Chapter 5
Onde ha homens, ha cobiça, Ca e la tudo ela empeça, Se a santa igual justiça Não corta ou não desempeça Quanto a malicia enliça.
Sá de Miranda experimentara os maiores desenganos n'essa côrte corrupta e enganadora que repugnava ao seu caracter franco e leal e que o levara a retirar-se para o Minho. Dando satisfação d'esse passo ou antecipando-se a solicitações a que não desejava acceder, justifica-se cabalmente de seu procedimento.
Quem graça ante o rei alcança E i fala o que não deve, (Mal grande da mâ privança!) Peçonha na fonte lança De que toda a terra bebe! Quem joga onde engano vai, Em vão corre e torna atras, Em vão sobre a face cai. Mal hajão as manhas màs De que tanto dano sai!
Homem d'um sô parecer, Dum sô rosto e d'[~u]a fe, D'antes quebrar que volver, Outra cousa pode ser, Mas de corte homem não é. Gracejar ouço de ca Dos que inteiros vêm e vão Nem se contrafazem la: _Como este vem aldeão! Que cortesão tornará._
A famelica côrte, astuciosa e matreira, ria-se da rudeza do _aldeão_. Demais o sabia Sá de Miranda. Elle, porém, não se ri, mas com a sua penna acerada fal-os sangrar e enraivecer. Anima-o a ser franco a bondade com que, espera-o, el-rei se dignara acolhel-o.
Senhor, hei vos de falar (Vossa mansidão me esforça) Craro o que posso alcançar:
El-rei estava rodeado de uma camarilha infame, mansos cordeiros apparentemente, mas por dentro lobos robazes. Espinha de vime e falas de assucar, lisongeiros emeritos, os cortezãos não curam de mais que dos interesses proprios e, explorando torpemente a bondade do rei, pensam unicamente em servir o seu vil egoismo.
Andão pera vos tomar Por manhas, que não por força. Por minas trazem suas hazes, Os rostos de tintoreiros. Falsas guerras! falsas pazes! De fora mansos cordeiros, De dentro lobos robazes!
Tudo seu remedio tem; Que é assi, bem o sabeis, E o remedio tambem. Querei-los conhecer bem: _No fruito os conhecereis._ Obras que palavras não! Porem, senhor, somos muitos, E entre tanta obrigação Trasmalhamos nossos fruitos Que não saibais cujos são.
Um que por outro se vende, Lança a pedra, a mão esconde, O dano longe, se estende. Aquele a quem doi, se entende, Com sôs sospiros responde. A vida desaparece; Entretanto geme e jaz O que caiu! e acontece Que d'um mal que se lhe faz, Môr despois se lhe recrece.
Pena e galardão igual O mundo em peso sostem. É [~u]a regra geral Que a pena se deve ao mal, O galardão ao bem. Se alg[~u]a ora aconteceu Na paz, muito mais na guerra, Que d'esta lei se torceu, Faz se engano ás leis da terra, Nunca se faz ás do ceo.
São saccos sem fundo os miseraveis, exploradores ignaros dos fracos. Nomes e rostos honrados encobrem bandidos consummados. Desgraçados dos pequenos que nem sequer podem fazer chegar seus clamores até ao rei. Esteja o monarcha vigilante e atalhe com firmeza o mal.
Não têm fundo aqueles sacos. Inda mal com tantos meos Pera viver dos mais fracos E dos suores alheos.
Que eu vejo nos povoados Muitos dos salteadores Com nome e rosto de honrados Andar quentes e forrados De pelos de lavradores. E senhor, não me creais Se não as achão mais finas Que as dos lobos cervais, Que arminhos nem zebelinas. Custão menos, valem mais.
Ah senhor, que vos direi Que acode mais vento ás velas? Nunca se descuide o rei, Que inda não é feita a lei, Ja lhe são feitas cautelas. Então tristes das molheres, Tristes dos orfãos cuitados, E a pobreza dos mesteres! Que nem falar são ousados Diante os môres poderes.
Esplendido caracter o de esse homem de uma franqueza verdadeiramente sem egual. Se os reis tivessem sempre conselheiros assim leaes, quantas desgraças não evitariam aos seus subditos, quantas injustiças não lhes poupariam! E, necessariamente, essa admiravel carta encerra allusões directas a acontecimentos conhecidos de D. João III, mas que hoje são difficeis de traduzir.
A ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, considerando particularmente a _Carta a El-Rei_, aprecia-a como um desforço contra a injustiça com que trataram o poeta, porque só ouviram seus inimigos e não lhe concederam sequer o direito de pedir satisfação pelas armas ao poderoso que o calumniou. Não iremos tão longe, mesmo porque não está ainda averiguada a certeza da perseguição de que se diz ter sido victima Sá de Miranda, mas, dado que a escrevesse com uma intenção de desforra, nem por isso se deixará de avaliar em seu justo valor a famosa carta.
Em a dirigida a João Ruiz de Sá de Menezes, o poeta insiste em os perigos que teme para o paiz. O bom patriota, lá do seu retiro do Minho, nem um só momento esquece o que devia á patria.
Estes mimos indianos Hei gram medo a Portugal Que venhão fazer os danos Que Capua fez a Anibal.
Sá de Miranda curava-se, agora, com a philosophia. Temia mais os inimigos de casa que os de fóra. Eram aquelles que estavam promovendo a ruina de Portugal.
Cura me filosofia Que me promete saude; Dei lhe a mão, ela me guia, Ouço falar da virtude; Se a visse, sarar me hia. Diz Platão, que é dos milhores, _Quem posesse os olhos nela, Que verdadeiros amores Sempre traria com ela._
Como digo, eu sô de ouvir Ando como homem pasmado, Desejoso de a seguir, Chorando todo o passado, Temendo todo o porvir. De fora ha muitos perigos A cuja lembrança temo, Em casa aqueles imigos Que eu mais que os de fora temo.
E, mais que nunca, votava a sua attenção para os grandes modelos da litteratura classico italiana. Lia-os e relia os com admiração, não se cançando de os estudar e de procurar desvendar os mysterios de sua inspiração.
Aqueles cantares finos, A que _liricos_ disserão Os Gregos e os Latinos, Digão me donde os houverão Salvo dos livros divinos? Quantos que d'ahi ao seu Trouxerão auguas á mão. Regou Pindaro e Alceu, E em môres prados Platão!
Mas é o que ora aprendo Ler por eles de giolhos, De que sei quam pouco entendo. Mas fossem dinos meus olhos, De cegar sobre eles lendo! Que, dos seus misterios altos Assi lubrigando vejo Que não são pera tais saltos: Gemo sômente e desejo.
Indubitavelmente a carta a João Ruiz de Sá de Menezes foi, tambem, escripta antes de Sá de Miranda se casar. Indica-o as allusões que faz ao amor e as duvidas com que mostra luctar antes de se resolver a esse passo decisivo.
Fui posto em gram diferença Se casaria, se não? Houve de sair sentença Que a sô [~u]a desse a mão, Ás outras boa licença.
A composição que mais absorveu os cuidados de Sá de Miranda foi a ecloga _Basto_, cheia de intimas confidencias. O poeta, parece, levou toda a sua existencia a depural-a, chegando mesmo a refundil-a. Conhecem-se d'ella umas quatorze variantes mais ou menos desiguaes, das quaes as mais antigas são escriptas em decimas e as mais recentes foram reduzidas a estrophes de oito versos.
Encantadora essa ecloga em que Sá de Miranda deixou correr a sua penna livremente, sob o impulso da inspiração popular. É a _Basto_ um dos monumentos mais bellos de nossa litteratura e um dos melhores quadros de nosso viver intimo em o seculo XVI, frisando admiravelmente o contraste entre a sociabilidade urbana e a insociabilidade rustica, ou melhor, entre a vida palaciana, toda de prazeres, e a do campo, entre ares e caracteres puros. Formosa descripção de costumes minhotos, originalissima, os episodios simples e graciosos tocam pela ingenua candura de um verdor e transparencia de agua corrente. O dialogo é sereno, mas vivo.
