Salmos do prisioneiro

Part 2

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É que, talvez, meu pobre coração e o ardor que o consome e êle alimenta, sejam pouco e não bastem para adorar a doce palidez de uma só rosa!... É que, talvez, prendido só à rosa e transportado todo em seu perfume, nem assim lhe pagou, mesquinho e misero, o tributo do amor que êle lhe deve!...

XI

«Sempre só»[1] ali estava recolhida em sua estreita cela que habitava, na muda clausura de um retiro, sevéramente nú, desadornado de quanto o luxo ordena, inventa e quer para saciar suas mortais doçuras e enganos.

[1] Quadro de Paul de Plument.

Respira austeridade aquela estância, a cuja porta cessa, proìbido, o rumor apressado dos escravos, comprados, seduzidos pelo oiro, para servirem a gula, o capricho e a indolência dos fracos e orgulhósos, abundando no fáusto, e ocultando nos fumos e vaidades da grandeza a miséria dos bens da alma e do corpo, um ser enfêrmo que a força desherdou e o ânimo robusto desconhece; e é tão pobre de alfaias a morada onde a vi «sempre só», serenamente entregue ao seu scismar, que essas poucas, singelas, que lá tem e são quanto lhe basta para amparo das rudes provações do seu viver, essas poucas alfaias da indigência mais alargam em torno a solidão do que quebram, em um tenue clamor, o êrmo rigoroso da pousada.

Esplendor que a engrandeça, outro não tem, nem quer, nem recebeu, senão a luz do sol e a do crepusculo, e a da aurora, e o luar, e a estrela, e a palidez da nuvem errante, quanto dos céus lhe vem, a visitá-la, infinitos e prodigos tesouros dos que a presença do Senhor protege. Pela fresta rasgada na parede, amplamente aberta à sua benção, vem os ástros ungir a solidão e a obscura pobreza que a agasalha.

Mas, iluminada dessa luz bemdita, da luz vinda dos céos, eis que a velhinha que na cela habita, e ali vi «sempre só» no seu silêncio, a amá-lo e a aquecê-lo repassando-o dos alentos gerados do seu peito, eis que vai lêr a folha desbotada e a desdobrou diante dos seus olhos, amortecidos para a luz do mundo. Uma estranha beleza a reanima; uma estranha doçura lhe sorri e em seu rosto sorrindo acende a vida. Não sei se é de carícia, se de dôr, se de saudade, esperança ou desengano; se entreviu, já distante, a juventude na branca túnica que lhe foi seu manto, se é a velhice que desce a arrebatá-la envolvida na sombra da sua mágoa. Por certo, são visões que ali adejam e o coração lhe nutre no seu sangue, aureolando-as da chama e do fulgor que do coração se ergue e o purifica, ora sinistramente, ora em glória, e sempre consumindo-o na eternidade de um divino amor.

E entre visões que então a rodeiavam, recitando-lhe os salmos, todos lidos no seio que sofrera e confiára a afectos e ternuras e carinhos a ventura e a sorte de um palpitar ardente, apaixonado de alegrias e penas e anseios, renasceu transmudada e foi feliz aquela que «sempre só» eu encontrára. Vi-a cercada de anjos em sua côrte, que na pobreza tinham os seus paços e na lembrança as únicas riquezas, e no silêncio sentem companheiros, no silêncio dizendo os seus mistérios de doçura e de paz e amor perene.

Nessa imagem em que a terra me mostrou na solidão a bemaventurança, nessa imagem me tem prendido a terra, a rogar-lhe que acorde na minha alma os sonhos redentores, que ali sonhou aquela que eu segui na solidão, e ali, na solidão, edificára, de cristal e sem mancha, resplendente, o seu cláustro e templo onde guardava, sagrada e isenta, toda a sua fé.

XII

Se Deus me concedesse o seu podêr e o Senhor permitisse que um momento eu vivesse em puro espírito, convertendo a miséria em candidez, eu quereria erguer-me ao cimo casto e austero da montanha, da mais alta montanha que avistasse, e aí, tocando a terra tão sómente no píncaro agudo revestido dessa sagrada alvura imaculada que é a neve branca, eterna, incorruptível, aí me despiria totalmente da mentira implacável que nos prende, aí libertaria o coração em seus laços mortais tão oprimido, aí os soltaria para seguir humilde e fielmente o seu anseio.

