Sá de Miranda e a sua Obra

Chapter 6

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Foi em extremo venturoso esse enlace. D. Briolanja era senhora de elevadas qualidades moraes, de preclaras virtudes e animo levantado. Sá de Miranda, _estimando sobretudo os dotes dalma daquella matrona, que foram excellentes... do descanço de seu marido, da criaçam de seus filhos, da doutrina de seus criados e do provimento de sua casa_, dedicou-lhe uma affeição tão sincera quanto intensa.

Vida santa, vida amantissima a d'aquella familia exemplar. _Sobrio e austero comsigo_, Sá de Miranda era _largo com algum excesso cos hospedes que indifferentemente agasalhava com gosto particular, costumando a dizer que o livravam de si o tempo em que os conversava_. As festas familiares eram distracções para o seu melancolismo, cujas causas tem resistido a todas as investigações. Essas visitas proporcionavam ao poeta horas agradabilissimas de um convivio doce e terno. Vieram depois os filhos e com elles novos cuidados a Sá de Miranda que sempre procurou dar-lhes uma educação primorosa, fazer d'elles cavalleiros esforçados e honestos. Ao mais novo, Jeronymo, _com nam ser muy rico_, mandou-o aprender musica tendo em sua casa _mestres d'ella custosos_.

Após seu casamento com a irmã de Manoel Machado, Sá de Miranda voltou novamente e com afinco á propagação dos metros italianos. Animou-o talvez o exito alcançado em Hespanha por Garcilaso e Boscan que acabavam de triumphar impondo-se. A grande reforma litteraria vencera ali finalmente.

As poesias dos dois poetas hespanhoes exerceram sobre elle, n'este ultimo periodo de sua actividade poetica, uma influencia decisiva, influencia que foi até passar a escrever quasi todas as suas eclogas de metro hendecasyllabico em hespanhol. É que a harmonia meiga e suave d'aquellas poesias o seduziu a ponto de considerar a lingua castelhana como mais melodiosa, mais euphonica que a portugueza, que difficilmente se ia pulindo e abrandando.

A influencia do grande lyrico hespanhol, de Garcilaso, dominou esta nova serie de producções do famoso poeta quinhentista. Falto de espirito de originalidade, o unico e verdadeiro defeito que se lhe póde encontrar, Sá de Miranda mais uma vez se acostou aos espiritos que se evidenciavam pelo talento e serve-se quasi das mesmas formas metricas e dos mesmos artificios. Comtudo, vae além do que Garcilaso e Boscan ousaram, intercalando redondilhas, á laia de coplas cantadas, em meio dos versos de onze syllabas.

Muitas passagens encantadoras, de uma vaga magia, se encontram nas eclogas em hendecasyllabos hespanhoes. Rescendem ellas um sentimento profundo e têm uma rara vivacidade. Mas, como o faz notar a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, não agradarão a todos por haver n'ellas, por vezes, transicção abrupta de certos dialogos em estylo simples, á moda de Theocrito, para canções de um idealismo, de um platonismo indeciso. Fluctuação immotivada, embora rara, entre as formas cultas italianas e os metros da velha escola peninsular, mistura de uma philosophia ideal com uma serie de traços realisticos tirados da vida dos pastores portuguezes e promulgados em um tom intencionalmente rude e energico, esta desigualdade faz desmerecer muito a belleza d'essas composições que a têm innegavelmente. O poeta, ainda pouco seguro dos modelos que procurava egualar ou muito aferrado á tradição nacional para romper completamente com ella, como que hesita, titubia em suas innovações.

Por essa época e até 1538, escreveu as eclogas _Celia_, _Andrés_, o _Epitalamio Pastoril_, o _Encantamento_ e, em o outomno de 1537, a ecloga _Nemoroso_, destinada a commemorar o anniversario do fallecimento de Laso. D'estas producções, em que uma critica desapaixonada e rigorosa poderá encontrar meritos dignos de louvor, destacam-se a _Andrés_ e a _Celia_.

