Part 3
As muralhas transpõe, na brenha escura Já seus tremulos passos avançavam, Receio, impaciencia, horror, ternura Em tropel dentro n'alma lhe luctavam; Tanto mais progredia na espessura Tanto mais seus transportes se exaltavam, Os pensamentos se lhe confundiam, E convulsos os membros lhe tremiam.
Fóra de si, sem tino, e delirante Chega emfim ao logar onde deixára O prodigio de amor, cujo semblante De todo o ser antigo lhe mudára...... Mas, oh pungente dôr! funesto instante! É deserto o penedo..... a forma rara Se esvaeceu na sua ausencia breve, Qual com o romper do dia o sonho leve.
Ligeira barca, que a favor do vento, Em demanda da praia desejada, Vai rapida cortando o salso argento, Deixando apoz a esteira prolongada, Perde o impulso, a força, o movimento, Em banco ignoto subito encalhada: Tal fica aniquilado, immovel, quedo O surpreso Ruy ante o penedo.
Mas depois, prolongando um doce engano, Luctando ainda contra a desventura, Pela Moura clamando, o moço insano Discorre aquem e alem pela espessura; Porem o infausto, extremo desengano Não pode recusar, quando a verdura, Já pelo Sol nascido alumiada, Se lhe antolha deserta, abandonada.
«Tudo perdi, desgraçado, Exclama o moço insensato, «Só n'esta alma o seu retrato «Dura com fogo gravado!
«Chamma horrivel me devóra, «Fogo intenso, fogo interno! «Tu foges impia e traidora, «Deixas em meu peito o inferno!
«Como?... com quem?... para onde!... «Serpe em meu seio esquecida! «Que valle, ou que serra esconde, «Perversa, a tua fugida?.....
«Juro pela fé sagrada, «Que de meus avós herdei, «Que em tua raça odiada «Meu tormento vingarei!
«Dos teus no perfido sangue «Este ferro hei de ensopa-lo, «De teu pai no corpo exangue «Hei de a teus olhos crava-lo!
«Salvei-te a vida, e meus dias «Daria por defender-te, «Mal teu desejo enuncias, «Prompto vôo a obedecer-te.
«Volvo de amor transportado, «De puro extremo incendido; «Sou trahido, abandonado, «Enganado, escarnecido!......
«Nem se quer um monumento «Restará de opprobrio tanto; «Nem tu, oh musgoso assento, «Nem tu, oh viçoso manto.
Isto diz... Desatinado Prostra co'a espada a verdura. Fere fogo o aço temp'rado Percutindo a pedra dura.
Qual cão, de raiva atacado, Distilando a baba impura, Tinto em sangue o olho ardente, Té na pedra imprime o dente;
Ou qual o touro insofrido, A crú jogo abandonado, Ardente dardo incendido Tendo no corpo cravado,
Salta, brame, urra, e pungido Do fogo sempre ateado, Em corcovos accommette, E contra a têa arremette:
Tal o moço furioso Musgo, relva, arbustos, flores, Prostra, arranca, impetuoso Nada poupa em seus furores; Té que emfim com gesto iroso Volve espaldas aos verdores, E do sitio triste, e infausto Se arranca de força exhausto.
Affonso, em tanto, em pompa respeitosa Dos ministros de Deus marcha cercado Á capella da Virgem gloriosa, Que no forte Castello havia alçado. Segue-o dos seus a turba numerosa Exultando por ver desagravado Do insulto agareno o logar santo Com o christão sacrificio sacrosanto.
Já tinham descendido a curta escada, Que ao pavimento interno conduzia, Da porta o cume agudo transpassado Onde esculptado o Trino Deus se via; Co'a sagrada aspersão tinham mundado Do sacro pavimento a lagem fria, Em canto baixo e triste repetido Psalmo do Rei profeta arrependido.
O merencorio som no templo escuro Vagaroso, e solemne resoava, Á piedosa effusão de um zelo puro Devota a multidão se abandonava; Quando Ruy com passo mal seguro Do Castello nos muros penetrava E levado da lugubre harmonia Na Capella entre os mais se confundia.
Neste mesmo momento o Celebrante Ante o altar sagrado reverente Se inclinava, e o povo circumstante Baixava até á terra humilde a frente. A tal vista o mancebo delirante Seu barbaro furor desmaiar sente, Sente expirar a raiva, e a fereza, Trocar-se a ira em luto e em tristeza.
