Sa De Miranda Com Uma Carta Acerca Da Bibliographia Camilliana

Chapter 1

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Anthero de Quental & C. Castello Branco

Sá de Miranda

Com uma carta ácerca da "Bibliographia Camilliana" de Henrique Marques

por

Joaquim de Araujo

LISBOA Typ. da Companhia Nacional Editora LARGO DO CONDE BARÃO, 50 1894

Sá de Miranda

Anthero de Quental & C. Castello Branco

Sá de Miranda

Com uma carta ácerca da "Bibliographia Camilliana" de Henrique Marques

por

Joaquim de Araujo

LISBOA Typ. da Companhia Nacional Editora LARGO DO CONDE BARÃO, 50 1894

POESIAS DE SÁ DE MIRANDA

Edição feita sobre cinco manuscritos ineditos e todas as edições impressas, acompanhada de um estudo sobre o Poeta, variantes, notas, glossario, e um retrato, por Carolina Michaëlis de Vasconcellos; Halle, Max Niemeyer, 1885.

É esta a primeira edição critica das Poesias de Francisco de Sá Miranda, o Horacio e o Seneca portuguez, como lhe chamaram os contemporaneos, o reformador do Parnaso portuguez no seculo XVI.

Foi necessario que se passassem mais de 300 annos (Miranda morreu em 1558: a primeira impressão de parte das suas obras tem a data de 1595) para que apparecesse uma edição critica, indispensavel todavia desde o primeiro dia. E ainda assim não a devemos a nenhum dos nossos--como a nenhum dos nossos devemos a admiravel edição do Cancioneiro de Garcia de Resende (de Stuttgard), a edição diplomatica do Cancioneiro do Vaticano (publicada em Halle pelo italiano Monaci) e tantos outros valiosissimos trabalhos sobre a nossa lingua e literatura, publicados, no decurso dos ultimos 50 annos, em Allemanha, Holanda e França. Uma senhora alleman, hoje portugueza pelo casamento, pessoa tão modesta como intelligente e laboriosa, e a quem a historia da lingua e literatura portuguezas tinha já a agradecer trabalhos, que, por passarem desapercebidos nesta verdadeira Caverna do Esquecimento, que é o Portugal de hoje, nem por isso deixam de ser de primeira ordem, emprehendeu e levou a cabo a restauração do texto do grande poeta moralista do seculo XVI, que até agora andava, mais do que o de nenhum outro dos seus contemporaneos, incerto, obscuro e deturpado. O trabalho corresponde plenamente ao muito que havia a esperar do saber e penetração da autora daquella notavel série de Estudos camonianos, que começaram a lançar alguma luz sobre o estado cahotico do texto do nosso grande lirico.

Dez annos de aturado trabalho; estudo comparativo escrupolosissimo das edições impressas e dos manuscritos ineditos; conhecimento profundo e quasi topographico da epocha, dos costumes, dos personagens, da lingua, das tendencias intellectuaes, uma extraordinaria familiaridade com todas as _fontes_ do grande seculo; um grande e seguro sentimento da realidade historica; criterio penetrante e elevado, ainda no meio das minudencias a que tem de descer--eis o que representa esta edição critica, que não encarecerei chamando-lhe um modelo.

Não sei se entre os _romanistas_ da Allemanha (penso sobretudo no sabio Storck) haverá algum que tivesse podido desempenhar-se do encargo, como se desempenhou a sr.ª D. Carolina Michaëlis: mas creio que afoutamente se póde affirmar que em Portugal, com excepção desta senhora, ninguem mais o poderia fazer, com igual exito. Não é este um facto bem singular?

Hoje, são os estrangeiros que estudam e estimam a nossa antiga literatura: nós não. A crescente e hoje quasi total desnacionalisação do espirito publico é o facto mais consideravel da nossa psychologia collectiva, nos ultimos 50 annos. Os da actual geração, pode dizer-se que, pelo pensar, pelo sentir, deixaram já de ser portuguezes. Ha por ahi muito rapaz intelligente e, a seu modo, instruido, que conhece mais ou menos Molière, Racine, Voltaire e até Rabelais e Ronsard, e que nunca leu um auto de Gil Vicente, uma canção de Camões, uma eglogla de Bernardim Ribeiro ou de Bernardes, uma carta de Ferreira ou de Sá de Miranda.