Quanto penso e a razão me contradiz, a oculta rebeldia desleal que jura por certeza a própria dúvida, quantas palavras digo que eu não sinto, quantos passos eu dou atraiçoando meu querer e vontade e aspiração, onde obedeço ás convenções do mundo e onde à impostura cedo por fraqueza, o falso pranto que cobre a indiferença e o riso em que o enfado anda escondido, e o louvor sobrepondo-se ao desprêzo, e o desprêso negando as afeições, e o silêncio em que a voz estrangulei só porque estranhos podem desama-la--de todo o pervertido engano em que, inerte e prostrado, sou levado, enganado e enganando, mentindo à consciência, aos céus e aos homens, de toda a confusão dêsse tumulto em que o ímpio sacia o seu escárneo, eu iria isentar-me, dissipando-o no cimo glorioso da montanha, revestida da neve imaculada. E para que fôsse tal qual um cristal feito só de luz, assim eu lavaria o coração de quanto na mentira o enegrece. E então me sentiria redimido porque só a Verdade me prendia!

XIII

Segui de olhos vendados a ilusão. Para que não visse a aspereza do meu trilho, para me guardar de espectros que o assaltam, para me ocultar torpezas dêste mundo, cegou-me e desviou-se do caminho, juncado só de cardos, em que um ríspido destino me trazia. Ergueu-me em suas azas e levou-me àquela altura onde não ha treva e a luz não tem fraqueza nem crepúsculo, onde os espinhos se convertem em rosas, onde o veneno se transforma em filtros salutares vivificantes, e a amargura e a dôr e toda a pena se dissipam em auras incensadas.

Se, porêm, a ilusão me abandonou e o desengano apunhalou o meu peito e o fez chorar, não descri da ilusão nem a neguei. Sentindo-me infeliz, pedi aos ceus que aos anjos de ilusão me confiassem, que de novo os mandassem libertar-me da vileza da terra e seu tormento, da malquerença, do odio e da avareza, de quanto mal nos prostitue a alma e atraiçoa o Senhor. Pedi-lhes a cegueira da ilusão, pois quanto mais me cega mais a amo, mais distante me leva da ruindade, mais no seio de Deus me faz sonhar.

Tanto a amei e lhe dei meu coração, tanto lhe quiz meu peito e a adorou, que jámais me rendi ao inimigo. Se o desengano me assalta e fere e prostra atormentado, não lhe imploro graças ou consôlo, só da ilusão espero a fortaleza.

Prendeu-me nesta vida! Fui seu servo. Assim na morte a encontra bemfazeja!... De contínuo lhe rogo, humildemente, que na morte me guie e arrebate das certezas mesquinhas dêste mundo à incerteza feliz em que ela reina e em sua benção nos redime e exalta.

XIV

Passa ligeira a nuvem no luar. E, por momentos, foi obscura palidez incerta aquele espaço ha pouco resplendente, adormecido na mais dôce luz.

Que é dessa alvura que vestia a terra? Que é da brancura que a purificava?!...

Uma sombra turvou a imensidade. Como se os astros desmaiassem timidos e um estranho terror os apagasse, afrouxa e hesita a sua claridade e quanta brandura e calma ela derrama. É que uma nuvem perpassou errante e etereamente se esvaiu e perde.

Filha das águas, leve, inconsistente, só para mudar nascida, estranho ser que não vive um instante a mesma vida e a todas experimenta e a todas deixa com igual desamor e igual capricho, imagem fugidia de um efemero delírio descontente, tão pequenina e fraca, a nuvem foi mais forte que o podêr mais ardente das estrelas e pode te-lo turvado, escurecido e humilhado.

Ai de mim, ai de mim!... Sei seu mistério! Porque assim é tambem a minha sorte. Uma nuvem venceu a luz dos céus; e a mim vencem-me os sonhos toda a luz que do meu coração se ergue e desprende, carcereiros da dôr e da ventura, despóticos senhores e poderosos de toda a glória e mágoa do meu peito.

