Saudades: história de menina e moça

Chapter 2

Chapter 24,175 wordsPublic domain

«Isto é assaz para as tristes das mulheres, que não teem remedios para o mal, que os homens teem; porque, n'esse pouco tempo que ha que eu vivo, tenho aprendido que não ha tristeza nos homens. Só as mulheres são tristes; que as tristezas quando viram que os homens andavam de um lugar para outro, e, como as mais das cousas, com as continuas mudanças, ora se espalhavam ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhe tolhiam o mais do tempo, tornaram-se ás coitadas das mulheres,--ou porque aborreceram as mudanças, ou porque não tinham para onde lhe fugir.

«Porque, certamente, segundo as desventuras são desarrazoadas e graves, aos homens se haviam de fazer; mas, quando com êles não puderam, tornaram-se a nós, como á parte mais fraca. E assim é que padecemos dous males, um que sofremos, e outro que se não fez para nós. Os homens cuidam outra cousa, mas o que das mulheres não cuidam êles?! Logo, costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se élas, por isso, teem razão de serem mais tristes, sabê-lo-á quem souber que mágoa é manter verdade desconhecida!»

A isto não pude eu suster um cansado suspiro de dentro d'alma; e éla, sentindo-o (com quanto o eu encobri) estendeu a sua mão direita, e, tomando a minha, com dissimulação, suspeitosa, tornou a falar para mim, dizendo:

--«Quando eu era da vossa edade, e estava em casa de meu pae, nos longos serões das espaçosas noites do inverno, entre as outras mulheres de casa, umas fiando, e outras dobando, muitas vezes, para enganarmos o trabalho, ordenavamos que alguma de nós contasse historias, que não deixassem parecer o serão longo; e uma mulher de casa, já velha, que vira muito e ouvira muitas cousas, por mais ancian, dizia sempre que a éla pertencia aquele oficio, e, então, contava historias de cavaleiros andantes.

«E, verdadeiramente, as afrontas e grandes aventuras (que éla contava) a que se êles punham, pelas donzelas, me faziam a mim haver dó d'êles,--porque cuidava eu que um cavaleiro convenientemente armado sobre seu formoso cavalo, pela ribeira de um rio, de gracioso campo passeando, podia ir tam triste como uma delicada donzela, em alto aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, só podia estar, vendo-se de altos muros cercada, com tantas guardas,--feitas para tam pequena força. Mas, para lhe tolherem as vontades, fizeram grandes defezas, e, para lhe entrar o desgosto, muito pequenas.

«Mais maneiras teem os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que são; e muito menos teem as donzelas para se mostrarem mais tristes do que parecem aos homens.

«Ao menos, se eu, depois que soube muitas cousas, pudera tornar atraz, menos me houveram de magoar do que me magoaram. Que tambem se deve esperar da dôr aquilo para que cada um a tem; de outra maneira, não se devia éla ter.

«Digo isto, senhora, porque pelo lugar onde suspirou vosso coração, (que vós de mim, quanto podieis, vos quisereis encobrir) suspeito eu que d'alguma grande sem-razão deveis trazer o cuidado magoado; porque a vossa edade não era para viverdes nos matos. Se os homens não costumassem agravar donzelas, muito fôra de sentir; mas, das cousas costumadas, quem se deve agravar?!

«Muito bem vos posso dizer isto (ainda que o conhecimento entre nós seja pouco) porque sou mais velha que vós, e porque é verdade, para que se não deve esperar tempo, como para as outras cousas.

«Quantas donzelas comeu já a terra com a saudade que lhe deixaram cavaleiros, que come outra terra, com outras saudades?!

«Cheios são os livros de historias de donzelas que ficaram chorando por cavaleiros que se iam, e se lembravam ainda de dar de esporas a seus cavalos, porque não eram tam desamorosos como êles.

«N'este conto, não entram só os dous amigos de que é a historia que ha pouco vos prometi. N'êles, sós, cuido que se encerrou a fé que em todos os outros se perdeu; e creio que por isso ordenaram outros homens de os matarem á traição, maldosamente, porque se não pareciam com êles.

«O mal não sómente aborreceu o bem, como quisera ainda que o não houvera ahi.

«Lembra-me que, quando meu pae contava a vileza da maneira que tiveram os falsos cavaleiros, para matarem os dous amigos, dizia que muito folgara de a não ouvir para a não saber, pois não viera em tempo para deixar de ir á terra magoado, porque já geração d'êles não havia ahi.

