Chapter 3
Essas innovações foram, porém, prematuras. Não fructificaram por falta de meio apropriado e em breve cairam em o mais completo abandono. Quanto não custou a Sá de Miranda implantar as suas! Não ha provas, de resto, de que aquellas tenham sido conhecidas em Portugal, ou, pelo menos, de que se lhe haja ligado a minima importancia. Apenas em o _Cancioneiro geral_ se nota uma tendencia accentuada para o symbolismo e allegoria e uma forte inclinação para o didactismo, em um gosto de eruditismo escolastico.
Sá de Miranda é, pois, incontestavelmente, senão o fundador, o propulsor da escola classico-italiana em Portugal. Visitando a Italia, quando esta peninsula attingia o maximo de sua elevação intellectual, preso de um santo enthusiasmo, dedicou-se com alma a reformar a nossa poetica segundo os modelos que lá fóra vira tão apreciados. Não quiz classisar a litteratura patria exclusivamente, mas levantar a poesia de sua decadencia por meio dos modelos italianos que estudara. Com justiça, pois, o nome de Sá de Miranda abre um novo periodo na historia litteraria portugueza, que com Ferreira e Camões se ergue ás maiores alturas.
Para as imperfeições metricas e rhythmicas de Sá de Miranda, perdoaveis em quem, como elle, tinha a luctar com as difficuldades da amoldação e com as rudezas de uma lingua ainda não desbravada de todo, já a _Vida_, verdadeiro espelho do pensamento dos seus contemporaneos, teve a attenuante de que foi elle o primeiro _que compos versos grandes neste Reyno, bastante desculpa das miudezas que se tachão em alguns seus desta medida pera aquelles homens, ao menos que attendendo ao que se diz, não curão muito do modo_. A _Vida_ considera os defeitos do poeta como _accidentes de nenhuma importancia_, attendendo a que elle _não somente foy inculpavel na gravidade das sentenças, na agudeza dos conceitos, na propriedade dos termos, na moralidade das figuras, na imitação dos Poetas, na observação das regras, senão inimitavel tambem na pureza com que fallou em materias amorosas_.
É pouco de estranhar que Sá de Miranda não tivesse em suas obras a inspiração de Camões, porque devia luctar com grandes difficuldades para amoldar o portuguez duro e rude dos heróes da Africa e da India ao espirito philosophico das suas idêas e á harmonia das novas formas poeticas que pretendia introduzir em Portugal. D'ahi a sua inferioridade manifesta e incontestavel na parte em que mais se inclina para os modelos da escola classico-italiana, inferioridade que ainda mais põe em relevo o brilhantismo das suas redondilhas tão nacionaes.
Innovador convicto, preoccupava-se com a imitação dos modelos estrangeiros que o deslumbravam e aos quaes desejava egualar, senão exceder. Estudava constantemente procurando seguir com o maior rigor as regras da arte. Fel-o tão a contento dos partidarios de sua escola, que a _Vida_ chega a sustentar que _os que attentamente o passarem não lhes ficará necessidade de lêr em as Poeticas de Aristoteles e Horacio, que elle, parece, não largaria da mão_.
O poeta, em sua sêde de perfeição, não se dava nunca por satisfeito com a sua obra. Continuamente refundia os seus trabalhos, cortava aqui, accrescentava além e, pode se dizer, morreu sem deixar uma forma definitiva de sua enorme producção poetica. A grande quantidade de variantes tem sido a maior difficuldade para as edições de suas obras.
Sá de Miranda desejava hombrear com os extraordinarios talentos que admirara em Italia e cujos livros eram os seus ocios de todos os dias. Sentia-se fraco de forças e não se cançava em procurar aperfeiçoar-se. O proprio poeta o confessa lealmente em o soneto com que fez acompanhar a remessa do seu terceiro manuscripto de versos ao principe D. João, filho de D. João III, espirito culto prematuramente apagado.
Tardei, e cuido que me julgão mal, Que emendo muito e que emendando, dano. Senhor, que hei grande medo ao desengano, D'este amor que a nos temos desigual.
