Salmos do prisioneiro

Part 3

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Algures, porêm, passou uma voz rebelde, de dôr e de queixume e desalento. Uma sombra sinistra me turvou a alegria soberba dessa hora, seu repouso e ventura triunfantes. Meu domínio e riquezas, severamente os julga o desamparo, para o qual nem abril nem novembro teem mudança e por igual são negros. Mensageiros de Deus mo anunciaram no frouxo clamor dessa mendiga que vi descer, curvada, dos montados, trazendo aos hombros o escasso feixe com que, cerrada a noite, irá avivar a amortecida cinza do seu lar.

Cansada, extenuada, face a face com a visão das penas da sua sorte, pousou a lenha à beira do caminho para rehaver alento que a animasse a levar a jornada até final.

E disse alto, erguendo aos céus cruéis o seu lamento:--«Meu divino Senhor! Como é arrastada a vida que me déste!...»

Não a escutou a serena mudez inflexível dessa Vontade austera, onipotente, que a consagrára à cruz da desventura para a redimir em tronos de humildade. Mas ouviu-a, hesitante, sucumbida, a atribulada consciência tímida que, emquanto dura a palidez mortal da fome e da miséria, suspeitou em cada gozo uma traição, e repassa do mais amargo sal o pão e o fruto e quanto os lábios tocam, e entretece de espinhos todo o linho e toda a seda que nos cobre.

Porque ali me tocou a sua aza, nessa tarde de outono doce e fértil, me prendeu a indigência e a apeteci--impiamente, talvez, menosprezando o banquete opulento que o Senhor me oferecia e ao qual não vinham, por êrro e crime da avareza humana, as maceradas legiões proscritas.

XXIII

Na frieza alvacenta da manhã, quando, lentos, os montes, ressurgindo da confusão da noite, de novo vinham a esculpirem na luz o seu orgulho, sonhei que as horas do nascer da aurora, essas de redenção, eram contadas em torres de mármore, e, compassadamente, instante a instante, as apontavam, caminhando sempre, os ponteiros doirados de um relógio, fulgentes, repetindo no fulvo scintilar o ardor dos astros. De espaço a espaço, como anunciando um mandado solene inalterável, o bronze da torre modulava, em seu cavo bradar, pausadamente, aquelas mesmas horas tão ligeiras que os ponteiros doirados lhes diziam.

Assim, altivamente ufana, a vaidade do mundo pretendia reflectir a glória dos céus e adorá-la, traduzindo-a nos bens da terra que mais caros tinha. Porventura pensou, enlouquecida, igualar em seus falsos tesouros perecíveis a emanação divina da beleza que nas alturas passa e não consente em ser cativa e serva da nossa arte.

Porêm, quando acordei, uma doçura estranha baniu essa ilusão que era o meu sonho, e perseguido e vão o dissipou. Quando a ave cantou a despertar o cavador ainda adormecido nas minguadas palhas da choupana, quando a sua ternura, reanimando-os, exaltou da obscura nudez que os oprimia os prados e as selvas, e as aguas, e os rochedos, e os orvalhos, fôram pobreza estreme e pequenina aquêles sonhos doídos da grandeza fundada em ouro puro e claro mármore; como caíram as torres altas que ela edificou, de todo se calaram humilhados os écos magestosos do bronze que lhe apregoavam o breve império. Efémera quiméra, afugentou-a o místico poder que na ave incarnou e a fez arauto e missionário sobrehumano.

Cai o palácio, a fortaleza, o templo; desfaz-se em pó e é nada o diamante. Não renascem se o vento os arrastou. Mas a ave, essa de peito em peito volta e revive, a cantar perenamente a madrugada, ou na terra se ostentem monumentos, ou no chão se esboroem as ruinas. Não sei que eternidade a faz eterna onde foi fraca, tenue e transitória a fôrça mais robusta, quanto o homem imagina duradouro. Mistério da candura dominando toda a mortal jactância da soberba, foi a maior grandeza a singeleza e mais pôde em nossa alma que o fausto da volupia, ainda mesmo quando impulsos sagrados transviados ofereceram à glória de Deus e ao amor da luz toda a fortuna que é a paixão e pasto da avareza.

Erradamente, sonhei, louvei e amei o sonho passageiro que me contava as horas da existência no mármore e no ouro. Mas outro sonho, e êsse foi constante, e fiel e seguro não mentiu, êsse me desprendeu do pérfido fulgor que me enlevava, êsse me libertou para arrebatar-me àquêles reinos de infinda pureza em que as horas da vida são contadas pelo cantar ingénuo e pela ave.

E então, outras jámais contei, essas sómente ouvi, louvei e amei humildemente.

XXIV

Não tarda a madrugada. E o campanário, e a igreja, e a fortaleza da muralha impassivel que resguarda as eiras, as moradas e a deveza, se o ímpeto das águas ameaça, quando em torrente desce das montanhas, geladas, no inverno; e o rio, e os amieiros, e os palácios, e a ponte, sombriamente altiva e orgulhosa:--sonham encantos ao luar cadente que em derradeiro afago ainda os protege no silencio da sua mansidão. A rocha e a onda, que eram inimigas e porfiádos combates combatiam pertinázmente disputando o chão, confundiram-se, adorando o luar; e na mesma doçura adormeceram, dormindo o mesmo sôno, desarmadas, ambas humildes, dóceis e sujeitas à magia divina desse bemdito alvôr que as alumia. E o coração, dorido dos anseios que o agitam, prostrado dos enlevos e das penas que lhe são cadafalso e o seu consolo, sustento, pão e cálice e o algôz, a cicuta mortal e a perdição, acalmou-se, como o rochedo e a onda, em seu lutar; à luz piedosa do luar se entrega e em seus sonhos lhe roga e lhe implora que benignamente suavise, e lhe abrande, embalsame e lhe receba esperanças e tormentos, e os vôos da ilusão e a loucura de engânos que só querem renascer renovados e crescidos em muitos mais enganos e mais loucos.