Os musculos contractos se relaxam, A frente, hirta até alli, no peito inclina, Sobre os olhos as palpebras se abaixam, O fogo abrazador cede e declina. Não de outra sorte as plantas vigor acham Do orvalho na frescura matutina, Como adoça ao mancebo o horrendo estado A pompa augusta, o cantico sagrado.
Tal quando arrebatado, e possuido De furias infernaes, castigo horrendo, O do povo de Deus primeiro ungido, Co'espirito das trévas combatendo, Fora de si, convulso, enfurecido, Se estava entre agonias debatendo, Da harpa de David a melodia Seu soffrimento acerbo adormecia.
Findou porem a pompa veneranda, Os canticos, e os ritos terminaram; E em alas logo de uma e outra banda Do vestibulo as gentes se formaram; Ao pio vencedor que os rege e manda Mil triumfaes applausos elevaram; E em marcha triumfal, dos seus seguido, É Affonso ao Alcacer conduzido.
Alli chegado, próve na defeza Dos muros novamente conquistados, Para que nem por força, nem surpreza Possam mais ser dos mouros retomados. Confia defender-lhe a fortaleza Ao valor de Monteiro, e seus soldados, Em vez de Payo, que perdido a havia De Theotonio co'a gente a quem regia.
Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo, Que tal era o pensar n'aquella idade! O baculo depondo, e o sacro manto, Alliando a vingança co'a piedade, Entre os mouros fizera estrago tanto Em despique da perda da Cidade, Que em Arronches, por elle aos seus rendida, Fôra de Affonso a lei reconhecida.
Ao tempo em que entre os sabios conselheiros O Rei a paz e a guerra discutia, E ao longo das muralhas os guerreiros Folgavam da conquista na alegria; Ruy, a joven flôr dos escudeiros, Monta o cavallo, que da Andaluzia Aos corceis os mais bellos fôra inveja Do manejo na pompa, ou na peleija.
Mas não sustenta o moço a redea leve Co'a costumada e dextra gentileza, Que ao soberbo animal motos prescreve Que lhe dobram as graças e a belleza, Deixa-a pender no collo airoso e breve, E submergido em lugubre tristeza, Sair faz ao acaso o bruto bello Pela primeira porta do Castello.
O bruto a mão usada não sentindo Co'a frente baixa o trilho proseguia, Tardo no passo, o collo distendido, Partir do damno as magoas parecia; Abandonado a si, não conduzido, Do Lena para a margem progredia; No sitio onde hoje sua perenne fonte Transpõe o passageiro sobre a ponte.
O quadrupede docil, como esp'rando A lei de seu senhor na fresca borda Um momento parou, e o moço olhando Com torvos olhos, como quem acorda De sonho ingrato, e á rasão tomando, Móres penas reaes sente, e recorda, Distrahido lhe affaga o collo, e clina, E para a dextra a leve redea inclina.
Não longe do logar onde se achava Graciosa a corrente se torcia, Alli viçosa a margem se adornava Das plantas, que o remanso mais nutria, Com graça ao lado opposto se elevava Um mamillo gentil, donde surdia Um fio de agua clara murmurando Qual rôla entre a verdura suspirando.
A curta elevação faz que se aviste D'alli do valle ameno a gentileza, Ondulado terreno em frente existe D'onde o cultura tem banido a asp'reza, Alternada co'a vinha alli subsiste A pallida oliveira, e a riqueza Da loura Ceres; fecha o quadro bello Do ceo sobre o azul negro o Castello.
Aqui pára Ruy e desmontando A um ramo o corcel liga, e lentamente Vai a placida fonte procurando Onde só gemer possa livremente; Mas junto um peregrino vê, tomando A simples refeição, na herva jacente Seu pobre alforje está desenvolvido, Viatorio bordão jaz estendido.
A gorra de aba espaçosa Calva a frente lhe obumbrava, A concha da praia ondosa O capello lhe adornava; De uma correia nodosa, Que o pardo saio apertava, Pendente a cabaça tinha Que a bebida em si continha.
Escravo por longos annos De um mouro, que o captivára, Mão gentil da sorte os damnos Compassiva lhe adoçára. Quebrou-lhe os ferros tyrannos; E liberto lhe inspirára Sua devoção singella Ir romeiro a Compostella.
Tal se mostrava o Romeiro, Que assim Ruy saudou: «Deus vos salve, Cavalleiro, «Vosso humilde servo sou. «Se do trato meu grosseiro, «Que aqui consumindo estou, «Vos pode o uso ser grato, «Partiremos do meu trato.
