Ruy o escudeiro: Conto

Part 4

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«Visão!... visão do Ceo, sem pár encanto «Inefavel prazer, que me aviventas, «Doce illusão de amor!..... mas esse pranto «Suspende, ah sim, com elle me atormentas. «Nesse rosto tão bello, puro, e santo, «Com cujo aspecto a vida me sustentas, «Deixa vêr um sorriso, um gesto amante; «Vê-lo sequer n'um derradeiro instante!

«Ah deixa que em meus braços amorosos «Aperte a imagem que p'ra mim é vida; «Que unidos n'um só ser, ambos ditosos «Nossa essencia vejamos confundida! «Ah Fatima, dos dias meus ditosos «Delicias e prazer, Virgem querida, «Ja não ha quem de mim possa apartar-te «Tu das-me a vida, vivo só p'ra amar-te!

Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente Força de um terno amor vence e domina, Sobre o peito do amante a linda frente, Desfeita em meigo pranto, amante inclina. Ruy no peito a aperta vehemente, Triumfa amor, amor só predomina!..... Quando a barca de subito estremece, Co'a luz do raio a margem resplandece.

Retumba do trovão o som tremendo, Da distante montanha os echos gemem, Do rio a calma subito rompendo Na borda antes tranquilla as aguas frémem. Á Virgem delirante o choque horrendo A razão restitue; seus membros tremem, Arranca-se assustada espavorida Dos braços com que o moço a tem cingida.

«Suspende, ah sim suspende, ó bem amado, «De ti me afasta a propria natureza. «Não contemplas o Ceo de horror toldado, «O rio, o campo envoltos na tristeza. «Foge Christão, que o meu funesto fado, «Sem igual nos rigores, na dureza, «Não me fez para ti, nem consentíra «Que amor em doce laço nos uníra.

«Foge, oh Christão invicto, e generoso, «A quem prouvéra ao Ceo que ora não visse; «Mas já que fez teu braço poderoso «Que em teu poder segunda vez cahisse, «Que a teus olhos meu peito o desditoso «Amor sem esperanças descobrisse, «Só te resta fugir sem mais demora «Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.

Isto a Moura dizia; mas o amante Nem o trovão, nem seu carpir ouvia, Transportado de amor, e delirante De novo a moça com ardor cingia. De virginal rubor tinto o semblante Fatima seus transportes combatia; Mas a modestia mais lhe agrava a sorte; Que o amor de Ruy torna mais forte.

Combate ainda em pranto suffocada, Ora emprega o rigôr, ora a ternura, Ora Ruy argue com voz irada, Ora lhe pinta a extrema desventura, Cego o moço prosegue...... quando alçada De repente ante os dois surge a figura, De Ruy á memoria não estranha, Do venerando Ermita da montanha.

O mesmo era, que alli achado havia Na piedosa oração todo engolfado, A mesma longa barba lhe descia Sobre o peito, no vulto magoado Outra expressão porém ora se lia, E com semblante triste mais que irado, Do insano mancebo a mão tomando, Lhe diz com tom de voz sereno e brando.

«Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos «Assim procuras igualar a gloria? «Assim do Pai os ultimos preceitos, «Filho ingrato, conservas na memoria? «Á Mãi, que o ser te deu, nutrio aos peitos, «Foi esta a promettida alta victoria, «Quando do martyr Pai armas sagradas «Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.

«Julgas-te generoso, porque a vida «Nos campos das peleijas arriscaste, «Porque valente e audaz da gente infida «Na dura guerra o impeto domaste, «Porque esta moça só, desprotegida «Nos conquistados muros preservaste; «Mas, quando, oh moço audaz, assim fizeste, «De imperio sobre ti que prova déste?....

«Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro, «Quando uma Virgem timida, innocente, «Acaba de salvar-te o derradeiro «Sopro da vida, a teu desejo ardente, «Sem respeitar seu desamparo inteiro, «Buscas sacrifica-la impaciente, «Abusar da imprudencia e juventude; «Que assim curas da honra e da virtude!

«Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso «Que guardada lhe tem mais nobre sorte «Soube arranca-la ao moço impetuoso «Que ella arrancado havia ás mãos da morte. «Dóma, oh mancebo, o genio teu fogoso, «Sabe ás paixões oppor uma alma forte, «Que em vão procura a honra e busca a gloria «Quem aos desejos seus cede a victoria.

«Sabe não tarda a hora que ha marcado «A eterna, e insondavel Providencia «P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado, «Que não pode prever mortal prudencia, «Mal de quem, com seu sopro envenenado. «Pertender profanar essa innocencia! «Mal de ti, se a cumprir te não dás préssa «Do ceo a ordem, que por mim se expréssa!

