Sa De Miranda Com Uma Carta Acerca Da Bibliographia Camilliana
Chapter 2
Esta exposição tem equivocações. S. ex.ª como logo veremos, corrige alguns enganos com muita boa critica historica; outros, porém, que não emenda, pedirei licença para os apontar. O infante D. Pedro não invadiu a provincia de Entre Douro e Minho em 1354. Ignez de Castro foi assassinada em 7 de janeiro de 1355. A rebellião do filho contra o pae começou nesta ultima data e terminou em 6 de agosto do mesmo anno, pelas pazes feitas em Canavezes. Quanto aos irmãos de Ignez: ella não teve algum que se chamasse _João_ ou _Ruy_. Teve dous: um, seu irmão inteiro, chamou-se D. Alvaro Pires de Castro, que foi conde de Arrayolos e condestavel; o outro, seu meio irmão, chamou-se D. Fernando Rodrigues de Castro. Além destes irmãos, teve uma meia irman, D. Joanna de Castro, que, depois de viuva de D. Diogo, senhor de Biscaia, casou com D. Pedro, _o Cruel_, rei de Castella, depois da morte de Maria Padilha.
Quanto ao arcebispo D. Gonçalo Pereira, considerado por todos os escritores nacionaes e estranhos que ha mais de dois seculos tratam a historia portugueza no seculo XIV, pacificador na guerra civil consecutiva á morte de Ignez de Castro, emenda a sr.ª D. Carolina de Vasconcellos (pag. 882): _O arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira, jaz sepultado numa capella annexa á Sé de Braga, onde na inscripção tumular se lê ter elle morrido no anno de 1348. É, pois, impossivel que a lenda sobre a sua intervenção nas luctas de D. Pedro, o Justiceiro, e de Affonso IV (1354) seja veridica._
Conjectura depois a reflexiva escritora se o poeta alludiria á intervenção do arcebispo nas pazes entre o infante D. Affonso IV e seu pae D. Diniz, ou á concordia que o mesmo prelado restabeleceu entre Affonso XI de Castella e Affonso IV de Portugal.
Estas hypotheses suggeriu-lh'as o _Nobiliario do Conde D. Pedro_, editado por A. Herculano, pag. 285. Não póde, todavia, prevalecer alguma dessas conjecturas da excellente commentarista; porquanto Sá de Miranda, nas suas trovas, não trata de pazes; é de guerra, e á ponta da espada com castelhanos:
Um que aqui Braga regeu Pondo aparte os longos panos O passo dos castelhanos Á espada o defendeu.
Daqui a pouco, espero conseguir que s. ex.ª acceite o facto historico, desembaraçada de hypotheses, como elle se acha escrito nos antigos livros portuguezes.
Quanto á morte de D. Gonçalo Pereira emendou s. ex.ª um descuido repetido por todos os historiadores desde Manuel de Faria e Sousa e D. Rodrigo da Cunha, que tambem faz D. Gonçalo contemporaneo de D. Pedro I, já reinante.
A data da morte do arcebispo em 1348 não era extranha para mim, quando em 1874 escrevi: "Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a Villa Flor com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cahir de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Villa Flor com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as malas, de envolta com parte dos capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante naquelle tempo, fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a D. Affonso IV. O rei, poucos dias depois, mandou a Villa Flor uma alçada com dois algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que poude colher na devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo descadeirado na quéda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor." (_Noites de insomnia_, n.º 5, pag. 91 e 92).
Neste mesmo artigo, commemorando as proezas do avô do condestavel D. Nuno Alvares, escrevi: _Fôra elle ainda quem acaudilhára a hoste de portuguezes, quando uma invasão de hespanhoes, em desapoderada fuga, deixou o sangue de tresentas vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo._ (_Ib._ pag. 92).
