Santarenaida: poema eroi-comico
Part 2
Foi renhida a peleja: longas oras Pendeu a decizaõ n'ambas as partes. Finalmente naõ sei que infausto cazo Pôs dos vinhos o exercito em dezordem, Que naõ pôde aguentar sobre seus brasos Dos aquozos dragoins o carregume. Perdem todos a côr, as armas largaõ. (Entradas de leaõ, saídas d'asno!) Cae aqui, cae ali, ums sobre os outros Vaõ indo aos trambolhoins. O Talaveiras Reunilos intenta, mas de balde. He de balde bradar: diques naõ sofre Torrente por pavor precipitada.
No campo ficou so inteiro e forte. O golpe universal caíu sobre ele. Das setas, e das lansas acravado Parecia um pinhal o grande escudo. Nimguem ouzou xegarlhe, que da terra Naõ fizese vermelha a superfice.
E que mais fês d'Olimpias o esforsado Filho, o devastador do mundo invicto, Junto ao tronco, dos seus destituido, Quando o muro saltou dos Oxidracas?
Mas a Morte d'Erois sempre avarenta Metida n'uma bala fulminante As pernas lhe atravesa, e despedasa. Acurva a grosa máquina tremendo, E em terra baqueando he maxucada Do violento tropel dos inimigos. C'o este lanse _vitoria_ o Tejo brada: Vitoria, respondeu a xusma ovante, Vitoria pelas aguas, viva, viva.
[1] Periclimeno: Neto de Neptuno, de quem recebeu o poder de se metamorfozear.
[2] Achelóo: filho de Oceano. Namorouse de Dejanira amante de Hercules. Hercules combateu com ele metamorfozeado em toiro, arrancoulhe um corno, e venseu-o.
[3] O Velho, &c. Nerêo, filho de Oceano, e pai das Nereides.
[4] Protêo: vej. Virg. Georg. I. 4. v. 429.
[5] Um dos Taverneiros de grande conta que Lisboa teve. Na dilatada teia de seus louvores saõ estes meus versos um romendinho.
*CANTO IIII.*
Foise em folias a seguinte noite. Mas asim que a lus alma avermelhando No orizonte as globozas nuvemzinhas Comesou a doirar o cume aos montes, A vensedora jente enfurecida Respirando outra ves carnajem, sangue, Vai de rota batida, e compasada Ao som dos belicozos instrumentos Demandar do Mondego as marjems frescas.
A seu salvo xegando se alojárão. Fas-se conselho, e por comum acórdaõ Para a um tempo levar ao Porto, e Aveiro O terror, e a vitoria Nerêo parte.
Em quanto isto asim pasa, ja Coimbra Bem como um formigueiro fervelhava Atonita bradando. Eis muito conxo Correndo á présa contra seu costume, Vem um cambaio tutelar das aguas, O gago Vitorino, e o Santareno[6] Fanfarrão desta sorte dezafia.
Cá-cá fora me'amigo, cu na rua; Á de ir aqui tu-udo c'o a maleita. E ve-ve-ve veremos, e veremos Quem-quem leva a melhor: xê-xegá'gora Um nunca visto inzercito de jente; Saõ co-como mosquitos: se tem barbas, S'hé-s'hé-s'hé-s'hé capás ponhase em campo.
Qual grande Ferrabrás no xaõ deitado Desprezando do garrulo Oliveiros O louco dezafio, o Eroi prestante Do Rino desprezou o stultiloquio. Naõ se altera; em seu rubido semblante Naõ poim o Mêdo as cores da fraqueza. Lijeiro, quanto sofre a corpulencia, Á trapeira alta sobe onde vijia; E axando ser serta a guerra em caza,
Maõs perdidas, dis ele, saõ: ja'gora Ou venser, ou morrer. Xamase ás armas, E toda a jente sua acode prestes. Acodem d'Alemtejo, e Estremadura Bizarros Campioins: da Vidigueira, Vila de Frades, Borba, de Vilalva, Setubal, e Palmela. De Lisboa Axaõ-se os Carcavélicos mansebos De furibundo senho. Estaõ do Algarve Mil Soldados d'embarque destemidos, Mil de sima do Doiro, e das Bairradas; E saõ mais de dés mil Coimbricenses.