«Não distante d'aqui, na opposta margem «Um barco mouro o Téjo vem subindo, «Procura Santarem sua viagem, «Um irmão de Hauzeri vem conduzindo; «Saia-mos-lhe ao encontro na passagem, «Da nova aquelles mouros instruindo, «Volverão, esta Virgem lhes daremos, «E assim a Lei sagrada cumpriremos.»

Fallando assim, do Ermita venerando A voz era solemne, e magestosa, Via-se a frente calva circumdando Uma aréola clara e luminosa; Subjugado Ruy cede a seu mando, Já na agua nada a barca pressurosa, Já, proximos da opposta ribanceira, Sentem remar dos mouros a bateira.

Porem ao som do remo, que devia Para sempre talvez roubar-lhe a amada, No coração do moço renascia A tempestade apenas abafada; Se co'amor o respeito combatia, Não dura a luta na alma apaixonada, Cede o respeito, e o moço exasperado Ao velho falla assim com gesto irado.

«Quem, oh velho agoureiro! dependente «Coustituiu de ti o meu destino?.... «Vate de malles, barbaro inclemente, «P'ra que simulas leis do ceo benino?..... «Vai, cessa de ligar teimosamente «A minha sorte ao fado teu mofino, «De perseguir meus dias, de insultar-me, «E co'escuro provir de ameaçar-me.

«É tua de Hauzeri acaso a filha?.... «Acaso nos combates me ajudaste?.... «Este braço, esta espada que aqui brilha «Acaso foste tu que os animaste?... «Esta de amor suave maravilha «Acaso foste tu quem a salvaste?... «Não. Entrega-la a barbaros imigos «Só sabes querer, e expo-la a novos perigos.

«Ah! se longe de tudo á dôr votado, «Aborreces o mundo, e seus deveres, «Volve ao ermo dos homens sequestrado, «Céva na solidão teus desprazeres, «Não venhas com teu halito empestado «Murchar da vida a flôr aos outros seres, «Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja «Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.

«E póde querer o ceo, que eu a innocencia «Nas mãos dos infieis de novo entregue, «Que Fatima infeliz da Fé na ausencia «O Deus que a protegeu blasfeme e negue?... «Póde querer, que a abandone sem clemencia «Ao funesto destino que a persegue?.... «Não, não póde tal querer; nem separado «Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.

«Aparta-te de mim tu que o projectas, «Aparta-te de mim, antes que iroso «Pelas expressões tuas indiscretas «Me leve o sangue a extremo perigoso! «Ao zelo que por mim, por ella affectas «Prestes pôe termo, foge pressuroso, «Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino, «Poupa-me algum funesto desatino!

Immovel, qual rochedo, o velho Ermita Do mancebo os transportes escuitava, A compaixão, que seu penar lhe excita, No gesto enternecido se mostrava. Pallida, e sem alento a moça afflicta Aos ceos os lindos olhos levantava, Como quem do poder soberano e forte Submissa, e resignada espera a sorte.

N'isto do batel mouro percutida É a barca do remo abandonada: N'agua mergulha a borda, compellida Do veleiro batel pela pancada. Aquella vê Ruy, que lhe era vida, No rio desparecer precipitada, Grita, lança-se ao rio a soccorre-la, Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.

Mas o braço do Ermita mysterioso Fatima sobre as aguas amparando Longe a leva do amante impetuoso, Que em vão a está nas aguas procurando, Clama ao batel dos mouros pressuroso, E a filha de Hauzeri prompto entregando, Volve a Ruy, arrastra-o da corrente, E desparece á vista em continente.

FIM DO QUARTO CANTO.

CANTO QUINTO.

Quaes no profundo reino os nus espritos Fizeram descançar de eterna pena C'uma voz de uma angelica Sirena Camões, Lus., C. 10.º, E. 5.ª

Vagaroso vem marchando Na vereda um cavalleiro, Nobre ginete montando; Traz o rosto do guerreiro, Que a vizeira alevantada Deixa contemplar inteiro, Co'a acerba dôr concentrada Negra sombra de tristeza Profundamente gravou.

Dos olhos seus a viveza Apaga a melancholia, Da intensa magoa a dureza. Tormento de mais de um dia, Froixa luz de escaça esperança Se lê na fisionomia. Pena, que a velhice avança, Infausta paixão ardente Causas são de tal mudança.

