# Santarenaida: poema eroi-comico

## Part 3

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Amados filhos (vagarozamente Tendo erguido o semblante macilento Asim lhes dis) Amados filhos, nunca Taõ fera atasalhou meu peito forte A tirana Paixaõ! Nunca minh'alma Tanto vi afracar!... Fatal derrota Foi esta que no livro do Destino Lavrada estava em caratéres negros Pela férrea maõ da atrós Desgrasa! Nosas forsas (as forsas invenciveis Que tem amedrentado o mundo inteiro!) Abatidas as vedes, destrosadas Por barbaros Salvajems, por ums brutos Que nada por si tem mais que fortuna. He pois tempo, surjâmos acordados Deste pelago vil de cobardia Onde a triste vergonha nos asoita. Para o imigo venser quem se embarasa Que aja esforso, e valor, ou que aja dolo? O que forsas naõ daõ, ardís alcansem. Todo aquele que vir que melhor póde Ao exito xegar do que intentamos Meta maõs ao trabalho, dêse présa E reduza a pedasos esta canga Que tanto no caxaso nos carrega.

Levantase do asento entaõ pacato O Velho guardador dos grandes Focas, E no meio do cónclave luzido Dest'arte descarrega a consciencia.

Até'gora eu naõ quis a colherada Nestas coizas meter; vós tendes feito, Tendes acontecido, sem quererdes Pedirme, nem ouvir os meus concelhos, Porem quando a tortura a tal extremo As coizas vai levando, oporme devo, E servir a meu Rei, qual poso, e valho. Os Deuzes, caro Pai, tem-me ensinado As coizas do por-vir caliginozo, Eu antevi estes dezastres feios, Mas eu sem ser forsado naõ predigo. Por castigo talvês dos Deuzes fose Ao voso dezacordo.... Porem basta, Ja tudo se pasou, agora eu mesmo Tomar á minha conta a empreza quero. Socega, amado Pai, o Eroi da pinga De meus tiros o alvo a ser comesa.

Recobrou novos animos o Padre, E do filho nos ombros sempre firmes O pezo descansou da grande guerra.

Proteo, que nos ardís exp'rimentado Fôra sempre instrumento a mil fasanhas; E cuja calva frente laureada De importantes facsoins sempre saíra, Um pouco sobre o cazo consid'rando, Este acordo felis contente abrasa. Vaise ter com a Astucia enganadora. He esta uma rolisa Mosatona, Que vestida de peles de rapoza, E empunhando na dextra um rico cetro Domina sobre os omems; manda, impera Os indomitos tigres, quais cordeiros.

Em quanto pois bulindo dezenvolta Lhe xamejaõ os olhos inquietos Por ouvir o que quer dizerlhe o Velho,

Eu quero, lhe dis ele, que te empenhes Agora em socorrerme quanto pódes. De Baco um General meu inimigo, Xamado por alcunha o Santareno, Do esforso ou da fortuna socorrido Tem triumfado das aguas. Oceano Ja derrotada a flor de sua jente Suspira inconsolavel. Mas dos livros Do tremendo Destino irrevogavel Eu sei que o Santareno ao ferro ao fogo Naõ tem de dar a vida nas batalhas; Pois uma pouca d'agua em ora infausta Bebida, ha de arrancarlhe ao corpo o sprito. O buzilis porem consiste agora Em fazerlha beber sem que ele o saiba, Por quanto este animal temlhe odio eterno. Todavia a este laso que lhe tramo Fugir naõ poderá. N'um arrabalde Naõ lonje da Cidade, brevemente Farsehá uma funsaõ que ele naõ perde. Aqui pela canseira do caminho Moído xegará, suado, e laso. Forsozo he pedir vinho, isto naõ falha. Tu pois, que és marralheira, ásde mui prestes Em sua mesma Môsa transformarte; E eu tornado em agua facilmente Na vazilha entrarei que tu lhe deves Lampeira ministrar. Ele sedento Nem se he vinho, ou se he agua reparando A enfuza vazará no grande buxo. Deste modo a meu salvo os intestinos Ávido devorando o darei morto, E terei concluido a grande empreza. Vamos pois sem demora vem comigo.