Toda esta Soldadesca, he bem verdade, Cavaleiros naõ saõ d'aureas esporas: Saõ rotos, bandalhoins, babozos, porcos; Mas qualquer deles um Eroi xapado De inaudito valor, corajem suma, Capás de se avansar ao mesmo Alcides. N'uma palavra bebados eternos.
Entrase a rezenhar: cazo estupendo! Inda a mais d'um milhaõ monta a rezenha. Formarse vaõ da Feira ao grande largo.[7] A linda variedade em farda, e armas Os olhos encantava: grande parte Em cambudos capotes romendados A trouxe mouxe postos se rebusa: Parte em mangas, e pernas, sem sombreiro, Xeia de impavidês caminha aos tombos. Este trás um pixel, este trás quatro No alforje a tiracolo: um tres borraxas De admiravel grandeza, e tudo xeio. Armados todos vem muito á lijeira: Nada de arnezes, peito descuberto; Á excesaõ dos rompentes granadeiros Que feitos vaõ ali cabides d'armas. Com grevas, bacinetes, e lorigas Bem poucos se embarasaõ: a rodela, A talhante farrusca colubrina, A adaga, o varapáo, a masa, o xuso, Comforme cada um melhor se ajeita, He tudo quanto importa á mais da tropa. Nas pezadas carretas rexinantes Temivel ali vai das bocas negras A ignívoma tormenta: até naõ falta Quem leve junto a si seu caõ de fila.
Entaõ sobre um jumento de atafona Ricamente ajaezado, o Santareno As odreas pernas escarranxa a custo. Veste de bode um tresdobrado coiro; Poim um elmo de vides enlasadas Na caveira d'um tigre tremebundo Que lhe a grande carranca asombra, e adorna, E empunhando na dextra uma tarasca De dilatada folha, vai bizarro Puxando os batalhoins para o combate.
Tanto que do lugar alcanse ouveraõ, E os raivozos imigos avistaraõ, Fas alto o Santareno, expede as ordems, As fileiras divide, o campo asenta. Depois entre um salseiro procelozo De perdigotos que da boca xove, Da sua jente á testa asim troveja:
Lembrar-vos, generozos Camaradas, O que ides a fazer, fôra esqueserme Até de quem vós fois: eu sei que o brio A cada um de vós outros alentados Na ponta do naris brilhando salta. Ou morrer, ou venser: a cauza he nosa. As Aguas de bazofia em vaõ naõ se enxaõ, Custelhes caro se venser quizerem. Corajem, meus amigos, oje a gloria Q'ate'qui se ganhou naõ vá perder-se.
Nos animos calou vinhi-potentes De tal sorte a razaõ destas palavras, Que cada um deles se reputa um raio, E ja para envestir as trélas roem.
Agora, ó Muzas, naõ falteis ao Vate, Asopraime no peito o extinto fogo, Que he precizo cantar melhor que nunca O combate maior que os evos viraõ.
Deu sinal a trombeta Neptunina Aspero, forte, atrós, e formidavel: Nas cabesas as grenhas se arripiaõ, Bate mais forte o corasaõ nos peitos. Comesaõ-se a mover as longas alas; O medonho alarido se levanta; Daõ fogo os mosqueteiros; da descarga Sobe rapido aos Ceos enovelado O denso negro fumo; c'o estampido Os cavernozos montes retumbando Enxem tudo de orror. Dos grandes eixos Parecia que a máquina do mundo Sacodida, em pedasos se fazia. C'um asoite na maõ de duro ferro Os cruentos cavalos instigando Girava a impia Guerra o campo todo. Os Soldados que a viaõ se animavaõ. A Dezesperasaõ á redea solta Corria furibunda, e sem maneira. As incendidas balas estridentes, As mortíferas xusas enristadas, Gemidos arrancando aos mizeraveis, Um inferno faziaõ. Alastrado De sangue viu-se em breve, e corpos mortos Da orroroza batalha o sitio extenso.[8]
Rocio, que em razaõ de vizinhansa O nome erdado tems de Santa Clara, Se gloria ganhas oje em ser teatro De taõ sanguinolenta brava guerra, O nome mudarás, e dos vindoiros Virás a ser xamado o campo Marcio.
