Chapter 2
Essa poesia, falta de ideal, de um motivo emocionante, sem uma unica das qualidades que constituem a obra d'arte, recorria aos artificios da forma, a um exagerado abuso de allegorias metaphysicas para se fazer valer. Carecendo de sentimento verdadeiro, pedia vida á casuistica amorosa que apresentava ao mais elevado refinamento.
Privilegio das classes elevadas, como o aponta o sr. Theophilo Braga, ella servia de passatempo nos ocios da guerra, era a expressão da galanteria com as damas e o meio de dar celebridade aos casos anedocticos que se passavam detraz dos pannos de Arras. Mero entretenimento, como tal, descambava quasi sempre para a banalidade. Futilissimos, assim, os themas de inspiração, umas _grandes barbas_, um _pelote de peludo_, um _macho ruço_ e quejandas cousas.
Felizmente, a Renascença abrira novos horizontes e os seus fulgurantes clarões vinham já alumiando até Portugal. Para isso concorria, sem duvida, as estreitas relações em que se estava com a Italia e o acolhimento que entre nós encontravam os que d'ahi chegavam. Ninguem melhor do que Oliveira Martins, em sua _Historia de Portugal_, assignala o ponto de partida d'esse movimento revivificador, dizendo que os filhos de el-rei D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da Renascença, chamando sabios, viajando, fundando bibliothecas, tinham lançado á dura terra do velho Portugal as sementes italianas.
A transformação, porém, não se operou de momento, em um convulsionismo rapido. Seguiu lenta, infiltrando-se pouco a pouco, tanto que, como o sustenta a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, na litteratura como nas artes e nas sciencias, os vestigios da influencia italiana foram quasi insensiveis até 1520, vesperas da partida de Sá de Miranda para o estrangeiro. Mas, nem o proprio creador do theatro nacional, o talentoso, embora inculto, Gil Vicente, tão aferrado á escola da tradição nacional, escapa á sua influencia. Manifesta-o a ironia de suas farças, aquella mordacidade que nada poupava e ia até desrespeitar as crenças religiosas, ironia que annunciava o proximo advento da Reforma, o despertar da razão humana escravisada pela esteril escolastica.
Lá fóra rompera já acirrada a lucta entre as duas escolas litterarias. Uma procurava manter intransigentemente as tradições da edade media e da poesia nacional e a outra ia inspirar-se em os monumentos da litteratura classica, tendendo a imital-os, se não seguil-os servilmente. Havia-se ferido os primeiros combates em forma entre os partidarios de uma e os sectarios da outra, combates que tinham tido uma natural repercussão em nosso paiz. São os eruditos conjurando-se contra Gil Vicente, cuja originalidade contestam, e considerando as suas obras de rasteiras e ordinarias. Com que fino tacto epigrammatico, porém, o auctor de _Ignez Pereira_ os apodou de _homens de bom saber! De bom saber!..._
Sá de Miranda, de uma instrucção variadissima, innegavelmente conhecia desde a infancia os livros dos escriptores gregos e latinos. A _Vida_ offerece a preciosissima noticia de que elle _soube tanto da lingoa grega, que lia a Homero nella, e anotava de sua mão em grego tambem_. Devia ter seguido com interesse a evolução da poesia italiana que a tão grande altura se estava levantando.
Approximando as producções dos poetas italianos das dos seus contemporaneos, Sá de Miranda media bem a inferioridade da nossa poesia. Comprehendia e avaliava a necessidade de a vitalisar egualando-a com a grandiosidade epica que estava attingindo o espirito guerreiro dos portuguezes. Tomou-o o desejo de exaltar o pensamento revestindo-o de novas e vigorosas formas. Em seu animo de patriota, concebeu a vontade ardente de fazer vibrar a mentalidade nacional com scintillações desusadas a par dos coriscantes raios despedidos pelas espadas vibradas por braços energicos.
Um vilancete brando, ou seja um chiste, Letras ás invençõis, motes ás damas,
[~U]a pregunta escura, esparsa triste! Tudo bom! quem o nega? mas porque, Se alguem descobre mais, se lhe resiste?