XV

Ouvi chorar a noite porque a orgia lhe roubara o silêncio, o companheiro. Quando o céu lhe acendeu suas estrelas e no seu negro manto esmoreceu todo o brilho que o sol cria na terra e toda a formosura que ele afaga, na benigna hora recolhida em que a noite murmura a sua paz e acorda em seu mistério as orações que nos prendem a Deus e aos seus mandados e nos revelam aquilo que sustenta o coração, quanto o eleva e quanto o enternece, quanto lhe abranda a mágoa e o incendeia, e quanto o arrasta exangue em seus lamentos--nessa hora bemdita, à paz da noite e à sua redenção respondeu o alvoroço e o sacrilégio de multidões perdidas no torpe ardor de indignas cobiças. Abandonadas à sordida torrente da impiedade, onde se afoga a candura e a fé e toda a essência que em nossos corações renova e alenta a imagem e a vontade do Senhor, e do mundo nos ergue a êsse seu reino de amor e de perdão e de pureza, ignoram a noite e o seu consolo. Impenitentes reprobos, profanam o divino silêncio emquanto escutam o rouco clamor da perdição.

E a noite, que orvalhou a bonina e acalmou os ramos agitados da floresta e adormeceu o rebanho e o seu pastor, que soltou mais clara a voz das águas e fez crescer a sombra da montanha, cingindo-a de grandeza e fortaleza, e compassiva veiu mansamente a resgatar de penas e trabalhos os vilares e casais afadigados, prostrados da canseira que dá o pão--a noite, o arauto sagrado do silêncio, sua mística sérva e confiada, sentindo que uma chama infernal a prostitue e no seu crepitar a martirisa, chorou amargamente o desvairo infiel que, ultrajando o silêncio, o aborreceu na injúria que o trocou pelo rumor da cidade enlouquecida.

Ouvi chorar a noite atraiçoada porque uma orgia atroz afugentou o seu supremo bem e companheiro que a inspira e lhe diz salmos divinos, o silêncio que ela ama e é o seu esposo. E então, ferida e dorida, me prendeu em compungidos laços da sua mágua, apertados e estreitos, como aqueles, bemvindos e queridos, que eu senti quando a vi, docemente, a proteger a bemaventurada terra a que trazia seus carinhos de sombra e de mudez.

XVI

Mal me aparta da esperança o desengano, logo vem a prender-me nova esperança de trazer a esta terra e vêr perfeitos os infinitos sonhos da minha alma, êsses que por Deus sonho e Deus me dá.

De cada mágoa me levanta e ergue, suave e doce e caridosamente, o despontar da estrela da alegria, visões que vem dos céus a iluminá-los. Em toda a queda me protege e ampára um eterno poder de fortaleza que me afoita e me manda caminhar. Onde vem desenganos desfazer desditosas venturas que findáram, o seu cutelo é aquela dôr sagrada que em um só golpe dá a morte e nos reanima, que ao mesmo tempo é pena e é a indulgência, que da própria amargura tira alentos para impôr a servidão de nova esperança. Onde, inclemente, o desengano ferindo-me me terminou enlevos e encantos que uma súbita treva escureceu, aí mesmo me mandou o seu socorro, seus anjos bons que acendem nova luz para me guiar na estrada e transportar-me aos reinos em que a esperança é a salvação.

Sem condições, rendi-me ao desengano. Divino portador de muitos bens, já não o temo se vem ao meu encontro, pois nunca me mentiu e, se me punge, é para dar o meu sangue a nova esperança, e nessa esperança me alongar a vida, e alongando-me a vida me ensinar o amor do Senhor de que êle é escravo.

XVII

Adormeci na escuridão da noite--cobria-me o luar quando acordei. Na tréva se esvaíu a consciência--restituiu-ma a luz vinda dos céus!

A fadiga do dia, as canseiras e penas que atormentam a vida descontente porque o mundo lhe combate e lhe oprime a aspiração; os sonhos de bondade malfadados, ruíndade que escarnece da doçura, astúcia que injuría a candidez, desamôr que responde ao bemquerer, ostentação preterindo a singeleza, a jactância suprindo a descrição, a pureza entre lagrimas traída, a pobreza arrastada em seus andrajos e a mentira orgulhosa em seus fulgores; perversão, crueldade, a fome e o ódio disputando os retalhos miserandos da riqueza mortal que a terra dá e à qual chamam os seus bens êsses escravos que outros bens da alma nem sequer suspeitam, no mesmo trilho em que a cubiça os leva--todo êste amargor que o passar de cada hora nos distila, o dorido bater do coração que em calvário de amor verte o seu sangue, êsse era meu algoz e companheiro quando a noite desceu e se cerrou. Assim me adormeceu imerso em mágoa, e assim eu confiei meu desalento à treva e à inconsciência, sem outra esperança que não fosse aquela de mais sofrer ainda e despertar mais forte para o sentir e para o servir, para mais longe arrastar a minha cruz.