De forsa neste dia altos prodijios A gente Bacanal fes mais que nunca. Qual, semelhante ao gato entre podengos Que o lombo em arco tendo enxorisado Fas provar velosmente em pulos destro Aos audazes fucinhos circumstantes Das curvas fisgas os lembrados golpes, Para um, e outro lado dezenvolto Murros, e pontapés fervendo atira: Qual d'um talho c'o a espada aos dentes xega: Qual d'uma vês c'o a xusa quatro enfia.
Mas ja um Foca enorme e gueludo, De dente anavalhado, unha rompente, Cujo coiro entezado e verde-negro Se ria das mais fortes cutiladas, Um vinheo Capitaõ tragando estava, Quando o intrepido Andrade irozo acode.[9] Aqui ainda viu do mizeravel Engolir os restantes calcanhares. Da vingansa o furor lhe sobe aos olhos, Avansa ao monstro, e sobre o craneo rijo Da inimiga cabesa vensedora Com um buxo roliso (arma cazeira) Mil golpes fulminando, o quebra, e esmaga. Tremeu convulso o monstro; e o bruto sprito Aos ares se soltou envolto em sangue. Acodem muitos Focas, o Eroi cercaõ. Os aquozos Soldados trepidantes De fila cem membrudos cains lhe asulaõ; E, quais sobre a bigorna os malhos batem, As dentadas sobre ele a miudo fervem. Andrade volta a um tempo a todas partes O braso vingador: destróe, derruba, Atropela, maxuca, abola, mata. Mas sendo ja sem conto os inimigos, Depois de longo espaso de conflito, Falto de forsas vai beijar a santa. Aqui (quem crerá tal?) a todo o trance Com mais de quatro mil inda combate. Grandemente bufando aflito espuma, Revolvese, braseja, e o xaõ mordendo Pasmozos coices enraivado atira. Forma mil carantonhas formidaveis, Qual trovaõ rujidor medonho berra. Das dentadas a orrivel tempestade Ja quazi o sosobrava; eis dando um pinxo Em pé se torna a pôr, e a brava xusma. Em fanicos desfás c'o a masa dura.
Naõ te déraõ da fonte as alimarias, Valente Palmeirim, tanto trabalho; Bem que viste o broquel feito em pedasos C'o as leoninas unhas; bem que o tigre, Que a mal cortada perna inda arrojava, Te fes afucinhar c'o a garra ardente.
N'outra banda com obra azafamado O ferós Damiaõ como um corisco[10] Cae sobre o inimigo: aqui o atacaõ, Aqui destro acomete, rompe, asola. Cada pedra que solta he uma granada Onde vai desfarsada a orrenda morte. Destrosa seis Delfims mesmo a pé quedo: Fas rosto a dés varoins dos tais pixozos, E do primeiro encontro os desbarata. Xovem nele os pelouros abrazados Dos áqueos Soldados impelidos, Como sobre os telhados em Janeiro A saltante saraiva que Euro impele.
Ante os muros de Pérgamo mais bravo O filho naõ pugnou da branca Thétis.
Nem eu te calarei, Caetano ilustre,[11] Asombro de valor, peito de Marte. Tu ali sobre a terra o pé batendo, Pancraciasta acérrimo, insofrivel Mais de mil desqueixaste a murro sêco. Mesmo o Duque Nemé famozo em murros De deitar-te agua ás maõs capás naõ era.
Mas naõ soprava a pérfida Fortuna Com ventos de servir á gente aquatil; E sendo ja sensivel a derrota Tocar a recolher manda Oceano.
[6] Vitorino, ou Rino: Aguadeiro de mal semeadas barbas, de gambias escanxadisimas, de gaguês inexplicavel, e de uma paxôrra inata na condusaõ de seus carretos.
[7] Ao grande largo. Tudo vai das ipotezes.
[8] O sitio extenso. Repito o cavaco que dei respetivamente ao largo da Feira.
[9] Andrade. Uma afetada doudice, ou uma continua bebedeira, um tezaõ arrogante, uma catadura tôrva, e uma eterna bandalhise, saõ os caratéres que fazem sempre formidavel este fasanhozo Sapateiro.
