, encostou-se então assim ao freixo, pensando, á primeira no cavalo. Mas não tardou que logo não tornasse ao seu verdadeiro cuidado, imaginando, parece, a senhora Aonia na fantasia, afigurando-se-lhe vê-la da maneira que a vira. E, de piedade amorosa, lhe estavam vindo as lagrimas aos olhos.
«Estando êle assim, todo ocupado d'aquela doce tristeza, sentiu como que alguem junto de si.
«Olhando, com o luar que então fazia, viu uma sombra de homem de estatura desproporcionada (de nosso costume) estar perto d'êle.
«A subita novidade o moveu á alteração, mas, como esforçado que era, lançando mão á sua espada cobrou ousadia de lhe preguntar quem era; e vendo que, comtudo, se calava, se pôs a mover para êle, já com a espada arrancada, dizendo:
--«Ou me dirás quem és, ou o saberei eu.»
--«Está quedo, Bimnarder (chamando-o assim por seu nome)--lhe disse a sombra--que inda agora foste vencido de uma donzela chorando!»
«Deteve Bimnarder o passo, espantado de aquilo que ainda então cuidava êle que o não sabia ninguem; mas tornando logo a querer-lhe preguntar de onde o sabia, a meia palavra, olhou... e viu aquela sombra que, virando-se para umas moitas grandes, que 'hi cerca estavam, se ia metendo por entre élas, pouco a pouco. E assim se encobriu e desapareceu.»
CAPITULO XVI
De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria, viu de subito vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar
«Ficando Bimnarder com o pensamento cheio do que aquilo seria, começou de ouvir um estrondo grande que vinha pelo mato para onde ele estava. E, inda bem o não ouvia, quando, correndo por ante si, viu passar o seu cavalo, e uns lobos após êle, e após êles, de longe, vinham correndo uns cães com grande grasnada.
«E, ao saltar d'este ribeiro, caiu n'êle o cavalo. E, chegando os lobos, começaram a mordê-lo por todas as partes, de maneira que, comquanto prestemente Bimnarder acudiu, já êle era morto.
«E não tardou nada que uns pastores, que perto d'ali tinham a malhada do seu gado, ao filar dos cães, vieram ali ter, afigurando-se-lhe ser morta alguma rês; e, achando Bimnarder assim agastado, começaram-no a querer consolar com palavras e modos rusticos, oferecendo-lhe pousada por aquela noite.
«Aceitou êle, ainda que não desejava então companhia; mas pelas horas o fez, e tambem porque logo cuidou que, quando os pastores fossem no seu rebanho, não lhe haviam mais de tolher o tempo ao pensar,--que para êles não se fizera a noite senão para dormir.
«Foram assim ao fato de uma grande manada de vacas (que todas estavam alevantadas, com o alvoroço dos cães e medo dos lobos) metendo-se os pastores e Bimnarder por entre élas, que lhe iam fazendo lugar, e escornando umas ás outras.
«E, assim, saindo d'entre élas, estava uma fogueira grande junto de uma choupana de sebes, cortiçada por cima. E junto d'esta, ao fogo, jazia deitado, sobre rama verde espalhada, um pastor já de todo branco, que maioral era do fato; e tinha sua cabeça encostada sobre um tronco de madeira; e uns rafeiros ainda pequenos lançados em parte por cima do velho pastor, e outros, grandes, com as cabeças estendidas sobre êle.
«E, em pastores chegando, ergueu êle a cabeça um pouco, e, como homem que era avisado em semelhantes casos, descansadamente começou a preguntar pelo que se passava. Contando-lhe êles que não era nenhuma rês morta, tambem lhe contaram do cavaleiro que traziam.
«Ergueu-se êle então assentado, e fazendo-lhe lugar na rama de sua cama, lhe rogou que se fosse assentar. E assentado Bimnarder, e assentados todos derredor d'aquella fogueira, pediu o velho maioral a Bimnarder que lhe contasse como aquele desastre lhe acontecêra.
