Ruy o escudeiro: Conto

Part 2

Chapter 2 3,230 words Public domain Markdown

Ai! daquelle, que atrevido Com temeraria ousadia Do Leão adormecido Os furores desafia! O animal irritado, De crua raiva espumando, Corre o campo, arrebatado Morte e ruina espalhando: Com seus urros espantosos A bronca serra estremece, A luz do raio esplandece Nos seus olhos furiosos. Força não ha tão potente Que a carreira lhe embarace, Que a garra não despedace, Que não rasgue iroso o dente: Té que em fim o imigo alcança, E no côrpo ensanguentado Partido, e dilacerado, Séva as iras e a vingança.

Assim de novo a trompa bellicosa Nos valles retumbava, Assim de Affonso a gente valerosa Já de novo se armava, E as bandeiras, que as Quinas adornavam Os Alferes de novo ao vento davam.

Nobres, e ricos-homens á porfia Se apromptam sem demóra A castigar dos mouros a ousadia, E em lide vencedora Punir os damnos, com que Ismar irado Todo o transito seu tinha marcado.

O escudo embraçou p'ra nobre empreza Pedr'Affonso incansavel, Ao Rei da crua guerra na aspereza Consorte inseparavel, E com elle Ruy para a vingança Com ardor empunhou a herdada lança.

Moveu-se a gente bellica segura Na esperança da victoria, Que a quem temer não sabe a lide dura Nunca desmente a gloria, E n'um teso, ao Castello apropinquado O campo expugnador foi collocado.

De annoso pinheiro, Que em frente se alçava Do campo guerreiro, Nos ramos pousava Um corvo agoureiro Que abrindo o rostro infausto, e ás azas dando, Parecia estar os mouros malfadando.

Os de Agar bramaram Quando alevantadas Em frente enchergaram As Quinas sagradas, E irosos juraram Illeso conservar o logar forte Seus muros defendendo até á morte.

Alcaide da gente Seu brio excitava Hauzeri valente, Que a lança empunhava; Mouro forte e ardente, Entre os do bravo Ismar um dos primeiros Denodados, e intrepidos guerreiros.

Com garbo, e presteza Discorre a muralha, Dispondo a defeza, Prevendo a batalha, O alcaide, e a firmeza A audacia, e o valor no rosto ostenta Com que dos seus a galhardia augmenta.

Ao lado de Hauzeri bella apparece, Piedosa vista em lance tão p'rigoso! Filha linda qual luz quando amanhece Ao romper d'alva em dia caloroso, O turbante, que a frente lhe guarnece Remata alvo penacho precioso Em quanto vão os zephiros brincando Com os anneis sobre os hombros fluctuando.

De seda as calças tem da côr da neve, Sobre ellas desce a tunica bordada, Cerulea faixa a cinta circumscreve, Qual a hastea do lirio delicada, Cobre o virginal seio a tea leve Onde a seda co'a lãa fôra tramada, De vermelhos coraes um fio brando Do collo airoso a base contornando.

Suaves de Fatima os olhos eram, Vivos ao mesmo tempo e magestosos, Quaes unicos os nossos climas geram, Climas caros ao Sol, climas ditosos; Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam Quer languidos, quer meigos, quer irosos; Olhos taes, que se pranto derramaram As mesmas brutas penhas abrandaram.

Nas pudibundas faces reluzia A viva côr da nacarada rosa, Que em leve gradação se esvaecia Pela macia pelle melindrosa; Virgem, filha gentil do meio-dia, A côr tinha morena, e tão formosa, Como a que a luz de um Sol claro e brilhante Communica do prado á flôr fragante.

Da larangeira em flôr com o deleitoso Aroma o ár da tarde embalsamado Cede em suavidade ao amoroso Hálito de seus labios exhalado. O murmurio do arroio saudoso Entro meudos seixos derivado, O meigo sussurrar do brando vento, Menos magia tem que o seu accento.

Quem viu a vermelha rosa N'um ramalhete de flôres De todas a mais formosa Quer nas formas, quer nas côres: Quem da noute socegada No silencioso véo Viu a lua prateada Entre as estrellas do céo: Quem na belleza prestante Do palacio, ou templo santo Viu a corinthia elegante Que remata o molle achanto: Quem entre a familia leve, Habitante da espessura, Viu a pomba côr da neve, Vivo emblema da candura: Não viu mais que uma imperfeita Imagem das maravilhas, Com que Fatima deleita Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.