[10] Damiaõ. Ha tres especes de embriaguês; de leaõ, de galo, e de porco. A 1.ª pare os disturbios: a 2.ª as galhofas: a 3.ª o deleixamento. A deste Pedreiro he da 1.ª espese; e conseguintemente funestos os seus efeitos.
[11] Caetano. He um _quidam_ sexagenario, bebado da 2.ª espese, cujas dezencaixadas xocarrises nos fazem ver, que he um daqueles genios que sempre estaõ de caninha n'agua.
*CANTO V.*
Tanto que a Mãi das trevas taciturna Desdobrou sobre a terra o manto negro, C'o a palma da vitoria ufano e alegre Dar a seus Cabos um convite lauto Determina o Eroi pantafasudo.
Quem contar as galhofas desta noite Ouzado poderá com versos dignos? Foi entaõ quando o lépido Caetano[12] Cambaleando em meio do congréso Fes com rizo estalar os circumstantes, Abrindo francamente de seus doutos Jocozos anexims o aureo tezoiro. Foi quando o Doutor Rito, sobre os ombros[13] Tendo ums calsoins de riso por capelo, _Ex cáthedra_ asentado, sobre pontos De guerra longas oras disertando, Escarrou discrisoins, mijou conselhos. Sobre os bicos dos pés alevantado Aqui foi que o tacaõ, gárrulo Xaves[14] Lodozo ganso que a Castalia turba, Batendo as sujas palmas na asembleia As Muzas invocou, e esta perlenga, No modo que lhe he proprio, d'improvizo Recitou com torrente entuziasmado:
Nobilisimos Xefes respeitaveis, A quem, naõ sem razaõ, Lieu potente Fes de sua justisa defensores; Vós outros tendes oje ao mundo dado Um raro exemplo de virtude eroica. Nimguem de pôr na cara uma navalha He mais digno que vós. Oh se os meus labios Podesem proferir, se a minha lingua Podefe articular quanto alma sente! Vós tendes os xibantes destrosado Com o mesmo valor com que eu destróso Carangos nos calfoins, e na camiza. Sim, vós os filhos sois abensoados Do invicto Basareu que onrais a Patria. Naõ dezistais da empreza comesada: Depois do que pasou, ja'gora o resto Val tanto como escarro de tabaco. E tu, graõ Jeneral, que o orbe asombras; Tu, em cuja cabesa mioluda Minerva, e o loiro Apolo influxos largaõ, Es digno de rejer um grande Imperio. O noso amado Rei entre o seu povo Naõ póde igual ao teu axar um caco Aonde os seus dezignios se acomodem, Suas trasas se entend$õ. Os dezastres Naõ axaõ no teu buxo o estreito aperto, Que no de um bigorrilhas: o teu buxo Sem inda rebentar, tres mil dezastres Calado e sofredor alojar pode, Porque he muito mais vasto que uma adega. As tres velhas Irmans doirados dias Ainda te conservem: muitos anos Ainda, ainda sejas no teu mando Franco dispensador destes obzequios.
Asim clamava o Vate, quando atende Que estava _vox clamantis in deserto_, Porque em sono os ouvintes sepultados Resonando a barraca atormentavaõ. Por tanto pauza fes; uma canéca Presto escorropixou; e c'os Anginhos Paresendolhe estar, fes sucia aos outros.
Mas nas tendas a jente estropeada Ja cuidava em curarse, e refazerse, Quando um grande alarido ao lonje se ouve. Alegraõse os vencidos, novas forsas Nos animos cobrando, porque pensaõ Ser xegado o soccorro que esperavaõ.
Asim era: Nerêo galhardo, e ovante Seguido de invenciveis combatentes Trazia de refresco o Doiro, e Vouga, Capitains, que a derrota fomentáraõ Dos dois vinheos Erois de seus destritos. Dadas as salvas d'uma, e d'outra parte, Entaõ ele contou como em Aveiro Antonio do Ministro, Cabo astuto,[15] Soldado veterano, omem temivel, Forte se lhe opuzera em campo aberto: Os manhozos ardis que escogitára, Os xoques que tivera, e seus encontros, Do noso Vouga, que prezente estava, Os inclitos servisos referindo. Depois pasa a contar quanto no Porto Lhe dera que fazer uma Matrona[16] Do que a Velha de Diu mais guerreira, Mais fera que as do antigo Thermodonte, Que deraõ tanto lustre á Capadocia. E não menos do Doiro ás nuvems alsa A parte que na asaõ tivera onroza. Em fim conclúe, dando a ver os modos Como d'ambos os dois desbaratados Os olhos entregára ao sono eterno.