Como o tronco florescente, Que ha pouco altivo, e frondoso Ornava a selva virente, Que o furor do vento iroso Rebramando enfurecido Desafiava orgulhoso, De insecto voraz roido Na raiz que o alimenta, Murcho abate o cume erguido, Alta a copa não sustenta, Perde da folha a verdura, Que a seiva não alimenta, Guarda só do lenho a altura, Merencorio documento Da perdida formosura; Assim, desde o atroz momento Que Fatima lhe roubou, Com saudade, amor, tormento De Ruy o ser mudou.

No fundo d'alma Do triste amante, Nem um instante Ha tregoa e calma. Pena incessante Que nada acalma. Cada dia com o tempo reforçada, Lhe consume a existencia desgraçada.

Já, qual soía Quando ditoso, Não impellia O bellicoso Da Andaluzia Filho fogoso Apoz o corredor que a lebre alcança, Ou o gamo leve, que no campo avança.

Lá no torneio Já não brilhava, Marcio recreio, Que outr'ora ornava De audacia cheio, Onde arrancava Dextro e valente o premio em nobre luta; Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!

Mesto, isolado, Ermos outeiros Corre, apartado Dos cavalleiros; Só animado Entre os guerreiros Se mostra ainda em frente do inimigo, Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.

Ignora o infeliz qual seja a sorte D'aquella por quem só lhe é cara a vida, D'aquella sem a qual da espada ao corte A existencia quizera ver perdida. Nas aguas a deixára entregue á morte, Nas aguas víra a Virgem submergida, Longe d'ella com força irresistivel Arrebatado n'esse instante horrivel.

Do agoureiro Ermita a milagrosa, Subita apparição, prompta partida, A aréola da frente luminosa, A antiga prophecia d'elle ouvida: A lembrança da Mãi terna e saudosa, Do martyr Pai a ultima ferida, Seus preceitos, legados á consorte, Sellados pela fria mão da morte.

As palavras do Ermita, os seus furores Contra elle, tão prompto castigados; Seus primeiros desejos, seus ardores Pelo ceo, como acinte, perturbados; Os olhos de Fatima encantadores, Quaes por ultimo os vira aos ceos alçados, A angelica expressão do seu semblante, Tudo a Ruy se pinta em cada instante.

O socego na noute em vão procura, Foge o somno a seus olhos vigilantes; A incerteza, entre as penas a mais dura, Se afferra, roaz cancro, a seus instantes; Se ao cançaço a final cede a natura, Entre um tropel de sonhos delirantes Vagando sem cessar o pensamento, Em logar do repouso acha o tormento.

Tal era o miserando, infausto estado De Ruy, que ao acaso caminhava, Só, distante dos seus, e confiado No valor, que a desdita não coarctava; Não distante do muro alevantado, Que a maura gente ainda povoava, Na montanha, que surge graciosa, Qual no deserto a oazis frondosa.

Em frente do mancebo se estendia Prodiga de bellezas a natura: Da primeva, robusta penedia A variada, asperrima structura, Que em agulhas, em picos se erigia, Varios na massa, varios na figura, Erectos estes, estes inclinados, Selvosos uns, os outros despojados.

Ruinas da vetusta natureza, Monumentos de um mundo transpassado, Culminantes elevam núa a aspereza Os cumes de granito descarnados; Em quanto, circumdando a redondeza Das fraldas, se divisam cumulados Das destruidas rochas os fragmentos Attestando o poder dos elementos.

Alli a aerea marcha pressurosa Pára a nevoa do vento saccudida, Alli pára a procella magestosa Nas enroladas nuvens envolvida, A lymfa alimentando, que abundosa Dos penhascos nas veias repartida Surde em cascatas, em limpidas fontes, Em arroios gentis desce dos montes.

Lá se veem de granito á massa ingente Do chão calcareo as zonas encostadas, Áquem e álem partidas variamente, Jazer rotas, confusas, deslocadas; Quaes se de interno esforço e de repente Nos fundos alicerces abalados Como involucro fragil rebentassem, E ao novo serro o dia franqueassem.

Mais abaixo porem ledo se estende O selvatico manto de verdura, Onde o bafo do estio nunca offende A flôr mimosa, amante da frescura, Onde da hervosa penha se desprende Com murmurio suave a fonte pura, E a mil viçosas plantas succos dando Saudosa corre entre ellas serpejando.

No valle agreste e umbroso o medronheiro O rubicundo fructo tem pendente Á sombra do robusto castanheiro, Cuja folha intercepta o sol ardente; O carvalho frondoso, o alto olmeiro Cinge a hera lustrosa estreitamente; Do pinheiro co'as copas elevadas As massas de verdura são coroadas.