A ecloga _Andrés_ é uma sentidissima referencia a tristes acontecimentos passados, a que o poeta assistira certamente com a mais cruciante magoa. Descreve as peripecias do casamento do infante D. Fernando, irmão de D. João III, com D. Guiomar, conhecida na ecloga pelo nome de Pascuala. Ha n'ella passagens vívidas de sentimento. A bella alma do poeta manifesta-se com um suave e palido brilho de lua de maio.

Da frescura deliciosa, da admiravel simplicidade d'essa excellente composição, dirá esta passagem, uma das capitaes n'ella:

Aun las fieras salvajes quantas son Vencer se dejan de humanidad buena; El toro bravo, el mas bravo leon Con tiempo muestran que pierden la pena, El uno en iugo, el otro en la prision. Si la voz conocida al aire suena Del halconero, abaja desde el cielo A prender se el halcon mas que de vuelo.

Todo lo vience el tiempo i la porfia: En marmol duro si el agua desciende, Ella tan blanda cava todavia; Es duro el hierro, gasta se por ende; Lo que no puede un dia, haze otro dia. A las sus fuerzas, quien se le defiende? Durisima Pascuala quanto en ti De amor, trabajo, fe, tiempo perdi!

Vemos la golondrina vuelto el pecho Al viento como un raio ir se volando, Ora en cielo, ora en tierra, a trecho a trecho, Que la vista la va mal devisando. Contra la vena de agua por derecho Van truchas las azudas trespasando. Con quantas aves de entre dia vuelan, Otras la noche escura se desvelan.

Ha i animales que a los nuestros fuegos Se acogen, constreñidos del mal frio, Otros no vence estonces, como juegos; Aves del cielo biven por el rio, Otros se esconden por la tierra ciegos; Biven del fuego, biven del rocio: No sé de condicion que eres Pascuala Pero no de mujer, no de zagala,

Mas antes de zagala i de mujer! Que debajo de aquella vista hermosa, Tan llegada al divino parecer, Escondió la natura artificiosa El maior mal que pueden ojos ver, Engaño que haz la pena deleitosa, Ponzoña de gran fuerza! mata el vel-las, Mata el oil-as, mata el oir d'elas!

Oh que haias mucho de mal grado, Amor Que ansi nos turbas el entendimiento? Al maior daño diste mas sabor, Errado el peso, la medida, el cuento, Donde se sigue que de tal error Se vengan recreciendo ciento a ciento, Qual fuente avelenada perenal Donde mana despues tanto de mal!

Suerte mucho cruel que tal consiente?

Logo abaixo da _Basto_, embora em verdade muito inferior, pode ser collocada a _Andrés_. A _Celia_, dedicada ao infante D. Luiz, não é tão mimosa, porém quasi lhe eguala em sentimento. O poeta canta uma mulher desapparecida, o amor querido do alludido principe.

Ai Celia! quantas lagrimas devidas Te son! i quantas, si remedio diesen A cosa alguna de mas a las vidas Por quien costumbre quiso se vertiesen En vano tantos tiempos, si no havidas De los mas sabios por flaqueza fuesen. No digo mas de si ni mas de no Son que causa terná quien nos las dió.

Aquel dolor que va turbando dentro De cuerpo i d'alma todos los sentidos, Pasando al corazon que es el su centro, Las lagrimas de alla manda i gemidos Que abran camiños a aquel duro encuentro; Sino, que es fuerza, siendo detenidos, Con el fuego encerrado i las centellas Ardan las casas i el señor con ellas.

......................................... Estés por siempre, buena Celia, en gloria I siempre en fama qual dejaste aqui; Deve se tal corona a tal vitoria Del enemigo, del mundo, i de ti, Duros contrarios que en nuestra memoria No sé vencidos quien los haia ansi; Derechamente corriste a la palma, Dejaste el cuerpo atras, avante el alma.

Em 1538, apresentou o poeta a sua segunda comedia classica _Os Vilhalpandos_, escripta em prosa como a primeira. Esta e os _Estrangeiros_, o Cardeal D. Henrique que depois foi Rei, _tam pio, tam zelador da Fé, e dos bons costumes, reformador das Religiões, Legado á Lattere, Inquisidor-Môr, não só lhas mandou pedir pera as fazer (como fez) representar diante de si por pessoas que depois foram grandissimos ministros... senão pouco despois de Francisco de Sá morto, porque se ellas nam perdessem as fez imprimir ambas em Coimbra na forma em que andam e as tinha e lia muitas vezes_.