Aqui tem s. ex.ª a façanha que o Sá de Miranda celebrou na sua carta a um dos descendentes do prelado guerreiro; e para que a illustre escritora a conheça de melhor auctoridade que a minha, aqui lhe dou o traslado de chronista antigo: "Por estes annos, entraram por ordem de el-rei D. Affonso onzeno de Castella pelo reino de Portugal, com mão armada, D. Fernando Rodrigues de Castro e D. João de Castro seu irmão, capitães do reino de Galliza, roubando, desbaratando quanto achavam, com muita gente de armas, até chegarem á cidade do Porto, e fazendo todo estrago que podiam sem acharem resistencia, estando juntos nella o bispo D. Vasco, e D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, que antes fôra Deão do Porto, e o Mestre de Christo D. Frei Estevão Gonçalves refizeram 1:400 homens entre infantes e cavallos, com os quaes os contrarios não quizeram cometer peleja; e voltando as costas se foram recolhendo com a preza que levavam; mas seguindo-lhe os portuguezes o alcance lhe fizeram largar tudo, e custar a retirada mais do que cuidavam, até que com morte de D. João de Castro e outros muitos soldados se foram recolhendo a Galliza: foi isto na Era de 1374, anno de Christo 1336..." (D. RODRIGO DA CUNHA, _Cathalogo dos B. do Porto_, pag. 96, ediç. de 1742).
Não nos restam, pois, incertezas quanto ao feito de armas encomiado por Sá de Miranda; e de todo em todo, á vista do anno em que falleceu o arcebispo, irrefutavelmente fixado pela sr.ª D. Carolina Michaëlis, é excluido aquelle prelado da intervenção que os historiadores e até modernos dramaturgos lhe dão nos successos posteriores á morte de Ignez de Castro.
Mas, donde procede essa confusão dos historiadores? Quem é o sacerdote Pereira que defendeu o Porto da invasão do infante D. Pedro em 1355? Vamos conhecel-o.
Assim como leu a pag. 285 do _Nobiliario do Conde D. Pedro_, se a sr.ª D. Carolina de Vasconcellos lesse a pag. 286, achava a decifração do enigma. Ahi nos conta o continuador do conde de Barcellos (digo _continuador_, porque D. Pedro fallecido em 1354, não podia referir factos occorridos em 1355) que o defensor da _Villa do Porto_, não fortificada, foi D. Alvaro Gonçalves Pereira, filho do arcebispo D. Gonçalo. Não foi portanto, o pai; foi seu filho, o prior do Crato, pai do condestavel D. Nuno. E por que o texto do _Nobiliario_ tem uma concisão engraçada e pittoresca não será desagradavel ao leitor conhecel-o. Vai textualmente: _Este Prior D. Alvaro foi o que pos os pendões por muro, estando na villa do Porto para a guardar por mandado del-rei D. Affonso IV, porque o Infante D. Pedro andava alçado del, queimando e destruindo muitos logares do Reino, fazendo mal e danando a Diogo Lopes Pacheco, a D. Gil Vasques de Rezende e a Pero Coelho e a todos os que el culpava que foram conselheiros na morte da infanta D. Ignez de Castro, que citei seu padre matou, e a villa do Porto não era murada em aquelle tempo, senão em poucos logares de máo muro, e o Prior D. Alvaro fez muros de pendões das náos que ahi estavam, chantando as hastes delles pelo campo a redor da villa, e percebendo_ (industriando) _suas gentes como defendessem os pendoens. O Infante D. Pedro esteve ahi em cerca da villa 16 dias com grande poder de fidalgos portuguezes e de Galiza. Estes fidalgos desejavam muito cobrar a villa por a riqueza della. Isto durou até que chegou El-Rei D. Affonso IV, e o Prior D. Alvaro entregou-lhe sua villa, e alguns disseram que o Infante se soffreu de combater a villa por honra do Prior D. Alvaro. A verdade assim pareceu, que o Prior D. Alvaro, como entregou a villa a seu senhor El-Rei começou de andar em preitezias_ (negociações) _entre El-Rei seu padre e aveo-os_ (avençou-os) _e fez-lhe dar a sua quantia de maravedis que seu padre lhe tinha alçada_ (suspensa) _e fez-lhe dar o condado ao Infante D. João seu filho, e outras muitas mercês... etc._
Ahi está o facto historico. A correcção reconstituinte da sr.ª D. Carolina de Vasconcellos e os esclarecimentos que ouso offerecer-lhe serão bastantes para expungir das historias patrias que por ahi correm a intervenção lendaria do arcebispo de Braga na guerra civil de 1355? Talvez não. Ha erros enkistados que nenhum bisturi de critica desarreiga.
