Sá de Miranda e a sua Obra

Chapter 4

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Não foi nenhuma d'estas circumstancias isolada, mas sim todas juntas a causa do exilio de Sá de Miranda. Os successivos escandalos da côrte, que se multiplicavam prodigiosamente, o constante accrescendo da attitude aggressiva de seus inimigos, cujos desvarios não poupava, o convencimento de que, por então, não podia levar por diante o seu ideal de reforma litteraria e de engrandecimento da poesia portugueza, haviam chocado muito o animo forte e persistente de Sá de Miranda. O espirito do poeta, de si propenso para a solidão, foi-se aggravando.

Haviam terminado os bons tempos. Emquanto os chronistas, attentando unicamente em o brilho das exterioridades, continuavam a entoar hymnos ao engrandecimento do paiz, Sá de Miranda profundava em todo o seu horror a enorme decadencia moral, analysava a corrupção que tão intensamente lavrava e divisava em o sombrio horisonte os pavores de um futuro de aniquilamento. Ninguém quiz ouvil-o. Desilludiu-se e pouco a pouco foi radicando-se em sua mente a idêa de abandonar para sempre a vida turbulenta e miseravel da côrte, tanto que começou a solicitar de seu amigo D. João III a commenda das Duas Egrejas.

Deu-se, então, o successo da ecloga Aleixo. Veiu elle epilogar o conflicto travado em a consciencia do poeta.

A antiga amizade de Sá de Miranda por Bernardim Ribeiro mantivera-se, senão avigorara, atravez das vicissitudes de um e outro poeta. Em a ecloga _Aleixo_, ao que parece composta e representada por 1530, Sá de Miranda referiu-se ao desterro de seu amigo, defendendo-o com palavras dedicadas.

_Juan_

No sé como no llorava. Sabes porque sospirava? Porque aqui canto Ribero, Aqui nuestro amo escuchava, Rodeavan lo pastores, Colgados de la su boca Cantando el los sus amores. Gente de firmeza poca Que le dió tantos loores, I aora ge los apoca!

_Anton_

Eso falta, Juan pastor! Soncas, porque sospirar? I a que se pueden alzar Ia los ojos sin dolor? Ni a que se pueden bajar Donde los pornás enjutos? Adelante, o cara atras? Las tierras niegan sus frutos: El sembrar es por demas, Los aires andan corrutos, Los hombres cada vez mas.

De aquel gran pino a la sombra... Ia ves quanto que ensanchó! Que el prado i zarzas cobrió I los vezinos asombra.

A allusão, o _gran pino_, entendia-se com o valido de el-rei, o conde de Castanheira D. Antonio de Athaide. Este, como todos os favoritos poderosos, orgulhoso e despotico, abusava com frequencia de seu prestigio e, no caso a que se referia a ecloga, elle não deixaria de concorrer grandemente para o desenlace que se deplorava.

Embora franca e rude, a allusão era, comtudo, digna e não deprimente. Os inimigos de Sá de Miranda aproveitaram-a para tecer uma habilissima teia e afastarem para longe o atrevido poeta, implacavel para com os seus desmandos. Intrigando na sombra, torceram a interpretação da ecloga e deram ao trecho incriminado um sentido que, certamente, não tinha. Apresentaram-o como um ataque directo. O conde de Castanheira, cioso de seu valimento, comprehende-se bem, não poude levar á paciencia a intervenção do poeta e muito menos tolerar o que considerou atrevidos insultos.

Quaes as consequencias da torpissima intriga e do furor do valido, eis o que não é precisamente conhecido. Dos versos de Sá de Miranda pode-se inferir que foi cruelmente perseguido, correndo talvez mesmo grave risco de, quem sabe, ser assassinado. Com effeito, mais tarde, quando já em seu retiro, escrevia a seu irmão:

Agora, por que vos conte O que vi, tudo é mudado: Quando me acolhi ó monte, Por meus imigos de fronte Vi lobos no povoado:

e tambem:

Polo qual a este abrigo, Onde me acolhi cansado E ja com assaz perigo, A essas letras que sigo, Devo que nunca me enfado, Devo a minha muito amada E prezada liberdade Que tive aos dados jugada. Aqui sômente é mandada Da rezão boa e verdade.