O visconde de Almeida Garrett, traçando um pequeno esboço da _Historia da lingua e da poesia portuguesa_, mostrou-se da opinião que as comedias de Sá de Miranda eram para admirar e constituiam um notavel monumento para a historia das artes pela feliz imitação dos antigos e pelo que excedem quanto até então se tinha escripto. Justo n'esta apreciação, Garrett deixou-se, comtudo, levar pelo pessimismo de considerar funesto o impulso dado por Sá de Miranda ao theatro portuguez, funesto e como tendo-o destruido ao nascer. N'esta mesma direcção, Andrade Ferreira acha que a influencia italiana não deu de si mais que a memoria de varias tentativas eruditas.

Comprehende-se que o publico preferisse o theatro tal como o apresentava a musa negligente e faceta de Gil Vicente e João Prestes, em que havia sido creado e que o interessava porque o divertia. Natural que antes quizesse as jocosidades por vezes grosseiras dos autos populares a conservar a sua grave compostura ante as subtilezas da arte e correcção das comedias ao gosto classico, a que não estava habituado e que o não deixavam á vontade, acabando por o fazer bocejar. Parece-nos, exagero, porém, inferir d'ahi a funesticidade da obra de Sá de Miranda.

Seriam as comedias de Sá de Miranda faltas de caracter nacional e improprias para dar uma boa direcção ao theatro portuguez? Só um estudo profundo e demorado o pode decidir. Foi, todavia, essa corrente de reforma do theatro pela imitação da comedia classica que produziu essa obra immortal de Ferreira, a _Castro_, a primeira composição dramatica moderna, que reproduz o que existe de mais sublime e pathetico em um quadro de historia nacional, como escreve Andrade Ferreira.

O final de este periodo de actividade litteraria de Sá de Miranda foi assignalado por uma nova carta em redondilhas, dirigida a seu irmão Mem de Sá. Esta carta deve datar-se de pouco depois de 1543 porque allude á morte de D. Duarte e de Boscan.

Mem de Sá, ao contrario de seu irmão, procurava elevar-se pelas honrarias da côrte e alcançava ascender aos mais altos cargos do estado. Como governador geral do Brazil, o seu nome cobriu-se de uma gloria immortal. Sá de Miranda, em sua carta, aconselha-o a evitar os escolhos da ambição e da vaidade para não ver a sua carreira naufragar inopinadamente. Para mostrar quanto mais valia a modestia do pouco em socego ante as incertezas inherentes ás maiores grandezas utilisa bellamente a celebre fabula do rato do campo e do rato da cidade.

Sá de Miranda confirma suas palavras com o exemplo de seu passado. Explica-lhe porque abandonou a côrte e descreve-lhe a vida tumultuaria que n'ella se passa e contra a qual se não podia já ir.

Polo qual a este abrigo, Onde me acolhi cansado E ja com assaz perigo, A essas letras que sigo, Devo que nunca me enfado, Devo a minha muito amada E prezada liberdade Que tive aos dados jugada. Aqui sômente é mandada Da rezão boa e verdade.

Nas cortes não pode ser! Vedes os tempos que correm! E assí vemos té morrer Irem muitos a correr Por fugirem d'onde morrem. Ora pôr peito á corrente, Que sejais forçoso e são, E de sangue inda fervente, Gram nadador, claramente É quebrar braços em vão.

Que valem as riquezas comparadas com a liberdade? Ambições que passam com a edade!

Buscar e sonhar privanças, Dar de entrada a liberdade Logo por vãs esperanças, Esses jogos, essas danças Passem coa mocidade.

Da fraqueza propria vem o medo á pobreza.

Fracos de fe! e de fraqueza Vêm estes nossos suores, Estes medos á proveza.

E que desgraçada existencia a d'aquelles que só vivem da ambição e para a ambição.