«Mas, se muito para sentir foi a morte dos dous, muito mais para sentir foi a das duas tristes donzelas, que a desventura trouxe a tanta desdita, que não sómente conveio aos dous amigos tomarem a morte por élas, mas ainda conveio tomarem-na élas por si mesmas.

«Os dous amigos, no que fizeram, cumpriram para com élas, e para consigo mesmos, aquilo a que eram obrigados pelas leis da cavalaria que mantinham; élas só cumpriram para com êles, o que eu creio que é de maior estima; porque élas, por outros, não fizeram aquilo, e êles, por outras, deveriam-no fazer.

«Assim, como de pessoas que fizeram mais, se deve tambem a morte sentir mais, ainda que a mim egualmente me doem umas e outras: élas, porque eram mulheres, e êles, porque eram homens...

«Isto digo eu, para vós, e para mim, porque meu filho tambem era homem, como êles.»

CAPITULO IV

Das palavras que a dona com a donzela passou

Com estas palavras começaram as lagrimas a correr pelas suas faces abaixo, e éla, soltando a fala, seguiu dizendo:

--«Perdoar-me-eis, senhora, que, por minha edade, bem vos posso chamar filha, se muitas vezes me virdes fazer isto, ainda que a vós vos não devem as lagrimas ser estranhas, pois tanto folgastes de buscar lugares sós como estes onde estaes, que já em outro tempo, dizem, foram cheios de mui nobres cavaleiros e formosas donzelas; e ainda agora, por aqui algures, as moças que guardam gado acham pedaços d'armas, e joias de grande valia;--o que parece que faz este vale de mais triste sombra que outro nenhum.

«Não sei, este desconcerto do mundo, onde hade ir ter. Em tempo, foram estes vales muito povoados, e agora muito desertos; costumavam gentes andar n'êles, agora andam animaes ferozes. Uns deixam o que outros tomam! Para que eram tantas mudanças em uma só terra?

«Mas parece que tambem a terra se muda como as cousas d'éla. A esta, porque passou o tempo em que foi leda, veio este em que havia de ser triste.

«De muito povoada, e de edificios reaes enobrecida, tornou-se a povoar de altos arvoredos, como a natureza os produzia.

«Ainda em alguns sitios d'este vale estão algumas antigas arvores, que, pelo muito decurso de tempo, e descostume de como foram creadas, parecem já d'outra plumagem diferente d'aquela de que deviam ser quando, ajudadas de pomareiras mãos, élas produziam seu perfeito fruto.

«Tudo quanto ha n'este vale é cheio de uma lembrança triste para quem tiver ouvido o que dizem que aconteceu n'êle, e o que foi já em outro tempo; que pareceria então que não era para vir a este de agora.

«Mas tudo é assim. Emfim, fazem-se umas cousas para outras, para que se não faziam.

«Mal cuidariam os dous amigos, quando aceitaram a empreza de guardar as aventuras d'este vale (para só aprazer ás formosas duas donzelas) que era para tanto seu desprazer d'élas... E, tambem, mal cuidaram élas, quando aquele dia (da grande desventura) se vestiram, e enfeitaram ricamente, para verem os dous cavaleiros amigos, que era para os não verem mais!

«Trazem-nos os nossos fados não sei quê ante os olhos, que temos as cousas diante, e não as vemos...

«Tudo anda trocado, que não se entende; e assim nos veem tomar as mágoas quando estamos mais assegurados d'élas, que nos doem, a um mesmo tempo, o bem que perdemos, e o mal que depois cobramos!»

Aqui deu éla um grande suspiro, e esteve como se quisera dizer outra cousa: e tornou dizendo:

--«Mas tempo é de cumprir o que vos prometi, pois bem vejo que muito ha hoje que me leva a minha dôr após si.»

CAPITULO V

Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a sua nau, e da batalha que teve com o cavaleiro da ponte e do que mais lhe sucedeu

«De reinos estranhos, dizem que veio n'um tempo passado ter a estas partes um nobre e famoso cavaleiro.

«Aportou, cerca d'aqui, em uma nau grande, carregada de muita riqueza, e, sobretudo, de duas formosas irmans, a uma das quaes êle mais que a si queria. Para que éla não sentisse a saudade de sua terra, trouxeram a outra irman, donzela, mais pequena que aquela por quem êle vinha buscar terras estranhas.

