Chapter 4
Senhor! Em vossa caridade reparti vossos bens por quantos, infelizes, a fraqueza condena a mendigar dos fortes o seu pão, embora o orgulho os traga confiados em pérfidas grandezas traiçoeiras! Por esses que o destino arrasta na tristeza, no cansaço e desgosto de viver, porque em hora sinistra se apartaram do caminho da vossa salvação!... Deixai que chorem sua desventura, e em seu queixume ouvi a minha voz!... Deixai que chorem em doloroso exílio esses proscritos que jamais comungam com o cavador na bênção de criar na terra o nosso pão com o suor do rosto! À luz da aurora que o beijou no monte, juntai as lágrimas dos que vão chorando sua desgraça, sua perversão!... Fossem elas incenso e ouro e mirra que os débeis reis do mundo tributassem à sagração divina do escravo!... Resgatassem humildes todo o erro que os desprendeu da escravidão da terra!...
MALDIÇÃO
I
Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para lugares distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas, prisioneiros fieis dos seus regalos.
Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões abjectas, que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos vícios do infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da embriaguez, à indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga lacrimosa e tímida, ora cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez irada, revoltada. Vi os negros covís dos desgraçados que a opulência arrojou longe dos olhos para os monturos humanos da cidade,--não fossem os andrajos e os vermes confundir-se entre vestes de purpura manchando-as!
Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas faces como um viperino jacto de veneno, a procurar vingança; do rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração do que o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos, flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas de fome e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve consolo, que conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina essência o corpo enfermo e a empedernida e bruta animalidade.
Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia os soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência, lhe negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento louco das crianças.
E nenhum mais cruel tenho encontrado!
Em nenhum--e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e perversão.
II
Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que tem filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por todo o abrasado e ingrato espaço, tem de voltar ao poiso desprovida. Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho recusam os calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a fome, a sede, e a amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu amparo.
Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua sorte, oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue quereria dar-lhe; e sentindo-o a morrer de inanição, responde com os carinhos ao queixume da vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao corpo, mas jamais se abandona a ímpetos de cólera, só porque um ser amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e lacrimoso, o mantimento que carece para viver.
III
Que estranha aberração induziu o homem a negar a robusta caridade, comum, vulgar, no peito inconsciente?!... Que estranha perversão o fez acrescentar à indigência a crueldade, torturando, somente por lhes sentir as agonias, aquelas mesmas vidas que criou, carne da sua carne, almas da sua alma?!...
Discípulo de Cristo a quem adoras, por comunhão na sua vontade e anseio erguido à plena luz do entendimento que te mostrou irmãos nas ínfimas partículas, na argila e na poeira, como no coração, na rosa e em tudo quanto existe! Senhor soberano dessas forças terrenas formidáveis que dominaste e trazes por escravas em proveito do teu gozo e teu triunfo, convertendo-as do terror à mansidão, dócilmente vergadas ao capricho!... Por maldição de trágico império, em tenebrosa queda degradado, foste sujeito, louco, em teu orgulho de virtude e de crença e de isenção, a repassar de fel a dor dos próprios filhos!
PROFISSÃO DE FÉ
I
Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das abobadas se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a multidão das canas quando sobre elas sopra o vento norte.»
Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos, insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o fausto a divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de mentira e verdade, de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da cruz e da oração ao sagrado retiro em que confunde religião, vaidade, amor e ódio, fanatismo e doçura, mansidão, crueldade, perdão, vingança, cobardia e coragem, o nobre e o mísero, o sacripanta e o santo.
Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o resplendor de Deus no cálice e na hóstia se empana esmorecendo em nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das paixões mundanas.
II
Mas não te desamei, Senhor, porque assim fiz!...
Sempre que o coração tentou seus voos de candura, sempre que se sentiu sujeito a forças sobre-humanas para as servir guardando os seus mandados, no remorso e na dúvida, em todo o penar de angustia e em toda a esperança, em afecto e ternura, em sonhos de pureza, aspirando ao enlevo no Eterno, cansado deste mundo de fraqueza, ergui olhos chorosos ao azul, onde cintilam astros diamantinos, e invoquei-te, Senhor, meu Deus e Pai, a ti «que estás nos céus, nome santíssimo, para que tu me acolhas no teu reino e eu fielmente cumpra a tua vontade; para que me dês o pão de cada dia e me perdões quanto te dever, assim como aos meus devedores também perdoo; para que afastes de mim a tentação e de todo o mal me livres para sempre.»
E fui humilde então!... Nesses altares me despi totalmente da soberba e ajoelhei prostrado, submisso, a escutar tua voz e a adorá-la, religioso, confiado e crente, curvado como o canavial vergado ao vento.
DRÍADE ENFERMA
I
Pelo musgoso atalho da floresta, entre o tojo bravio e urzes austeras, fui saciar meus olhos na beleza e reanimar o corpo na carícia que o sol esquivo e brando de Dezembro frouxamente derrama através da espessura do pinhal.