A renovação litteraria e artistica, importante e fecunda de resultados immediatos, que se operava em Italia, devia attrahir o sonhador poeta como o luzir do dia chama a passarada chilreante. Sá de Miranda, votando ao desprezo _as cousas de cà_, sentir-se hia tomado de um vehemente desejo de ir verificar de perto, avaliar de _visu_, por assim dizer, a intensidade d'esse grande movimento intellectual que começava a ter echo em toda a Europa, visitar esse meio que a tuba da Fama dizia o mais culto.
Estamos, assim, de accordo com a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos em que a viagem de Sá de Miranda á Italia não teve origem primordial em questões da côrte. Não. Tudo é porque o seu motor foi--a anciedade espiritual do poeta, o desejo de estudar a arte, de pôr em concordancia a elevação do pensamento com a heroicidade das acções portuguezas que o expatriou. Altamente patriotico, pois, e proprio do seu nobre caracter, o emprehendimento que se propozera o poeta.
Sá de Miranda demorou-se lá por fóra bastantes annos. Viagem larga e que lhe permittiu, _visitando primeiro os mais celebres lugares de Espanha_, percorrer com _vagar e curiosidade Roma, Veneza, Napoles, Milão, Florença e o milhor de Cicilia_. Verdadeira missão de estudo a que não escaparam as cidades então mais em evidencia e onde se encontravam os homens mais illustres da Renascença.
Vi Roma, vi Veneza, vi Milão Em tempo de Espanhoes e de Franceses, Os jardins de Valença de Aragão Em que o amor vive e reina, onde florece, Por onde tantas rebuçadas vão.
A saída do poeta para a Italia deve ter-se effectuado por 1521 e o regresso ao reino por 1526. É o que se conclue do verso
Em tempo de Espanhoes e de Franceses
Era a epoca em que o imperador Carlos V, de Hespanha, andava em guerra com Francisco I, de França, por este haver, tambem, aspirado ao throno da Allemanha. Exactamente n'esse anno de 1521 encetou Carlos V as hostilidades contra o rei de França, abrindo o primeiro periodo de guerra que teve por campo de batalha, sobretudo, a Italia, e que veiu a terminar, depois da batalha de Pavia (1525), em que Francisco I caiu prisioneiro dos hespanhoes, pelo tratado de Madrid que deixou a peninsula italica em poder dos ultimos (1526).
A viagem de Sá de Miranda deve, portanto, ser collocada entre os annos de 1521 e 1526. Esta data está completamente de accordo com a indicação de seus proprios versos, além de que todos os factos a que elles se referem a confirmam. Quando o poeta se tornou ao reino, _já avia muito que reynava_ el-rei D. João III.
A peninsula italica encontrava-se, então, em plena febre de renascimento. Seus povos, escravisados successivamente por allemães, francezes e hespanhoes, sem forças para se libertarem dos dominadores, procuravam em o engrandecimento do passado o esquecimento das desgraças que soffriam, da decadencia do presente. A imagem de Virgilio, cantor das glorias nacionaes, apparecia-lhes como um protesto patriotico e, o que era mais, como um balsamo fortificante das energias abatidas.
As recordações dos tempos idos incutiam os estimulos para a lucta que a Italia sustentava. Por isso principiou ali a Renascença bafejada pelas lembranças sempre vivas de uma tradição patriotica jamais extincta, na phrase elegante e justa do sr. Simões Dias. E foi assim que ella conseguiu engrandecer-se como nunca, levantar-se á maior altura da arte, em concepções grandiosas, com artistas que attingiram a um renome perduravel.
Em meio de uma actividade assombrosa, a Italia caminhava para conquistar, entre as nações neo-selticas, a posição intellectual dominante que posteriormente gosou. Palmo a palmo, alcançava um triumpho tão glorioso quanto indelevel. Aos genios de Dante, Petrarcha e Boccacio, iniciadores d'esse movimento extraordinario e inegualavel, em o periodo em que as trovas provençaes ainda eram o divertimento das classes patricias, e de Leonardo de Vinci, succedera uma geração toda illustre. Ao tempo de Sá de Miranda, a Italia era o campo de gloria de Ariosto, Sanazarro, Bembo, Tasso, Machiavello, Vittoria Colonna, Raphael, Miguel Angelo, etc.