A _Basto_ seduz tanto pela elegancia da phrase e pelo subtil do descriptivo, que se é tentado a consideral-a como a melhor composição poetica de Sá de Miranda. As suas bellezas, incontestaveis, passaram indifferentes a muitas gerações que n'ella achariam um modelo digno de estudo cuidado. O que prova quão transviados da tradição nacional, tão rica de primores, têm andado quasi todos os nossos poetas.
Um dos episodios mais admiraveis pela sua simplicidade expressiva aqui o reproduzimos, segundo o _ms._ enviado ao principe D. João.
O moço que entra em terreiro E não toca o chão de leve, Polo ar voa o pandeiro, E a toda a festa se atreve Ele sô com seu parceiro, Este tal baile, este cante, Este seus jogos ordene, Corra, va, pase adiante, Este voltee, este espante, Este dê penas e pene!
Mas quem já se vêm das pontas, Não acha o que soía em si, Começa entrar noutras contas: _Ouvi ja milhor e vi_, Suar e passar afrontas. Vai se o tempo, tudo foge, Corre o dia após o dia; Queres que homem não se anoje? Que me não conheci hoje N[~u]a fonte em que bebia.
Este interessante descriptivo ou episodio, como queiram chamar-lhe, foi posteriormente aperfeiçoado pelo poeta. Em a variante que passa como a melhor da ecloga, apparece elle posto na bocca de _Bleito_ assim:
O moço que entra em terreiro E não toca o chão, de leve. Sô ele co seu parceiro A toda a festa se atreve, Este tal jogos ordene, Este nas aldeas more, Este balhe, este namore, Este dé penas e pene;
Este os seus contentamentos Diga em cantares nas vodas, Este nos ajuntamentos Dê mil voltas, no ar todas, Este quando lhe aconteça Que em Filipa ou em Marta sonha, Ós domingos feitos ponha Ou das malvas na cabeça;
Deixe o gado sô no monte Em perigo, e corra a terra Por saber quem vai á fonte Depois que a noite se cerra; Este tenha e perca arrufos, Este logre abril e maio, Este dé golpes no saio E todo se empole em tufos!
Mas quem cuida e lança contas Que tanto e tanto relevão, Que fará? tu não te afrontas Coa pressa que as vidas levão? Passa pera sempre o dia, Passa o ano, tudo foge. Que me não conhecia hoje Vendo me quando bebia;
Antes, quando ia beber Sequioso e mui cansado, Houvera d'esmorecer Vendo me assi tam mudado.
Responde Gil com uma esplendida apologia da vida simples do campo, vivendo livre, entregue aos cuidados da previdente natureza. As vantagens e os encantos d'essa existencia feliz são deliciosamente expostos, salientando-se pela convicção que lhe imprime o poeta.
Andando assi não me empecem Maos olhos nem mas palavras, Nem me temo se engafecem Entre nosoutros as cabras, Nem menos que o meu cabrito Me furte o vezinho e coma; Aqui, se paixão me toma, Posso cantar voz em grito,
Com estas aves, que tais Duas aventagens têm D'esses outros animais, Voar e cantar tam bem, Ou ao som d'agua que cai Rompendo polos penedos, Eles que sempre estão quedos, Ela que a gram pressa vai.
Dá me de que me mantenha Este meu gado com leite, Acho polo monte lenha, Acho abrigo onde me deite E faça quanto quiser. E a noite tras a fogueira Trago isca e pederneira, Vinho não-no hei mester.
Ves tu a minha cabana? Como o tempo acode, assi A mudo. Nem Guiomar nem Ana Não dão voltas por aqui, Que me façam merecer Muitas d'estas varapaos Com seus olhos vaganaos Bons de dar, bons de tolher.
Passado o frio e a neve, Quando ó gado é cousa sã Andar trosquiado e leve, Visto me da sua lã. Abasta me o seu sobejo Pera tudo que hei mister; Assi como o ano quer, Assim com ele me rejo.
Para cousas que acontecem, Trago comigo rafeiros Que outras suas mãis parecem Das mãis dos seus cordeiros. Inda que se a ovelha esqueça A trasparida e maltreita, O cão cab' ela se deita Té que eu em busca apareça.
Deixa me ver este ceo E o sol como vai fermoso. Que gram caminho correu Desd'hoje e quam espaçoso, Vai seguindo a outra párte, Irá ver gente estranha, Outra terra, outras montanhas Que de nos não sabem parte.