«Contou-lh'o êle, brevemente, por lhe satisfazer: como andando o seu cavalo pastando vieram aqueles lobos, e mataram-lh'o, primeiro que lhe pudesse valer.
«Ao que, começou com uma fala retumbada a falar o pastor, como que o queria consolar n'aquela mofina, dizendo:
«Os desastres que acontecem com os animaes ferozes n'este vale, é cousa espantosa, e, para quem o souber, mais leves de sofrer, se a companhia em isto dá consolação! N'uma noite de inverno escura, sendo eu mais novo que agora, diante dos meus olhos, me tomaram a minha vaca bragada (mãe d'est'outras bragadas, que tenho'inda agora) e mataram-na. Pois tinha eu então ao pé de mim o rafeiro malhado, e a rafeira branca sua mãe, armados os pescoços ambos, que nunca me achei com êles, em lugar tam ermo nem em noite tam trabalhosa, que não estivesse seguro como na metade do dia; mas então pouco aproveitavam êles a mim, que bradava a coitada da vaca, e bramia tam doridamente que, em breve espaço, ajuntou quanto gado tinha, que estava, á la fé, a um bom pedaço d'ali. E já aqui, onde agora estou, me vieram no claro dia matar quantos bezerrinhos tinha, que inda não eram para andarem com as mães.»
--«E porque estás então aqui, pastor honrado?»--lhe disse Bimnarder.
--«Nunca vistes outra cousa, lhe disse o pastor, não ha o haver senão onde ha o perder. A terra é abastada de pastos; e, assim como cria o bom, cria o mau. Já ouvi dizer a um grande homem, que era dado ás cousas do outro-mundo, falando na povoação d'esta terra (que, ainda que a vêdes assim, por partes, metida a mato, é de pastores, em muita maneira, povoada) que isto era uma das maravilhas da natureza: de uma mesma terra nascerem duas, tam contrarias uma á outra. E isto não era só nas alimarias, mas nos homens:--que não ha maus senão onde ha os bons, e não ha ladrões senão onde ha que furtar. Mas, quanto a mim, não sei qual é pior para nós outros, pastores:--na terra de pouca ervagem perece-nos o gado á fome, e cá n'est'outra, matam-no-lo. Assim, em toda a parte nos vae mal. Mas nós outros somos, emfim, como dizem que são todos os outros homens (e vós, senhor cavaleiro, o sabereis): podemos melhor sofrer o mal que nos faz outrem que o que nós fazemos a nós outros mesmos. Os danos da terra fraca, porque está em nosso poder sairmo-nos d'éla, não os podemos sofrer; os da outra, que não está em nós vedarmo-los, sofrêmo-los como podemos. Assim, tambem digo eu, senhor cavaleiro: no vosso caso, não estejaes agastado; descansae, e tornae tudo á culpa da terra.»
«Estas palavras, a Bimnarder, pareceram bem; e, se não fôra porque era contar o pastor a verdade de sua vida, cuidára êle que não eram estas palavras de pastor; mas o que cada um passa, facilmente o sabe bem contar; e, por isso, não lhe tornou resposta mais que umas palavras em sinal de agradecimento d'aquele bom conforto, fazendo menção de querer repousar; o que vendo, o velho pastor mandou a todos que se calassem, e que dormissem. E foi feito assim.
«E começaram em breve espaço os pastores a roncar, estirando seus rusticos membros, uns para cá, outros para lá, como ao sôno aprazia.
«Só Bimnarder não podia repousar, tendo no coração a quem êle não doía. E quando a todos a escura claridade das estrelas aconselhava o sôno, d'êle o tinham desterrado os seus cuidados.
«Antes, com os olhos postos para aquela parte d'onde viera (segundo parecia, com o corpo só) á senhora Aonia, ausente, êle a ouvia chorar.
«E em a longa noite esteve assim, 'té que aquele cansado corpo adormeceu aquela parte dos sentidos sobre que tinha algum poder. Sonhos e fantasias ocuparam a outra.