«Contam que élas eram filhas de um poderoso senhor, como depois, com o tempo, se suspeitou, pelos muitos cavaleiros andantes que pelo mundo foram espalhados n'aquela epoca. Mas esta historia será longa.

«Aportando Lamentor (que assim se chamava) n'estas partes, como digo; havida inteira informação da terra, e da gente d'éla, porque, como êle viesse da maneira que vinha, não queria fazer seu assento em nenhum lugar muito povoado; e, saindo um dia pela manhan da nau, com todas as suas riquezas, começou a caminhar por este vale acima,--que para tudo tinham já seus criados feito o concerto necessario.

«Em umas ricas andas, que Lamentor na nau trouxera, iam as duas irmans; porque a maior vinha quase no fim do tempo da prenhez.

«A manhan era graciosa. Parecia que assim se acertou, para a terra mais lhes contentar. Ia o ano no mês d'abril, quando florescem as arvores, e as aves, que até então estiveram caladas, começavam a andar fazendo os gorgeios do outro ano, pelo que, por entre o arvoredo d'este vale (bem podeis cuidar quejando seria então, pois agora é tanto) estavam élas tomando recreio, ora n'uma cousa ora em outra.

«Tudo buscava Lamentor para que sua senhora e a donzela sua irman, de alguma maneira, perdessem a saudade de sua terra, e o enjôo do mar.

«Sendo êles cerca de uma ponte, que ahi perto ainda está, e querendo-a passar, lhe disse um escudeiro que no começo d'éla estava:

--«Senhor cavaleiro, se quereis passar, convem que façaes, uma, de duas:--ou que confesseis que o cavaleiro que mantem esta passagem quer bem com mais razão que ninguem, ou o determinará a justa.»

--«Muitas cousas havia mister de saber (lhe respondeu Lamentor) quem houvesse de responder a essa pregunta: e como se póde saber se quer êle bem com mais razão sem ouvir primeiro onde, ou como o quer? Mas, por agora, d'isso eu não curo: porque a mim basta-me saber que, por mais razão com que êle queira bem, eu o quero mais que êle, e que todos os do mundo. Isto que sei, certo de mim, me escusa saber mais d'êle que a condição com que êle guarda esta ponte. A razão que tem para isso, guarde-a para si; que, para êle, poderá ser que pareça a maior do mundo. Deveis, bom escudeiro, dizer-lhe que faria bem em deixar-nos passar, antes que o julgue a justa.»

«O escudeiro, que já olhára para as andas, e nunca cousa tam bem lhe parecera, lhe tornou:

«--É escusada, para êle, essa embaixada, porque está tam ufano, que não póde agora ninguem com êle (e na verdade tem causa); porque fará d'aqui a oito dias três anos que êle mantem este passo, sem achar cavaleiro que o vencesse, sendo o mais esforçado d'êles que por toda esta terra ha. E então se acaba o praso que lhe foi dado por uma donzela, a mais formosa que n'estas partes se sabe, filha do senhor d'aquele castelo que ali vêdes, em que éla lhe prometeu seu amor, sendo esta ponte por êle guardada com a dita condição. Mas se êle fosse sabedor da companhia que vós trazeis, com razão deveria temer agora, mais que nunca; mas eu não lh'o posso ir dizer, que já outras vezes lhe levei assim embaixadas, e êle tornava-me má resposta: e sucedendo depois á sua vontade m'o deitava em rosto, como que a minha tenção ficasse, pelo seu acontecimento, culpada.»

--«Ora, pois, determine-o a justa», disse Lamentor, olhando já para as andas.

«Tirando então, de um tiracolo, o escudeiro uma corneta, tocou-a.

«Dahi a um pouco, deixou-se sair d'um espesso arvoredo, que alem da ponte estava, um cavaleiro bem armado, a cavalo, e vindo direito para a ponte, ali houveram ambos justa, de que meu pae contava muitas cousas de grande esforço e valentia, que vos eu não contarei; porque, ainda que as mulheres folguem muito de ouvir cavalarias, não lhes está bem contarem-nas, nem élas parecem, nas suas bôcas, como nas dos homens que as fazem.