Quando acordei, porêm, sorria a terra no vestalino alvôr que era o seu véu.

E disse-me a brancura do luar:

--«Emquanto, exausto, tu adormeceste e abrandaste na treva o padecer, Alguem, Consolador, velou por ti, convertendo na luz a escuridão. Alguem te transformou em claridade a negrura do mundo e a do teu peito. Se a treva te prendeu e por fraqueza te rendeste ao martírio da tristeza, que só te mortifica porque foste infiel, feriste o Senhor, renasce para a humildade e para a bondade, acorda e vê que a luz jámais fenece e sempre vem remir-te, para que a louves, em teu ser e nos céus, onde a encontrares purificando a terra e o coração.

XVIII

Pelos degraus de marmore subi à morada dos grandes que se abrigam sob tetos dourados, arrastando os enfadados ócios da riqueza. Benignamente me acolheu o seu fausto; e generosos, senão indiferentes, repartiram comigo os seus banquetes onde o destino os apartou do vulgo, para afagar-lhes volupias caprichosas que o tédio implacavel lhes segreda. Do seu esplendor tambêm fui escravo; tambêm me deslumbrou, tambêm o quiz e entre surpreza e espanto o experimentei, na embriaguês daquela estranha e pérfida beleza que no luxo se acoita e nêle oculta, sob um manto divino e formosura, em purpura e no jaspe e na ametista, uma traição cruel de outra beleza--da infinita beleza que é singéla e humilde e é castidade, que é a isenção sem temor e é a caridade, que é a alegria em Deus e na pobreza, que confiou á terra o seu sustento, que é eterna, que não mente e não desmaia, e nos dá a vida e para sempre afasta a morte, porque o Senhor a mandou e a abençoou.

Ou fôsse desengano ou fôsse esperança de ventura maior que essa, mesquinha, que sendo ouro é pó e em pó se volve, sentindo-me indigente me apartei da rijida frieza dos palácios, peregrino votado a incerta estrada. E vim aos casais pobres, a pedir-lhes esmola de consolo e fortaleza, toda a luz da alma e o calor de afectos e o louvor de Deus que a soberba baniu, na ignorância do seu alto poder; vim pedir-lhes a firmeza e coragem, que no orgulho andam pervertidas, e o trabalho e a fé que são brazão, altar e epopeia dêsses tugurios razos como o zimbro em que o teto mal cobre, a custo abrange, uma enxada e o berço e o coração, doirando só de amor e de fadiga um lar estreito, a rudeza das pedras mal unidas e os colmos negros que as revestiram.

É grande e altivo o cedro e é magestoso na opulencia profunda das suas frondes; e é pequenino o musgo que se arrasta no recato obscuro da sua sombra. Mas vestiu luto e tristeza o cedro alto e um severo desdem da sorte alheia; e só sonhou doçura o musgo humilde, não houve mansidão que o não beijasse, não houve esplendor que o não cobrisse. E o vendaval partiu o cedro robusto e sem vida o prostrou para desfazer-se; e o musgo não sentiu a tempestade, sorriu à violência quando o açoita como sorriu ao sol quando o alentava.

Seja o palácio como o cedro alto! Seja a cabana como o musgo humilde!...

Ah! Fôsse eu o senhor do meu destino e da minha fraqueza me remisse, soubesse eu servir meu coração para que o seu anseio consumasse, e eu iria prendê-lo na choupana, onde a suma beleza e o sumo bem, seus tesouros e luz e os seus coros, são os seios que dão vida amamentando e os braços que dão o pão cavando a terra!

XIX

A ave chora e geme enlouquecida derramando a tristeza na floresta. Desnaturada mão lhe roubou os filhos para os votar à morte na tortura.

Em vão soltou a ave o seu clamor da materna agonia enternecida. Em vão chamou, dorida, anciosamente, por quem responda e queira ao seu amor, sedento, insaciavel de outro amor que agora não encontra e experimentou em freimas e fadigas e carinhos de afortunados dias prolongados!...