Todos a tudo o seu logo achão sal: Eu risco e risco, vou me de ano em ano.
E este mal contido suspiro pela sua impotencia:
Ando cos meus papeis em diferenças! _São perceitos de Horacio_, me dirão. Não posso em al, sigo o em aparenças.
A sinceridade de Sá de Miranda é a melhor justificação das imperfeições que se lhe possam notar.
Ao voltar a Portugal, Sá de Miranda observou com profundo desgosto a completa transformação que se operava na côrte. Os symptomas da decadencia moral da fidalguia tornavam-se evidentes, salientavam já como manchas negras. Dominada pela febre do ouro que se fizera contagiosa, a nobreza esquecia o proverbial cavalheirismo e atirava-se desatinamente á mercancia para obter a todo o preço dinheiro e muito dinheiro.
A sede do ouro e dos prazeres, sede desenfreada e que nada saciava, substituira a elevação culta dos serões do tempo de D. Manuel. Quão mudados andavam os tempos! Da poesia já poucos queriam saber. E o mal augmentava em um resvalar pavoroso que ia trazer a Inquisição e levar até á infamissima cobardia que entregou Portugal a Castella.
Posteriormente, já em o retiro a que resolvera recolher-se, em carta dirigida ao seu amigo Antonio Pereira, Sá de Miranda descreve admiravelmente a situação deploravel em que caira o paiz. As causas são bem apontadas e a comparação com as eras passadas não pode ser mais bem feita.
Não me temo de Castela Donde guerra inda não soa, Mas temo me de Lisboa, Que o cheiro d'esta canela O reino nos despovoa, E que algum embique ou caia! O longe va, mao agouro Falar por aquela praia Na riqueza de Cambaia, Narsinga das torres de ouro.
Ouves, Viriato, o estrago Que ca vai dos teus custumes: Os leitos, mesas, os lumes, Tudo cheira: eu olios trago, Vêm outros, trazem perfumes. E aos bons trajos de pastores Em que saístes ás pelejas Vencendo tais vencedores, São trocados os louvores, São mudadas as envejas!
É entrada polos portos No reino crara peçonha Sem que remedio se ponha. Ums doentes, outros mortos, Outro polas ruas sonha. Fez nos a ousada avareza Vencer o vento e o mar, Vencer caje a natureza. Medo hei de novo a riqueza Que nos torne a cativar,
Sá de Miranda, que já se sentira aturdido com a desenvoltura, a dissolução dos costumes que presenciara em Italia, ficou apavorado ao conhecer o avassalador mercantilismo da côrte portugueza. Com que energia a invectiva depois:
Escravos mais que os escravos, Por rezão e por justiça Deixai-vos dos vossos gabos, Que vos vendeu a cobiça A mar bravo e a ventos bravos!
Homem recto, consciencia impolluta, Sá de Miranda não se poude ter que se não retirasse logo para Coimbra, a sua querida, a sua adorada terra natal. Mas, quando fugia á côrte, esta, escorraçada pelos horrores da peste, que fazia de Lisboa um horrivel cemiterio, seguia-o ahi, a acolher-se temporariamente á hospitaleira cidade.
Sá de Miranda possuia em Coimbra, ou em seus arredores, alguma propriedade situada junto ao Mondego e com a vista sobre a serra, certamente deixa de seus paes. É o que se tira de seus proprios versos,
No lugar onde me vistes De agua e do monte cercado
N'essa propriedade, pensaria o poeta encontrar um refugio contra as tentações com que ainda o poderia seduzir a côrte. Ahi contaria, com effeito, mais dias
De ledos que não de tristes.
A ida de D. João III a Coimbra constituiu verdadeiramente uma simples visita. De todas as supposiçoes que se tem feito ácerca da saída do monarcha de Lisboa, por causa da peste, a mais verosimil é que essa epidemia deu logar a pequenas excursões. A estada da côrte, em 1527, em a Athenas portugueza foi tão rapida, que el-rei passou o Natal em Lisboa, encontrava-se a 15 de fevereiro de 1528 em Almeirim e achava-se de volta a Lisboa de fevereiro a junho de 1530.