Na solidão do bosque as tenras aves, Incolas primitivas da floresta, Chamam a vida co'as canções suaves Musica natural que amor empresta; Respondem-lhe de longe os tons mais graves, Merencoria harmonia lenta e mesta Das ondas, que escumando entre os penedos Batem da roca os asperos rochedos.

De Alboracim as aguas misturando Do salso mar co'as vagas amargosas, De um lado corre o Téjo, saudando Por derradeiro as praias arenosas; Vão-se do outro os olhos alongando Pelas tumidas ondas procellosas, Que com o tempo sulcarão triumfantes Saudando o patrio sólo as náos ovantes.

Ainda então sobre a penha virente Orientaes trophéos não consagrára De Diu o vencedor, nem o eminente Excelso pico a torre rematára; Inda a pedra lavrada artistamente O Alcacer real não levantára; Nem a limfa liberta conhecêra A marmorea bacia, que a prendêra;

Inda a riqueza então não erigira Do prazer a morada caprixosa, Nem o muro importuno prohibira O transito na selva magestosa; Inda o tronco indignado não sentira Do ferro a cortadura injuriosa, Nem do cordão tyranno a fantesia Immolàra a belleza á symetria.

Tal era o quadro que ante o olho amante Do misero Ruy se desdobrava: Parou, e parecia que um instante A amarga dôr no peito se adoçava. Menos pezado e triste no semblante Os olhos pelos cumes alongava; Mas foi curta a impressão, curta a surpreza, Prompto volveu á habitual tristeza.

Qual um instante só brilha o luzeiro Do claro sol no meio da procella; Tal da alegria um raio do guerreiro Um momento sómente o vulto assella. Entranha-se na selva, que primeira No seu transito está frondosa, e bella, Segue da agua o arroio fugitivo Co'a frente baixa, o rosto pensativo.

Assim caminha, quando o pensamento Sente por modo estranho perturbado. Não, não é illusão, um doce accento Sôa no bosque, terno, e magoado, Em vez do som facticio de instrumento Do murmurio do arroio acompanhado, Merencoria harmonia, canto lindo Qual o da rôla seu amor carpindo.

«Oh doce voz! oh canto mavioso! «Ah! que se ella vivêra, assim cantára, «Assim o nosso amor puro, extremoso, «Solitaria, e saudosa lamentára! «Mas, oh noute cruel, fado horroroso! «Nas aguas para sempre a bella, a cara!... Mais não disse, que os olhos se alagaram E os soluços as vozes lhe cortaram.

A VOZ.

«Bosques sombrios, profundos retiros, «Aguas correntes, aves namoradas «Inda uma vez escutai os suspiros, «Da desditosa, entre as mais desgraçadas; «Inda uma vez escutai meu tormento, «Do meu penar e da minha anciedade «Origem foi um puro sentimento, «Morro de amor, expiro de saudade!

«Á dura morte eu por elle arrancada «A gratidão um dever me inspirou, «Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada «No mesmo instante o dominio usurpou. «Verde floresta, escuta o meu tormento, «Aves, ouvi minha triste anciedade, «Victima sou de um puro sentimento, «Morro de amor, expiro de saudade.

«Elle partiu namorado da gloria, «Elle partiu sem curar do meu fado, «De quem o adóra ah talvez a memoria «Não haverá nem sequer conservado. «Por derradeiro escutai meu tormento, «Por derradeiro ouvi minha anciedade; «Se elle trahiu tão puro sentimento «Mate-me amor, morra eu de saudade.

«Mas se fiel, se constante e amoroso «Quaes os inspira elle sente os amores, «Aves, cantai, e tu, bosque viçoso, «Dá novo brilho a teus gentis verdores; «Mais que a alegria é feliz meu tormento, «Mais que o prazer feliz minha anciedade, «Que é dom do ceo por um tal sentimento «Morrer de amor, expirar de saudade.

Assim cantava a voz melodiosa O canto com suspiros alternando, A saudosa canção, queixa amorosa Iam da selva os echos imitando. A dôr pungente, a angustia que affanosa Iam do moço a vida definhando Mais rapido dissipa o doce accento, Do que a nevoa ligeira aparta o vento.

N'um instante da moura aos pés se lança Ruy, subido ao auge da ventura: «Vida da minha vida, amor, e esperança «Dos dias meus, modello da ternura! «Que alma ingrata poderá ter mudança «Sendo de ti amada, oh Virgem pura?.... «Não, mil mortes soffrêra o teu amante «Primeiro que esquecer-te um só instante.