Já desmaia o poente e, descorado, deixa crescer a noite e se abandona a todo o seu império. Sentiu-a aproximar-se a ave infeliz. Redobra e é mais aguda e mais a oprime a lacrimosa mágoa em que se perde.

É noite; é noite!... É a escuridão e o frio e o desamparo. Que peito o seu amor vai proteger?... Por quem há-de correr todo o seu sangue?... Quem virá receber-lhe o seu alento?... Que boca o seu calor há-de aquecer?... Para que a vida senão para dar a vida?... Para que, senão para a dar só por amor?!...

Ao fim, na solidão como contricta de tamanho sofrer em que comunga, ao gemido da ave respondeu a dôr, a companheira que encontrou em seu tépido ninho onde afagára os sonhos de ventura malfadados.

E ao lamento da ave me prendi, como se prendem corações irmãos. Porque, escutando-o, repetiu e disse a fortuna e desgraça do meu peito--quanta ilusão e sonho arrebatado só por amor criou e acalentou, e quanto padecer é o seu martírio quando a sorte sinistra lhe converte seus enlevos mais belos na amargura.

XX

Dêsde o romper da aurora, quando o sol iluminando a terra me acordou os braços e o afecto para a servir, andára a revolvê-la, respirando-lhe alentos da negrura abençoada, e generosa e dôce, que me paga com todo o amor dos pomos e das rosas meu trabalho mesquinho e o meu amor, meu pobre amor fiel de obreiro débil.

Êsse humilde labor adormeceu-me o coração cansado e dolorido das lutas e paixões que o mortificam nesta jornada ingrata, onde se arrasta sofrendo a sua cruz, pênas do mundo. Esqueceu seus anseios infecundos, seu malogrado arrojo para se erguer à altura das visões que o seduziam. Esqueceu suas ruins turbações e o seu error entre ambições, escuros cativeiros, que em meandros sem fim, de treva e dôr, inclementes mudaram a doçura feliz da candidez na cerração de lívidos tormentos. Aí desconheceu, como se nunca as houvesse sentido em seus infernos, a impiedade, e a inveja, e a soberba, e a impostura, e a traição da hipocrisia, espectros negros que entre os homens o cercam e em vão tentaram desprendê-lo de Deus, precipitando-o na mentirosa fé e nos enganos de suas recompensas e prazeres. Êsse mundo que o ferira e ensanguentára, ali se dissipára e se perdera sob os afagos brandos, caridosos, que a terra lhe mandava a ensinar-lhe a paz e a alegria na vontade e misericordia do Eterno, tais quais as encontrava nos rosais, na espessura e nos silvados.

Resgatado, emquanto por amor servia a terra, abandonou-se à ingenua lei da terra, na terra confundido e renascido, o coração doente, semimorto, que regando com o seu calor e sangue as açucenas e a seára e o cedro e o jasmim, o pão e a formosura, assim baniu, em venturoso instante, suas dôres mais pungentes. Nêsse enlevo lhe foi bem curto o dia: foram momentos rápidos, fugazes, quantas horas podia ter contado, e muitas decorreram, muitas o sol marcou dêsde a fria palidez da madrugada, que foi seu berço e canto de glória, até que ao fim morreu para curta morte na mortalha vermelha do crepusculo.

Então, quando cresciam as sombras percursoras do repouso da noite e seu silencio, um clamor pausado e lento me acordou do sono bemfazejo em que a terra, consoladora, me embalava. Religiosamente, o campanário por sua voz de bronze anunciava aos campos e às estrelas que o trabalho findára e nos cumpria volver a face e o peito e o coração para aquela Mãe de infinda piedade, que com o Senhor está, cheia de graça, bemdita entre as mulheres, como é bemdito o fruto do seu ventre. Melancolicamente nos mandava que, crentes e fieis, a implorassemos para que a Deus e aos ceus ela rogasse que a fraqueza dos homens perdoassem e em sua luz os redimissem e erguessem.

No extremo do campo, junto ao rio, onde os salgueiros bebem refrigérios nas aguas que rebrilham sôbre as areias brancas, uma outra voz de bronze repetiu a oração que eu ouvira comovido. Logo após a repete aquela torre do outeiro mais alto entre os irmãos que, levantando a cruz, guarda e protege a gândara prolongada e a choupana, onde unidos não tardam a acolher-se cordeiros e crianças, seus moradores e filhos, por igual amamentados e queridos de uma mesma candura. E mais distante, àlêm dos pinheirais, ainda uma voz igual renova a súplica para os cavadores das margens da laguna que lhes dá às searas seus orvalhos, aos prados a frescura, e à deveza o esplendor viçoso das suas frondes.