Vamos onde quizeres; insofrida A Astucia respondeu. E logo promptos Metidos n'uma nuvem negrejante Tirada por seis Euros rujidores, Despejando coriscos sentelhantes Ao orrorozo som d'um trovaõ grande Sobre a airoza Coimbra em fim baixáraõ. Mas como do Deleite o Santareno Estava no país, ordena Próteo Que a Astucia dali sacar o fasa, E á Cidade o conduza aonde a trama Para o pobre cair armar pertende.

Entre os longos Estados da Mentira Infame Imperatris da maior parte Da terráquea mole, junto ás fraldas D'uma verde colina alcantilada, Sobre um campo espasozo, plano, ameno A que regaõ d'um rio as mansas aguas, A galante Cidade encantadora Do vaidozo Deleite está plantada, A pálida Doensa, os Desprazeres, Os Remorsos crueis, a orrivel Morte O cume senhoreiaõ do alto monte. Mas o Engano traidor, c'um tolde espêso Tudo isto ávido encobre á gran Cidade. Nela tudo he prazer, tudo he descanso. O povo abitador ao ocio dado Só cuida em divertirse: o Baile, o Jogo, Os Cantos, a Luxuria, os Boms-bocados Aqui abítaõ ledos: pelas ruas Amplas Satisfasoins andaõ jirando Ministros de seu Rei: seu Rei parese, C'o as fraudolentas côres que a Mentira Arteira sobre modo o tem pintado, Um rapás mui lousaõ de afavel jesto.

Aqui de toda a parte os povos correm De seus serios deveres deslembrados A pedir a este Rei, quais seus dezejos, Tais as Satisfasoins, que outorga facil. Aqui a avía vindo o Santareno, E a meiga sua Espoza a Santarena, A pasar algums dias satisfeito Do fim da grande asaõ com que ultimando A mais árdua vitoria felismente, Tinha a um nome de impávida memoria Por entre o ferro, e o fogo alcanse dado.

Mas a doloza Astucia que naõ sabe Desvelada perder monsaõ de efeito, Por Próteo instigada, em continente As cambiantes azas solta aos ares, Dá nele d'improvizo, e asim o ataca: Dos remorsos se val acuzadores; E por uma maneira extravagante De seu alto saber somente propria, C'o as cores da razaõ na triste ideia Seu vil procedimento lhe debuxa. Faslhe ver com a mesma consciencia Como he mais justo que um Eroi constante, Que as desgrasas tratou de bagatela, Em as prosperidades naõ se infune. Que naõ dê que falar ao povo rude, Que murmurante na Cidade o acuza Pelo ver aos prazeres taõ sensivel. Que deve a sua caza retirarse, Tirar do vencimento util proveito, Naõ confiarse em si, porque inda as Aguas Estancado naõ tem as forsas vastas. Aqui do astuto Anibal traslhe á mente E do Magno Pompeo exemplos vivos, Que ja devem fazelo escarmentado.

Em fim estas solicitas lembransas De tal sorte do Eroi fervelhaõ n'alma, Que em si caindo parte rezoluto.

*CANTO VII.*

Entretanto em Coimbra amotinada Era inda o pasmatorio inexplicavel Por cauza do trovaõ medonho, e orrivel, Que desde os fundamentos abalára As altas cazas, e fizera aos sinos Por si mesmos tocar nos campanarios. Soava Saõ Jeronimo inda em partes, E em outras Santa Barbara bemdita Com espantozos berros; e a vizinha Á timida vizinha inda contava Das viboras de fogo côr de enxofre, Que tortuozas rápidas caíraõ.