Em seus versos, Sá de Miranda refere-se, por vezes, aos diversos homens illustres dessa vicejante Italia. O conhecimento que d'elles mostra auctorisa a affirmativa de que tratou pessoalmente com os mesmos. A posição que occupava na côrte portugueza, o prestigio do nome da familia a que pertencia, para mais ainda aparentada com a opulenta casa Colonna por seu avô paterno João Rodrigues de Sá, pol-o em estreitas relações com homens notaveis como Giovanni Ruccellai, Lattanzio Tolommei e outros. Ao excellente lyrico e notavel bucolico da _Arcadia_ chama o bom velho Sanazarro.
Floresciam, então, com o mais vivo esplendor, os talentos mais insignes. De um a outro extremo da formosa peninsula, o genio irrompia audaz e scintillante. A Italia foi, d'esta sorte, um verdadeiro deslumbramento para Sá de Miranda. Affirma a _Vida_ que o poeta viu Roma, Veneza, Napoles, Milão e Florença, os centros d'essa admiravel elaboração intellectual, _com vagar e curiosidade_. Assim deve ter sido.
Não houve homem notavel que o nosso poeta não conhecesse ou de que não indagasse o merito artistico. Em Roma, encontraria o celebre cardeal Bembo, intimo do magnificente Leão X, imitador acerrimo de Cicero a ponto de aconselhar os seus amigos a não lerem as epistolas de S. Paulo para não macularem o estylo e que, ao celebrar o sacrificio da missa, recitava odes de Anacreonte, em vez das orações do ritual. Ao visitar Veneza, a bella rainha do Adriatico, ouviria fallar do implacavel poeta satyrico Aretino, verdadeira lingua viperina, que vendia publicamente os seus terriveis epigrammas a quem mais lhe dava.
Sá de Miranda cita, outrosim, Ariosto, em pleno florescimento na côrte de Ferrara, e que introduzira em a poesia o sensualismo elegante e a phantasia pura. Machiavello, o famoso secretario da republica de Florença, preparava tres seculos de acerrima controversia com o seu não menos celebre livro _Principe_, apologia emphatica do poder absoluto. Era, ainda, Trissino, grammatico e lyrico, mais conhecido pela tragedia _Sophonisba_, escripta á maneira grega; o cardeal Sadoleto, esse outro secretario de Leão X, insigne latinista e poeta lyrico; Guicciardini, jurisconsulto notavel e Julio Scaligero, hellenista de fama. Seria necessario quasi um volume para enumerar todas as individualidades d'essa geração illustre.
As relações de Sá de Miranda com os artistas e eruditos italianos abriram novos horisontes ao seu espirito e este insensivelmente foi recebendo a direcção que devia dar ao genio da Renascença em Portugal. Mas não era apenas o contacto com esses homens de talento, sim, tambem, a observação d'essas maravilhosas obras de arte disseminadas por toda a Italia, em palacios, monumentos e templos grandiosos, as incomparaveis telas de Raphael, espirito todo luz, harmonia e amor, a branca visão do Thabor, como lhe chamou Henri Martin, e de Miguel Angelo, o austero e solitario pintor, o anjo das trevas divinas. Era a acquisição dos mais bellos trabalhos da brilhantissima litteratura italiana, que relia e estudava com sofreguidão e cujas excellencias saboreava com dôce embriaguez, mais tarde, em sua quinta da Tapada, longe do bulicio da côrte.
Liamos os Assolanos De Bembo, engenho tam raro Nestes derradeiros anos Os pastores italianos Do bom velho Sanazaro.
Sá de Miranda teve egualmente occasião de vêr em scena a comedia classica em prosa, moldada pela da antiguidade. Observador como era, não lhe escapou a importancia d'esse novo germen litterario e analysou-o cuidadosamente para o introduzir e adaptar em sua patria. A par da comedia manifestava-se uma outra especie nova, o dilettantismo musical. Para mostrar o agrado com que o veria o poeta, bastará dizer que elle _tangia violas darco e era dado á musica_.