Os que conhecem um pouco intimamente a historia das revoluções portuguezas neste seculo (não fallo só das politicas) e têem reflectido sobre ella, acharão facilmente a explicação deste facto e, mais do que a explicação, a necessidade delle. Mas nem por isso deixa de ser cousa triste de considerar este abysmo de esquecimento, que se abre cada vez mais largo, entre o pallido, anemico e inexpressivo Portugal de hoje e aquelle seu grande ascendente, o heroico, o pittoresco e inspirado seculo XVI. A falta de sentimento nacional poderia, até certo ponto (no que diz respeito ao estudo da nossa antiga literatura) ser supprimida pelo sentimento historico, pela curiosidade critica e _philologica_, como dizem os allemães: mas a decadencia dos estudos historicos tem vindo acompanhando _pari passu_ a decadencia do sentimento nacional sem que um ponto de vista mais largo, puramente scientifico, viesse, como em França, por exemplo, substituil-o efficazmente, para compensar aquella falta, pelo menos na esphera da intelligencia e do gosto.

Esse sentimento _philologico_ (geral, humano, critico, não restricto e nacional) é o que caracterisa, entre todas as nações cultas, o espirito allemão. Na sua imparcial sympathia, tão vasta como a natureza humana, abraça ao mesmo tempo a antiguidade e os tempos modernos, as edades classicas e os periodos barbaros, o Oriente e o Occidente, todas as raças e todas as culturas. Essa sympathia exige uma só condição: a originalidade. Tudo quanto foi realmente vivo, quanto manifestou uma maneira _sui generis_ de ser e de sentir, tudo quanto revelou uma face distincta da complexa natureza humana, tem direito á sua attenção. E é por isso que a erudição alleman se distingue por uma feição unica: é uma erudição viva. Houve erudição e eruditos: a curiosidade pelas cousas passadas é uma das funcções da intelligencia. Mas uma erudição que sente ao mesmo tempo que indaga, que critica e juntamente sympathisa, minuciosa e enthusiasta, indagadora e poetica; uma erudição que revolve montanhas de textos, datas, documentos, para descobrir, não factos seccos e mortos, mas a alma e a vida das cousas extinctas; uma erudição, se assim se póde dizer, inspirada, tal como nos apparece nesses heroes da philologia, os Boeckh, Welcker, Hermann, F. A. Wolf, Winckelmann, Grimm, Niebuhr, Creuzer, Otfried Muller, Ritschl e tantos outros; uma tal erudição era cousa desusada, e sem precedentes. Ella transformou a comprehensão da historia, fazendo circular uma vida nova atravez dessas cryptas dos seculos sepultos, onde a candeia fumosa da velha erudição academica apenas espalha uma claridade phantastica, quasi tão morta como as cinzas que ali repousam.

E ahi está porque vemos uma senhora alleman publicar estudos magistraes sobre o texto de Camões, publicar uma edição critica das Poesias de Sá de Miranda, preparando-se assim, durante annos, com toda a casta de subsidios linguisticos, historicos e archeologicos, para nos dar (ou antes, para dar á Allemanha) uma historia da literatura portugueza. Outros lhe darão a historia da literatura indiana, ou da chineza, da grega, da hebraica, da poesia dos Trovadores, das epopeias da Edade Media, que sei eu? pois não ha um canto do vasto mundo da historia, que escape á curiosidade ardente e penetrante da erudição alleman. A sr.ª D. Carolina Michaëlis internou-se pelo reino semi-classico do Romanismo e ahi conquistou para si uma provincia, bem mais famosa do que conhecida, ainda dos mesmos nacionaes: a lingua e literatura portuguezas.

Mas, dirão muitos, que necessidade havia de uma edição critica de Sá de Miranda? pois não ha por ahi tantas edições dos poetas Quinhentistas, desses famosos _classicos_, que pouquissimos lêem, é certo, mas que ninguem que se preze deve deixar de citar com veneração, e até póde romper no excesso de ter na sua bibliotheca?