«Mas, comtudo, dissera-vo-las eu, se me lembrassem inteiramente; porém, não me lembra senão que contava meu pae que romperam três lanças, e á quarta caiu o cavaleiro da ponte; e com a queda grande do encontro (que tambem foi grande) ficára sem se poder levantar por um pouco.

«Lamentor se apeou rapidamente. Quando chegou junto d'êle, o achou sem fala, e, descobrindo-o, lhe pareceu como morto. Mas, d'ahi a um pouco, acordou, todo mudado na côr, e levantando os olhos para Lamentor, que sobre êle estava, com um suspiro:

--«Ai! ai! cavaleiro,--lhe disse. Que vos nunca vira, prouvera a Deus, ou que ao menos vos não tornára a ver!»

«Lamentor houve d'êle dó, maiormente de suas lagrimas, que lhe viu; e, tomando-o pelo braço, o ajudou a erguer, dizendo:

--«Do amor, senhor cavaleiro, nos podemos queixar com razão; que, assim como vos êle a vós fez aqui guardar esta passagem, me fez a mim fazer-vos dano. De vo-lo ter feito, me pesa como homem; que, fazer-vo-lo, foi como namorado. N'outra alguma cousa de vosso contentamento vo-lo emendarei, quando mandardes.»

«O cavaleiro da ponte, que assim o viu comedido, bem lhe pareceu razão de lhe agradecer aquela vontade; mas tamanha era a dôr que tinha no coração que não pôde acabar de forçar a sua. Comtudo, porque era de alta criação, lhe disse, como desculpando-se:

--«O amor demasiado não vive em terra de razão, mas eu irei tomar vingança d'êle n'outras, alongadas d'esta, onde não veja cousa com que os meus olhos descansem; ainda que esta vingança bem me pésa,--pois que ha de ser de mim e de meu cuidado?!»

«E assim se virou para outro lado, e deu a andar pelo vale abaixo. E como êle da queda grande que dera ficasse mal-tratado, e (segundo depois pareceu) quebrasse alguma cousa de dentro, não foi muito pelo vale abaixo, porque, acabando o seu escudeiro de tomar o cavalo, começando d'ir após êle, o alcançou perto d'ali: e achando-o já lançado no chão, de bruços, foi para o erguer, e viu que êle era em estado de morte.

«Começou a chorá-lo amargamente, e Lamentor, que o ouviu, deu a correr para lá. E vendo que estava o escudeiro com seu senhor, como morto, nos braços, desceu-se prestesmente, e foi-se para êle; e vendo-o no derradeiro termo de sua vida, e como desmaiado, lhe começou a dizer:

--«Que é isto, senhor cavaleiro?... Esforçae! que é este o passo verdadeiro para que tomastes a ordem de cavalaria.»

«E êle, acordando, pôs os olhos em Lamentor, e estendeu-lhe, vagarosamente, a mão direita, como em signal que parecia de paz. E, com uma voz cansada, disse:

--«Ao esforço, se me êle pudera valer, perdoára eu tudo; pois me falece agora, quando a mim tanto cumpre viver...»

«E com a força que fez para dizer isto (como homem que tinha alguma dôr grande de dentro) foi-se-lhe o folego, e, cerrando os seus olhos, ficou como passado d'este mundo. Mas, d'ahi a um pouco, os tornou a abrir, e fazendo menção com o rosto para aquela parte onde estava o castelo da donzela por quem guardava a passagem, e que todo aquele vale descobria, e levando para lá os olhos,--parece que lembrando-lhe que não tinha já mais de oito dias para acabar o praso que lhe fôra assinado, e como cousa que lhe mais magoava--ainda disse estas derradeiras palavras:

--«Ó castelo, quam perto ainda agora estava de vós!»

«E, com isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir, cansadamente, cerrando para sempre.»

CAPITULO VI

Em que se diz a razão por que o cavaleiro da ponte sustinha aquele passo, e de como sua irman ali veio ter

«Chegadas eram já ali as andas com as duas irmans, e toda a outra gente, e vendo como o cavaleiro da ponte (que desarmado já o rosto tinha) era de formosura, e presença extremada, e ainda mancebo, todos ficaram muito tristes de tamanho desastre.