Andando assi neste enlheo Em quantos erros caimos Sem conto, sem fim, sem meo; Dormimos o sono alheo O nosso não o durmimos; Queremos o que outrem quer, O que não quer engeitamos! Estamos sômente a ver, Rimos o alheo prazer, E ás vezes quando choramos.

A carta a Mem de Sá foi a ultima composição notavel do poeta da Tapada. Sá de Miranda nada voltou a produzir que se possa destacar e os seus trabalhos poeticos posteriores limitaram-se a moribundos clarões de um sol no poente. Emmudeceria ante a decadencia que escancarava a sua terrivel guella hiante com os primeiros horrores da Inquisição ou preoccupava-o em extremo o futuro dos filhos já homens ou, ainda, seria absorvido pela sua occupação mais constante de rever as obras antigas para as polir e aperfeiçoar, sobretudo a famosa e esplendida _Basto_, objecto dos seus mais dedicados cuidados e a que deu o maior realce? Talvez todos esses motivos concorressem para afrouxar a actividade do poeta.

Por 1551, o principe D. João, joven herdeiro do throno e que bem novo se declarava um decidido protector das lettras, mandou pedir a Sá de Miranda uma collecção de suas poesias. O poeta satisfez com empenho o pedido, sentindo-se n'elle não só honrado, como apreciado. Era aquella solicitação confirmativa de seu triumpho.

As composições poeticas de Sá de Miranda só em 1595, annos depois de sua morte, é que foram pela primeira vez impressas. Nem por isso sua influencia se exerceu menos accentuada, pois corriam manuscriptas de mão para mão amiga. Aquelle cenaculo da Tapada cedo se tornou o foco de onde irradiou a luz que trouxe a restauração da poesia portugueza, o centro do movimento poetico do paiz. O nome de Sá de Miranda foi sempre augmentando até se impôr aos outros quinhentistas com um predominio a que lhe dava jus a sua vasta e solida erudição, a auctoridade de seu caracter e a sua obra admiravel.

Em torno do venerando moralista e brilhante poeta começaram a agrupar-se, quer pela communhão de idêas, quer pelas relações pessoaes, os espiritos esclarecidos do tempo, como Ferreira, Diogo Bernardes, D. Manuel de Portugal, Francisco de Sá e Menezes, Pero de Andrade Caminha e outros. Soccorriam-se á sua experiencia, consultavam-o, ouviam-o e submettiam-lhe as suas producções.

Diogo Bernardes, ao tempo em que ainda se conservava em sua terra natal, Ponte de Lima, visitava a miudo a Tapada onde Sá de Miranda o recebia com a mais carinhosa intimidade. Em sua primeira carta, escripta em tercetos á maneira italiana, confessa que é a elle que toma por mestre.

O dôce estylo teu tomo por guia, Escrevo, leio e risco; vejo quantas Vezes se engana quem de si se fia.

.................................... Não te deram os céos graças tamanhas, Para só as lograres, mas por seres Bom mestre de artes boas, boas manhas.

Sá de Miranda recebeu com enthusiasmo essa estreia do novel poeta. Com a sua benevolencia paternal, dirigiu lhe este mimoso soneto:

Neste começo d'ano em tam bom dia, Tam claro, porque não faleça nada, Me foi da vossa parte apresentada Vossa composição boa a porfia.

De que espanto me encheu quanto ali via! E mais em parte ca tam desviada Sempre até gora da direita estrada De Clio, de Caliope e Talia.

Oh que enveja vos hei a esse correr Pola praia do Lima abaixo e arriva Que tem tanta virtude de esquecer,

O que estes tristes coraçõis aliva, Do pesar igualmente e do prazer Passado, que não quer que inda homem viva.

Caminha teve tambem, muito cedo, amizade com Sá de Miranda. O sr. Theophilo Braga attribue mesmo a essa circumstancia uma parte da celebridade de que aquelle gosou.

A Ferreira nunca Sá de Miranda viu. Pois não era dos que menos o adoravam pela sua vida integra e caracter austero e admiravam pela sua grande obra de renovação litteraria. Mais tarde, Ferreira lamentou acerbamente nunca se haver encontrado com o poeta da Tapada.