Deixa me ver estas flóres Tantas que nacem de seu! Que este é o meu mal d'amores, Ou de fora, ou de sandeu, E mais, se inda mais quiseres, Sicais que será verdade. Porem tenha eu liberdade! Dé vos deus muitos prazeres!
Aqui não sou com vezinhos Cada ora aos empuxõis, Nem sei sômente o caminho Da vila e seus são Juõis, Que, em vez de matar, avivão Outra vez as diferenças. Que te aproveita que venças Se vencendo te cativão?
Sá de Miranda, como moralista eximio que era, pois a sua poesia visava sempre a instruir, a educar, não a simples distracção, servia-se frequentemente da allegoria e da fabula. Na ecloga _Basto_ demonstra a forma brilhante como sabia applicar as velhas fabulas classicas, ou ainda as que corriam entre o povo, ao seu intuito conceituoso. A licção dellas tirada é sempre a mais apropriada.
Ha em a _Basto_ duas bellas fabulas: a de _Gil Ratinho_ e a do _Bacoro Ovelheiro_. Engraçadissima a primeira.
Fui um dia a vila, Gil, E logo, ó sair da casa, Mais verde que um perrexil Cuidei que matava a brasa De galante e de gentil. Bem passei cos viandantes Mas despois la, quando cheas Vi ruas de outros galantes, Se eu viera ufano de antes, Não tornei tal ás aldeas.
Dezia um vendo me assi: Bom vai o do barretinho! Outros dar os olhos vi, Outros chamar me ratinho, Tanto tê que me escondi. Finalmente por acerto Vi algums nossos de ca, Deixei os chegar mais perto, Meti me antre eles por certo. Que tarde me acolhem la!
Não menos conceituosa a do _Bacoro Ovelheiro_.
Um bacorote orgulhoso Deu vista ó gado ovelhum, De quexiquer espantoso Trombejava ele um e um, Andava todo bravoso. Vem o lobo um dia e apanha Polo pescoço o doudete, Abrandou lhe aquela sanha, Brada _ai dos meus_; em tamanha Pressa ninguem arremete.
Vinhão os porcos da aldea Mais atras, grunhir ouvirão; Cada um d'eles esbravea, Estes si que lhe acudirão: Perde o lobo a sua cea, Ele solto, viu que o gado, Da lã branca estava olhando De longe, ainda amedrontado. _Antes_, disse, _ser mandado, Que a tal perigo tal mando_.
Esta preciosa allegoria?
Do leite e sangue empolado O bezerrinho viçoso Corre e salta polo prado, Despois lavra perguiçoso, Tira o seu carro cansado. Cos dias e co trabalho O brincar d'antes lhe esquece, Não é ja o que era almalho, Venda se pera o talho Que este boi velho enfraquece!
Ainda nenhum escriptor portuguez tratou com tanto engenho o fabulario, ainda nenhum o applicou tão bem e lhe deu tão bello relevo. Sá de Miranda allia delicadamente a grandeza com a graça, a par de uma maneira simples e primorosa de contar.
Em a carta que posteriormente dedicou a seu irmão Mem de Sá, o poeta utilisa admiravelmente a fabula de _o rato do campo e o rato da cidade_. Sá de Miranda conta-a em referencia á sua situação, convencido de sua verdade que tanto ao vivo sentira. Realmente não valeria mais o pouco a par das alternativas das grandezas? O poeta podia responder afoutamente.
Essa linda fabula, de origem grega diz-se, mas verdadeiramente anterior aos hellenos, espalhada na antiguidade sob o nome de Esopo, tem tido enumeras imitações. O Arcypreste de Hita tratou-a com grande relevo. La Fontaine tambem lhe deu um certo brilho e a sua fórma é das mais espalhadas entre nós. Pois, de todas as imitações modernas, a mais valiosa é a de Sá de Miranda. Isto, como o reconhece a ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, sob o ponto de vista da espontaneidade, da graça natural e da travessura ingenua.
Quem as confrontar deve reconhecer a justeza da nossa apreciação. Para a vulgarisar a reproduzimos, embora seja um pouco extensa.