Nos palacios, outros tantos fócos de Renascença, discutiam-se todas as questões de arte e de litteratura. As festas n'elles celebradas não eram puramente de distracção como as da côrte portugueza, mas essencialmente productivas. Em casa do marquez de Pescara reuniam-se os talentos mais em evidencia. Comprehende-se bem o que seriam os serãos ali realisados.
Sá de Miranda, de natural perscrutador, não deixaria, certamente, de se interessar pelas questões politicas e religiosas, que tambem agitavam a esse tempo a Italia e que constituiam os grandes factos da Reforma attingindo o seu extremo, na Dieta de Spira, com a proclamação da liberdade de consciencia. Provavelmente, como catholico devotado e ardente, lhe não seria em principio sympathica a Reforma, mas nem por isso escapou á influencia d'ella, nem deixou de votar a mais profunda repugnancia ao excesso de intolerantismo da reacção.
Intelligencia altamente lucida, Sá de Miranda sentiu-se tomado de uma intensa fascinação por esse extraordinario movimento intellectual que tinha a felicidade de observar de perto, de apreciar pessoalmente, tratando com os seus principaes corypheus. Como o seu coração de patriota, ardente, não pulsaria actuado por uma forte vontade de tirar a sua patria do profundo marasmo a que decaira para a levantar á maior altura do culto da arte! Avalia-se e dá-se razão ao enthusiasmo com que se tornou a Portugal.
Aqueles cantares finos, A que _liricos_ disserão Os Gregos e os Latinos, Digão me donde os houverão Salvo dos livros divinos? Quantos que d'ahi ao seu Trouxerão auguas á mão. Regou Pindaro e Alceu, E em môres prados Platão!
Mas é a que ora aprendo Ler por eles de giolhos. De que sei quam pouco entendo. Mas fossem dinos meus olhos, De cegar sobre eles lendo! Que, dos seus misterios altos Assi lubrigando vejo Que não são pêra tais saltos: Gemo sômente e desejo.
Em 1526, Sá de Miranda encontrava-se, sem duvida, de volta a Portugal. Reinava, _avia muito_, o seu nunca desmentido amigo, el rei D. João III. Passava dos trinta e cinco annos. A sua mentalidade achava-se enriquecida com os preciosissimos conhecimentos adquiridos em sua excursão por Italia.
Seu animo retemperado e energico casava perfeitamente com a firmeza de seu caracter. Traçara os seus planos e estava resolvido a executal-os. Como sustenta a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, tratava de dar novas sendas ás lettras patrias, de estimular os poetas com o exemplo, de provar a possibilidade de um aperfeiçoamento ou antes renovamento fundamental da poetica portugueza, de fazer, emfim, a transplantação das formas e dos metros italianos.
Sá de Miranda lançou-se afoitamente á lucta, contando com uma facil victoria. Enganou-se. A resistencia foi mais porfiada do que certamente esperava e morreu mal tendo chegado a vêr os primeiros fructos de seus esforços.
Desde a sua volta a Portugal, Sá de Miranda foi decididamente o chefe da escola classica, da escola que, como disse Pinheiro Chagas, pautava as suas obras comicas pelos modelos de Plauto e de Terencio, as suas eclogas e cartas pelas de Horacio e de Ovidio, a que substituiu a redondilha popular, até então quasi exclusivamente usada, pelo verso hendecasyllabo jambico italiano e as pastoraes ainda trovadorescas de Bernardim Ribeiro pelos idyllios virgilianos e pelas imitações de Theocrito. Quebrou o grande poeta o encanto e as velhas fórmas gastas do _Cancioneiro_ de Resende, com a futilidade da poesia palaciana, foram completamente abandonadas.