RUY.
«Graças mil bom peregrino, «Deus vos dê feliz successo «Até o vosso destino «E bem assim no regresso. «Ao Apostolo divino «Bom Romeiro o que vos peço «É que na vossa oração «Vos alembreis d'este irmão.
ROMEIRO.
«Dizei-me, bom Cavalleiro, «Se com o nosso Rei andais, «De Pedro Affonso o escudeiro «Que nome tem, que signaes? «Dizem-me ser tão guerreiro, «De tal pórte, e de obras taes «Que as gentes na lide espanta «E fóra d'ella as encanta.
RUY.
«Esse escudeiro que dizes «De Ruy o nome tem, «Dos signaes para que ajuizes «Elle mesmo a ver-te vem. «Mais não busques nem pesquizes «Novas; se as trazes de alguem, «Falla palavras seguras «Que eu sou esse que procuras.
ROMEIRO.
A nova de que ora tracto, Senhor, é tão delicada, Que heis perdoar o recato Com que ha de ser confiada. Dizei-me, onde existe um matto Com um penedo musgado, Onde na noute apparecem Sombras que se desvanecem?
RUY.
Onde existe?...... O atrevimento Quem te deu de pergunta-lo Venha de sangue sedento Em proprio, e armado indaga-lo; Que á face do firmamento Eu juro que hei de ensina-lo A não juntar a ousadia Á mais baixa covardia!
ROMEIRO.
Por Christo! não te enfureças Escudeiro generoso, P'ra que a verdade conheças Traz-me acaso venturoso. As apparencias são essas, Mas em caso duvidoso Quem a apparencias se afferra Muitas vezes troca e erra.
Attenta no que te digo Que quem partiu me dictou: --Tu me salvaste de um p'rigo A que o padre me guiou, Fujo-te, o padre é quem sigo, Foi elle quem te espiou, Quem te seguiu á espessura Da noute na sombra escura.
Mal par'o buscar te apartaste O Padre me appareceu, Tu enganado ficaste Só elle o engano teceu; Mas se acaso te agastaste Com este proceder meu Sabe que maior desgraça Do que a tua em mim se passa.
Essa, que p'ra sempre grata Te prometteu jurou ser, Bem longe de ser ingrata, Vai muito além do dever; Amor a consume, e a mata, E se t'o ousa dizer É com a esperança perdida De mais t'o dizer na vida.
Distancia, muralha armada E das seitas o rancôr Com barreira triplicada Circumdam a sua dôr: De saudades definhada Triste victima de amor Será de Fatima a sorte Suspirar até á morte.--
Assim carpindo a formosa Ouvi, que nunca enganou, Essa cuja voz piedosa Liberdade me alcançou, Ouvi-lhe a queixa afanosa Que puro amor lhe arrancou. Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia A paz no ceo, na terra a alegria.»--
Em quanto assim fallava o viandante O alforge e o bordão alevantava, E mal que terminou, no mesmo instante Da cristalina fonte se apartava. O enternecido, transportado amante Debalde uma, e mil cousas perguntava, Mais não volveu resposta o peregrino, E mudo foi seguindo o seu destino.
FIM DO CANTO TERCEIRO.
CANTO QUARTO.
Mas quem póde livrar-se por ventura Dos laços que amor arma brandamente Entre as rosas, e a neve humana pura, O ouro, e o alabastro transparente? Camões, Lus., C. 3.º, E. 142.ª
Da socegada noite o astro cadente P'ra plaga occidental já se inclinava: Precursora do Sol resplandecente A matutina estrella scintilava. Do Téjo sobre a placida corrente Nem a mais leve brisa volitava, Jazia a folha immovel no arvoredo Tudo dormia socegado, e quedo.
Apenas o silencio prolongado Lá do longinquo charco interrompia A grasnadora raã, do ramo alçado O triste mocho, que agoureiro pia. Eis que ao longo do rio socegado Um fraco som parece que se ouvia Compassado, moroso, e similhante Ao surdo murmurar de agua distante.
Distingue-se melhor, em força cresce Pouco a pouco se vem approximando, Com o murmurio das aguas já parece Ouvir-se o som do lenho em lenho dando, Saltando a limpha a espaços resplandece, O cristal se desliza sussurrando. «Alerta companheiros com presteza «Os remos esforçai, que é certa a preza!