Estes ignoram (nem admira) que esses veneraveis _classicos_ são, até certo ponto, um mytho. Excepto o de Ferreira, nada ha mais duvidoso do que o texto desses desgraçados poetas. Das suas obras, a maior parte só se imprimiram depois da morte dos autores, nalguns casos vinte, trinta, ou mais annos depois. Imprimiram-se sobre copias manuscritas e geralmente copias de copias, e os editores não se esqueceram de juntar aos erros dos copistas, ou suppostos erros, as suas proprias _emendas_. A mesma paternidade das obras é em muitos casos duvidosa. Dos sonetos attribuidos a Camões pelo seu mais recente editor, o sr. T. Braga, boa terça parte não lhe pertencem ou são duvidosos. Tres eglogas de Bernardes são dadas geralmente como de Camões. Ha autos de Gil Vicente que pertencem muito provavelmente a outros autores. Poderiam multiplicar-se estes exemplos. Em geral, os poetas de maior nomeada absorveram pouco a pouco as composições dos menos famosos. E ainda se fosse só isso! Mas o proprio texto de cada uma das composições não offerece, em geral, a authenticidade sufficiente: a linguagem foi retocada pelos copistas ou editores; muitos versos foram substituidos. Junte-se a isto a variedade de lições, de edição para edição, de manuscrito para manuscrito (dos que ainda existem, e são bastantes) e comprehender-se-ha o que quiz dizer com a palavra _mytho_. Quiz dizer que quando cuidamos lêr Camões, por exemplo, podemos muito bem estar lendo Bernardes, ou Caminha, ou Bernardim Ribeiro, ou _vice versa_ podemos tambem estar lendo alguns daquelles _minores_, que foram absorvidos na aureola dos cinco ou seis astros de primeira grandeza--ou podemos simplesmente estar admirando o parto engenhoso do editor do seculo XVII.

Os antigos editores portuguezes nunca primaram por criticos: se ainda é tão raro encontrar um que o seja! O editor portuguez era, antes de tudo um _devoto_: elle sahia á estacada, não para apurar um texto, o texto preciso, com as suas lacunas, defeitos ou erros, se os tinha, mas para levantar o _seu poeta_ acima de todos os outros, attribuindo-lhe o maior numero possivel de composições e com a forma mais perfeita possivel. Se encontrava um papel velho, no canto de alguma bibliotheca devia ser do _seu poeta_: publicava-o. Se os versos eram maus, é porque a copia estava errada: emendava-os. E é assim que, de edição para edição, foi crescendo o numero de composições duvidosas, crescendo o numero de interpetações e emendas, com que o texto cada vez mais se ia depurando.

Dos poetas do seculo XVI, os dois mais maltrados pela _devoção_ impertinente dos editores são sem duvida Sá de Miranda e Camões. Para este ultimo não sabemos quando chegará o dia da justiça (da justiça philologica, entenda-se) mas deve estar longe, a avaliar pela maneira porque os seus dois mais recentes editores, aliás benemeritos pelo trabalho e grande amor ao poeta, os srs. Visconde de Juromenha e Theophilo Braga, se houveram nas suas edições, que, em pontos de critica, correm parelhas com as dos mais _devotos_ editores do seculo XVII. Talvez nunca chegue, a não ser que se metta nisso algum allemão. Sá de Miranda, ao menos, póde lêr-se com segurança no texto critico, admiravelmente discutido e apurado, da edição de Halle.