Sá de Miranda, que estava em suas terras nas margens do Mondego, ao saber da viagem do seu excellente amigo o monarcha e da joven rainha, que pela primeira vez ia a Coimbra, correu á cidade a recebel-os, a promover festas em sua honra e elle proprio pronunciou o discurso de recepção dos regios personagens. E, com vontade ou sem ella, restabeleceu, então, as suas relações com a côrte. Consolou-se, talvez, por ver que se lhe offerecia occasião de iniciar a propaganda a favor das idêas e formas poeticas que trouxera de Italia, de as defender calorosamente e de mostrar as bellezas dos seus grandes vultos litterarios, Sanazarro, Dante, Petrarcha, Ariosto, Bembo e Dante, cujas obras possuia.
Certamente, a conversação com Sá de Miranda devia ser procurada pelos fidalgos mais illustrados que faziam parte do sequito do rei. A consideração que gozava pelo respeito que infundia a sua rectidão de caracter, a longa viagem feita pelo estrangeiro e de onde ainda ha pouco regressara, o muito que devia ter visto e aprendido durante sua excursão, tornavam-o, sem duvida, reclamado em a côrte. O poeta aproveitou este seu predominio para pugnar pelo triumpho dos grandes mestres de Italia, estimulando a curiosidade dos espiritos mais illustrados e intelligentes, patenteando-lhes as perfeições litterarias dos seus trabalhos, emfim, preparando-os para bem receber as suas projectadas obras. Ao mesmo tempo, ia desassombradamente atacando com vigor as producções dos escriptores nacionaes, apontando e condemnando os defeitos que lhes encontrava.
Não foram baldados os esforços de Sá de Miranda. A côrte teve que se render ante o seu talento e a sua erudição. Como diz a _Vida_, _co as colidades de sua pessoa e boas partes que nelle concorrião, sem outra alguma ajuda das que costumão levantar ainda os indignos, se fez tamanho lugar, que foy sem controversia, senão o mayor hum dos mais estimados cortesãos de seu tempo, concorrendo cos milhores que este Reyno teve por ventura, e isto não só dos companheiros, mas del Rey e dos Principes, e o que he mais dos vallidos com quem ordinariamente nam adiantão os amigos de antes quebrar, que torcer (como elle diz) tomando em desprezo proprio a estimaçam alhea e sentindo como injurias particulares a detestaçam que os judiciosos e discursivos fazem dos vicios em geral_. Com effeito, Sá de Miranda atou e sustentou relações de estreita amizade com alguns dos mais nobres fidalgos, como D. Luiz da Silveira, D. Manuel de Portugal, Pero Carvalho e outros.
Sá de Miranda não se limitou, porém, a propugnar pela divulgarisação dos modelos classicos. Foi mais além e começou a atacar com energia os vicios do tempo, a corrupção que alastrava sem dique. A renovação de seu trato com a côrte permittiu-lhe estudar a fundo os novos costumes dos principes e dos aulicos e analysal-os com olhos de ver para melhor lhes applicar o ferro candente.
Em Coimbra, os cortezãos, e a cohorte de parasitas que os seguira até ali, foram de uma insaciedade fora de commum. A nobreza da cidade exhauriu-se até de recursos para proporcionar uma vida regalada aos exigentes fidalgos, mas nada os contentou. Acostumados ás montarias aventurosas da graciosa Almeirim e á vida regalada da farta Santarem, não cessaram de clamar contra a existencia atribulada e parca que levavam na soturna cidade. Sentiram-se bem quando a deixaram, voltando para o sul do paiz.
Sá de Miranda, que fôra dos que promoveram a mór parte das festas em honra dos famelicos cortezãos de seu amigo D. João III, conteve a custo a indignação. Mas, quando a côrte d'ali retirou, a sua ira rompeu caustica como um ferro em brasa. Dirigiu, então, a Pero Carvalho, guarda roupa do rei, essa famosa carta, coriscante diatribe que foi ferir certeiramente os alvejados.