Assim brada uma voz, e vigorosos Montam nove o batel, que a sombra escura Dos salgueiros encobre, que viçosos A orla adornam da corrente pura: Oito aos remos se lançam pressurosos, Em quanto o Chefe empunha a cana dura, Guiando a barca, que qual seta vôa Ao mourisco batel, que tem na prôa.
«Nazarenos!... na lingua arabia grita A gente do batel sobresaltada. «Nazarenos» bradando, esforça, excita O maioral a gente ao remo usada. «Leva remos p'ra já, raça maldicta, «Rendei-vos, perros, ou ireis á espada, Gritam da barca, que veloz singrando Vai o batel dos mouros alcançando.
«Lança o croque, a fateicha, afferra, atraca, «Que não possa escapar-se a gente infida, Brada o Chefe Christão, que prompto ataca O batel que desiste da fugida. Por defende-lo o mouro a espada sacca, Trava-se atroz peleija tão renhida Nos barcos afferrados, qual na terra Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.
Do christão bando ao impeto primeiro Dos infieis o barco fôra entrado, Não sem que tres christãos o derradeiro Termo houvessem nas aguas encontrado; Mas logo, atraz dos bancos do remeiro, Peleija o bando mouro intrincheirado Como quem não curando já da vida Antes do que captiva a quer perdida.
Brilha no ár vibrando a espada núa, Penetra pelas armas a estocada, Céva no roxo sangue a raiva crúa Do talhador alfange a cutilada. Nenhum pensa em ceder, nenhum recúa Em quanto a força em sangue derramada Ao braço não fallece, e a mão pendente Não deixa o ferro matador jacente.
Já dos nove christãos que accommetteram Tres a morte nas aguas encontraram, Cinco do peito aberta a vida deram Que á estocada os mouros lhe arrancaram; Mas as vidas bem caras lhes venderam Que oito tambem dos perros expiraram, E dos sete que restam, tres feridos Vão a vida exhalando entre gemidos.
Mas o Chefe Christão só no perigo Crescer sente o valor co'horror e estrago, Qual raio abrazador sobre o inimigo Cahe, bradando em voz alta «San-Tiago. Morte, espanto, e terror leva comsigo, Faz-se o batel de sangue um bruto lago, Onde o maioral mouro acaba a vida E o Christão Chefe a dextra tem ferida.
Dos mouros uns ao ferro a vida entregam Outros da barca pavidos saltando Escapados á morte á margem chegam Com o sangue as puras aguas maculando. Assim ao só Ruy a barca legam, Que era elle o que indomito pugnando Tinto no proprio sangue generoso De tantos triumfára valoroso.
Ruy, que junto aos muros de Leiria, Principal instrumento da victoria, O que perdêra em paz, e em alegria Co'indomito valor ganhára em gloria, Que Affonso prezador da valentia, Conservando seus feitos na memoria, Quando á mão de Mafalda a mão ligára Com pompa augusta Cavalleiro armára,
E depois, quando o genio seu guerreiro A empreza concebeu agigantada De surprehender com bando aventureiro, Com imprevista, subita escalada, O sitio forte, erguido, e sobranceiro, Onde a Virgem Irene sepultada Do Téjo, que soberbo aos mares vem, Por milagrosa campa as aguas tem,
Para que gente moura, ou rica preza Com mais difficuldade lhe escapasse, De Ruy commettêra a gentileza Que nas margens do Téjo se emboscasse, E com a usada, indomita braveza Qualquer batel no rio lhe tomasse P'ra que os de Agar vencidos não sentissem N'agua ou terra por onde lhe fugissem.
Com animo esforçado o bravo moço Assim cumprido o real mando havia, E dos mouros com o barbaro destroço Das feridas o sangue confundia. Da desigual peleija o alvoroço Que de Ruy dobrára a valentia Cessado tinha, e o braço seu ferido Sente com o corpo já desfallecido,
A ferida estancar em vão procura Co'a mão esquerda o Joven animoso, Que a mão, co'a dôr pungente mal segura, Recusa o ministerio caridoso. Do sangue á perda emfim cede a natura, Succumbe á dôr o moço vigoroso. Seu corpo sob as armas desfallece, Cahe prostrado na barca que estremece.
Mas antes que do Téjo na corrente Fosse a ordem real executada, Pelo ardente valor da christãa gente Com temerario arrojo era assaltada De Santarem a arce, que imprudente, E no escarpado accesso confiada, De Hauzeri sob o mando, que a regia, O poder dos de Christo escarnecia.