A custo ia abrandando o frio da manhã. São curtas nesse tempo as horas tépidas. Mal se fundiram os gelos da derradeira noite, logo vem renová-los mais profundos a palidez de frígidos crepúsculos.
Experiente, já certo dessa lei que dos astros nos vem e é impreterível, sorvia com avidez a delícia breve que eu sentia fugaz, quase uma ilusão de transitórios sonhos luminosos.
E lembrava o Estio e a primavera!... Ali, naquela mesma floresta, ali busquei abrigo da violência dos abrasados dias inflamados pela calma do mês de Santiago. Ali me defenderam dos seus fogos as vastidões umbrosas impenetráveis. Ali ouvi passar no vale vizinho o sussurrar das águas que corriam a reanimar o prado emurchecido por aturadas horas refulgentes. Ali senti esse leve sorrir vindo da terra, desprendido dos borbotões das fontes do seu seio para redimir a vida extenuada, desfalecida à míngua de frescor.
Ali encontrei passando ao entardecer, em sua plena graça juvenil, como se alada rosa eu entrevisse, a moça que subia das lenturas fecundas do juncal a regalar seus gados com o pascigo, entre cantares ceifado alegremente, vibrando firme a foice, despiedosa, a traçar nos seus dentes a bonina mais branca, e o malmequer, e a mais esbelta haste do azevém onde já despontavam as palmas rígidas em que guarda a semente.
E eis que de novo a encontro agora na floresta, a essa mesma dríade que outrora, em perfumadas horas estivais, passou por mim turvando-me os sentidos de súbito embebidos, cativados, na gentil maravilha de seus gestos.
Mas quanto vem diferente e vem mudada!...
Que é da graça subtil que a envolvia, envolvendo na sua formosura os olhos confundidos, fascinados do latejar sadio que igualava o florir ingénuo da açucena?!...
Filha da terra e sua humilde serva, também ela conhece o outono e o inverno; também arrasta penas e fraquezas; também se empobreceu de seus enleios. Não fugiu ao rigor da lei comum. Enferma, traz enfermo o seu encanto; vai quebrada a magia do seu poder divino. Curvada sob o feixe de duros ramos secos que para seu conforto esforçada colheu de orgulhosos robles, castigada a frescura rosada dos seus braços pelos espinhos ímpios dos silvados, tisnada a face pela aspereza cortante das manhãs, é agora a lenheira paciente, mortificada e débil, imagem do trabalho e do sofrer, aquela ceifeira airosa que ainda há pouco foi para mim missionário feliz da alegria sagrada de viver, afortunada voz e alto pregão das seduções da terra, claro espelho de todo o seu amor.
II
Se em toda a vida passa a enfermidade, se a formosura é incerta, e se o lírio e a estrela e a nuvem e o mármore mais duro, e a alegria e o riso e a doçura infinita da bondade e a própria luz do sol são perecíveis; se a criação inteira que os olhos vêem e que a nossa alma sente, toda a beleza íntima e a do mundo, decai e desfalece, sofre e se apaga: se só tu és eterno, Senhor! em tua caridade e teu saber, e se a suprema harmonia, que é o teu sonho, não distingue o prazer e a dor, a caricia, o flagelo, a rosa e o cardo, por igual divinos em teu divino ser--se é esse o teu querer, bendita seja a hora em que encontrei a dríade enferma do inverno que em seu dissipado encanto e em sua mágoa correu a ensinar-me a crer em teus desígnios e me segredou louvor e obediência, a inteira abdicação em teu mistério!
MONJAS DO OUTONO
I
Ouvi cantar no monte as urzes roxas.
Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da manhã que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus braços, trigueiros como a terra onde se criam.
Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente que o tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo horizonte.
E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só quer dar vida.
Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado arbusto se afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão votado a rastejar porque o pascer contínuo dos rebanhos mais não consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do roble, entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que conduz à azenha encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos que só conhecem os rigores do norte--cantaram sempre e com a mesma voz as urzes roxas, monjas do outono.
Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio, renuncia da opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o encurtar do dia já promete, um sereno caminhar para a austeridade, aquele desprendimento sobre-humano que descreu das grandezas deste mundo, da ansiosa tormenta da ambição, e procura o resgate em singeleza--tudo eu ouvi cantar às urzes roxas, monjas do outono bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade entre ameaças ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos reinos religiosos da sua paz.
II
Senhor! Tu que me consentiste a graça de escutar a voz bendita com que no outono as urzes roxas vem a libertar-nos das dores de embriaguez obcecada que pôs sua ambição em querer muito, em vez de a consagrar à fortaleza de se sujeitar à lei que em teu mistério deste ao universo, não permitas, Senhor, que eu desfaleça! Enquanto a minha jornada não findar, que eu não deixe jamais de te escutar no canto benfazejo das urzes roxas, monjas do outono!