Mas vem a despertá-los a manhã. Além, onde as estrelas desmaiaram, o ceu pressente a aurora e o seu rubôr. E rochêdos, e igreja, e amieiros, e muros, e palácios, a criação dos deuses e a dos homens, e o próprio coração que Deus habita, acordam para sofrer uma outra luz, essa do sol cruel e inclemente na turbação candente de um ardor que por igual é vida e consumpção, géra e destrói.

Que destino adverso as amedronta para fugirem pálidas, vencidas, as sombras carinhosas do luar em que a nossa alma e a terra redimidas cantavam confiadas e felizes, como se estranha fé as afoitasse a dizerem segredos do seu seio, como se a sombra feita de ternura as confessasse e ouvisse cautelosa e lhes rasgasse os véus do seu mistério?!... Porque passaram, assim breves e inquietas, e tão pouco duraram beatitudes da salutar brandura que descerra os mundos só de paz e ventura, onde no extasi se dissipam mágoas, e a culpa se apagou, e não existem nem mentira ou traição ou a fraqueza?!... Para mais queridas serem e desejadas, foram curtas, aladas como fumo, essas graças celestes do luar que em seus tronos pozeram as quimeras, resplendentes, coroadas nas alturas?!...

Embora!... Não fugiram, porém, tão apressadas que eu, preso da saudade, as não seguisse e, seu escravo, não as sirva e ame, fiel, obediente, em seu infindo rasto e eterna gloria.

XXV

Subi ao cerro agreste onde encontrei a morada da morte. Estava aberta a meus pés a sepultura e cavado na rocha o ataúde.

Em torno Deus espalha a formosura, alvorôço o tumulto da beleza que me engrandece a alma e alegra os olhos:--rosais e sebes repartindo a terra, os campos, os caminhos e os vilares, como se aroma e viço fossem donos, soberanos doadores munificentes e ríspidos juizes dos bens que a terra cria;--os lares encastelados nas encostas, fumegando, estrelas de humildade e caridade recatadas, acesas entre os colmos;--seáras e pomáres;--as ermidas orando piedosas, a interceder por nós lá nas alturas, rogando a Cristo e a sua Mãe Santissima, e aos bemaventurados que a sonharam e para a sua presença renasceram que a ama-los nos ensinem e nos conduzam, e aos seus pés nos levem e ajoelhem;--as frondes dos carvalhos;--a soberba robusta dos pinhais;--os indómitos píncaros dos montes;--as águas apressadas pelos vales, de rocha em rocha a abrirem a sua estrada e cobrindo de verdura os seus haveres;--e as urzes de montado que preferiram, sem invejarem sorte mais feliz, vestir de encantos a braveza do chão e ungir a aspereza transmudando em çarças floridas a indigencia;--e, como balsamo do poder divino, tal qual fosse uma briza, emanação que descida dos céus nos acordasse o peito endurecido por morbidos torpôres em que a indiferença séca e corrompe a vida em sua imortal essência, em seu amôr; mais alta do que a voz da natureza, dominando-a, vencendo-a e consagrando-a, a voz do coração, dizendo ali murmurios de carinhos remansosos, ali nos libertando por instantes da dureza do mundo e das suas penas, para erguer-nos aos reinos que o mundo não alcança e sómente o coração possue e nos concede.

Mas, aberta a meus pés a sepultura e cavado na rocha o ataude, a sedução de morte, sem temer quanta beleza ali me extasiava, de súbito acendendo o seu lúgubre facho e iluminando a formosura que era meu enlevo, repete-me aos ouvidos as tentações da sua redenção. E serena, na brancura dos anjos, lançando para longe o véu sinistro e o manto negro em que surgira involta, mansamente me diz, consoladora:

--«A ventura suprema e toda a gloria só por mim serão tuas! Em meu seio é cinza quanto avistas, o roble e a rosa, como o poder humano e a sapiência; a féra, o santo, o crime, e vileza e candura; quanto te atrái, fascina e tu procuras, e quanto por aversão foges e temes. Tempos e espaços, o edificio mais alto e o maior feito, o heroismo, a dôr, a herva e o cédro, o ódio e a paixão, o mármore e o vérme, e os sóes mais luminosos que convertem a noite em esplendôr, todos em cinza acabam e em cinzas guardo na profundeza infinda do meu seio. E a todos restituo a vida e o ser, para sempre isentando-os do temôr, do pecado e da incerteza, a todos eu conduzo à vida eterna, à vida imarcescivel da saudade!»

FIM

DO MESMO AUTOR

Vozes do meu lar, 1 vol. Na Paz do Senhor, romance, 1 vol. Reino da Saudade, romance, 1 vol. Via Redentora, 1 vol. Apostolos da Terra, 1 vol. Sonho de Perfeição, romance, 1 vol. S. Francisco d'Assis, 1 vol. José Estevão, 1 vol. Alexandre Herculano, 1 vol. Rogações de Eremita, poemetos em prosa.

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