O douto e grave poeta, porém, não foi apenas o propulsor da escola classica em Portugal, mas tambem verdadeiramente o reformador da chamada _escola velha_, a que deu novos dias de gloria. Os rhythmos nacionaes, o grupo das singellas quintilhas e decimas, levantou-os elle á maior perfeição em suas celebres _Cartas_ satyricas. Longe de romper fundamentalmente com a tradição, continuou a empregar os antigos metros nacionaes, voltando com frequencia ás graciosas redondilhas e até ás esparsas, vilancetes e glosas, de uma ligeira improvisação. Em o ultimo periodo de sua existencia deixou-se dominar mais absolutamente pelo classicismo que, em todo o caso, apparece em suas producções atravez do renovamento italiano.
Pena é não haver sido Sá de Miranda um poeta genial, inspirado como Camões. Com as qualidades de estudo e de observação de que era dotado ter-se-hia tornado uma poderosa individualidade.
Innegavelmente são relevantissimos os serviços por elle prestados á litteratura portugueza. É o que a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos põe em relevo ao affirmar que o illustre poeta provou que a lingua portugueza era capaz de se elevar até ás concepções mais bellas do lyrismo moderno com o soneto e a canção de Petrarcha, os tercetos de Dante, enlaçados em elegias e capitulos segundo o estylo de Bembo, a oitava rima de Policiano, Boccacio e Ariosto, e as ecloglas de Sanazarro com os seus _versos encadeados_ e a variação melodica dos rhythmos e, finalmente, introduzindo o _hendecasyllabo jambico italiano_.
Propriamente a Sá de Miranda nada se deve em o que respeita a fórmas metricas. O poeta da Tapada, admirador enthusiasta dos modelos estrangeiros que estudara, imitou, em geral escrupulosamente, a estructura das estrophes, introduziu fórmas novas, reformou e aperfeiçoou, mais nada. Podia ter ido muito longe, variar os typos por meio de leves modificações no encandeamento da rima, e no agrupamento dos septenarios na _Canção_, mas não ousou arcar com essas responsabilidades. Unicamente quanto ao assumpto e á linguagem se reservou uma completa e perfeita originalidade e d'esse modo concorreu bastante para o aperfeiçoamento da lingua portugueza, ainda rude e pouco melodiosa, além de que poude legar á posteridade as suas sempre apreciadas _Cartas_. Isso o salvou, tambem, do fiasco de algumas mal succedidas tentativas de innovação.
Tem-se pretendido negar a Sá de Miranda a iniciativa quanto ao emprego de novas fórmas metricas. Faria e Sousa foi o primeiro que contestou a actividade e influencia do illustre poeta como reformador, ridicularisando-o e rindo-se de suas pretensões. O satyrico e faceto Diogo Camacho de Sousa, que nem o grande epico, o immortal auctor dos Lusiadas, poupou, chamava-lhe
poeta até o embigo.
Tolera-se ou desculpa-se que Faria e Sousa e Camacho aquilatassem por essa forma o merito de Sá de Miranda. Não se podia esperar outra cousa de seu engenho satyrico.
De outra ordem é a affirmativa, feita por criticos respeitaveis, de que os proprios versos que se dizem italianos e introduzidos por Sá de Miranda já eram conhecidos na peninsula do uso dos provençaes que os imitaram dos arabes. José Maria de Andrade Ferreira, em seu _Curso de Litteratura Portugueza_, vae até declarar cathegoricamente que, no tocante a artificio metrico e variedade rhythmica, nada se póde produzir que não fosse adoptado por aquelles poetas.
Assim, na opinião de certos escriptores, e para mais auctorisados, foram os portuguezes os inventores da medida grande, limitando-se os italianos simplesmente a seguir o trilho dos poetas lusitanos. Querem esses que o infante D. Pedro, o das _sette partidas_ e que desastradamente encontrou a morte em Alfarrobeira, haja escripto os primeiros sonetos portuguezes. Segundo esses, ha hendecassyllabos e septenarios italianos, como tambem muitissimas oitavas rimas, não sómente em o _Cancioneiro_ de Resende, em Bernardim Ribeiro e Christovão Falcão, mas até no poema do _Cid_ e no de _Alexandre_ e em muitas coplas dos Cancioneiros da Vaticana, Collocci Brancuti e de Ajuda. Portanto, como pretende Andrade Ferreira, pouco deveria o parnaso portuguez aos chamados quinhentistas.