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Recopilando as impressões que recebi do livro da illustrada alleman: a biographia de Sá de Miranda, expurgada de inveterados erros, está primorosamente redigida. A minudenciosa visita de s. ex.ª ao Castro e á quinta da Tapada revellam o amor com que a auctora estava possuida do seu assumpto. As reflexões philologicas rescendem um sabor germanico de que em Portugal decerto não achou exemplos. A linguagem, a despeito de quasi imperceptiveis incorrecções, parece ter sido estudada nos melhores mestres desde os primeiros alvores da sua educação literaria. Desata problemas invencilhados de genealogias; restitue a uns poetas obras attribuidas a outros; gradua o quilate dos diamantes que lapida sob o esmeril da critica mais esclarecida. Cotteja factos contemporaneos dos poemas, para lhes averiguar a ideia ou a allegoria. Prodigiosa paciencia e rara vocação por tanta maneira divergente da nossa indole superficial em averiguações desta natureza!
Devemos, portanto, á insigne escritora a primeira edição digna do grande e quasi olvidado poeta. Devemos-lhe além disso ter feito mais conhecido e apreciado do que era em Allemanha o grande luminar donde promanaram discipulos como Antonio Ferreira, Diogo Bernardes, Andrade Caminha, e a pleiade de seiscentistas que formam com Luiz de Camões a idade aurea da literatura portugueza.
Com o livro estimavel da illustrada escritora será mais lido em Portugal Sá de Miranda? Envergonho-me de confessar que não. S. ex.ª achou-me exaggerado quando eu disse, que na minha terra se conhecia o poeta _Sá_ pelas charadas. "Sou poeta portuguez-I. Poeta portuguez com uma syllaba? É por força Sá."
Insisto em teimar, minha senhora, que, quando a transcendente idiotia das charadas cahir no abysmo do ridiculo, apagar-se-ha de todo o nome do poeta. E, quando isso succeder, folgará grandemente a alma rancorosa de Christovão do Valle, ex-alcaide de Lindoso, que está, pelo menos, no purgatorio expiando a perseguição que fez ao innocente gallego, vingado pela satyra do seu immortal patrão uzurariamente.
S. Miguel de Seide, 1887.
VISCONDE DE CORREIA BOTELHO.
BIBLIOGRAPHIA CAMILLIANA
(CARTA AO AUCTOR)
_Meu prezado Henrique Marques_:
Revia eu as ultimas provas de um modesto livrinho de homenagem, por mim offerecido á insigne escriptora e minha excellente amiga D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, quando me chegou ás mãos o precioso exemplar do monumento, que a perseverança de V. soube alevantar á memoria de Camillo. Compunha-se o meu preito, á alta intelligencia e ao nobre caracter da senhora D. Carolina Michaëlis, da reunião dos artigos, que em Portugal saudaram a portentosa edição das _Obras de Sá de Miranda_, na ordem chronologica do seu apparecimento: são dois apenas, que mais não conheço, mas com serem dois, teem a impol-os respectivamente a auctoridade de Anthero de Quental e do Visconde de Correia Botelho, no unico logar em que Camillo rubricou, com o seu nome transformado, um escrito literario. É ver o folhetim do n.º 91 do _Commercio do Porto_ de 13 de abril de 1887. Ali, Camillo presta voto de homenagem ao saber e á honestidade, com que Sá de Miranda foi evocado, em um espirito critico a que andavamos deshabituados, e a que por egual fizeram justiça, nas citações dos seus livros, Theophilo Braga, Adolpho Coelho, Oliveira Martins, etc.
Neste lanço, e uma vez em meu poder a _Bibliographia Camilliana_, rebusquei a individuação do estudo de Camillo, que bem interessante é, por signal. O n.º 573 do seu livro não o menciona, nem indica, donde me pareceu que lhe é desconhecido na fórma primeira de folhetim; que, de resto, V. lá o aponta ao memorar dos trechos componentes do _Obulo ás creanças_. Junte-o, pois, agora, em fórma autonoma, á sua esplendida Camilliana--por certo a mais notavel que ainda se reuniu em Portugal e no Brazil--e consinta que neste lugar, que já agora tenho pelo mais opportuno, e numa cavaqueira amiga, o mais obscuro admirador da sua monographia, carreie duas ou tres annotações, que sirvam de aperfeiçoamento á traça de um edificio, nobremente cimentado por trabalho improbo, como é o seu. Acaso vale a pena de consignal-as neste opusculo, á sombra do nome illustre da doutissima escritora alleman, que tirou carta de naturalisação entre os mais consideraveis publicistas do nosso paiz, e sob a égide dos dois grandes homens que firmam as paginas, precedentes a estas linhas corridas, de palestra amiga.