«Mas, depois de um pouco de sôno, acordou êle, todo banhado em lagrimas, porque sonhára, chorando, que o levava d'ali, por força, a sombra que vira d'antes. E correndo-lhe, por isto, muitas cousas pelo pensamento, assentou consigo de se não ir d'aquela terra, 'té vêr o que podia ser d'êle n'aquele cuidado, que o assim tomára, e assim o seguia.
«D'esta maneira, cuidava êle que não iria contra aquilo que, porventura, lhe adivinhava o sôno, se o fizesse.
«Tamanho desejo tinha de se não ir nunca d'ali, que tudo lhe parecia que lh'o aconselhava; e, de muitas maneiras que cuidou, n'esta assentou por derradeiro: despedir-se cedo d'aquele velho maioral, e ir-se a algum lugar perto d'ali, onde mudasse os trajos, e tornasse a assentar vivenda com êle, que grande rebanho lhe parecia que trazia.
«E, ainda que muitos mancebos lhe visse, a pouquidade da soldada faria com que lhe não fosse sobejo qualquer pastor.
«E assim o fez.»
CAPITULO XVII
De como Bimnarder assentou vivenda com o maioral do gado, e do que a donzela passou com a dona em sua historia
«Eis Bimnarder pastor de vacas,--que não houve ahi nada impossivel no amor grande.
«Muito tempo passou êle n'aquela vida, com maus dias e piores noites; porque Lamentor, no começo logo do seu assentamento, mandou fazer primeiro umas casas para recolhimento, não mais; e a muita gente que era vinda para as obras, pela labutação grande que tinha, por causa da grande pressa que Lamentor dava a élas, tolhia a saida das mulheres, pelo que Aonia não apareceu um grande tempo, para Bimnarder, ao menos, ter aquele contentamento que a vista dos olhos dá áqueles que do mais carecem.
«Conheciam-no, porém, já todos os de casa, e chamavam-lhe o _pastor da flauta_, porque êle costumava trazê-la sempre, pois para remedio da sua dôr a escolhêra, depois de se desconhecer.
«Tambem assim, muitas vezes, ora pela ribeira d'este rio, e outras horas por estas altas assomadas (que fazem, como vêdes, mais gracioso este vale) andava tangendo, e cantando em palavras pastoris. Este só contentamento lhe era algum conforto para o seu mal, e para desabafar o seu coração, que tam ocupado de profundos e muito penosos pensamentos trazia.
«Muitas cousas sabia meu pae, suas, que arremedavam de pastor, e tinham as cousas de alto engenho, ou, mais verdadeiramente, de alta dôr, postas e semeadas tam docemente por outras palavras rusticas, que quem bem olhasse facilmente entenderia como foram feitas.
«E, assim, tinha mais outra cousa, a meu fraco juizo e parecer: é que o bom pastor, n'aquela baixeza de estilo, pela impressão da presunção que punha, e de si mostrava, como que via mais depressa haverem d'êle compaixão todas as pessoas que o ouviam, tanto póde a imaginação em todas as cousas.
«Mas, de todas, uma só me vem á memoria, e lembra-me que dizia meu pae que êle a cantára, e ouvira-lh'a a ama da menina.
«Por certo, parece que assim o ordenou a ventura para que Aonia fosse sabedora de seu cuidado, já quando êle de todo andava desesperado; e, não se podendo d'ali apartar, ordenava, andando desvairadas cousas de si, que desvairadamente o atormentavam.
«Tambem, para que tudo fosse como cumpria á desventura que estava ordenada, aconteceu que a velha ama era natural d'esta terra, e, n'outro tempo, quando era moça, parece que um mercador muito rico e gentil-homem, (que viera d'aquelas partes d'onde Lamentor) por asos e visinhanças, houvera o seu amor; e com dadivas grandes, e promessas maiores, a levára de sua terra, de casa de seu pae, que a tinha muito estimada e guardada, mais ainda do que a seu estado convinha; mas tudo, pela sua formosura d'éla, era bem empregado.
«Era ensinada a livros de historias, pelo que era já então sabida, e depois, quando velha, o foi muito mais.