A bella _Canção a Nossa Senhora_ parece ter sido escripta quando o poeta soffria duro captiveiro. Pelo menos, se se tomar á lettra estes versos:

ao meu destroço, Assi tam perseguido como vedes, D'antres tam altas, tam grossas paredes, De ferro carregado,

Note-se que essa canção, como o proprio Sá de Miranda declara, foi _feita por aquela de Petrarcha: «Virgine bella»_. Longe de constituir uma vaga reminiscencia, é uma imitação positiva, embora livre, e que se pode acompanhar com o modelo. Se não houvesse a confissão do consciencioso poeta em seu _ms._, bastaria a simples confrontação para o provar. Dias Gomes, que a analysou com uma minucia de grammatico estrophe por estrophe, verificou que o poeta portuguez até lhe deu o mesmo numero de estancias e versos, a mesma disposição metrica e simulcadente, começando, como retrarcha, cada uma d'aquellas pela palavra _Virgem_.

Não ha duvida em que a factura da _Canção_ seja posterior ao regresso do poeta ao paiz. Mas seria composta por esta epoca? A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos julga que sim.

A illustrada senhora, reconhecendo que o assumpto foi tratado magistralmente e que a _Canção_ de Sá de Miranda excede em muito o seu modelo, quanto á profunda expressão e intensidade do sentimento, não concorda com Dias Gomes em que ella seja a producção mais sublime que se encontra nas composições do illustre poeta da Tapada. A nosso ver, a _Canção_, realmente admiravel pelo sentimento que a vivifica, tem o seu tanto ou quanto de artificiosa.

Se não, veja-se:

............................... Virgem, seguro porto e emparo e abrigo Ás môres tempestades; ah que tinha Ós ventos esta vida encomendada Sem olhar a que parte ia ou vinha, Vãmente descuidado do perigo, Surdo aos conselhos, tudo tendo em nada, Não vos seja em despreço [~u]a coitada Alma que ante vos vem, Por rezõis que tem, De imigos grandes mal ameaçada. E que eu tam pecador e errado seja, Vença vossa piedade Minha maldade grande e assi sobeja.

Virgem, do mar estrela, neste lago E nesta noite um faro que nos guia, Pera o porto seguro um certo norte; Quem sem vos atinar, quem poderia Abrir sômente os olhos vendo o estrago Que atras olhando deixa feito a morte? Quem proa me daria com que corte Por tam brava tormenta? De toda a parte venta, De toda espanta o tempo feo e forte. Mas tudo que será? coa vossa ajuda Névoa que foge ao vento Que num momento s'alevanta e muda.

..................................... Virgem, nossa esperança, um alto poço De vivas aguas, donde a graça corre Em que se matão pera sempre as sedes; Não de Nembrot, mas de David a torre, Donde socorro espero ao meu destroço, Assi tam perseguido como vedes, D'antre tam altas, tam grossas paredes, De ferro carregado, Um coração coitado Chama por vos envolto em bastas redes. Esse que eu som, sinais inda algums tenho De ser do vosso bando, Que a vos bradando por piedade venho.

Virgem do sol vestida, e dos seus raios Toda cuberta e ainda coroada De estrelas, e debaixo o sol, a lua, São vindas minhas culpas d'assuada Sobre mim tantas; valei-me ós meus desmaios! De tantas que possa ir chorando alg[~u]a! Não me deixárão desculpa nenh[~u]a Os meus erros sobejos; Levarão me os desejos O milhor das idades [~u]a e [~u]a. Quem tromenta passou por toda a praia Cos ventos contrastando, Saia nadando, ja coa vida, e saia.

Virgem, horto cercado, alto e defeso, Rico ramo do tronco de Jessé Que milagrosamente enflorece, Custodia preciosissima da fe Que toda junta tivestes em peso Quando um e o outro sol sua luz perdeu; Rompão os meus sospiros o alto ceo, E a vos cheguem, senhora, Que assi voa de ora em ora Envolto n'este cego e basto veo; De dia em dia, vou me de ano em ano, A minha fim chegando Dessimulando a vergonha e o dano.