Porem, já sequiosos da vingança Os Christãos se aparelham p'ra peleija. Em batalhas o Rei divide as lanças, Marcando a cada uma quem a reja: P'ra o assalto prescreve sem tardança De cada Capitão qual dever seja, A qual compete de ir na frente a gloria, A qual mais tarde ha de colher victoria.

A aquelle, que no nome, qual no peito Tem dos fortes a nobre galhardia, Entrega o grande Affonso satisfeito. Entre as batalhas, a que a frente guia: Na mesma linha põe e de igual geito A que o pendão de Mem Moniz seguia; Bem como a forte gente, cujo ousado Valor tem vido a Sousa confiado.

As reservas intrepidas e ardentes, Onde a lucta attrahir maior perigo, Viegas com Martim, e outros valentes Promptos conduzirão sobre o inimigo; Porem de Pedro Affonso armipotente Braço e conselho o Rei quer ter comsigo; Nem desdenha reter junto a seu lado O Joven Escudeiro denodado.

As trompas guerreiras O signal entoam, Ao combatte voam As bravas fileiras. Os mouros defendem Debalde a campina, Debalde pretendem, Que os Christãos bradando Co'a lança arremetem, A quanto accommettem Rompendo e prostrando.

Qual da serra alpina Partiu destacada A rocha gelada, Que o valle domina, E em forças crestando Na queda espantosa Co'a massa assombrosa Vai tudo rompendo; Assim as batalhas Aos mouros forçavam, E em fuga os lançavam Ao pé das muralhas.

Na rocha escarpada O mouro confia; O Christão porfia, E a rocha é trepada. Embora, galgando Por entre os rochedos, Inteiros penedos Descendem troando: As penhas, nas penhas Caindo, arrebentam; Heroicas façanhas Façanhas sustentam; Setas sibilantes Cruzam por milhares Das fundas girantes Com os tiros nos ares.

Em quanto os archeiros A morte arremedam, Mais brava os lanceiros Já lucta começam, O escudo, a couraça, A malha cerrada, De morte esfaimada A lança transpassa, E aos golpes da espada O elmo partido No craneo fendido Lhe franqueia a entrada.

A escada tremente Á muralha erguida Já foi erigida Pela ousada gente; Do escudo coberto, Com o ferro empunhado, Mais de um segue ousado No ár trilho incerto, E sobre as ameias Mais de um temerario, Entrega ao contrario O sangue das veias.

A pugna engrandece, Redobra a fereza, Do ataque e defeza A teima recresce. Já os muros altos Por todos os lados Sentem renovados Continuos assaltos; Hauzeri no emtanto Resiste esforçado, Fero e denodado Desconhece o espanto; Tal, já quasi exangue, Javali ferido Com o dente buido Derrama inda o sangue, E a um tronco acuado, O collo cerdoso Revolve animoso A um, e outro lado.

N'isto o intrepido Affonso, a si chamando As reservas, que cauto tem poupado, O decisivo esforço emfim tentando, Ao assalto as impelle denodado. Mal das gentes desliga o regio mando O valor tanto a custo sopeado Armas, clamor de guerra, e tubas soam, E contra o mouro irrisistiveis voam.

De todos o primeiro ao morro avança O mancebo Ruy leve, e esforçado, Os penhascos transpõe sem mais tardança Que a anta o precipicio congelado; Fere, derriba, e mata a herdada lança, Foge o mauro tropel desordenado, Ruy segue qual raio a rôta gente Pela porta, que aos seus torna patente.

Por ella ruina e morte Penetra, de horror cercada, O valor fallece ao forte, Com a esp'rança abandonada. Cada qual as armas lança, Cada qual arrója a espada. O vencedor na vingança Irritado se enfurece, Céva as iras na matança, A humanidade estremece, Mas a sanha do soldado A sua voz desconhece: Nada p'ra elle ha sagrado, E na crueza incendido Se crê pelo ceo armado, Sobre o infeliz vencido Julgará infidelidade Sentir-se compadecido; Nem o sexo nem a idade Salva do ferro cruento, E de horror e crueldade É o penhasco inteiro um monumento.