«Lamentor, que via como o escudeiro estava lançado aos pés de seu senhor, tristemente chorando, havendo d'êle compaixão (porque, assim na pratica que com êle tivera havia pouco, na ponte, como n'aquilo, lhe parecera de boa maneira e de criação) foi-se para o consolar; e tirando-o para fóra d'ali, d'onde estava chorando, lhe disse:

--«Até nas cousas proveitosas, a temperança é muito louvada; os choros não aproveitam para nada; por isso, é muito mais necessaria n'êles; nem os choros se devem ter senão como cousa que se não póde escusar. Vosso senhor faleceu como cavaleiro; e ainda vos digo que as pessoas que lhe bem-queriam não devem estar tristes; antes se devem alegrar muito, porque foi de tam alto coração que não pôde suportar ser vencido,--que, sê-lo ou não, está na ventura.»

--«D'esta desventura minha, pois fico só (disse o escudeiro, chorando) não me pésa tanto por mim, senhor, como por ser tomada por quem é.»

--«Os cavaleiros por amores, tornou Lamentor (desejando saber o que este era), tudo lhes está bem fazer.»

--«Em lugar, lhe respondeu o escudeiro, que lhe seja agradecido; mas o meu senhor, sobre todas as cousas do mundo, queria bem a uma donzela, que não tinha para êle mais armas que a formosura; porque a vontade (segundo éla mostrou) nunca foi d'êle, antes disseram algumas pessoas de sua casa que no dia em que éla concedeu o praso chorou muitas lagrimas, e que nunca o concedera se não fôra por seu pae, que era tam afeiçoado a meu senhor (e com razão) que, ao cabo de longo tempo, alcançou isto de sua filha, e ainda á hora de sua morte.»

«Todos ficaram espantados d'ouvir isto, porque o cavaleiro da ponte era formoso e se houvera na justa grandemente.

«Lamentor, a quem isto pesou muito, pelo esforço que êle na justa lhe vira, com grande melancolia, disse:

--«Consolae-vos, que amor nunca perdoou desamor; tarde ou cedo, vereis vingança.»

«O escudeiro, chorando, e tornando-se a lançar aos pés do seu senhor:

--«Ai! senhor cavaleiro, disse, para a morte não ha ahi vingança!»

«Lamentor o tornou a erguer, dizendo-lhe: que, para o chorar, haveria tempo; que por então curasse de entender no que havia de fazer.

«O escudeiro lhe disse que iria, d'ali a uma jornada, onde estava uma fortaleza de seu senhor, em que vivia uma sua irman viuva, a quem a êle dera para lhe comer as rendas enquanto que êle seguia as aventuras: e d'ahi viria o concerto para o levarem ao jazigo de seus antecessores; e que, por então, deixasse Lamentor ali um seu escudeiro, que o guardasse.

«O sol ia já declinando, e era tempo de repousar: mórmente quem do mar saíra.

«E porque, não muito longe d'aquele lugar, e da ponte, estava um assento gracioso d'arvoredo, e corria por entre êle agua, ordenou Lamentor de ali jantar, e assim o fez depois, dizendo ao escudeiro que queria ir repousar n'aquele lugar; que lhe daria as andas em que o levassem, e que, se mais lhe cumprisse, de boamente o faria.

«O escudeiro, tendo-lh'o em mercê, disse que assim fosse.

«E, começando-se de ordenar tudo, sucedeu por acaso que a irman do cavaleiro da ponte, que sabia que não havia mais que oito dias para se acabar o praso em que seu irmão (que éla muito queria) todo o seu contentamento tinha posto, determinára vir ali com grandes pompas e atavios, como aquela que devia, por amor e obrigação, acompanhá-lo até ao fim,--porque tinha éla por certo que o acabaria êle com grande honra, pois tanto tempo mantivera sua aventura que não havia já cavaleiro em toda essa parte que por ali não tivesse passado.

«E acertou então de vir: e, vendo aquele ajuntamento e as andas, não soube que dizer; mas logo lhe deu o coração uma volta, e, chegando-se com presteza, viu o escudeiro, que éla bem conhecia, andar chorando. Preguntou-lhe que cousa era aquela. Olhou, e viu o irmão jazer já sobre uns panos ricos, que Lamentor lhe mandara pôr, e, apeando-se apressadamente, foi correndo para êle. Lançando os seus toucados por terra, começou a ir, arrancando cruelmente os seus cabelos (que longos eram), para onde o corpo de seu irmão morto jazia, dizendo:--«Para a dôr grande, não se fizeram leis!»