Não será exactamente a referencia á prisão artificio poetico? A _Vida_ assevera que Sá de Miranda viu com desgosto a errada e malevola interpretação do _Aleyxo_, mas que, _nem querendo declarar-se milhor, nem esperar á vista os effeitos da ira declarada, tendo-lhe el Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas_, preferiu retirar-se voluntariamente da côrte. Isto afasta, portanto, a idêa da perseguição.

Como se poderia explicar que o poeta soffresse duros tratos se contava com a amizade provada do seu bom amigo D. João III e com a terna affeição do herdeiro da corôa que lhe mandava pedir suas poesias! É natural que se tenha manifestado acceso, a pretexto da _Aleyxo_, o odio dos inimigos de Sá de Miranda, mas não parece provavel que o soberano consentisse em o ver perseguido como um animal damninho a que fosse necessario encurralar. Vamos mesmo porque se metteu de permeio agraciando Sá de Miranda com a Commenda de Santa Maria das Duas Egrejas, conhecedor de sua grande vontade de se recolher á solidão.

O facto é que Sá de Miranda abandonou a côrte para nunca mais voltar a ella. Deixou _o mimo da Corte, a conversaçam dos amigos, a esperança de mayores merces assegurada no favor do Principe Dom João, que em muito tenra idade, começava a fazer lhe grande, e do Cardeal Dom Henrique, que com mostras de particular affeição assistia a suas cousas_. Tudo pôz de parte preferindo-lhe o socego corporal e espiritual.

O Minho, com a sua verdura de esmeralda, o seu azul purissimo, a fertilidade de seu solo, a simplicidade encantadora de primitiva de seus costumes, prendeu o philosophico poeta. A Commenda das Duas Egrejas, a que se retirara, ficava perto do Pico de Regalados, na margem esquerda do Rio Neiva, margens deliciosas como todas as do norte portuguez accidentado e exuberante de vegetação.

Por lá se deixou ficar Sá de Miranda, no encanto e socego da paisagem, a descançar das agitações da côrte e a inspirar-se em o doce decorrer de uma tranquilla existencia. Ali, que até a natureza é tocante de candura, que tudo encanta a alma e enleva o espirito, se fortaleceu o seu animo abatido pelos desgostos experimentados na côrte e foram produzidas as suas melhores composições poeticas.

Proximo da Commenda das Duas Egrejas vivia, em propriedades suas, Antonio Pereira Marramaque, senhor de Basto, homem tido por mui douto e versado em humanidades. Antonio Pereira entregava-se á vida placida dos campos, não sem que votasse os seus maiores ocios ao estudo, acompanhando com vivo interesse o movimento intellectual da Europa. Seguia os resultados do conflicto provocado pela Reforma e defendia-a com calor. Poetava tambem.

Entre Sá de Miranda e Antonio Pereira estabeleceram-se relações que rapidamente se estreitaram e tornaram das mais intimas. Os dois poetas foram mesmo quasi inseparaveis durante cerca de dois annos, sendo Sá de Miranda hospede assiduo e considerado da casa de Basto, onde passava a maior parte do anno.

Das mãos de Antonio Pereira recebeu Sá de Miranda o primeiro exemplar das obras de Garcilaso e isto antes de 1536. Foi talvez esse offerecimento o ponto de partida da amizade que os dois sustentaram. Esse exemplar era, sem duvida, manuscripto, pois que a primeira edição d'aquellas obras appareceu em 1543. É certo que para o primeiro anniversario da morte de Garcilaso, em 1536, compôz Sá de Miranda a sua ecloga _Nemoroso_ em que evidencia o mais intimo conhecimento não só das poesias do grande lyrico hespanhol como de sua propria vida.

Apraziveis dias passaram os dois poetas. Gozaram a pulmões cheios o encanto dos prazeres campezinos. Sá de Miranda, _era inclinado á caça dos Lobos_. Não faltaram egualmente festas caseiras nem representações de comedias improvisadas a que vinham assistir os mais nobres dos arredores. Ás vezes, como era amigo de musica, Sá de Miranda tangia viola de arco.