Os dois obézos vultos, que sozinhos Pelas sombras da noite caminhavaõ Vinhaõ asustadisimos: em bica Lhes corria o suor, e sem falarem Só vinhaõ nas camandolas sebentas Ave Marias mil, e Padre Nosos Ums apôs outros engolindo a medo. A caza em fim xegáraõ, e por terra Depois de averem dado aos Ceos as grasas Pelos ter dos perigos defendido, Entaõ uma Sobrinha por miudo As coizas lhes contou que se pasavaõ. Diselhes, que depois que eles se foraõ Ao seu divertimento, na Cidade Em nenhuma outra coiza se falava Senaõ no grande risco a que seu Tio Tinha ficado exposto; que entre dentes Naõ sei que se rosnava; pois que o Xefe Inimigo tentava armar ocultas, Fraudolentas traisoins; que era precizo Cautela, e mais cautela: acrescentando Que teve ums sonhos (de que Deos nos livre) Mesmo áquele respeito asás funestos. No que naõ creu o Eroi; porem Madama C'o a noticia em extremo intimidada, Asentando que ali avía agoiro, Fês que viese a caza no outro dia Uma ábil Franxinota a lerlhe a sina.

Asim foi: uma veio asás jocoza De cabasa, e bordaõ, trincos nas repas Formados em torcidos papelotes, Pálidas maõs, agaloadas unhas, Altas as saias com franjoins de lama, Mursa nos ombros de ensebado coiro Com redondas conxinhas matizada, E um de languidas ábas xapeo ruso Com varios em redor Santiaguinhos No alto da cabesa côr de estriga.

Era esta sagacisima, adestrada, Mestra no ultimo ponto em Chiromancias. Olhou, examinou, tomou medidas, Mas viu mil cruzes na polpuda palma Do magnanimo Eroi, mil entrelinhas Cortando inteiras linhas, mil figuras, Mil indicios em fim de agoiro aziago,

De caza em todos toma pose o susto: Parese cada cara uma laranja.

Porem o Santareno que prezume Ser em materias tais dezabuzado, Que nunca em Bruxas creu, ou Lobizomes, Deita estas coizas para trás das costas. Trata de divertirse, e em mais naõ pensa.

Ai de quem da memoria o adagio varre _Quem inimigos tem dormir naõ deve!_

Xegada estava entaõ uma romajem Dia de Pentecoste, onde Coimbra Em pezo aos Olivais sair costuma. He esta uma funsaõ das mais luzidas Daqueles arrabaldes; ali entra Tudo o bom, e bonito; ali se encontra Todo o recreio de qualquer espece. Veemse ali jocozisimas Comedias No amplo teatro do arraial vistozo. Veemse as Trajedias de orrorozo aspéto A sena ensanguentarem. D'uma parte Esgrimese com ansia a espada preta, D'outra em jogo de páo soa a lambada. Aqui n'umas mezinhas enfeitadas Mosas de arromba, que os tafuis arrastaõ, Vendem d'envolta c'o as xulises torpes Sédiso doce de mil castas feito. Ali nas asadeiras xia a carne: Esta freje a sardinha, aquela os ovos, Uma vende agua ardente, outra beijinhos. A fresca como neve limonada De resto ali se trata: ali triumfante, Como em brilhante trono, sobre um carro De cana, parra, e loiros enramado, Adoradores mil em torno tendo, Vêse a _sine-qua-non_ excelsa Pinga.

E que peito de páo, que alma de palha Poderá insensivel n'um tal dia Ao recreio negar entrada franca? Um omem de bom senso, e que se préza Ser da onra, e do respeito alumno serio Ha neste dia de trancar insano Em masmorra domestica o seu gosto?

Naõ era, o noso Eroi naõ era filho De pai que tal fizese. Espoza cara, Dis ele, he nesesario naõ perdermos Os uzos, e costumes: he xegada A minha romaria: resta veres O que eide merendar; pois tu bem sabes Que nisto da funsaõ consiste o todo.

Mas a crédula Espoza, a quem agoiros Sempre grande impresaõ fizeraõ n'alma Aflita com exceso asim lhe argúe:

Onde queres tu ir? Tu serás doido? Credo! Apelo eu! Lenho da Crus Santa! Naõ vês, alma de Deus, como danados Andaõ teus inimigos de alcateia A ver se te devoraõ? Tu naõ queres Inda acabar de crer? Eu bem te avizo. Se queres merendar, merenda em caza, Deixa lá ir quem vai á romaria. Bem viste a Franxinota o que te dise Quando lendo te esteve a _buena dicha_.