É de mais rapida monção ir inscrevendo as notas em relação a numeros, e na ordem de secções. Para aqui as traslado, pois, redigindo os hierogliphicos, com que marginei o seu presente de nababo, numas horas rapidas de exame:
N.º 10.--_O Clero e o sr. Alexandre Herculano._--Dêste curioso folheto extrahiram-se exemplares em papel azul, meio cartão. Vi ha annos um, na loja do sr. João V. da Silva Coelho, á rua Augusta. Vem a pêllo referir que Latino Coelho inseriu anonimamente, num dos primeiros volumes da Revista Popular, uns valiosos traços de apreciação dêste opusculo.
N.º 95.--_Divindade de Jesus._ Este livro reune artigos publicados muitos annos antes, e teve como fim immediato facilitar ao auctor a acquisição de um exemplar rarissimo dos _Amusements périodiques_ do Cavalleiro de Oliveyra, que José Gomes Monteiro possuia e que Camillo namorava desde muito. Esse exemplar ajudou á elaboração do _Judeu_, da _Caveira da Martyr_, das _Noites de Insomnia_, e, mais tarde, de algumas secções da _Historia de Portugal_ de Oliveira Martins. Possuo-o eu actualmente, tendo successivamente pertencido a Augusto Soromenho, José Gomes, Camillo e Annibal Fernandes Thomaz. Numa das guardas do 1.º vol., lançou Camillo a seguinte cota: "Dei por este livro o mss. da Divindade de Jesus, reputado em 14 libras, a José Gomes Monteiro".
N.º 146.--_O Condemnado._--É, effectivamente, uma contrafacção. Basta que o meu presado Henrique Marques se dê ao incommodo de reflectir que em 1871 a casa Moré se achava ainda num periodo de relativa actividade e que nada tinha que ver com a loja de João Coutinho. Pelo mesmo motivo, applico esta observação ao numero immediato, (147).
N.º 174.--_A Caveira da Martyr._--Da queima do 1.º volume--feita por motivos de consciencia,--salvaram-se uns quarenta exemplares, por se acharem deslocados nos depositos do editor. São esses os que teem sido vendidos. Não ha, nem houve reimpressão daquelle tomo. O editor recusou mesmo vender a propriedade da obra, quando traspassou a Pedro Correia a de todas as demais livros de Camillo, que havia adquirido. A nota de H. Marques é absolutamente injusta. Conheço o sr. Tavares Cardoso, o bastante para tomar a responsabilidade desta affirmativa, que o seu caracter me garante e abona.
N.º 176.--_Curso de litteratura._--Numa das cartas publicadas no opusculo adiante descrito, sob n.º 289, acha-se, a breve trecho, uma curiosa e incisiva apreciação da parte dêste trabalho, redigida por Andrade Ferreira.
N.º 221.--_Bohemia do Espirito._--O estudo sobre Luis de Camões tem, pelo menos, uma passagem, que se não lê nas impressões anteriores, e que se refere ao Sá de Miranda da sr.ª D. Carolina Michaëlis.
N.º 237.--_Delictos da mocidade._--Além da edição especial que ficou apontada, ha uma outra, em papel Japão tambem, mas sem as letras capitaes a côres. Possue um exemplar o meu amigo dr. A. A. de Carvalho Monteiro.