Oceano um pouco entaõ mais branda a pena Da perdida peleja, aos vensedores Amostrando um Real comprazimento, Comesou a tratar quanto era justo Porse por obra na manhan seguinte.
Asentase em tentar novo combate Jeral, e decizivo. As transas loiras No vermelho orizonte ao vento dadas Mal que a Aurora amostrou madrugadora; Mal que os frajeis fugazes pasarinhos Com a lus matutina comesaraõ Nos verdes salgueirais a espenujarse, Um xirlando, outro em módulos gorjeios Enxendo de alegria a selva amena, Tudo se perturbou. Ergue do abismo A terrifica fronte angui-comada Outra ves a maldita a negra Guerra. Salpicadas de sangue as azas bate, E os longos arraiais tres vezes cérca. As buzinas, e os pifanos se tocaõ, Arrusaõ-se os tambores, treme a terra, E os marinhos pendoins dezenrolados Vaõ no imperio dos ventos tremulando. Aprestaõ-se os Soldados vensedores, E se vaõ encontrar c'os inimigos, Ums ainda arrotando a ovos xócos Vaõ enxendo as boxexas, e asoprando; Outros se queixaõ que a xixelo velho Muito a boca lhes sabe: em cuja arenga Entretidos em fim o imigo arróstaõ.
Está'li Santareno altivo, e guapo Sopezando na dextra a espada injente; Qual atacada mina que promete Ruinas vomitar de imensa mole. De seus olhos pasmado está pendendo Seu exercito em pezo, aonde espreita, Como os ventos em grimpa, da batalha O escondido suseso. A bateria Entaõ comesa com fragor medonho Da parte dos Neptunios combatentes. Foi uma das descargas mais funestas. Muitos dos mais valentes bebedores Do saborozo xá das tortas parras O derradeiro A Deus aos copos deraõ. Encarnisa-se a jente, ferve a guerra, Reina a Desolasaõ, a Morte, as Furias.
Apoucando no campo os inimigos Avia longo tempo que bradava Para um nobre duelo decizivo Pelo Padre Oceano, um Serralheiro.[17] Monstro injente, desforme, aspéto orrivel, A quem bravo, e colérico nas forsas A um toiro igualára a Natureza. Eis que ao lonje do Padre entre as falanjes O brilhante pavês de tartaruga Orlado c'uma pel' de crocodilo Os olhos anelantes lhe deslumbra. Na grande maõ sopeza firme, ufano Uma lansa fatal de largo ferro; E brandindo-a valente, rexinando Despedida a fes ir rompendo os ares. O golpe resaltou do rijo escudo, E a ástea espedasada em terra cae. O Padre embravecido o imigo busca; O imigo c'um montante se defende Briozo pelejando: mas o Padre Por tempo entaõ poupar, de romania Cerrou com ele, e o esmagou nos brasos.
Do mesmo vensedor ultimos golpes Contra sua vontade onradamente Sofreraõ dezasete Sapateiros, E algums trinta Alfaiates neste dia.
Unidos os d'Embarque denodados Aqui Górgones eraõ: nada em campo, Ante seus forsozisimos revézes, Que folgo respirase, em pé ficava. Nada menos fazia o Alemtejano, O Minhoto, e o Beiraõ. Naquele dia Com eterno desdoiro se encobriraõ Os feitos que nos Gregos cadafalsos Em torneio cruel outr'ora obráraõ Rozuel, Estrelante, e Belizarte.