Sou pouco erudito, nem estou escrevendo um artigo para alguma Revista philologica, mas uma simples noticia para um jornal diario: por estas duas razões, não me posso alargar pela analyse do trabalho da sr.ª D. Carolina Michaëlis, entrando pela parte technica delle. Quero só observar ainda uma cousa: é que este volume de mais de 1000 paginas, e carregado de notas, é um livro interessantissimo. Porque? pelo que acima disse do caracter da philologia alleman. O sentimento historico anima toda aquella erudição; a comprehensão da epocha dá relevo e interesse ás indagações apparentemente aridas de datas, genealogias, etc. A cada passo encontramos uma circumstancia, um facto biographico, pormenores de costumes, que abrem repentinamente uma nesga do horisonte sobre aquella vida extincta e a fazem resurgir para a nossa imaginação. Quanto saber, mas saber intelligente, saber que diz e ensina, enterrado modestamente naquellas notas, que occupam as ultimas 200 paginas do volume! Essas notas, juntas com a magistral Introducção, constituem uma verdadeira monographia de Sá de Miranda. Com aquelles elementos poderia a auctora ter feito propriamente um livro de _literatura_, que se contaria entre os melhores e seria lido, citado e festejado. Preferiu a essas vaidades o cumprimento quasi religioso de um encargo, ha tres seculos por cumprir, fazendo ao velho Poeta o maior serviço que elle imploraria, se podesse erguer a voz do seu tumulo: a restauração do texto das obras. _O bom Sá_ (como lhe chamavam no seculo XVI e depois) encontrou afinal um nobre espirito, que piedosamente e quasi filialmente escutou aquelle queixume de uma pobre larva e consagrou dez annos da sua vida para a satisfazer. O _bom Sá_ deve agora dormir descançado no seu tumulo.

Bom Sá! Diz o velho biographo que, nos seus ultimos tempos, "com a magoa do que lhe revelava o espirito dos infortunios da sua terra se affligia tanto, que muitas vezes se suspendia e derramava lagrymas sem o sentir." Tenho scismado muitas vezes nestas lagrymas do poeta humanista da Renascença. E, não sei como, a minha imaginação approxima-as logo da tragica melancholia de Miguel Angelo, da nobre tristeza de Vittoria Collona, da misanthropia incuravel de Machiavel, da nuvem de desgosto e desalento que envolveu a velhice de quasi todos os grandes espiritos da Renascença. Tinha motivo de chorar o nosso Sá de Miranda, como tinham motivo de se entristecerem os seus illustres congeneres. É que elles presentiam todos, uma cousa sinistra: o abortamento da Renascença. Áquella immensa aurora succedia, quasi sem transição, o crepusculo nocturno: e elles, os videntes, devisavam naquelle crepusculo inquietador os movimentos de formas estranhas e sombrias, como de monstros desconhecidos, e ouviam passar vozes mais assustadoras ainda, vozes que cresciam formidaveis de todos os pontos do horisonte, sem se ver quem as soltava.

Ahi por 1550, o abortamento da Renascença era já visivel aos olhos dos que ainda restavam daquellas duas incomparaveis gerações dos promotores della. O Concilio de Trento entrara já na sua 6.ª sessão e era agora irremediavel a scisão do mundo latino com a Reforma germanica. Começavam as guerras da religião, que iam durar, numa furia crescente, perto de cem annos, destruindo nações inteiras. Os Jesuitas abriam os seus Collegios, onde o espirito da Renascença, sophismado, amesquinhado, pervertido, servia de capa á reacção. Por toda a Peninsula, fumavam e crepitavam as fogueiras da Inquisição. O Humanismo alado transformava-se em erudição plumbea, inerte. A Arte cahia da creação no amaneiramento. Um furor indiscriptivel, furor de disputas, furor de matanças, apossava-se da Europa e o pensamento livre, os sentimentos largos e humanos, a alta cultura pareciam prestes a desapparecer da face da terra.

Tudo isto viam ou previam aquelles grandes espiritos. Tinham sonhado salvar o mundo pela razão, e a razão parecera impotente, e o mundo desesperado appellava definitivamente para a sem-razão. Dahi aquellas incuraveis melancholias de uns, aquella desdenhosa misanthropia de outros; dahi as lagrymas do nosso Sá. Este antevia ainda outra cousa: a morte da patria. Aquelle ouro do Oriente parecia-lhe já (como depois se viu bem que era) um caustico sobre o corpo da nação, que lhe queimava, que lhe roia as carnes, até a deixar secca de todo, um esqueleto. Tinha motivo sobejo de chorar, o pobre poeta!