«E, dizem que, chegando ambos á terra do mercador, por grandes desventuras, o veio éla a perder, ainda quando moça e formosa. Mas ficando assim em terras estranhas, movida de compaixão, a mãe de Belisa a recolhera para sua casa, d'onde ainda lhe estava ordenado este outro desterro para a sua terra.
«De como a levou êle, e o éla perdeu, se conta um grande conto. Deixá-lo-ei agora, porque tenho outro caminho tomado, ainda que, entre os homens, todos os caminhos vão ter a fim de mulheres; mas, pois moraes n'esta terra, outra hora nos veremos, e contarvo-lo-ei então, se por ventura vos ficar desejo de ouvi-lo.»
--«Ainda, senhora (me não pude eu ter que lhe não dissesse) que eu tinha já posto em minha vontade nunca ter desejo nenhum, este quero eu ter,--que tanto podem as cousas vossas comigo; e mais, pois é conto de mulher, não póde deixar de ser triste. E, d'esta maneira, tambem em parte não irei contra meu proposito; porque desejando ouvir tristezas, não se póde isto verdadeiramente chamar desejo, que só o desejo deve vir d'aquilo com que se haja de folgar. E, se tambem acontece o contrario, será porque tambem o desejo engana muitas vezes, como todos os outros sentidos.»
--«Nós outras, tristes, (me tornou éla então) chamaremos logo a este desejo desgosto; porque não se deve espantar ninguem de ver mudadas as palavras ou o entendimento d'élas, nas pessoas em que se mudaram tambem muitas outras cousas, que não dissera nem cuidára ninguem que se podiam mudar.
«E tambem, filha e senhora, ainda que me vós vejaes assim, já em idade em que as tristezas passadas não deviam ser-me causa de mais que de haver tudo por nada, e julgar o presente pelo passado, e, emfim, estimá-lo assim; comtudo, tamanhas foram as causas que me fizeram triste, que o sofrimento d'élas, e o longo tempo, não me faz sentil-as menos. Pensando n'isto, muitas vezes digo eu que não póde ser senão que quando a fortuna ordenou desgostar-me, para que a vida não sobejasse á dôr, as compassou, parece, ambas assim, que não fosse uma maior que a outra; e venho a entender n'isto que não se acrescenta mais a minha dôr que a vida. E perdoae-me ir-vos assim saltar a falar de mim, tendo ainda por cumprir o que vos prometi. Que a sua dôr traz a cada um assim. Tambem os meus feitos: indo para fazer uma cousa, faço outra. E a mim, muitas vezes, d'esta maneira, me sou eu mesma em vergonha.»
--«Não podeis vós já, senhora, fazer cousa ante mim que haja mister perdão de mim; antes, quanto mais vossas cousas ólho, me vae parecendo que não viestes aqui senão para vos eu ouvir; que, até agora, costumava eu andar espantada, de mim para comigo, como podia durar tanto uma dôr depois d'acabada a causa d'éla, e como a não gastava o tempo, como as outras cousas todas que n'êle ha! E, porque eu não via isto na minha mágoa, tornava dando a culpa d'isto a outrem, porque, pela ventura, me era forçado tornar a dar a mim maior pena... Ou... que digo eu, pela ventura?... E aqui, indo eu para dizer outra cousa mais, se me pôs diante o pouco conhecimento d'entre nós ambas, e calei-me,--assim como que me não quisera calar. Éla, docemente, dissimulando porventura, (segundo no fim de sua fala me pareceu) seguiu dizendo:
--«Das culpas que alguem dá a quem bem-quer, sempre lhe ficam as penas d'élas, e com razão; que vos não quereria eu a vós bem se vos eu o pior desse: mas antes me espanto ainda de, quem quer bem, como póde culpar a quem o quer; senão que, torno a dizer eu, que pódem fazer isto, pela pena que lhes fica; que a éla tomam êles, como por vingança da força que se fazem n'isto a si mesmos. Tambem, senhora, fui moça como vós; culpei já alguem contra minha vontade. Causa de grandes desgostos me foi, muitas vezes, não me poder eu escusar a mim mesma só de culpar outrem. Foram desvarios de amor. Ha isto n'êle, como ha outras sem-razões infindas, sofridas como êle quis, que'té n'este nosso sofrimento pôs tambem cousas que se não sofrem senão pela ventura!»