Ai, temos conversado, a Deus Senhora; Quero ir á romaria, tenho dito (Replíca ele agastado) vá dar ordem A um fardel em termos: ca por ora As Aguas nunca me fizeraõ papo: Naõ temo de nimguem, só de Deus temo.

Com efeito apromtouse uma merenda, Que para outro qualquer fôra um banquete. Era uma perna de vitela tenra Com Anjelico molho temperada Segundo os boms preseitos que arte ensina; (Ele a tinha aprendido com boms Mestres) De prezunto era um grande pratarrazio, De porco quatro pés, seis orelheiras, Uma lebre, um leitaõ, sete coelhos, Ou láparos talvês; afóra o lombo Que estivera ate'li de vinho d'alhos Iaõ sinco ou seis pains de imensa mole; Coroando por fim a obra toda Xeia de vinho a pel'd'um bode d'ampla Desmedida grandeza: odre admiravel, Qual nunca em seus opíparos banquetes Teve de Bromio o orelhudo Socio.

Mas vem a cada porco um S. Martinho. Em fim he tempo, os duros Fados instaõ, E Lachesis da roca por momentos Vai tirar ao Eroi o ultimo fio.

Da partida se trata: a carga opíma Da profuza merenda em dois alforjes Um burro fas vergar: na maõ c'o as contas, E c'o a borraxa á cinta, o Santareno A maguada Espoza prende, e abrasa; E entre doces coloquios até a noite Seguro se despede. Mizerando Que ignora que esta noite ao prazo dada He por ordem dos Ceos a noite eterna! Entaõ tres vezes que dirije os pasos Da porta ao lumiar, tres vezes dentro Se torna perturbado, inquieto, mudo. Preságo o corasaõ dentro no peito Agitado lhe bate: mil lembransas De montaõ o atacaõ: anda, pára, Nem sabe a decizaõ que tomar deva. Mas se o que tem de ser, tem muita forsa, Com eroico valor tanto imbecilho Rompendo finalmente a estrada avansa.

*CANTO VIII.*

Vai a ultimarse a empreza. Numen terno, Que os influxos nos lúgubres cantares Da Heliconia montanha aos Vates mandas, Para oje acompanhar meu canto triste A minha lira d'évano tempéra, E nas cordas me ensaia os dedos broncos, Q'a impreterivel ordem dos susésos; Ja me fas o sinal de pôr aos olhos A lastimoza sena em que a Desgrasa Deixou que á vergonhoza cobardia Cedese o alto valor d'um peito nobre. O estro se me afraca, o pulso treme... Eu quizera esquivarme ao pezo enorme... Ó Muzas ajudaime. Ja sentado Sobre a relva do campo verdejante Onde da romaria a jente estava Noso Eroi dezabotoava impando Os graúdos botoins da imensa vestia. Ja mais em ano algum ele sentira Em funsaõ semelhante entre folgares Taõ grande desprazer dentro em si mesmo.

Ui lá! q'inda este burro naõ xegase! Valhame Deus, forte tardansa he esta, (Dizia ele lá comsigo mesmo) Nem moso, nem dinheiro, nem garrafa; Máo está o negocio... E asim rosnando. Sentado cada vês mais se aflijia. Levantase, o capote aos ombros puxa, E gozando do fresco deleitozo, Que o zefiro das azas sacodia C'os olhos do concurso em torno gira.

A precavida Astucia, que d'um alto Todos seus movimentos atalaia, Entaõ em Môsa feita, de tal sorte Que a sua em carne, e oso ser parese, Sae d'entre o barulho, e contra o Amo Os concertados pasos endireita.

Ora grasas a Deus! Pois inda'gora He que tu la de vir oras axaste? (Lhe dis ele agastado) Morto á sede Ha mais de duas oras aqui posto Sem xegar inda o vinho! Irra c'o a festa! Por onde tems andado? Q'he do burro?