Ah meu bom mestre, ah pastor meu amigo, Como minha alma e os olhos se estendiam Por ver-te, e o duro tempo foi-me imigo!

Mas inda que os meus olhos te não viam Cá te tinha minha alma, e teus bons cantos Lá me levavam, e de ti todo enchiam.

A geração, que se vinha manifestando exuberante de talento, encarava com a mais commovida veneração e respeito o grande poeta que tanto trabalhara pelo florescimento das lettras patrias. Conhecia que muito e muito se devia a esse homem verdadeiramente nobre e justo. Da forma como o considerava, dá idêa o admiravel retrato que Ferreira d'elle traçou.

Chamar-te-hei sempre bem aventurado. Que tanto ha que em bom porto co essas santas Musas te estás em santo ocio apartado.

Não esperas, não temes, não te espantas; Sempre em bom ocio, sempre em sãos cuidados, A ti só vives lá, e a ti só cantas.

Os olhos soltos pelos verdes prados, O pensamento livre, e nos céos posto, Seguros passos dás e bem contados.

Trazes hua alma sempre n'um só rosto, Nem o anno te muda, nem o dia, Um te deixa Dezembro, um te acha Agosto.

Quam alta, quam christã philosophia, De poucos entendida nos mostraste! Que caminho do céo, que certa guia!

De ti fugiste, e lá de ti voaste, Lá longe, onde teu sprito alto subindo Achou esse alto bem que tanto amaste.

Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo Com tua vida, e com teu doce canto, Nova agua e novo fogo descubrindo.

Particularidade digna de mencionar-se e que o sr. Theophilo Braga nota: todos os poetas que se filiavam em a escola italiana e se dirigiam a Sá de Miranda, começavam por contar-lhe a sua vida, como para mostrar que era immaculada e que merecia a amizade delle. Tanta respeitabilidade infundia esse homem de um caracter integro e puro.

Sá de Miranda sentia um vivo prazer ao observar o triumpho de seus esforços. Quasi immediatamente surgiu uma serie de cataclysmos que veiu matar o poeta _logo tambem pera todas as cousas de seu gosto e antigos exercicios_.

A deploravel catastrophe de Ceuta, em 1553, em que pereceu a flôr da cavallaria portugueza, custou-lhe a preciosa vida de seu filho primogenito Gonçalo Mendes, ambição risonha de seu futuro, enlevo de sua alma, carinho de seu coração amantissimo. O poeta sentiu-se ferido rudemente por esse desabar de toda a sua esperança, de toda a sua felicidade futura.

Os vates da nova escola procuraram consolar a dôr de Sá de Miranda com sentidas elegias. Ferreira dirigiu-lhe uma suavemente melancolica, vívida, procurando mitigar a dôr do attribulado pae pela idêa da morte gloriosa do filho que caira combatendo pela patria.

Oh alma bem nacida, que em tal guerra Ganhaste uma tal vida, honra e gloria Quem morte lhe chamar contra ti erra.

Sá de Miranda respondeu a Ferreira com outra elegia, vibrante da dôr mais profunda que pode exacerbar o coração de um pae extremoso. A sua magoa não lhe impede, porém, de admirar o talento do joven adepto da nova escola e de o incitar a continuar na vereda encetada.

Vem um dando á cabeza e conta ufano Cousas do seu bom tempo, ardendo em chamas Polas que fez: todo al lhe é claro engano. Andão se ás razõis frias polas ramas Um vilancete brando, ou seja um chiste, Letras ás invençõis, motes ás damas, Ua pregunta escura, esparsa triste! Tudo bom! quem o nega? mas porque, Se alguem descobre mais, se lhe resiste? E como, esta era a ajuda? esta a mercé? (Deixemos ja as mercés) este o bom rosto? De menos custa em fim que este tal é? E logo aqui tam perto, com que gosto De todos Boscão, Lasso, erguérão bando, Fizerão dia, ja quasi sol posto! Ah que não tornão mais! vão se cantando De vale em vale de ar mais lumioso E por outras ribeiras passeando.