Assim foram os primeiros annos que Sá de Miranda passou em o campo. Tudo tem fim n'este mundo e essa magnifica existencia da casa de Basto terminou por haver Antonio Pereira _partido para a côrte com a sua casa toda_, como o poeta diz em a carta que lhe dedicou.

Não é precisamente conhecida a causa nem a data da partida de Antonio Pereira para Lisboa. Ha escriptores que affirmam ter-se ella realisado depois de 1540, isto é, em epoca em que o senhor de Basto começava a preoccupar-se com o futuro de seus filhos, nascidos por 1530, e entendia dever apresental-os na côrte. Parece a outros que Pereira pensava em os levar a frequentar a Universidade, o que não é possivel admittir-se pois que aquella, reformada por iniciativa de D. João III, voltou para Coimbra em 1537.

Seja qual fôr a causa que a determinou, a ida de Antonio Pereira para Lisboa deve ter-se effectuado antes de 1536. Accusam-o diversos indicios, entre outros os versos da carta que lhe dirigiu Sá de Miranda e pelos quaes se conclue que, ao tempo em que era escripta, viviam ainda Garcilaso e Gil Vicente. De resto, não se encontra n'ella a minima allusão a seu casamento, o que era natural dar-se sendo, como eram, os dois tão intimos amigos e constituindo aquella por assim dizer, um precioso inventario da feliz temporada que elles haviam levado em sua convivencia.

Sá de Miranda assistiu com immenso desgosto á partida de Antonio Pereira. A proposito, escreveu a esplendida carta em que lhe faz amarissimas reflexões e reprova as enormes despezas que a mudança exigia. Depois, o perigo de seu bom amigo se perverter ao contacto com essa côrte de que elle fugira!

Como eu vi correr pardaos Por Cabeceiras de Basto, Crecer em cercas e em gasto, Vi por caminhos tam maos Tal trilha, tamanho rasto, Nesta ora os olhos ergui Á casa antiga e á torre Dizendo comigo assi: Se nos deus não val aqui. Perigoso imigo corre!

Sá de Miranda recorda saudosamente, em sua carta, o bello periodo de convivio doce e sereno que tivera com Antonio Pereira, convivio simples e puro em que a conversa attrahente e erudita do respeitavel poeta que viajara por Italia era apreciada como o merecia. Confronta bellamente esse viver de provincia, á antiga, com o dos cortezãos sempre famelicos.

Os bons convites antigos, Antes de se tudo alçar, Erão pera conversar Os parentes e os amigos, Que não pera arrebentar.

Os mezes mais calmosos do anno, julho e agosto, passavam-o os dois em a fonte da Barroca. A meza era frugal, a remir dias, placidamente, em suave conversação.

Á vossa fonte tam fria Da Barroca em julho e agosto (Inda me é presente o gosto) Quam bem que nos i sabia Quanto na mesa era posto! Ali não mordia a graça, Erão iguais os juizes, Não vinha nada da praça, Ali da vossa cachaça, Ali das vossas perdizes!

Ali das fruitas da terra, (Que dá cada tempo a sua) Colhida á mão cada [~u]a! Nunca o sabor a vista erra, Cheirosa, formosa, e nua. Oh ceas do paraiso Que nunca o tempo vos vença, Sem fala da nossa ou riso, Nem carregadas do siso, Nem danadas da licença!

Os dois poetas liam, saboreavam e discutiam as melhores producções dos poetas antigos e contemporaneos d'elles. Falavam de Ariosto, de Bembo, de Sanazarro, de Laso e de Boscan, e Sá de Miranda apontava as bellezas dos modelos que procurava introduzir, advogava colorosamente suas innovações.

Des i, o gosto chamando A outros môres sabores, Liamos pelos amores Do bravo e furioso Orlando, E da Arcadia os bons pastores. Se eu isto estimado agora Vira como d'antes era, Por meu conto avante fora, Mas não diz ora com ora: Vão se como ó fogo a cera!