O Sol cobriu de horror a clara fronte, Espessas negras nuvens o toldaram; As nevoas sobre a borda do horisonte Da roixa côr do sangue se pintaram; Os córvos carniceiros sobre o monte Com o faro da atroz prêza esvoaçaram, E enlutados os ceos, a noute fria Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.

Farto o soldado emfim de crueldade, Extinctos quasi os miseros vencidos, Amainou pouco a pouco a tempestade, Cessaram os clamores, e os gemidos, Já o Chefe recobra a authoridade Sem força entre os primeiros alaridos, E da victoria no seguro goso Abandonam-se as gentes ao repouso.

Mas Ruy, cujo joven peito encerra O preceito da Mãi, do Pai legado, O descanço dos olhos seus desterra, Vagando no Castello desolado. De quente sangue vê fumando a terra, O cadaver encontra abandonado E o misero, que em mais tyranna sorte Sem asar de viver lucta co'a morte.

No peito o coração em horror tanto De Ruy se apertou, a alma sensivel Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto, P'ra quanto não é fera a scena horrivel; Não podendo suster amargo pranto, Quasi maldiz victoria tão terrivel, Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo Se entranha para o centro do Castello.

Da menagem a torre alli se erguia, No mais alto do morro alevantada, Torre rectangular que descobria Em redor a campina variada, Lá na alta noute, inda hoje triste pia Na muralha com o tempo descarnada O infausto mocho, e no seu seio escuro Se abriga contra a luz morcego impuro.

De vigia servia o cume erguido, Na parte media as armas se guardavam, No mais baixo recinto denegrida Em prisão dura os crimes se expiavam. Por caracol estreito, e retorcido Os planos entre si communicavam. Na masmorra o soldado fatigado Não tinha a aquelle tempo penetrado.

Na torre entra Ruy, e parecia Fatidico o instincto que o guiava; Á medida que o caracol descia Ancioso seu peito se agitava, Na escuridão completa se immergia, Palpando o muro os passos tenteava, Quando na marcha subito impedido Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.

Estremece o mancebo co'a surpresa; Mas prompto do repente recobrado, A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza Sente o tacto macio e delicado De anneladas madeichas na leveza, N'um seio feminil brando, agitado; Mais não hesita, o corpo em braços toma, Fóra da torre com o fardo assoma.

Mas o corpo que leva entre seus braços Sem movimento está, e a voz perdida, Pendem-lhe os membros com o mover dos passos Qual a vide de olmeiro desprendida; Se o coração, batendo por espaços, No debil ser não revelára a vida, O mancebo por certo acreditára Que da morte os mysterios profanára.

Mais o fardo apertava contra o peito, Mais do mancebo o peito se agitava. Parecendo-lhe sentir passo suspeito Que apoz elle nas sombras caminhava, A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito Entra a mata, que a um lado a serra brava Selvatica produz, e na espessura Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.

Qual pasmo sem igual, quando encarando Aquella, que das trevas arrancára, Da lua lhe revéla um raio brando Do peregrino rosto a forma rara; Quando, no vulto immovel attentando, Descobre do mancebo a vista avára As bellezas, que prodiga a natura De Fatima juntou na formosura.

A pallidez da morte realçava Merencoria a expressão de seu semblante; Os apagados olhos lhe cerrava A palpebra de cilias abundante; Do seio, que opprimido palpitava, Parecia que um suspiro a cada instante Ia partir, que o moço a vida déra Se nos labios gentis o recolhera.

Extatico de pasmo e de surpreza Jaz Ruy com tal vista captivado, Sem cogitar de tanta gentileza Qual seja o miserando infausto estado. Co'a alma em goso estranho absorta e preza Ficára o moço alli como encantado, Se na Bella afllicção mais dura e forte Não parecesse estender o véo da morte.

Contrahiram-se as faces melindrosas. Os membros delicados se obduraram, Os labios virginaes, murchas as rosas, Com um moto convulso trepidaram, De suór frio as gotas abundosas Pallida a frente, e o collo lhe banharam, Alevantou-se o seio seu mimoso, Tomou-se o respirar mais afanoso.