N.º 263.--_Amôr de perdição._--Fui eu quem traçou o plano da edição. Pertence-me a redação do prospecto e a escolha dos individuos que tiveram de escrever a parte critica. Camillo tinha em grande attenção o meu enthusiasmo por este admiravel livro, a que todavia antepunha o _Romance de um homem rico_ e o _Retrato de Ricardina_. Dois ou tres dias depois de uma das muitas conversas que tivemos, sobre o thêma do _Amôr de Perdição_, vinha-me da residencia amiga de S. Miguel de Seide um exemplar da extraordinaria novella, com o seguinte _envoi_ do notavel romancista:--"_Para fazer chorar de novo Joaquim de Araujo--essa suprema expressão das almas boas, chorar._ C. C. Branco". Henrique Marques cita um exemplar especial da 1.ª edição. Póde addicionar-lhe o que deve existir na Biblioteca particular de El-rei, o que foi presenteado a Fontes e o que recentemente adquiriu o meu amigo Joaquim Gomes de Macedo. Esta tiragem especial foi de 12 exemplares, com destino a brindes, que por então se effectuaram a individuos e sociedades de Portugal e do Brazil, sob indicativa de Camillo e de José Gomes Monteiro.
N.º 289.--_Cartas de Camillo Castello Branco a Joaquim de Araujo._ Entre os meus papeis, encontro mais a seguinte missiva de Camillo, bastante curiosa para a historia do n.º 189:
_Meu amigo:_
A tarefa de escrever o _Perfil do Marquez de P._ em 20 dias deixou-me o cerebro em lama. Vou ver se os ares de Braga e a ausencia de livros me restauram.
Anna Placido vae ler os seus versos. Conhece os que appareceram dispersos nas folhas. Diz ella que a linguagem dos poetas lhe está sendo hoje um dialecto oriental. Accrescenta que está muito velha, muito materialisada pela vida rural e pelas enormes tristezas da sua vida. Entretanto, as suas poesias alumiam escuridoens.
Logo que volte de Braga participo-lh'o.
De V. Ex.ª
Admirador e amigo
S. C. 2 de junho de 1882.
_C. Castello Branco._
Nunca vi exemplares em _grand papier_ do _Perfil do Marquez de Pombal_, mas o editor Manuel Malheiro asseverou-me que fizera imprimir uns tres ou quatro. Só a sr.ª viscondessa de Correia Botelho, minha muito estimada e querida amiga, poderá desenvincilhar hoje este pequeno problema bibliographico.
N.º 291--_Genio do Christianismo_--Embora o frontispicio das quatro edições publicadas atribua esta versão a Camillo Castello Branco, o facto é que a interferencia do grande escritor só tem relação com os primeiros capitulos; os demais foram vertidos por Augusto Soromenho. Para compensar o editor Coutinho, Camillo derivou o cumprimento do seu contracto para um romance original--_Como Deus castiga!_ cuja acção se desenrolava pelos tumultos, a que no Porto deu origem a creação da Companhia das Vinhas do Alto Douro. Existem escritos cinco capitulos, um dos quaes se acha menos correctamente mencionado, sob n.º 607 da _Bibliographia_. A elaboração dêste romance data de 1861; abandonando o assumpto, Camillo saldou noutro volume as suas contas com o editor. _Como Deus castiga!_ deve ser citado entre os n.os 49 e 55, no grupo de obras originaes.
N.º 300--_A Freira no subterraneo._--Nenhuma das edições traz nome de autor; ouvi que Camillo redigira elle proprio o romance, aproveitando alguns dados de promenorisadas noticias, alludentes ao sequestro de uma emparedada em um convento russo.
N.os 333 e 373--_Catalogos etc._--A serem verdadeiras, como são, para mim, as indicações de Henrique Marques, o logar dêstes numeros deve marcar-se entre a serie das obras originaes do autor.
N.º 470--_Obulo ás creanças_--As duas procissões, dos _Mortos e dos moribundos_, correram mundo em jornaes diversos, que não vejo designados no 5.º grupo da _Bibliographia_. A proposito, escreveu Camillo a Bulhão Pato uma eloquente carta, que este distinctissimo poeta engastou num commovido folhetim do _Diario Popular_, referente á loucura de Freitas e Oliveira. Camillo convidava Bulhão Pato a enfileirar tambem processionalmente os seus mortos queridos. Com um talento extraordinario de visão das idades transcorridas, com o inestimavel estilo que Oliveira Martins considerava impressionavelmente consolador e unico, nessas evocações, já, antes do convite de Camillo, Bulhão Pato fundira o inimitavel tomo _Sob os Ciprestes_. Pelo corrente deste livro, as suas recentes _Memorias_ pertencem á cathegoria dos trabalhos de primeira ordem, que, entre nós, se teem produzido, na segunda metade deste seculo. Admiro sem restrições o autor de tão altos primores, como os que se revelam nas nobres paginas consagradas a Anthero de Quental.