Sim, lembram-me muitas vezes aquellas lagrymas. Descubro mais de uma analogia entre aquella idade e a nossa. A razão não morreu, afinal. Soterrada, respirando apenas, resurgiu todavia. Sómente mudou de trajo e de nome: já não é Humanismo, como no seculo XVI: chama-se agora Philosophia, mas é sempre a mesma, é sempre a rasão. E nós tambem, filhos da Philosophia, sonhamos salvar o mundo pela rasão, dar-lhe ordem e paz com as leis eternas por ella reveladas. Mas o mundo parece novamente atacado de vertigem, parece appellar mais uma vez para a sem-rasão, para os instinctos bestiaes e para uma superstição mais monstruosa ainda do que as passadas: a superstição da força. A democracia á maneira que triumpha, perverte-se, parecendo preparar-se para marcar um despotismo sem nome, o despotismo anonymo da multidão, o achatamento universal.

Lembram-me as lagrymas de Sá de Miranda. Se teremos tambem de as chorar na nossa velhice? Esperemos que não, ou digamol-o, pelo menos, para não desanimar ninguem--para não desanimarmos tambem nós.

Junho de 1886.

ANTHERO DE QUENTAL.

UMA SATYRA DE SÁ DE MIRANDA

Alguns jornaes provincianos, quando o sr. visconde de Lindoso, ha dois mezes, foi promovido a conde, disseram que na geração de s. exc.ª havia dezenove alcaides-móres de Lindoso, a contar desde o reinado de D. Diniz. Se ha erro na contagem, não serei eu que o corrija. O leitor não hade, desta vez, exultar com a certeza de que o sr. conde de Lindoso tem dezenove alcaides na sua arvore genealogica.

O meu proposito é averiguar se algum dêsses dezenove praticou façanha que o immortalisasse na chronica ou na epopéa.

Effectivamente, deparou-se-me um, cujo nome está identificado a uma poesia de Francisco de Sá de Miranda. Dos outros, por emquanto, apenas sei os nomes e as tradições provaveis dumas existencias obscuramente e honradamente pacatas em Guimarães, no transcurso de quatro seculos.

A celebridade que Sá de Miranda, commendador das Duas Egrejas, deu ao alcaide seu contemporaneo e visinho, não é nada épica.

Chamava-se o alcaide-mór de Lindoso, Christovão do Valle, e residia no seu castello. Sá de Miranda morava na sua casa commendataria da Tapada, não longe de Lindoso. Tinha o poeta um criado gallego que o alcaide, especie de administrador de concelho e commissario de policia do seculo XVI, prendeu por motivos insignificantes. Sá de Miranda, escrevendo em _Redondilhas_ a seu cunhado Manuel Machado, Senhor d'Entre-Homem e Cavado, conta-lhe a prisão do gallego, lardeando a noticia de axiomas sentenciosos que muito lhe abonam a antonomasia de Seneca portuguez. Principia assim:

Inda que eu ria, e me cale, Que me eu faça surdo e cego, Bem vejo eu por que o do Vale Correu tanto ao meu galego.

Em quanto o do Valle lhe corre o gallego, diz elle que uns

Ladrões de seiscentas côres Andam por aqui seguros, Não lhe sahem taes corredores.

E a causa dessa impunidade é que o alcaide não fazia caso dos malfeitores que lhe ameaçassem o physico:

Após quem torna a si E primeiro mata ou morre Não corre o do Vale assi, Que após um tolo assim corre.

E vae nomeando uns patifes que andavam a salvo, um Bastião, um Ribeiro, personagens que se faziam respeitar pela valentia ou pelo dinheiro.

Depois de muitas maximas de san moral, o poeta volta-se para o governo e exclama:

Executores da lei, Havei vergonha algum dia! Este chama: Aqui dei rei! Este outro chama a valia.

Ora o fecho da satyra, que é o mais pungente della, está deturpado na composição negligente das impressões que conheço, dêste feitio:

Outro chama: Portugal! De varas não ha e mingua. Desata a bolsa, que val. Traze sempre alada a lingua.

Com esta construcção, assim aleijada, a satyra penetrante fica de todo deslusida e estragada. Para que os equivocos flagelladores resaltem do jogo das palavras de accepção dupla, a reconstrucção deve ser esta:

Outro diz: em Portugal[1] De varas não ha hi mingua; Desata a bolsa, que Val Traz sempre atada a lingua.

