Sá de Miranda e a sua Obra

Chapter 7

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Essas faltas do anonymo biographo, a nosso ver, em nada desmerecem o valor do documento que nos legou sobre a vida do glorioso solitario da Tapada. Ha grandes lacunas na _Vida_, erros de vulto, mas ella é bem realmente _collegida de pessoas fidedignas que o conhecerão_--ao poeta--_e tratarão e dos livros das gerações deste Reyno_. Tivemos occasião de o verificar notando a concordancia dos seus dados com os offerecidos pelos diversos nobiliarios e genealogias manuscriptas a que precisamos recorrer.

Uma d'essas genealogias, a _Nobresa de Portugal e Espanha_, de Manuel Faria e Sousa, em seu titulo dos _Sãs de Francisco de Sá de Miranda, senhores da quinta da Tapada_, teria poupado a muitos escriptores o engano de dar ao poeta como mãe a avó, se fosse consultada. Ella diz expressamente:--_Gonçalo Mendes de Sá, filho 2.º de Felipa de Sá e de seu marido João_...

Como deixamos dito, a carta de legitimação do poeta dá o nome da mãe de Sá de Miranda. Á obsequiosa amabilidade do erudito investigador sr. Sousa Viterbo, devemos o saber que ella se chamava Ignez de Mello. Pertenceria esta senhora á geração dos Mellos de Coimbra? Seria nobre? Occuparia elevada posição social? São perguntas que suggere a particula _de_ anteposta ao nome de familia e que resta averiguar. Que era _uma mulher de bem_ affirmam-o os nobiliarios.

Não estão estes de accordo sobre se Sá de Miranda foi o filho primogenito do conego Gonçalo Mendes. Haja sido ou não, é incontestavel que o poeta possuia bens proprios. A familia dos Sás era das mais ricas e importantes do paiz.

Como se sabe, Garcilaso falleceu em 1536. Sá de Miranda compôz para o primeiro anniversario da morte do grande lyrico hespanhol a ecloga _Nemoroso_ em que evidencia o mais intimo conhecimento não só de suas poesias como de sua propria vida. Das poesias tomou conhecimento pelo manuscripto com que o brindou o seu querido amigo Antonio Pereira. O saber de sua vida devia-o decerto a relações pessoaes, achando o sr. Theophilo Braga, natural que durante a sua viagem na Italia tivesse Sá de Miranda encontrado Garcillaso.

Uma ultima nota.

Attribuimos o casamento de Sá de Miranda a resultado de amor mais do que a desejo de gosar o viver modesto e socegado da familia e procuramos proval-o. Ainda como demonstrativo do que dissemos ha um soneto do poeta que vamos citar na forma porque o reproduziu o sr. Theophilo Braga, em sua _Historia dos Quinhentistas_.

Como? e serà tão cego e sem sentido Amor, que umas rasões claras, tão chãs Não ouça? _e que não veja tantas cans_, Tanto tempo baldado e não vivido?

DO MESMO AUCTOR

Em preparação:

Bernardim Ribeiro e Christovão Falcão.

Sobre os joelhos (_artigos e estudos_).

Povos e Civilisações (_Historia da Civilisação_)--Os Seltas.

O seculo XIX.

Notas de transcrição.

No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais. Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes:

[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma abreviatura dos caracteres "um".

End of Project Gutenberg's Sá de Miranda e a sua Obra, by Décio Carneiro