Entre os livros que conteem escritos de Camillo, por certo que ainda falta--e até quando?--accentuar bastantes, embora V. apresente uma soberba lista; lembra-me indicar-lhe a _A Propriedade intellectual_ do meu querido amigo e eminente publicista Visconde de Faria Maya, impresso num limitadissimo numero de exemplares, em Ponta Delgada; os _Homens e letras_ de Candido de Figueiredo; _A Sciencia e probidade_ de Francisco Adolpho Coelho; o _Fausto de Castilho julgado pelo elogio mutuo_ de Joaquim de Vasconcellos; e um dos _Catalogos_ do sr. Lima Calheiros: sendo possivel que neste capitulo se possam inscrever os trabalhos philologicos de Manuel de Mello e os opusculos faustianos de Graça Barreto. Escrevendo estas linhas longe dos meus livros, não posso jurar nas ultimas indicações, que registro, apenas, a beneficio de inventario.
Quanto á secção de jornaes e revistas, ha que ter em conta os numeros do _Primeiro de Janeiro_, em que Camillo publicou a _Necrologia do commendador Vieira de Castro_, as cartas a Germano de Meyrelles por motivo do processo do grande tribuno dêste nome, e a João de Oliveira Ramos, em occasiões varias; o _Circulo Camoniano_; o _Diario da Tarde_, onde a collaboração de Camillo foi extensa, e onde se acha reproduzida a materia do _Bico de gaz_ (n.º 504), sem a menor obediencia ás sete chaves com que, annos depois (!), na Bibliotheca Municipal do Porto intelligentemente lhe vedaram, a V., o direito de copiar o exemplar, que lá se guarda; o _Diario Nacional_ que revelou em primeira mão alguns dos promenores historicos de _D. Luis de Portugal_. Muitos outros haverá decerto. E por se fallar em jornaes, lembro-lhe a utilidade de nos indices finaes do seu trabalho, mencionar á parte os periodicos, de qualquer indole, que tiveram Camillo como redactor ou editor exclusivo, e bem assim os volumes que devem a sua impressão ou reedição ao grande escritor, embora com o concurso de livreiros. Dada a lucidissima organisação dos seus numeros de recorrencia, é facil esmiuçar toda a casta de indices. Um dos mais curiosos seria o de todas as pessoas citadas na _Bibliographia Camilliana_.
Uma observação ainda: diz respeito a tiragens especiaes. Ha, que eu saiba, dos seguintes numeros: 368 (poucos exemplares em papel Whatman); 401 (oitenta a cem exemplares em velino e linho nacional); 409 (1 exemplar em China, 2 em velino, e 38 em linho) 458 (6 exemplares em Whatman); 462 (diversos exemplares em linho); 488 (8 exemplares em China); 494 (6 exemplares em papel cartão amarello.) Das _Poesias e prosas de Soropita_ fez-se tambem uma impressão á parte, de pouquissimos exemplares, menos talvez ainda do que os que o editor Chardron mandou tirar das _Escavações bibliographicas_, folhetim do _Diario Mercantil_, em que Theophilo Braga analisou severamente o apparecimerito daquelle volume.
Clareia a manhan, e tempo é de ensaiar um termo a esta carta, do tamanho classico das legoas da Povoa. Infelizmente, não lhe posso dar mais alta prova da minha consideração pelo seu livro, digno, em tudo, do grande escritor a quem é consagrado, e quasi pagamento de uma divida nacional. Por mim, registro-o como um dos mais valiosos subsidios para a nossa moderna historia literaria, e as pequenas minucias que lhe addito testemunham exhuberantemente ao meu amigo o applauso mais sincero e o parabem mais enthusiastico. Do seu editor, e meu excellente amigo A. M. Pereira, tão sómente lhe digo que, na publicação da _Bibliographia Camilliana_, praticou uma das mais bellas acções da sua brilhantissima carreira.
S. c. Lisboa, 25 de agosto, 94.
Seu adm.or e amigo obg.mo
_Joaquim de Araujo._
Preço 200 réis