«E, a esta palavra, tirou os olhos de mim, como que queria dizer que não me entendia, pois lh'o eu queria encobrir. E a mim, que me pareceu mau ensino, a uma senhora, dona e triste, que me tanto dava de si, negar-lhe parte de minhas tristezas, pois lh'as já d'antes quisera significar, disse eu então:
--«Cuidae de mim, senhora, o que quiserdes; que, assim, me parece que sois desgostosa; que esta maneira é melhor que todas para saberdes a verdade da minha vida, que toda é uma longa queixa.
--«Fazeis bem (me tornou éla) que essa maneira é tambem a melhor para vo-lo eu não ousar perguntar, que tambem afeiçoada vos sou já. E, pois ha de ser tam triste, não na quero antes ouvir. Por isso, tornaremos ao conto. Ele acabado, farão de nós as nossas tristezas á sua vontade, que tambem se desejam contadas, como os prazeres. Mas, o conto, foi assim como agora direi:»
CAPITULO XVIII
Em que a ama dá razão á donzela da cantiga de Bimnarder
«Disse (se vos lembra) que uma só cantiga me lembrava, que dizia meu pae que lhe ouvira a ama,--e foi d'esta maneira.
«Começava a cair a calma, e havia pedaço que o pastor da flauta estava assentado á beira d'este ribeiro, sobre um torrão, olhando para a parte contraria, d'onde a ama acertou por acaso de vir. Estava tangendo de mansinho a flauta, para consigo.
«Estando êle n'isto, deixára-se vir um rebanho de vacas, correndo, apressadas da mosca. Passando por êle, se foram meter na ágoa até aos peitos; e, deixando êle então de tanger, ficou como pensativo um pouco, porém, sem tirar a flauta d'onde a d'antes tinha, como transportado.
«Olhou para isto a ama, e quisera-lhe dizer que tangesse, que bem lhe parecera d'antes. Mas, estando para lh'o dizer, começou êle então a tocar a flauta, docemente, de maneira que fez detença a ama.
«Parecendo-lhe cousa triste, e mais que de pastor, deu-se toda a ouvi-lo, senão quando êle, depois de um pedaço grande, soltou a flauta, e começou assim:
«P'ra todos houve 'hi remedio P'ra mim só não no houve ahi: Inda mal que o soube assi.
«Fogem as vacas p'ra a ágoa, Quando a mosca as vae seguir; Eu só, triste em minha mágoa, Não tenho a d'onde fugir: D'aqui não me posso eu ir, Estar não me cumpre aqui, Que o que eu quero não o ha 'hi.
«Entretanto a calma dura, Tem esta fadiga o gado, A manhan pasce em verdura, A tarde em o seco prado; Dorme a noite sem cuidado, Pois tudo achou para si. Descanso, eu só o perdi.
«A mim, nem quando o Sol sae, Nem depois que se vae pôr, Nem quando a calma mór cae, Não me deixa a minha dôr. Dôr, e outra cousa maior, Convosco hoje amanheci, Convosco honte' anouteci.
«Crendo que assim findaria, Dei-me todo ao que padeço: Um dia leva outro dia, Por um mal, outro conheço. Se o fim responde ao começo, Ai! quam mal que me provi, Que no começo o fim vi!
«Se nasci p'ra meu mal vêr, E não p'ra vê-lo acabado, Melhor fôra não nascer, Que vêr-me desesperado. E, pois que n'este cuidado Me traz tam cego após si, Inda mal que o soube assi!
Fim
«Entre lagrimas e prantos, Nasceu o meu pensamento. Cresceu, em tam pouco, tanto, Que é mais alto que o tormento! Passa o que passo ao que sento. Mal faz quem me esquece assim Que após mim não ha outro mim.»