O imprudente Ruy sahe do lethargo Recobra com o terror o pensamento, Do abandono da triste se faz cargo Naquelle transe horrivel de tormento; Dos olhos lhe rebenta pranto amargo, A Bella aperta ao peito tão violento Como quem quer partir com ella a vida, Ou com ella a existencia ver perdida.

Não foi do moço inutil o transporte, Que a Bella entre seus braços estreitada; Ou fosse por que assim o quiz a sorte, Ou milagre de amor: reanimada, De subito escapando ás mãos da morte. Move o collo, ergue a frente debruçada, Cessa a suffocação, livre respira, Abre os formosos olhos, e suspira.

Na mesma situação mais de um instante Um e outro ficaram sem fallar-se; Elle de puro goso delirante, Ella como quem busca recordar-se: Mas breve de Ruy vendo o semblante, Sentindo entre seus braços estreitar-se, D'elles se arranca, e em pranto debulhada, Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.

«Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade «Entrada pode ter dentro em teu peito, «De uma innocente a misera orfandade, «Desamparo, e miseria tem respeito! «Sei que cahi na tua potestade; «Mas antes de sentir o seu effeito «Morrerei!......» Disse, e as renascidas rosas Pudibunda escondeu nas mãos formosas.

«Que do Deus que nos ouve um raio ardente «Te vingue, e me anniquille neste instante, «Se um sentimento indigno esta alma sente «De que haja de córar o teu semblante! «Perde o terror, oh Virgem, tens presente «Um amigo, um irmão cuja constante «Ambição será só de obedecer-te «E contra qualquer perigo defender-te!»

Assim fallou Ruy, e alevantando A prostrada Fatima, em mil maneiras Foi seu terror primeiro dissipando, Com gestos, com palavras verdadeiras. N'um penedo que cobre o musgo brando A Virgem se assentou, co'as lisongeiras Expressões de Ruy cobrando alento, Sentiu raiar a esperança em seu tormento.

FIM DO SEGUNDO CANTO.

CANTO TERCEIRO.

Onde está aquella imagem pura, e bella Artificio divino entre nós raro? Onde aquelle olhar brando, que tão caro Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella? Ferreira, Soneto, 15.º

FATIMA

Cavalleiro, se é verdade «O que acabas de dizer, «Na minha triste orfandade «Só tu me podes valer. «Não buscarei disfarçar-te «Qual é minha condição, «De tudo vou informar-te, «Ou sejas sincero, ou não.

«Nas terras da Andaluzia «Mouro altivo me gerou, «Cujo nome e valentia «Longe a fama propagou. «De seu braço o nobre Ismar «Conhecendo a fortaleza, «D'estes muros confiar «Quiz a guarda e a defeza. «Do Téjo a margem deixada, «Onde outra arce regia, «Mandou-me vir malfadada «Para a sua companhia. «Sobre o perigo a que me expunha «Saudade lhe déra antolhos, «Que elle em mim seu prazer punha, «Que eu era a luz dos seus olhos!

«Nascendo perdi a Madre, «Que em seu seio me formou; «Mas achei tudo no Padre «Que amoroso me creou. «Quer na tregoa socegado, «Quer na fadiga guerreira, «Jámais fui d'elle apartada, «Antes sempre a companheira. «Quando, ainda tenra infante, «Nos campos o acompanhava, «Sobre o cavallo possante «Um captivo me tomava; «E quando em forças crescida «Quiz-me elle mesmo ensinar «A tomar nas mãos a brida, «Os ginetes a domar.

«Ora correr me fazia, «Dado ao venatorio trato, «O gamo, que parecia «Nadar nas pontas do matto; «Ora..... Mas ha! que aproveita «Recordar carinho seu?.... «Minha desgraça é perfeita, «Já não vive o Padre meu! «Não vive; que se vivêra «Por certo que a filha cára «O seu braço soccorrêra, «E a todo o custo a salvára!