N'essa carta, o poeta começa por exprobrar a maledicencia da fidalguia e lançar-lhe em rosto a sua ingratidão para com uma cidade que toda se esmerara em bem recebel-os. Fal-o, não por um exclusivo sentimento de amor á terra natal, mas por um acto de justiça, homenagem á verdade.
Que tenção todos tomastes Á terra que me criou De que tanto praguejastes? Por que? Que vos acoutou Da peste com que i chegastes. Fostes mal agasalhados? Não, certo, que té as fazendas, Vos davão parvos honrados. Pois, por que? Porque os privados Tinheis longe vossas rendas?
O que eu por parcialidade Nem outros respeitos digo: Da antiga e nobre cidade Som natural, som amigo, Som porém mais da verdade.
Após a retirada dos famelicos, a cidade sente-se aliviada de um grande peso. O proprio poeta viu-se desafrontado.
Como vos partistes de i, Logo abrigados achei Em que me desencolhi. Seguramente dormi, Seguramente velei.
Para envergonhar os cortezãos ingratos que lhe preferiam a insignificante Almeirim, põe em relevo a honra de Coimbra possuir o corpo de D. Affonso Henriques.
Cidade rica do santo Corpo do seu rei primeiro Que ainda vimos com espanto, Ha tam pouco, todo inteiro Dos anos que podem tanto.
E diz-lhe que aquella cidade é tradicionalmente a mais nobre e leal.
Outro rei, tanto sem mal Que lhe empeceu a bondade, O quarto de Portugal, Qual teve ele outra cidade Tam constante e tam leal?
A nobreza ociosa e interesseira.
Homens que sempre aos proveitos E a vosso interesse andais, Vestidos de falsos peitos, Quam pouco que nos lembrais Dos sãos, dos comuns respeitos. Pôr esta causa se ve Diferença nos conselhos E chega inda o mal até Desacreditar nos velhos A sã prudencia e a fe.
A côrte é magnificamente pintada.
Essa Circes feiticeira Da corte tudo trasanda; Um faz [~u]a onça ligeira, Outro faz lobo que manda, Outro cão que a caça cheira. Cantão ó passar sereas Que fazem adormecer. Correndo todas as veas De sono e tal sabor cheas, Não se pode homem erguer.
A ociosidade nociva a que se entregava a fidalguia recebe uma condemnação severa. Sá de Miranda, para revestir da maior auctoridade as suas palavras, poe-a em confronto com a sua vida toda de trabalho e de estudo.
O nome da ociosidade Soa mal, mas se ela é sã, Bem empregada em vontade, Socrates da liberdade Sempre lhe chamou irmã!
Dou vos Enio por autor: _Quem não sabe usar do ocio Cansa e anda d'arredor, Que vem a têr mais negocio Que um grande negociador._ Que ó menos sabe apos que anda, Estoutro a si não se entende, Quanto anda, tanto desanda, Não se obedece nem manda, Ora se apaga, ora acende.
Ve-lo ir, ve-lo tornar, Ve-lo cansar e gemer E em busca de si andar, Cobrar a cor e perder. Que se não pode topar! Mas eu, porque passa assi, Que seja muito, direi: Dias ha que me escondi, Co que li, co que escrevi, Inda me não enfadei.
Satyra directa e violenta, a carta a Pero Carvalho provocou uma surda irritação de despeito, mal contida pelo temor do valimento do poeta junto do monarcha. Os fidalgos attingidos não poderam tirar immediatamente o desforço, tiveram que ouvir e calar, mas, d'ahi em diante, poude Sá de Miranda contar com alguns inimigos que deviam aguardar com anciedade o momento da vingança.
O unico passatempo da côrte era, então, as diversões scenicas, os autos ou comedias representadas perante a nobreza. Gil Vicente, emquanto a côrte esteve em Coimbra, ia ahi propositadamente, de Santarem, onde habitualmente residia, segundo se infere de suas producções, divertil-a com suas farças. Com esse fim compoz a _Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra_, a _Tragicomedia Pastoril da Serra da Estrella_, a _Farça dos Almocreves_ e o _Dialogo sobre a Resurreição_.