Como quem d'um perigo ilezo escapa, Que fica longo tempo, em dezabafo Do aflito corasaõ que á présa bate, Cansado respirando, e da garganta A fala desprender livre naõ pode; Asim depois de um pouco estar ant'ele Descansando arquejante, e fadigada, D'est'arte entre ipotéticos enfados Zangada a Mosa apócrifa responde:

Ah Senhor! que me dis? Sabe os trabalhos Q'ese burro nos deu? Olhe a empreitada Melhor naõ pôde ser. Mais de oito vezes Tem caído c'o a carga: eu e o Fernando Temo-nos visto Gregos: os alforjes Vem todos lameados; as casoilas, E frejideiras todas se quebráraõ: (Cada palavra destas piamente Creio que era no Eroi uma facada Segundo as cores mil que ao rosto dava) Os molhos se verteraõ; finalmente Caminhando adiante eu vim mais prestes Somente por pensar que esta tardansa Lhe daria cuidado. E naõ pequeno, (Torna ele) esa está boa! Esta somente A mim he que susede... Paciencia: Que lhe avemos fazer? Eide matarme? Naõ; matese o Diabo. Vai depresa, Que eu tenho muita sede, e estou suado, Buscar meia canada n'uma enfuza, Que eu naõ poso esperar que o odre xegue. E traze do melhor, anda deprésa.

A Astucia mais naõ quis ouvir; e dentro Do barulho sumindose contente, O fatidico Vate que a aguardava No aprazado lugar buscando encontra, Mutuos parabems ambos se prestaõ, E sem que dois minutos se esperdisem Em agua o ávido Velho se transforma, E na enfuza se mete. Corre, voa A fatal Portadora. O Santareno Tanto que a enfuza enxérga, ja sem tino As guelas abriu voraginozas, E, sem fazer no gosto algum reparo, Alambazado, e sofrego d'um trago Em vês de vinho foi beber a morte. Dominante entra Próteo. D'improvizo As entranhas do Eroi rujindo estalaõ: Com orrorozas vascas treme o corpo: Os brasos se lhe estrixaõ; torce a boca; Revirados os olhos se lhe vidraõ, Os dedos fexa, estende as pernas, morre.

Ah barbaro traidor! Que gloria, ou fama Defeito taõ atrós, de asaõ taõ crua Pertendes alcansar? Sempre em meus versos, Se versos os meus versos sempre forem, Notado tems de ser de vil, de infame.

Morreu o Santareno. As longas azas Batendo logo a xocalheira Fama O boato espalhou por toda a parte. Alvorósase o Povo, corre, inquire, E cercaõlhe o cadaver. Escumava, Ainda quente o corpo; e a Morte pálida Ja lhe tinha das faces desbotado O vivo vermelhaõ. Ceos! que terrores, Que frios sustos, que orrorozos pasmos Esta morte naõ cauza á gente toda! Eis uma tumba a multidaõ rompendo Lá o condús em si levando fitos Os tristes olhos da pasmada jente, A funsão se desfás, tudo se abala; E o jeral sentimento nos semblantes Dos calados Romeiros vem pintado. Tal se tira lisaõ destes exemplos!

A caza a tumba xega: o povo a porta Rodeia em turbilhoins: toda a familia Frenética rebenta em pranto amargo. Da caza que resoa sem maneira Fere as aureas estrelas o alarido.

Ja mais aparesêra em nosos dias De dezordems taõ funebre um teatro!

Mas na Espoza infeliz que alma ferida Ja tinha desde muito, entaõ se acaba De cravar o punhal sangui-sedento. A fala se lhe toma, as cores perde, Suspira, desfalese, em fim desmaia.

So a linda Sobrinha, linda mesmo Como Deus a criou, largando as redeas Da violenta paixaõ que sofreava, Insana fere as boxexudas faces, Fórma gritos d'espanto, e as maõs fexando Uma n'outra, indizivel xoradeira Fas nestes termos pouco mais ou menos.

Ai Tio da minh'alma! Bem dizía Bem diziamos nós que naõ saíse! Que negra romaria nos foi esta! E que áde ser de mim?... Oh Ceos, eu morro. Ai de mim! Ja (quem tanto me queria) Naõ me ouve aqui xorar mesmo ao pe dele! Ja naõ fala, morreu... Forte desgrasa, Senhor, forte desgrasa! Quem diria Que n'um pouco de vinho fose a morte? Mas ah! que a mim do sonho inda me lembra Que ele os tempos atrás de noite teve! Oh mal-aventurado, triste dia! Nunca tu... E asim continuava Abrindo, e com furor fexando as portas.