Meias adormecidas, sem cuidado As vélas sobre o muro mal vigiam, Quando a escada fatal alevantado Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam. Acorda tarde o mouro alvoraçado, Que os confusos clamores desafiam, Que os Christãos da muralha já senhores, Em breve as portas entram vencedores.
De Affonso no poder cahiu dest'arte Aquella, que no cume se assentava, Soberba dominando a toda a parte A campina feliz, que o Téjo lava. Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te De fortes torreões, co'a gente brava Procurar preservar-te e defender-te, Se uma noute bastou para render-te.
Noute cruel e horrivel, em que o córte Da espada anniquillou a audacia tua! Em que a tyranna, despiedada morte A fome saciou barbara e crúa! Em que rios de sangue por tal sorte O fio fez correr da espada núa, Que apenas a seus golpes escaparam Tres, que o fugido alcaide acompanharam.
De Sevilha em alta torre O Rei mouro está sentado: D'alli co'a vista discorre Pelo campo dilatado Que o Guadalquivir percorre.
Eis que p'ra banda do rio Quatro vê vir cavalgando. Um dos quaes o senhorio Parece que tem do bando, Que segue o seu alvedrio.
Vem todos de pó cobertos, Os ginetes vem cançados, Mostras claras, signaes certos De marchar afadigados Mostram aos olhos expertos.
Por Deus!» o Rei mouro brada-- Do presago coração O agouro não me agrada! Trazem nova de afflicção Esses que vejo na estrada.
Aquelle que vem na frente No cavallo mais formoso, É Hauzeri certamente, Que contra o Christão fogoso Accode a pedir-nos gente.
Pelo Profeta vos digo, Que se agua aos brutos não dão Santarem está em perigo De em breve cahir na mão Do Christão nosso inimigo;
Porem se a sêde que tem Aos corceis deixam matar, É tomada Santarem, E a nova funesta a dar Fugitivo Hauzeri vem!»--
Mal do Rei mouro acabavam Os discursos agoureiros, Que logo ao rio chegavam Os cançados cavalleiros E beber aos brutos davam.
Não tarda que desmontado Ante o mouro commovido Tivesse Hauzeri narrado O desastre acontecido, O caso desventurado.
Como Affonso se partira Com sua bellica gente, Como a marcha lhe encobrira, Sobre a villa confidente Como inesperado cahira:
Como as vélas surprehendidas São no muro degoladas, As escadas erigidas, As muralhas assaltadas, E as fortes portas partidas:
Como a gente, por tal sorte De susto e trevas tomada, Ou passa do somno á morte, Ou corre desacordada Encontrar da espada o córte:
Como emfim, perdida a esperança, Da arce os Christãos senhores, Cevando-se na matança, Se esquivára aos vencedores, A buscar prompta vingança,
E das aguas confiando A filha, que preservára Com tres só, dos de seu mando, Pr'a elle Rei caminhára Submetter-lhe o caso infando.
Assim os mouros souberam De Irene os muros tomados; Grande terror conceberam, Ao vêr a quanto arrojados Os de Christo se atreveram.
Porem do Téjo á placida corrente; As barcas sem governo abandonadas, Pouco a pouco do rio brandamente Foram ás verdes margens encostadas: Das aguas no remanso mollemente, De verdes espadanas rodeadas, Com o descer da maré firmes ficaram E no lado bojudo se inclinaram.
Á luz volve Ruy, renasce á vida; Mas qual surpreza, qual doce portento! Já não goteja o sangue da ferida, Já o não punge a dôr e sofrimento; Ao recobrar a sensação, perdida Do sangue no espectaculo cruento. Abre os olhos, contempla a formosura Que qual sonho perdera na espessura.
Em vez da scena barbara horrorosa, Onde á força da dôr ficou jacente, Volve a si, reclinado na viçosa Relva, que esmalta a borda da corrente. Co'escudo, e lança, a espada bellicosa Dos ramos de um salgueiro está pendente, E a matutina brisa fresca, e pura Junta o sussurro ao da agua que murmura.
Jaz a seu lado o elmo desprendido, Do duro peso a frente libertada; O peito, antes das armas opprimido. Livre a aura respira embalsamada; Com tella delicada está cingido O braço, que ferira imiga espada, E a linda moura, lagrymas chorando, Lhe está no seio a frente sustentando.