«Isto dizia éla, porque era costume muito guardado n'aquela terra, que ficara d'outro tempo, sob grandes penas proíbido, não se pôr mulher nenhuma em cabelo, senão por seu marido.

«Chegando a êle, o abraçou muitas vezes, e o beijou, dizendo:

--«Irmão meu, que morte foi esta, que assim vos levou tam depressa, que vos não pude falar? Quam enganada me trouxe, do vosso castelo até aqui, a desventura?! Que desconcertos da fortuna são estes? Para verdes outrem, tomaveis vós esta empreza; e eu para vêr a vós parti de casa: e tudo era para não vêrmos o que desejavamos!... Triste de mim, que, quando vós, com outro rosto, fostes correndo a abraçar-me, dizendo: «D'aqui a três anos, senhora irman, haverei a causa do mundo mais desejada, e, com vossa licença, que mais quero» logo me deu n'alma. E disse-vos: «Que largo praso, esse, para quem o recebe; parece até que quem o põe o não põe para outra cousa!» Mas vós, que para isto quisestes este bem, como que não folgaveis de me ouvir aquilo, me tornastes: «O grande amor assegura esta demanda.» Inda mal, muitas vezes, porque foi tam grande! Mas não me comerá a mim a terra com esta dôr, sem fazer, com todo o meu poder, que custe o largo praso alguma cousa áquela que tanto custou a vós e a mim!»

«As duas irmans, que já tinham descido para darem as andas, se foram para éla, e, tomando-a entre si, começaram a agasalhá-la, á maneira de a quererem consolar,--que a lingoagem d'aquela terra não a sabiam.

«Éla, com alta voz, chorando, disse: «Deixai-me, senhoras, chorar meu irmão, pois não tem outrem que o chore.»

«Chegou-se Lamentor, que sabia a língoa, e andára todas as partidas do mundo, e disse:

--«Os cavaleiros, senhora, que em feitos d'armas acabam, como vosso irmão, não devem ser chorados como os outros homens; porque êles acham o que buscam. Vós, senhora, posto que muita causa tenhaes para ser triste, pela perda que perdestes n'ele, que era o melhor cavaleiro d'esta terra toda, tendes tambem muita razão para louvar a Deus por ele ser tal. Deixae o pranto, e vêde o que mandaes que se faça; que parece, senhora, escandalo curardes mais de vossa dor que de vosso irmão, emquanto o tendes diante de vós.»

«N'isto, chamou o escudeiro, para que lhe dissesse o que estava d'antes ordenado. E éla o houve por bem, e fez-se assim.

«E puseram o cavaleiro da ponte sobre as andas, em ricos panos; e a irman, chorando, pediu que a metessem com ele. Lamentor a tomou por um braço, e a donzela (porque a irman não podia) pelo outro, e puseram-na dentro. E querendo Lamentor soltar os paramentos das andas, como causa de tanto dó, se chegou mais para éla, e disse estas palavras:

--«Ainda que o tempo, senhora, seja para outra cousa, como não sei quando vos tornarei a ver, de mim sabei, como certo, que podeis fazer a vosso serviço; o mais, sabereis do escudeiro.»

«E éla não tornou resposta, que ia toda coberta, lançada já sobre o rosto de seu irmão, chorando.

«Ele soltou os paramentos, e assim se foram.»

CAPITULO VII

Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por aprazer aquele lugar a Lamentor, ordenára fazer ali seu assento

«Tristes ficaram todos por aquela desventura; mas Lamentor, que não esquecia quem trazia consigo, limpando os olhos das lagrimas que aquela partida assim lhe fazia, veio para onde sua senhora estava com a irman, com estas palavras:

--«Agora nos podemos, senhora, ir; que na mortalha alheia não temos mais que fazer.»

«E, tomando-as, cada uma por sua mão, mandou os seus para aquele lugar que d'antes lhe parecera bem, dizendo-lhes o que haviam de fazer entrementes.

«Foram-se então todos pôr sobre a ribeira d'este rio, olhando para êle. Falando em outras cousas, estiveram ali um pouco, porque o mais depressa que ser podia foi armada uma rica tenda, e preparado de comer, que tudo vinha em grande abastança.

«Repousaram até bem tarde, que as andas tornaram. E por não serem já horas para caminhar, se deixaram ficar ali aquela noite,--que a fortuna tinha já ordenado que fosse para sempre.