Dize-lo; as mãos da Virgem commovida Apertar contra os labios abrazados O mesmo é p'ra Ruy, que a queixa ouvida Completa os seus desejos extremados. «Certo do teu amor, Virgem querida, «Quem de Ruy póde igualar os fados?... «Todo o cruel tormento que hei soffrido «Um só accento teu fez esquecido!....

«Sorte propicia, acaso venturoso, «Que o ser me restitue para a ventura, «Que prodigio feliz do ceo piedoso, «Que força superior á da natura, «O pôde produzir?... Desde o horroroso «Momento em que surgiu por desventura «Esse fantasma horrivel, despiedado «Contra mim acintoso, e conjurado:

«Dês que, do odio seu fructo execrando, «Te vi ante meus olhos submergida, «Em vão nas fundas aguas procurando, «Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida, «Que o barbaro fantasma, oh crime infando! «Com mais que humana força e desmedida «De ti me arrebatou; que Anjo divino «Protegeu, doce amada, o teu destino?...

«Indelevel lembrança! Instante horrivel «Em que, de quanto amava separado «Pelo monstro a meus rogos insensivel, «Na solitaria margem fui deixado! «Por toda a parte em meu furor terrivel «Em vão o procurei desesperado, «Riu-se o fado de mim, e até est'hora «Roubou-o á minha sanha vingadora.

«Mas se elle existe acaso entre os viventes, «Se um fantasma não é, parto do averno, «Que a perseguir meus passos innocentes «A ira suscitou do negro inferno; «Por essas magoas juro tão pungentes «Que hei soffrido, por meu amor eterno, «Que saciando n'elle a minha furia, «Heide lavar a tua, e minha injuria.

FATIMA.

«Ah suspende! mais não digas! «Sim suspende, oh bem amado, «Illudido, alucinado, «Taes blasfemias não prosigas!

«Esse, que acusas de morte «Só nas aguas me salvou, «Só elle me confortou «Na tyranna, adversa sorte.

«Se ainda conservo a vida, «Se inda me estás contemplando, «Ao Ancião venerando «Minha existencia é devida.

RUY.

«Como?... Aquelle que arrancar-te «Ousou a meu peito amante, «Que em magoa e dôr incessante «Me fez continuo chorar-te,

«Da tua lei o inimigo, «Da tua raça execrado, «Pôde aliviar teu fado, «Protector para comtigo!....

FATIMA.

«Prodigios o ceo clemente, «Que meus olhos desvendou, «Por esse mesmo operou, «Que blasfemas imprudente!

«Desde o momento horroroso, «Em que de ti separada, «De quanto amava affastada «Fui no caso lastimoso.

«A taça da desventura «Misera esgotar devia, «Trazendo-me cada dia «Nova dôr, nova amargura.

«Mal de Cintra o alto muro «Me recebeu malfadada, «Foi minha alma transpassada «Dos golpes pelo mais duro.

«Soube que o Padre querido «Tão digno do meu amor, «Ao despeito, á magoa, á dôr «Tinha infeliz succumbido.

«Inda bem me não feria «Este golpe acerbo, amaro, «Que do meu unico amparo «Se apagára a luz do dia;

«De Hauzeri o irmão restante «Que affavel me agazalhára, «Que por filha me adoptára «Viu chegado o ultimo instante.

«Solitaria, abandonada, «Sem amigos, sem parentes, «De amor nas chammas ardentes «Por mór tormento abrazada,

«Ignorando se vivia «O só ser que ainda amava, «Se o jurado amor guardava, «Se em outras chammas ardia,

«Succumbi, em vão luctando «Contra tanta desventura, «E aos golpes da sorte dura «Senti a força expirando:

«Nem já o pranto, allivio aos desgraçados, «Os olhos meus vertiam, «Nem já ais, nem suspiros, que exhalados «As penas alliviam, «Soltar podia. Opressos, suffocados «Minha alma consumiam «Em silencio os tormentos, morta a esperança «De poder minha sorte ter mudança.

«Uma noute em que só de horror cercada «Ao pezo de meus males succumbia «De pura luz me vejo rodeada «Igual á que no ceo precede o dia. «De espanto e de terror sobresaltada, «Quando convulso o corpo meu tremia, «No centro do clarão o proprio vejo «Que ás aguas me arrancára lá no Téjo.

«Era o mesmo; porém mais magestoso «Ora de mim se vinha aproximando; «Qual um astro celeste e radioso «Brilhava o seu semblante venerando, «Um aroma suave e precioso «Estavam suas vestes exhalando, «Na mão tinha uma Cruz resplandecente «Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.