Ali Nereo andava incontrastavel, Ali Periclimeno em forsas grande, Ali o Padre Tejo, o Doiro, o Vouga As mais descomedidas tridentadas, Que o mundo ha visto dar, ao imigo dando. Destroncava Achelóo mais cabesas, Cerceava sanhudo mais orelhas, Do que o fertil Brazil macacos cria. Mas vendo que sua ira inda sedenta Mais estragos dezeja, o arrojo toma, O temerario arrojo de encontrar-se C'o grande Santareno. Este montado No asno, ao som de zurros espantozos, Com guerreiro valor tempesteando Entre seus inimigos, como um rio De caudaloza enxente, que insofrivel Na alagada campina arranca, e arraza Quanto lhe estorva á turbulenta marxa, Levava a toda a parte o orror, e a morte. Acomete Achelóo em manhas ábil, Fáslhe cara o Eroi; quebraõse as lansas, E dos brutos c'o a furia abalroados Pinxaõ das selas pelas ancas fóra. Postos a pé aqui he que saõ elas: Arrancaõ das espadas, talhaõ, cortaõ, Estoqueiaõ, desmalhaõ: nasce fogo Dos asos petiscado; ora se curvaõ, Ora em bicos de pés raivozos se erguem. Os golpes se amiudaõ, giraõ destras As talhantes catanas: um sobre outro Vantajem naõ conhese um'ora inteira. Transforma-se Achelóo d'improvizo N'um dragaõ feio de farpada lingua: Espanta-se o Eroi, mas destemido Sobre as azas um córte lhe aprezenta, Que o fas baquear em terra. Novamente Em majestozo toiro convertido Impetuozo avansa: entaõ por terra C'o a forsa do boléo o Eroi caindo Aos cornos se lhe agarra, e novo Alcides O faria em pedasos desta feita, Se em mosca transformado, n'um momento Lhe naõ foje futil, cobarde, e fraco.
Entretanto a carnajem sanguinoza Voando devastava o campo todo, E d'ambos os exercitos provavaõ Os nobres Capitains dezasombrados De valor naõ comum, naõ vulgar fama.
Mas a gente marinha desangrada Do ferro Bacanal ja naõ podia De brutos taõ indomitos a sanha Nas filas sustentar. Entra a dezordem, E toca a retirar. Ja de Anfitrite Aos palacios Reais se encaminhava O férvido Titán palido, e triste A darlhe a infausta nova da derrota, Que em sua gente a seu máo grado vira. Caindo as sombras vem dos altos montes, E d'uma, e d'outra banda sepultura Se entra a dar aos cadáveres que alastraõ O campo da batalha, e daõ aos olhos O orrorozo matís que a Guerra estende.
[12] Caetano. O mencionado no Canto antesedente.
[13] Doutor Rito. Um dos papeloins mais celebres que o ocio nutre. Ainda que nunca lhe lembrou seguir os estudos, andou nos primeiros tempos de batina; foi Doutorado por seus mesmos Pais, e na sua propria caza, servindolhe ums calsoins de riso azul da insignia de capelo. Palra sempre de autoridade; he sorumbatico de natureza, e quazi sempre anda com tericia. A sua caza he de orates.
[14] Xaves. Bebado da 2.ª espece: he de um notavel dezembaraso, de uma verbozidade pasmoza, e de uma mania de fazer trovas insofrivel.
[15] Antonio do Ministro. Foi em Aveiro um dos Taverneiros principais.
[16] Matrona. Uma _ejusdem furfuria_ bem conhecida no Porto pela alcunha de Rainha.
[17] Serralheiro. Irmaõ do Gigante Dramuziando, filhos do Entuziasmo, e da Fantazia.
*CANTO VI.*
Geme o Padre Oceano inconsolavel No fundo de seu peito, e mais aguda Comesa a renovarse a dôr antiga. O malogrado fim de seus dezenhos He um dardo punjente, que as entranhas Lhe pica, e despedasa; e quem naõ soube Dos purpureos Erois ceder ás forsas, Em fim cede á mortal melancolia. Tanto póde a paixaõ n'uma alma grande!
Fexase triste no tentorio Regio; Nimguem ouza falarlhe; solitario Só quer por companhia o pensamento.
Pasadas oito oras em silencio Manda entrar os seus Cabos: pensativo Sobre a meza encostado o cotovelo Na maõ esquerda descansava o rosto, Gotejandolhe em lagrimas banhadas As venerandas cans da longa barba.