O erudito Dias Gomes foi mais commedido e mais sensato em sua apreciação. Attribuindo a introducção do soneto, em Portugal, ao famoso infante D. Pedro, concedeu, todavia, que Sá de Miranda o aperfeiçoou e estabeleceu da maneira que ao presente o vemos. Admitte, egualmente, que o poeta da Tapada nos ensinou a estructura da _canção_, da _oitava rima_ e do _terceto_. O sr. Theophilo Braga, em sua _Historia dos Quinhentistas_, cita a opinião de Dias Gomes e accrescenta que foram essas formas quasi exclusivas que abraçaram depois os poetas da escola italiana, do que se deprehende que a partilha.
Mais recentemente, deve-se á ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos o relevante serviço ás lettras patrias de verificar até que ponto eram fundadas as criticas dirigidas contra a obra de Sá de Miranda. D'esse estudo resultou tomar aquella senhora a peito a defeza de haver elle iniciado--a escola nova italiana, introduzindo o _hendecasyllabo_, ensinando a estructura do _soneto_, dos _capitulos_ (ou elegias) em tercetos, as fórmas fundamentaes da _canção_ e a _oitava rima_ italiana, e mostrando tambem como estas tres formas estrophicas se podem combinar na _ecloga_. Não que tão conscienciosa escriptora queira negar a filiação historica, a origem commum do _decassylabo_ limosino e do _hendecasyllabo_ italiano, ou antes, a relação de dependencia do segundo para com o primeiro, mas, em vista da pouca clareza com que os dois metros têm sido classificados, em Portugal, accentuar a sua differença.
Exactamente á confusão resultante da falta de methodo no contar e medir das syllabas e á pouca clareza na terminologia dos versos portuguezes, attribue a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a contestação de que fosse Sá de Miranda um innovador. Uns, attendendo unicamente aos sons, aos agudos, contam por syllabas de um metro as que se preferem até á ultima aguda, metrica, ou seja pausa, desprezando as breves que se lhe sigam. Outros, pelo contrario, tomando por norma do verso portuguez o _grave_ ou _inteiro_, contam as syllabas accentuadas, grammaticaes realmente, além da pausa. D'ahi que uns chamaram ou chamam _hendecasyllabo_, ou de onze syllabas, ao verso que outros denominam _decasyllabo jambico limosino_, inventado pelos trovadores da Provença e imitado em Italia, Catalunha, Castella e Galliza. Ainda segundo prova a illustrada senhora, as oitavas rimas que os mesmos criticos descobriram na antiga poesia portugueza são, em realidade, estrophes de oito linhas ou oitavas, mas estas estrophes ou se compoêm de duas quadras peninsulares ou são oitavas hespanholas em versos de arte maior.
A nosso vêr, a argumentação da ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos resolve satisfatoriamente a questão. Pode-se d'ella concluir a affirmativa cathegorica de que, antes da viagem de Sá de Miranda á Italia, não existiam, em Portugal, a _oitava rima_, o _soneto_, a _elegia em tercetos_ e a _canção_ italiana. Tão pouco se compozera qualquer poesia em _hendecasyllabos e septenarios, com accentos fixados á maneira toscana_. Sá de Miranda bebeu na nascente, inspirou-se pessoalmente em a propria Italia, com seus grandes e immorredoiros artistas, e, quando de lá voltou á patria, poz-se a seguir as formas ali em uso, o que, de resto, elle proprio confirma e confessa ingenuamente nas rubricas de suas poesias.
Fizera-se, realmente, sentir o classicismo na peninsula hispanica, mas a sua influencia poetica havia sido fraca e desapparecera quasi sem deixar vestigios. E mesmo se limitara a um vago conhecimento da escola dantesca, inaugurada por Imperial e em que se enfileiraram João de Mena, o Marquez de Santilhana e D. Fradique de Vilhena. O Marquez de Santilhana, antes de 1458, escrevêra já alguns sonetos. Outros poetas metrificaram em tercetos. Imperial, em seu _Dezir a las siete virtudes_, imitou o verso de onze syllabas.