«Hauzeri meu Padre é morto!... «Cavalleiro, ah por piedade, «Se desejas dar conforto «Á minha dura anciedade, «Corre ao campo da batalha, «Ao posto o mais arriscado, «Lá na torre, ou na muralha «Acha-lo-has traspassado. «Do seu escudo brilhante «Aro de ouro em torno gira, «De ouro e purpura o turbante «Tem por tope uma saphira: «É seu alfange pendente «De rico talim bordado, «Obra da filha, e presente «Destinado a melhor fado! «Corre, corre, cavalleiro, «Se tens de mim compaixão, «Se teu peito é verdadeiro, «Se te doe minha afflicção: «Busca o cadaver querido, «Faze-o á filha entregar; «Que eu possa o sangue espargido «Com o triste pranto lavar: «Que eu possa triste e mesquinha «Dar seu corpo á terra dura, «E de quanto caro eu tinha «Expirar na sepultura!»

Assim a Virgem moura se exprimia, Mais de um suspiro as vozes lhe cortava, E o pranto, que dos olhos lhe corria, Da linda face as rosas lhe banhava. O mancebo dos labios seus pendia Que no ardor de servi-la se abrazava, E mal ella acabou, aos pés prostrado, D'esta sorte lhe volve transportado:

«Por piedade, anjo de graça, «Mitiga a acerba afflicção «Que a alma me despedaça, «Que me parte o coração. «Salvarei, pois o desejas, «Esses despojos presados; «E se ao furor das peleijas, «Foram seus dias poupados, «Verás teu pai a teu lado, «Oh bella, n'um curto instante: «Feliz de adoçar teu fado «O teu extremoso amante!»

No semblante da Virgem peregrina Rubor vivo a taes vozes apparece; Qual ao raiar da aurora purpurina A viva côr nas nuvens resplandece; Em seu peito porem, que a dôr domina, A surpreza de prompto se esvaece, Com gesto firme, e com solemne accento Confirma assim do moço o nobre intento.

«Cavalleiro generoso, «Segue o proposito teu. «Se o ceo para mim piedoso «Salvo tem o Padre meu, «Se ve-lo, abraça-lo ainda «Eu dever a teu cuidado «Pela gratidão infinda «Terás meu peito ligado; «Mas se o Padre, vivo, ou morto, «Me não fôr restituido, «Não busques p'ra mim conforto, «Meu fado ha de ser cumprido. «Jámais Fatima opprimida «Escrava de um vencedor, «A tal extremo abatida «Servirá sob um senhor; «Que antes de ver-me aviltada «Saberei da abjecta sorte, «Da condição exasperada, «Achar allivio na morte.»

«Não por certo, exclama o moço Prompto o corpo alevantando, «Se teu mal prevenir posso, «Eu vôo já ao teu mando. «Alenta o peito formoso, «Minóra tanta afflicção, «Confia no ceo piedoso, «Angelica perfeição; «Que aqui pela chamma ardente, «Que n'este peito ateaste, «Juro, que ante o Sol nascente «Verás esse que choraste.»

Diz, e qual parte a pedra sibilante Da volteada funda despedida, De Fatima veloz parte o amante, Obedecendo á ordem recebida, De penhasco em penhasco salta avante, Desdenhando escolher senda seguida, Chega ao Castello, ao campo de batalha, Ás torres, á mortifera muralha.

Uma vez, outra vez corre o recinto; Mas em vão, com o empenho não atina. Cada corpo examina em sangue tinto, Busca de balde, e em buscar se obstina; É mais forte o amor do que o instincto, Entre as scenas de horror, entre a ruina Só Fatima divisa e seu tormento, Suffoca amor todo o outro sentimento.

Desenganado de que em vão procura, Volve Ruy ao centro do Castello, Com um facho acceso desce á cella escura D'onde ha pouco arrancára o fardo bello; Interroga os soldados, a armadura De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo Nenhum lhe dá signaes; exasperado Volta outra vez ao campo ensanguentado.

Na pesquiza injucunda em vão porfia, Inutil tedio! infructuosa lida! Nem novas nem signaes achar podia, Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida. No emtanto com o raiar de novo dia Era a Lua no brilho amortecida, E as estrellas mais proximas do oriente Se engolfavam na luz do Sol nascente.

Do mancebo o valor succumbe á ideia Da exasp'ração do ser idolatrado; Fatima de antemão de afflicção cheia Contempla em todo o peso de seu fado. Por ve-la anhella; mas ve-la receia, Receia o seu pesar exasperado, Vacilla, treme; mas amor o excita E da matta na senda o precipita.