Talento dramatico genial mas inculto, viva encarnação do espirito popular, satyrico e motejador, Gil Vicente arremettia audaciosamente com todos e com tudo, não respeitando sequer as coisas divinas. Seus autos e farças eram um tanto grotescas, por vezes excessivamente livres, algumas extraordinariamente louvaminheiras dos cortezãos. O dialogo não era dos mais apurados nem a acção muito cuidada.
Sá de Miranda, que assistira, em a scena italiana, a representações de comedias classicas em prosa, originaes, com um fino dialogo, limadas de allusões facêtas, acção escolhida, não poupava censuras nem criticas aceradas ás producções de Gil Vicente. Sobretudo, condemnava asperamente a liberdade com que o creador do theatro nacional tirava das sagradas escripturas os elementos de todos os seus autos hieraticos. Catholico fervente, não lhe perdoava que tratasse coisas serias em estylo chocareiro, zombeteando escandalosamente de quanto lhe era respeitavel.
E, para mais pôr em evidencia a elevação da comedia classica em prosa, para estabelecer o confronto de esta com o theatro nacional, compoz e apresentou _Os Estrangeiros_, em a opinião da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a primeira comedia classica portugueza em prosa, sendo-lhe posterior a _Eufrosina_ de Jorge Ferreira de Vasconcellos. Foi acolhida com interesse.
Houve quem applaudisse enthusiasticamente _Os Estrangeiros_ por seu estylo _sentencioso, muy limado e novo_, que _a tudo excedia em brevidade, grandeza e decoro e que guardava as regras da arte com summa perfeição_. Os partidarios do theatro nacional, envolvidos por Sá de Miranda nos gracejos do Prologo, sentiram-se attingidos e receberam a novidade com zombarias. A lucta contra a innovação, acirrada de certo pelos inimigos de um e outro poeta, parece ter se tornado porfiada, d'ahi em diante.
Das relações pessoaes entre Sá de Miranda e Gil Vicente, o mais fiel representante da tradição nacional, não se pode, em verdade, mais fazer que conjecturas. É provavel que Sá de Miranda não tivesse Gil Vicente em grande consideração pela liberdade com que usava e abusava dos livros sagrados, facto que o magoava a elle que, embora não fosse fanatico nem exaltado, era, todavia, sincero e respeitador. Não se encontra, porém, em suas composições poeticas, uma unica allusão directa, incisiva, sobre o emerito auctor da _Ignez Pereira_.
Qual o proceder de Gil Vicente para com o acerrimo propugnador dos modelos classicos? O sr. Theophilo Braga vê, no final da _Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra_, em o elogio dos Menezes, um acto de louvor a Sá de Miranda, descendente de aquella familia, por parte de seu antepassado João Rodrigues de Sá de Menezes. Por seu lado, o grande romancista Camillo Castello Branco viu em a farça _Clerigo da Beira_ uma satyra a Sá de Miranda, pessoal de mais para se considerar mera casualidade.
Em a alludida farça, Gil Vicente refere-se a um filho de clerigo, de nome Francisco, de más manhas e peor lingua, com costella de lavrador e pretensões de cortezão. O proprio pae, parece que com pleno conhecimento de causa, lhe diz:
Filho de clerigo és, Nunca bom feito farás.
Frei Mendo não anda muito de accordo com o filho, é um continuo conflicto entre os dois. O clerigo, menoscabando as qualidades d'elle, invectiva-o:
Medraria este rapaz Na côrte mais que ninguem, Porque lá não fazem bem Senão a quem menos faz Outras manchas tem assaz, Cada uma muito bôa: Nunca diz bem de pessoa, Nem verdade nunca a traz. Mexerica que por nada Revolverá San Francisco Que para a côrte é um visco, Que caça toda a manada.
Realmente, esta allusão aos filhos de frei Mendo, sendo o pae de Sá de Miranda o conego Gonçalo Mendes, parece tencional. A farça, porém, foi representada em 1520, em Almeirim, e não se sabe como conciliar essa data com a do regresso do poeta de sua viagem á Italia. Ou será necessario admittir-se que, em fins d'esse anno, elle estaria de volta a Portugal e já gosava o favor da côrte? Pode ser.