CAPITULO XIX
De como conta a ama á senhora Aonia o que vira fazer ao pastor acabada a cantiga
«Em dizendo este derradeiro verso, parece que não podendo êle já suster as suas lagrimas, calou-se, como estorvado d'élas; e, entendendo-o a ama, pelo soltar da flauta, e tomar da aba do gabão para limpar-se, tamanha paixão a comoveu que não pôde ter as suas, lá onde estava, e sempre lhe falara, se não fôra que vinham chamá-la já de casa.
«Foi forçada a levantar-se éla, e foi-se, ocupada toda a fantasia d'aquele pastor, pois algum grande misterio lhe pareceu.
«E como o que está ordenado de ser, logo traga asos consigo, entrando a ama em casa, e topando Aonia só, á boa-fé, sem mau engano, se pôs a contar-lhe tudo, e a jurar-lhe e tresjurar-lhe que não podia ser pastor.
«E, porque já Aonia entendia a lingoagem d'esta terra muito bem, lhe disse a ama a cantiga. E quando lhe veio a contar como o pastor, com aquelas derradeiras palavras, deixara cair a flauta no chão, e com a aba do gabão (que de burel era) se limpara das lagrimas que com élas lhe vieram; e, acabando de limpar-se, olhara para a aba, que com ambas as mãos tinha, e como (parece) lembrando-lhe do que éla era, ou não sabia porque, encostara o rosto a éla, assim entre as mãos, como estava; e, após um grande suspiro, se deixara estar assim, e assim ficara quando éla viera, que, pela chamarem n'este meio tempo se tornara tam triste como havia muito tempo que o não fôra por causa alheia... E encheram-se-lhe á velha ama os olhos d'ágoa, em dizendo «cousa alheia». E assim se virou para outro lado, e foi-se fazer cousas de casa.
«A senhora Aonia, (que ainda então era donzela d'entre treze a quatorze anos) sem saber que cousa era bem-querer, de umas lagrimas piedosas regou as suas formosas faces, e, sobre élas, os sentidos primeiros lhe inclinou, tanto podem, algumas horas, as cousas ouvidas!
«E, se não fôra que era éla moça, facilmente o entendêra logo; mas, não o entendendo, mil vezes n'aquele dia tornou a pedir á ama lhe dissesse, ora a cantiga, e ora como estava o pastor.
«E, por acerto, perguntando-lhe uma vez de que feições era, lhe disse a ama:
--«Eu já outras vezes o vi, de bom corpo, e de boa disposição; a barba um pouco espessa e um pouco crescida que a êle traz, parece que é aquela a primeira ainda. Os olhos brancos, de um branco um pouco nublado; na presença, logo se enxerga que alguma alta tristeza lhe sujeita o coração.»
«Lembrou a Aonia só tornar-lhe a perguntar quando foram as outras vezes que o vira.
«Disse-lhe então a ama que o pastor se vinha pôr derredor d'aquelas casas sempre, e ás vezes se punha a falar com os oficiaes, e outras andava defronte (na ribeira d'aquele rio) pastorando o seu gado. E este era o pastor a que todos chamavam «o da flauta», que conhecido era de todos.
«Não o conhecia Aonia, porque nunca saira fóra. Mas como então logo pôs na sua vontade de olhar para êle, e de buscar maneira para isso, (tamanho dó lhe fez ouvir d'êle o seu canto) enganada assim d'aquela falsa sombra de piedade, toda aquela noite seguinte não pôde dormir. Mas não que já fosse declarada consigo, nem debaixo d'aquele desejo determinasse nada; porém, ardia em fogos de dentro de si.
«E porque de todo o ponto se acabasse isto de confirmar de todo, ainda bem não era manhan, saindo a ama da menina a uma varanda á maneira d'eirado (que sobre uma parte das casas estava, e fôra feita, logo no começo, para despejo) viu o pastor estar só, sobre a borda d'este rio, não muito longe do lugar onde o éla vira o dia antecedente,--que ali estava o freixo onde se ele pôs a primeira vez que saira da tenda, onde tambem viu a sombra, como vos disse, e ali foi onde depois veio a morrer.»
CAPITULO XX
Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio e de como o matou; a qual Aonia estava vendo do eirado