[1]Neste verso adoptei uma variante que se encontra na ultima edição das poesias de Sá de Miranda.

É claro o intuito mordaz do poeta. Manda _desatar a bolsa_. Procede uns bons cincoenta annos o _Put money in thy purse_ de Shakespeare. O poeta inglez, pela bôcca perversa do _honest Iago_, mandava encher a bolsa; o portuguez manda desatal-a depois de cheia; é a mesma ideia. _Desata a bolsa_, diz elle, porque o Valle, o alcaide de Lindoso, quando o amordaçam com dinheiro,

Traz sempre atada a lingua.

O verso é máu; mas Sá de Miranda visava principalmente a fazer boa philosophia, e contentava-se em alinhavar versos conceituosos em prosa chan; por isso mofava delle o Camacho, na _Jornada do Parnaso_, taxando-o de

Poeta até o umbigo, e os baixos prosa.

Seja como fôr, dos dezenove alcaides de Lindoso nenhum outro se gaba de ter o seu nome registado na obra do grande mestre da Renascença lyrica da Peninsula.

* * * * *

Não sei se é notorio em Portugal e nomeadamente no Chiado e Clerigos que uma senhora, nascida e educada na Allemanha, e residente não ha muitos annos no Porto, publicou em 1885 uma edição das _Poesias de Francisco de Sá de Miranda_, impressa em Halle. É um volume em 8.º fr. de 1085 pag.; a saber CXXXVI que comprehendem a biographia do poeta, a topographia de Carrazedo de Bouro, da quinta da Tapada, do solar de Crasto, e a noticia particularisada dos codices manuscritos e das edições impressas que a illustre escritora manuseou. As 946 paginas restantes comprehendem as poesias conhecidas e as ineditas colhidas de varios manuscritos, repartidas em quatro secções; e na secção ou _parte 5.ª_ encontram-se todos os poemas dedicados a Sá de Miranda. Na margem inferior de cada pagina inscreve a sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos as variantes dos codices conferidos, e nas _Notas_, que começam a pag. 739, entra s. ex.ª na parte critica do seu valioso trabalho, desenvolvendo raros e copiosos conhecimentos da literatura portugueza dos seculos XV e XVI, e da vida intima dos seus poetas.

Referindo-se á satyra de Sá de Miranda, cujos fragmentos trasladei, escreve a illustrada senhora a pag. 754: _As allusões a um_ da Vale... _já não podem ser decifradas_. Seria assombroso que s. ex.ª conseguisse exhumar da poeira dos cartapacios genealogicos de Guimarães aquelle Christovão do Valle, alcaide infesto ao serviçal do poeta. Quantas gerações de leitores da carta do commendador das Duas Egrejas terão passado inconscientes por sobre aquellas allusões!

Nas notas, porém, da sr.ª D. Carolina de Vasconcellos ha lances de investigação historica tão penetrantes e intuitivos que dão muito a esperar, se os seus estudos nos baldios ingratos da archeologia literaria não desanimarem arrefecidos pelo desaffecto que os portuguezes manifestam pelo archaismo.

Aqui se me offerece um exemplo de lucida exploração investigadora no livro admiravel desta senhora. Na _Carta V_ de Sá de Miranda a _Antonio Pereira_ (pag. 237), o poeta, referindo-se ao solar dos Pereiras, escreve:

Do qual irão ha muitos annos Um que aqui Braga regeu, Pondo aparte os longos panos, O passo dos castelhanos Á espada o defendeu.

Commentando estes versos, explana a sr.ª D. Carolina de Vasconcellos (pag. 806): _Julgamos que se trata do avô do grande condestavel, i. é de D. Gonçalo Pereira que regeu Braga como arcebispo no meado do seculo XIV. Quando o infante D. Pedro invadiu em 1354 as provincias de Entre Douro e Minho e Traz-os-Montes acompanhado de seus cunhados D. Ruy de Castro e D. João de Castro foi ao seu encontro o arcebispo de Braga, que o havia advertido em tempo dos sinistros projectos de D. Affonso IV. O prelado apresentou-se como medianeiro para acalmar a contenda, e desviou o colerico infante do Porto..._