Em tal caso, comtudo, essa allusão viria mais da popularidade de Sá de Miranda, de sua presumpção pelo muito que vira e ouvira no estrangeiro e não seria resultante de suas tentativas de innovador, embora logo após o seu regresso houvesse começado a atacar os defeitos que encontrava em as obras portuguezas. Seria mesmo uma satyra impessoal, caracteristica de uma entidade do tempo. Quantos conegos Mendes haveria então? como hoje Marias e Manueis.
Indubitavelmente, as innovações de Sá de Miranda deviam encontrar opposição e as suas obras detractores. Sim, que o poeta era um severissimo censor, um caracter immaculado. Sá de Miranda não recuou e a breve trecho lançou um novo desafio á escola do theatro tradicional portuguez com a bella _Fabula do Mondego_, em forma de _canção_ e que, ao que resulta de algumas de suas passagens, foi representada em a côrte na estação calmosa, em um certo e determinado dia festivo, talvez o anniversario de el-rei, 6 de junho. A seguir, appareceu a ecloga _Aleixo_ e varios sonetos que mais vieram augmentar a reputação de Sá de Miranda e, tambem, os seus rivaes.
A ecloga _Aleixo!_ Foi a melhor arma que Sá de Miranda poude collocar em as mãos de seus inimigos.
De varias formas tem sido explicado o abandono definitivo da côrte por Sá de Miranda, entre 1533 a 1534, para se retirar á Commenda das Duas Egrejas. As causas d'esse exilio voluntario, a par de forçado, foram, decerto, complexas e multiplas, ao que se pode ler em as entrelinhas de suas poesias e nas do seu anonymo biographo, muito prudente para com uma allusão directa fazer reviver rancores mal apagados.
A _Vida_ dá como motivo immediato da saida de Sá de Miranda da côrte o odio de _hua pessoa muito poderosa d'aquella era em desprazer de quem se interpretava mal polla mesma enveja hum lugar de sua Egloga de Aleyxo_. Temos por tão auctorisada a _Vida_, que não ousamos duvidar da veracidade de sua noticia, além de que a interpretação da ecloga Aleixo, como perfeitamente o provou a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, explica cabalmente o obscuro successo. Porém, nem todos os escriptores têm interpretado o caso como vem evidenciado em a _Vida_.
Indo de encontro á cathegorica affirmativa do desconhecido biographo, o sr. Theophilo Braga quer que tenha sido a ecloga _Andrés_ e não _Aleyxo_, a causadora immediata da intriga que provocou o exilio de Sá de Miranda. Ora, exactamente essa ecloga foi escripta quando já o poeta se encontrava em a Tapada, após o seu casamento e annos depois da morte de todos os que se podiam offender com as allusões n'ella contidas, allusões que Sá de Miranda dava, de resto, como uma simples recordação de annos passados. Não podem, pois, as referencias ao caso escandaloso do casamento do infante D. Fernando, que arrancára D. Guiomar Coutinho ao marquez de Torres, com quem secretamente se desposara, para casar com ella, ter concorrido em cousa alguma para que Sá de Miranda se visse compellido a abandonar a côrte.
Tão pouco satisfaz o espirito ou resolve o problema, a hypothese avançada por Camillo Castello Branco. O facto de seus primos e amigos, a par de companheiros de infancia, Simão de Miranda Henriques e Gonçalo de Miranda da Silva, haverem sido iniquamente esbulhados dos seus haveres, devia, certamente, feril-o profundamente em seu coração, indispôr ainda mais seu animo contra a torpe fidalguia, azedar o seu caracter, mas não impôr a sua saida da côrte.
O erudito escriptor Manuel Pinheiro Chagas attribuiu exclusivamente o rompimento definitivo de Sá de Miranda com a côrte ao seu amor ao retiro, inclinação propria do temperamento melancolico e um pouco misanthropo do poeta, aggravado pela morte de uma mulher que amara profundamente e que apenas seria conhecida pelo pseudonymo pastoril de Celia. Parece demasiado accesso de romanticismo quando este ainda não estava em voga.