Peregrina de Deus, de lar em lar, a prece dessa voz erguia os homens para que orando terminassem o trabalho.

Então, por seu amor e mansidão, voltei ao mundo e aos homens pecadores que no amor da terra eu esquecêra, esquecendo tambêm, por minha culpa, suas paixões e dôres e os seus tormentos, toda a fraqueza ingénita da sua sorte. Onde o meu coração tinha morrido, maldizendo êsse mundo que temera e, fugindo, deixára, renasceu do enlevo para a mágoa, para prender-se àqueles que viviam e com êles sofrer seus suplícios, para comungar na comunhão sagrada da sua compassiva piedade.

XXI

Sonho dos astros que alimenta o sonho dos corações que ao sonho se renderam, a servi-lo votando todo o sangue e outra fé não querendo conhecer, vagueia sobre os prados o luar, cobre as águas do rio, e na floresta, sorrindo brandamente, confundiu-lhe em vagabunda alvura e infinita a mais ousada haste e a mais pequena, a mais endurecida e a mais tenra. A tortura dos ramos, mutilados pela rajada agreste de dezembro, e a doçura das frondes ainda débeis, incertas da sua forma e robustez, repassadas da pálida verdura em que as sustenta de suave orvalho um tépido abril, por igual as involve na sua paz. Espargiu sôbre a terra a mansidão; renovou-a em candura, resgatando-a de seus espinhos, sombras e asperezas. E a terra, humilde, silenciosa, e muda, e religiosa, como virgem que a Deus se consagrou e de um mundo cruel se desprendeu, adormeceu feliz, santificada no seio da pureza que a protege, por graça do luar isenta e livre de agitados errores que a ferem e mancham, e dos tumultos vãos que a atormentavam, de quanta fealdade a entristecia e de quanta escuridão a desvairava.

Consolador, 'místico luar, êsse que soube e ouviu na sua glória as ternuras ocultas e queixosas, devaneios que a vida atraiçoou, anseios que o mundo nega se os escuta, saudades, desventuras e lamentos da cegueira contrária dos destinos; o sonho eterno da eterna luz dos céus, que nos sonhos dos homens se engrandece e benignamente lhes responde e compassivo os ama e acrescenta:--êsse foi senhor meu e ao seu império, ao seu casto império sujeitei-me, contente, apetecendo-o. Por lhe oferecer a misérrima oferenda do meu peito, contei impaciente e inquieto em esperança e penas as horas que corriam e as que tardavam; ou sôbre o mar o visse declinar, ou atento aguardasse o seu rubro surgir de alêm dos montes, jámais o pressenti, jámais o vi, jámais me abençoou ou me deixou sem que estranho pulsar me alvoroçasse, para só ao seu mistério confiar mistérios indizíveis da minha alma, para ali os guardar na candidez de luz que os defendesse da corrupção da terra e seus ultrajes.

XXII

Ouvem-se perto os mangoais cantando os pausados cantares do seu mestér. Outras eiradas andam a aloirar os milhos sazonados copiosos.

Já vergados os turgidos vinhedos despertaram delírios das bacantes; e às macieiras córa-lhes os pomos o sol amortecido, emfim liberto de abrazado ardor canicular. Ainda incensam a tarde derradeiros perfumes do jasmim, mas, a dizer-nos que o estio finda, floriu côr de rosa o eloendro. E aquela madre-silva que murchára sob a calma do mês de S. Tiago, de novo desprendeu seus ramos ágeis, de novo nos mostrou a palidez do cálice que verte os seus aromas, rediviva ao respirar primícias da mansidão do outono, generoso de frutos e carícias.

E deleitosamente, ávaro e ávido, eu colho o meu quinhão de encantos e de pão e de abundância, como se fôsse meu, me pertencesse, vagamente sonhando, em cego orgulho, que era só minha a terra e o seu sustento, e a caridade infinda do Senhor só para meu benefício se gerára, e só para me servir ela existia, só para meu contentamento e meu deleite.