Ou como se lê em uma outra variante de sua carta;

Liamos os Assolanos De Bembo, engenho tam raro Nestes derradeiros anos, Os pastores italianos Do bom velho Sanazaro. Liamos ao brando Lasso Com seu amigo Boscão Que honrárão a sua nação Ia me meu passo a passo Aos nossos que aqui não vão,

Desejando pôr Antonio Pereira a coberto das tentações da côrte, Sá de Miranda descreve-lhe o máo estar do paiz, aponta-lhe os perigos que corre e condemna energicamente os desvarios de uma perdida nobreza. O seu amigo, assim prevenido, decerto se acautelaria e prudentemente havia de resistir ao refluxo da absorvente maré.

É entrada polos portos No reino crara peçonha Sem que remedio se ponha. Ums doentes, outros mortos, Outro polas ruas sonha. Fez nos a ousada avareza Vencer o vento e o mar, Vencer caje a natureza. Medo hei de novo a riqueza Que nos torne a cativar.

Em torno de Sá de Miranda como que se fez um vacuo enorme após a partida de seu inseparavel companheiro de estudos litterarios. Para bem avaliar a grandeza daquella amizade bastará apontar o logar que o nome de Antonio Pereira occupa em as poesias do cantor do Neiva. A elle communicou as impressões de suas viagens em cartas infelizmente perdidas e a elle dedicou as eclogas _Nemoroso_ e _Aleixo_. Ao irmão Nunalvarez offereceu a sua esplendida _Basto_.

Então, tambem por 1536, parece ter Sá de Miranda passado a habitar a Tapada, vasta e magnifica vivenda com quinta e bosque que demandava a pequena distancia da Commenda. Esta transferencia de habitação tem sido mal comprehendida por alguns escriptores, inclusivé pela ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos que acha de todos os casos muito menos provavel que Sá de Miranda possuisse a Quinta da Tapada antes de obter a mercê da Commenda e que D. João III escolhesse Duas Egrejas exactamente como a mais proxima do retiro que o poeta havia preferido.

O anonymo biographo da _Vida_ affirma expressamente que Sá de Miranda, _tendo-lhe el-Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas... recolheu-se a hua quinta que tambem tinha ahi perto chamada a Tapada_. Indiscutivel, pois, que a quinta não fazia parte da Commenda e ainda mais indiscutivel que o poeta a possuia antes e independentemente de receber Duas Egrejas. Lá está o desconhecido contemporaneo a attestal-o por uma forma cathegorica.

É, por isso, racional admittir-se que a quinta fosse propriedade do poeta, talvez de familia, e tanto assim que continuou na posse dos seus descendentes, ao passo que a Commenda já por 1607 havia passado a outras mãos. Admissivel, tambem, que Sá de Miranda solicitasse a Commenda por se encontrar situada proximo da Tapada que _já possuia_. Provavel, finalmente, que a moradia em a Commenda tivesse em vista, apenas, dar tempo a realisarem-se na casa da Tapada as adaptações necessarias para receber o poeta. É de tudo o mais logico.

Sá de Miranda nem um unico momento afrouxou em sua actividade desde que se retirou ao Minho. A ociosidade foi para elle sempre uma palavra vã.

O nome da ociosidade Soa mal, mas se ela é sã, Bem empregada em vontade, Socrates da liberdade Sempre lhe chamou irmã!

As obras dos poetas contemporaneos andavam em constante leitura. Ellas o estimulavam a proseguir.

Co que li, co que escrevi, Inda me não enfadei.

Depois, com a auctoridade de seu nome e de seu caracter, principiava a ganhar adeptos sinceros. A sua musa é, então, vigorosa como nunca. A acuidade do poeta desenvolve-se extraordinariamente.

Sá de Miranda acompanhava do Minho, com o mais vivo interesse, os menores acontecimentos politicos. Preoccupava-o o destino do paiz e não lhe era indifferente nem as prosperidades nem as desgraças que gosava ou soffria a existencia dos homens que dirigiam os destinos da patria. Esta parecia agora renascer brilhante como em os tempos aureos do venturoso D. Manuel. O movimento litterario renovava-se fazendo esperar novos dias de radiosa gloria. Na côrte, as boas lettras, a poesia, os estudos classicos, patrocinados pela familia reinante, prosperavam. A Universidade, reformada em 1537, passava a Coimbra, para que o bulicio da capital não fosse estorvo ao estudo, e para a dirigir vinham do estrangeiro professores dos mais illustres.