Em tanto a si tornando a Espoza Eroica O amortalhado corpo apenas pôde Só ver, e abrasar, porque fexada Quis dar á sua magua o dezafogo Que a todos nos ensina a Natureza.

Naõ ouve caõ nem gato a quem deixase De custar quatro lagrimas tal perda. Todos, bom Santareno, te xoráraõ: Nas mesmas sentidisimas adegas Ainda oje se veem lagrimejando Os bojudos toneis, as gordas cubas.

Mas que ternura em mim!... Ah! vinde, vinde Minhas lagrimas ternas, que tributo Melhor naõ pagareis á sua memoria. Oh mal aja o primeiro, que das guerras A praga fes cair no pobre mundo: Nefanda praga dos mortais verdugo, Donde veio a dezordem, donde os roubos, Donde a desolasaõ, a mortandade. Ditoza Pás, dos Ceos abitadora, Serena filha da Ventura eterna, Que os mizeros umanos tanto alegras; Se fora mais privado o teu imperio, Se a execranda Discordia naõ ouzára Entrar com maõ armada os teus limites, Lansar neles o orror, destronizarte; Ainda o meu Eroi de glorias xeio Alegrára vivendo os nosos dias. Mas naõ susede asim: est'alma nobre Foi do sosego seu dezaposada No melhor de seus anos: os trabalhos Mais as consumisoins, que de rezerva Dispostos a atacalo andavaõ juntos, Fizeraõ nele o tiro; e o bem-fazejo, O braso liberal que no regaso Da esfaimada Pobreza amplos tezoiros Franquear costumava viu-se a ponto De pegar da espada. Mas que forsa Naõ era a de seu braso? Que grandeza A de seu corasaõ robusto, e forte? Ah! e que Átropos cega, e sem acordo Condene ao mesmo golpe o poltraõ baixo, E o magnanimo Eroi, que a Patria onra!

Amigos deste Amigo, se inda o zelo Vos aquese as asoins, eia xoremos, Naõ sejamos ingratos, indolentes: O luto se conhesa, banhe as faces Um saudozo pranto. Quem mais facil Satisfês algum dia, que este Amigo As nosas precizoins? Quando caía Das nuvems gêlo aspérrimo que o sangue Nas veias encalhava, quando a negra Mortal Melancolia o peito inerme Cruel nos abafava, elle benigno Naõ nos dava o remedio, apenas via Junto á porta asomar nosos garotos? A quem mais beneficios, mais louvores Poderemos dever, telhas abaixo? Ai de mim, que naõ poso, ó grande Amigo, Xorar a tua perda incomparavel Com pranto de ti digno! Oh s'eu podera Gastar agora umor de Carpideira, Noite, e dia regára o teu sepulcro. Tu es digno de lagrimas eternas. Eroi sempre invensivel, que fizeste Notar teus aleivozos inimigos, Se venserte quizeraõ, c'o a infame, C'o a dezonroza marca de cobardes; Varaõ constante, que arrostaste os lanses, Qual aguia majestoza arrosta os ventos.

Arrepele os cabelos sibilantes, Que a fronte negra esquálida lhe arreiaõ; Raivoza a lingua morda, dê bramidos Maiores que trovoins a magra Inveja; Tu cantado serás: teu nome egregio Na letárgica veia entre cardumes De populares deslembrados nomes Naufragio naõ fará: em pás descansa, Seja-te leve a terra que te cobre, De teus osos a pás nimguem perturbe. Deixese ao Tempo revolver a roda: Tems sempre de ser celebre no mundo, Sem que a fama de Heitor te fasa sombra, _Sem á dita de Achiles ter inveja._

FIM.

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_Pascitur in vivis livor: post fata quiescit, Cum sùus ex merito quemque tuetur honos._

Ovid. Am. l. I. E. 15.

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