Um rato usado á cidade A noite o tomou por fora; (Quem foge á necessidade?) Lembrou lhe a velha amizade D'outro rato que ahi mora. O qual assi salteado De um tamanho cidadão Por lhe fazer gasalhado Dá mil voltas o coitado Que não põi os pés no chão.
Faz homem a conta errada, (Que mil vezes acontece) Cresceu me muito a jornada, Diz, entrando na pousada O cidadão que aparece. Estoutro poendo lhe a mezinha, Põi lhe nela algum legume; Mesura quando ia e vinha, Deu lhe tudo quanto tinha, Pede perdão por custume.
Cumpre muito aquela mesa Mais da fome que da gula; Faz claro a fogueira acesa; Mostra bom rosto á despesa. Vem o outro e dissimula. E está dizendo consigo: Este não foi pera mais! Que vai de Pedro a Rodrigo! Bem diz o enxempro antigo Que os dedos não são iguais!
Ora despois de comer, Jazendo detras o lar, Começa o rico a dizer: Dous dias que has de viver Aqui os queres passar? Na secura de um deserto Que não sei quem o soporte, De urzes e tojos cuberto, Sendo tudo tam incerto E tam certa sô a morte?
Vive, amigo, a teu sabor; Mais é que cousa perdida Quem por si escolhe o pior. Vai te comigo onde eu for, La verás que cousa é vida. Des que um e outro provares, (Que eu de outrem não adevinho) Quando te não contentares, Aqui tens os teus manjares I tambem tens o caminho.
Assi disse! Eis o villão, Em alvoroço e balança, Ia e vinha o coração Ora si, e ora não. Venceu porem esperança! E que deve i al fazer? Vive de tanto suor! Inda não pode viver, Não pode o ano vencer, Sempre a saida é milhor
E diz: Quem não se aventura, Não ganha! Rezõis contadas, Escolhem ora segura, Entrão por [~u]a abertura; O rico sabe as entradas. Vão se por paços dourados, Todos cheirosos da cea, Tristes dos casais coitados Do sol e vento torrados! Pobre e faminta da aldea!
Vou me por meu conto avante: Amostra o cidadão tudo Que traz no bucho um infante; Vão os seus gabos diante. Pasmado o outro anda mudo, Que tam sômente em provar Das cousas que i mais lhe aprazem, Ja começão de engeitar; Fartos pera arrebentar Sobre bons tapetes jazem.
Nisto o despenseiro chega (Que estes bens não durão tanto); Ve os ele, a pressa o cega, Um lanço e dous mal emprega, Corre os de canto em canto, Os cãis á volta se erguérão, Ladrão, (que é alto o serão) As casas estremecérão, Ums e outros i corrérão; Foi dita que os gatos não!
Sabia o maior da manha, Sabia a casa, e fogiu; Ó ratinho da montanha. Ós pés em pressa tamanha Ó coração lhe caiu. Mas espaçado o perigo E a morte que ante si vira, O coitado assi consigo, Por seu asessego antigo Que mal deixara, sospira:
Minha segura pobreza, Se chegarei a ver quando A vos torne? e esta riqueza, Mal que tanto o mundo preza, Fuja (se poder) voando? Ai baldias esperanças! Meu entendimento fraco! Que al temos das abastanças? La guardai vossas mostranças, Deus me torne ao meu buraco!
Das composições poeticas de Sá de Miranda pode-se destacar um fabulario do mais alto e inapreciavel valor. Ainda ninguem soube fazer-lhe a merecida justiça de uma edição condigna. Não devem os nossos editores curar unicamente de propagar a litteratura de além Pyreneus, sendo para desejar que as suas boas escolhas recaiam especialmente em o muito que ha das boas lettras em Portugal.
Em 1536, Sá de Miranda casou com D. Briolanja de Azevedo, irmã de Manuel Machado, opulentissimo senhor de Entre-Homem e Cavado, em o alto Minho, e muito da amizade do poeta da Tapada. O enlace parece ter sido resultado de amor mais do que de desejo de gosar o viver modesto e socegado da familia.