A idêa de que a sua obra seria continuada por uma geração cheia de talento mitiga o pezar de Sá de Miranda. Desejava, porém, não ter de lamentar esse filho perdido em tão tenra edade: dezeseis annos. Como invejava a sorte d'aquelle Mestre Dom Rodrigo, chorado por seu filho Jorge Manrique!

Nos sonhamos aqui, tu vas te ao ceu. Ditoso aquele mestre dom Rodrigo Manrique, a quem em seu tempo louvou O filho e deu ao corpo em morte abrigo. Era ela conta igual que quem entrou Antes á vida, saisse primeiro? Eu sou que devera ir! quem nos trocou? ...................................... Vai te a boa ora; não tens de que devas Temer; la tudo é paz, tudo assossego! Quem leva um tal seguro qual tu levas?

Não se apagara ainda a saudade do filho querido e já uma nova desgraça feria o coração do poeta. A esposa virtuosissima, D. Briolanja, faltou-lhe em 1555. Sá de Miranda entregou-se a extremos de sentimento _senam dignos do animo de hum tam grande Philosopho, devidos pollo menos á estimaçam que com seu profundo juizo fez daquella perda_.

Sá de Miranda sobreviveu ainda tres annos ao desapparecimento d'esse ente querido e, como affirma a _Vida_, por testemunho de pessoas que conheceram o poeta, _nunca mais sahio de sua casa, senão pera ovir os officios Divinos, nem apparou a barba, nem cortou as unhas, nem respondeu a carta que lhe alguem escrevesse até que acabou de todo_.

Vivendo _ainda tres annos despois_ de sua mulher, _nam se acha que composesse mais que hum Soneto que fez á sua morte_. Foi digna cupula posta á sua obra poetica.

Aquele esprito, já tam bem pagado Como ele merecia, claro e puro, Deixou de boa vontade o vale escuro, De tudo o que ca viu como anojado.

Aquele esprito que, do mar irado D'esta vida mortal posto em seguro, Da gloria que la tem de herdade e juro Ca nos deixou o caminho abalisado.

Alma aqui vinda nesta nossa idade. De ferro que tornaste a antiga de ouro Em quanto ca regeste a humanidade,

Em chegando ajuntaste tal tesouro Que para sempre dura! Ah vaidade! Ricas areas d'este Tejo e Douro!

Como se não fossem poucos os desgostos a abrirem-lhe a cova, os ultimos dias de Sá de Miranda ainda passaram amargurados com a noticia da morte do principe D. João, uma promessa para o paiz, quasi a seguir a do infante D. Luiz e, por ultimo, a de el-rei D. João III, o seu grande e nobre amigo, em 1567. Sá de Miranda sobreviveu apenas oito mezes a esta ultima e fulminante desgraça que vinha mergulhar o reino em as dissenções de uma funesta regencia.

O poeta da Tapada, o grande auctor da ecloga _Basto_, falleceu a 15 de março de 1558, com mais de sessenta e oito annos de edade. Recebeu modesta, mas digna sepultura, ao lado de sua mulher em a capella de Santa Margarida da egreja de S. Martinho de Carrezedo, em o arcebispado de Braga.

Muito sentida a morte do grande poeta por todos os adeptos da nova escola litteraria a que Sá de Miranda servia, por assim dizer, de elo. Não fosse o espirito do respeitado mestre que se apagára. Tinha-se bem presente aquelles versos de Ferreira em que tão bem se synthetisa a grande obra de Sá de Miranda:

Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo Com tua vida, e com teu doce canto, Nova agua e novo fogo descubrindo.

_Terminando_

A _Vida_, o precioso documento anonymo que acompanha a segunda edição, de 1614, das obras poeticas de Sá de Miranda, serviu de guia e de base ao nosso estudo biographico-critico. Como tivemos occasião de ver, no que respeita a fixação de factos, ella nem sempre é veridica, deixando muito a desejar. Erra assim na data que attribue ao nascimento do poeta e em dizer que elle _estudou leys mais em obsequio ao gosto del Rey Dom João o Terceiro... que por inclinação que tivesse áquella maneira de vida_, phrases que reproduzimos atraz para accentuar as boas relações em que estava a sua familia com a casa real, não por as tomarmos á lettra.