Sempre coherente de pensamento com as acções, esperançado em melhores epocas, Sá de Miranda escreve as suas Cartas a el-rei D. João III e ao seu velho amigo e parente João Rodrigues de Sá e Menezes. O patriota emerito mostra n'ellas o mais profundo conhecimento do que se passava na côrte e ataca com o seu costumado vigor as ambições dos aulicos. Em seu dizer sentencioso, severo mas commedido, tenta accordar as consciencias, arrancar a nobreza aos deleites de uma vida capuana e trazel-a ao estricto cumprimento do dever.

Infelizmente, os appellos do poeta foram completamente perdidos e o cataclysmo, que havia de afogar as consciencias em ondas de sangue, vinha annunciado já pelas nuvens negras que appareciam da banda de Italia. A 20 de setembro de 1539 realisava-se o primeiro auto da fé. As chammas das sinistras fogueiras, elevando-se para o ceo com esgares satanicos, eram como maldições que arrastavam Portugal até ao anniquilamento de 1580.

A ecloga _Basto_ e as _Cartas_ a El-rei, a João Rodrigues de Sá e Menezes e a Antonio Pereira, este esplendido grupo de poesias pertence, em o parecer da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, parecer com que nos conformamos, ao curto espaço de tempo que mediou entre a retirada da côrte e o casamento do poeta com D. Briolanja, em 1536.

Scintilla n'essas composições a quintilha, admiravel de vivacidade, sublime de causticidade sentenciosa. Como muito bem considera a illustrada escriptora, sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, a ecloga _Basto_ e as _Cartas_ representam o que ha de mais original e de mais valioso entre todas as composições poeticas de Sá de Miranda. São essas as que ainda hoje mais captivam as attenções. Lêm-se com agrado, prendem o espirito pela sua graça e dominam pela forte convicção que respiram.

O sr. Theophilo Braga estima, egualmente, as _Cartas_ de Sá de Miranda como o que ha de melhor na poesia dos quinhentistas. E diz com razão que a quintilha, em o verso de sete syllabas, popular, torna-se facil e tão engenhosa que se presta a todas as descripções, a todos os dizeres e locuções particulares da lingua, aos apophtegmas já metrificados pela tradição. Como _satyras_, as _Cartas_ em nada desmerecem ás de Horacio ou de Tolentino. De resto, Sá de Miranda era, sobretudo, um moralista e a poesia prestava-se, principalmente na redondilha, para os dizeres conceituosos.

Das _Cartas_ destaca-se, pela energia, pela hombridade e rectidão de caracter com que se affirma o poeta, a dirigida a el-rei. Como bellamente assignala a ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, não se sabe que admirar mais n'ella, se a nobreza da linguagem, se a alma do patriota, se o grande caracter do fidalgo, se a ironia aguda do moralista. Antes deve admirar-se, essa carta, por todo esse conjuncto de predicados raramente reunidos.

A _Carta a El-rei_ foi, por assim dizer, a despedida do poeta a D. João III, o seu adeus á côrte. Sá de Miranda dirige-se ao monarcha como vassallo leal, cuja confiança lhe permitte fallar com desassombro, não como cortezão lisongeiro. Tem em vista expor a verdade, não a intriga. E fal-o empregando uma fórma aphoristica e sentenciosa que mais impõe a severidade de seu caracter.

Sá de Miranda relata ao rei o estado de degradação a que o paiz chegara, aponta-lhe o servilismo enganador dos fidalgos que o rodeiam, indica-lhe os perigos de que precisa defender-se e incita-o a uma acção energica para limpar e purificar a corrupta sociedade que o cerca. A consciencia do poeta, a sua grande amizade ao monarcha, o convencimento que lhe dá o conhecer intimamente os males de que enferma a côrte, a auctoridade do seu caracter, emfim, o sentimento do dever e um sentimento rigoroso e inabalavel que, de resto, se nota em todas as suas poesias, leva-o a nada encobrir ao rei. A carta a D. João III é filha de uma convicção profunda, clara e persuasiva.

Não ha duvida que a humanidade de si esconde vicios. Mas a falsidade é o peior mal e que mais irreparaveis damnos póde causar.