A analyse de algumas das poesias de Sá de Miranda leva a inferir que D. Briolanja era uma senhora formosa e que elle, por a ver, concebeu paixão por ella. Seus cabellos brancos, mais causados pelos desgostos que pela edade, ainda que o poeta andasse pelos cincoenta annos, far-lhe hiam receiar ser repellido.
E o poeta não hesitaria tambem em perder a sua liberdade varonil ao casar-se? Camillo Castello Branco, com o seu conhecido humorismo, diz que o haver sido Sá de Miranda marido exemplar não fará deprehender que fosse descaroavel para com as demais mulheres. Como homem bem morigerado pelos annos déra á esposa o coração estreme, escreveu o grande romancista, excluindo d'essa entranha arisca todas as mulheres a quem apenas concedia licença--uma concessão assaz agradavel, qualquer que fosse.
É o poeta que o declara na carta a João Ruiz de Sá de Menezes, evidentemente escripta antes do casamento.
Fui posto em gram diferença Se casaria, se não? Houve de sair sentença Que a sô [~u]a desse a mão, Ás outras boa licença. Isto assentado, Amor deu Claro sinal que era ali; Eu o som do coldre, eu O som das setas ouvi,
Amor, que estás sempre avindo E junto á propria verdade, Sejas por sempre bem vindo Ao entregar da vontade, Que entrego em te aqui sentindo, Põi do teu fogo a esta casa! Arça sempre e nunca abrande, Que deus é fogo que abrasa: Sei o de um privado grande!
Da força do amor diz Sá de Miranda em o soneto seguinte:
Mas que não pode Amor? Fez me engeitar Tam levemente a mim por quem me engeita. Castelos de esperança e de sospeita Faz, e não sei que faz! é tudo um ar.
Fez me pedras colher, fez mas lançar. A alma, apertando as mãos, toda encolheita, Á força que fará e á lei estreita Que em fim, queira ou não queira, ha de passar?
Como, e tão cego era eu que da vontade Fiei tudo, que tudo a traves guia, Tam gram contraira minha e da verdade?
Que al se podia esperar d'[~u]a tal guia? Cai onde ora jaço; oh crueldade! Não sei quando é noite ou quando é dia.
A lenda, porém, pretende que a D. Briolanja era tão feia de rosto como de nome e, para mais, velha e tropega. A _Vida_ refere até uma engraçada historia a respeito d'esse consorcio. Conta que estando o poeta em a Tapada, _logrando quietamente o fruto de seus estudos e peregrinações, casou com Dona Briolanja Dazevedo filha de Francisco Machado senhor da Lousãa de Crasto Darega, e das terras de entre Homem e Câvado e de Dona Ioana Dazevedo sua molher, com a qual viveo annos em grande conformidade sendo ella tão pouco fermosa exteriormente e de tanta idade que quando a pedio a seus irmãos Manoel Machado e Bernaldim Machado, por ser seu pay já morto, não quiserão elles differir-lhe ao casamento, sem que primeiro visse bem a noyva, e sendo-lhe mostrada pollos irmãos, disse para ella, castigay-me senhora com esse bordão, porque vim tam tarde_...
Camillo Castello Branco, achando, e com toda a razão, exquisito que a noiva do dr. Francisco de Sá recebesse o noivo de aggressivo bengalão alçado, viu um erro typographico n'aquelle adjectivo articular _esse_, que deveria ser _este_. Quem levaria o bordão seria o poeta que, ao cumprimentar graciosamente a linda noiva, diria:--Castigai-me, senhora, com este bordão porque vim tão tarde.--Significava assim que entrara em o declinar dos annos por haver passado os quarenta e cinco, ao passo que D. Briolanja estava em pleno brilho da mocidade.
O sr. Theophilo Braga crê que da má comprehensão do dito a que allude a _Vida_ e que ficou em proverbio se formou a tradição de ter Sá de Miranda casado com uma senhora velha e feia. Em verdade, não se póde acceitar semelhante lenda, visto que da leitura das composições do poeta, dos parabéns com que se felicita, se deprehende tratar-se de uma senhora, muito pelo contrario, nova e formosa. Que, ao mesmo tempo, o poeta frisa bem a sua edade avançada. O dito do castigae-me deve antes ser olhado como uma galanteria bem comprehensivel em um cavalheiro de trato tão esmerado como era o poeta.