Possa eu beber com elas no seu cálice a suave resignação da sua pobreza, seu valoroso animo que afronta, cantando e derramando suavidade, pressentimentos que aos demais oprimem, esse cair da noite do inverno, seus flagelos, suas privações, o gelo, a morte, todo o seu cortejo de crueldades sem fim, inexoráveis!
A TERRA ESCRAVA
I
Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e humilde, serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio.
Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos; e há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o seu sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda, endurecida e nua, como triste proscrita da alegria, desamparada à beira do caminho, em vão sonhando caridade e gloria.
II
A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o mantimento e guia da jornada que à tua fé nos leva. Nem a estrela mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra estrela. Sintam os meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu querer de fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim a vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o calor!... Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das tristezas e das dores em que o solitário orgulho pena a culpa!
MISTÉRIOS DE CERES
I
O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros clamorosos. Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que os aquece, os tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam criancinhas.
E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas campinas os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas, bailando o seu delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E, ardentemente, o brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce pão que, quando alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa jornada da via dolorosa, via ingrata.
São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.
A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto a criação sonhou de grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta duma leiva até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever cumprido,--todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus escravos, obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua esmola, o pão, que por igual aviventa nos berços a inocência, renova a energia ao cavador, e piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros proscritos que em desgraça e no crime resvalaram--o pão gerado para criar o sangue é também sacramento que une a alma a todas as divinas forças que o geraram, partícula de insondáveis mundos e infinitos de poder e de amor.
O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija, consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à terra e aos céus e só a religião suspeita e adora.
II
Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o move e o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para sentir, prostrado em gratidão, tua eterna bondade generosa! Que por meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute o suor do rosto!...
É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda vida.
HORAS DO MEU PEITO
I
Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as horas da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos remansosos e os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas caem do bronze, lento e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas sejam ou benignas, leva-as o rio para o mar profundo, na sua imensidade vão perder-se.
II
Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu peito, quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na alegria, e todas elas as levassem celeres, na candidez das águas baptizando-as, a perder-se, Senhor, na imensidade da bondade infinita do teu seio!
ÁGUAS VIÚVAS
I
Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal adusto e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem e queimam.
Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia, encontraram a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes. Depois, como cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho apertado no sombrio vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos sentiram a liberdade das campinas que amorosas quisessem e se exaltassem em seu fecundante afago. Por fim, engolfando-se em mares insaciáveis, estéril se dissipa para sempre esse anseio de amor que prometia a rosa e o trigal e a sombra viridente e que, infeliz, nasceu só para sofrer, por negra sorte cedo condenado a jamais se expandir em formosura e nunca amassar o pão que mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes junto ao mar beijaram o pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e soberbas, e eis que o mar as vem beber e logo as lança nas suas profundezas insondáveis.
Foi seu destino serem infecundas!
II
«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra, para salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos açudes e para cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu folgar».
E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos, tanto ou mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a água a viuvez dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o campo pobre desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse os germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...
E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo, nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade agreste dos egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que lhes recebam seus anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre desenganos, e do mundo se apartam dissolvido o seu desditoso anseio benfazejo nas profundezas da desilusão.
Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos pulsando a par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:
«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem a viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus, os corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente para o florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses bens?!...»
III
Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade padece nesta vida quando à sua voz só responde a dureza das paixões e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda de espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras! Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir, saiba ao menos amar a desventura!
PUREZA AMARGA
I
A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras do monte e do rebanho.
E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.
E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.
Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de ondas salgadas quanta doçura tinha no seu cálice--como se por vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê sua amargura.
II
Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se por ela pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia pureza que se gera da neve cristalina da montanha.
TIRANIA DO FOGO
I
Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do incêndio que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em toda a vastidão onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos das suas chamas. É cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais ingrata dos fraguedos. É cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, de oiro precioso, o chão ainda gelado de Dezembro. E os renovos do sobro e o pinheiral, que entre os seixos avaros despontavam, em cinzas converteram a curta e tenra vida das suas hastes.
A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em sua austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, ou nos avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, tem por escrava toda a formosura, dissipa-a sem piedade em seus altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida mortal dos nossos olhos--são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo as inflamou.
II
Ser escravo, Senhor, é o meu anseio! Libertai-me o meu peito da miséria dos mundos vãos de vãs aspirações da vaidosa existência corruptível, e convertei-me em cinza o coração, na tirania de um amor ardente, por ele purificado e consumido--assim como o fogo abrasa o cedro e o roble, em chamas gloriosas redimindo na luz, que é vida eterna, do transitório orgulho da opulência que se nutriu das seivas da floresta!
FIM
ÍNDICE
ROSAS DO MEU CAMINHO AS TAÇAS DO BANQUETE A DOR E A VIDA MAIS FORTE QUE O MAR HUMILHAÇÃO BÊNÇÃO DO POENTE O SONO DO TRIGAL TERRA LACRIMOSA CULTO DE QUIMERAS ANSEIO DA MANHÃ A ASA DO REMORSO SERVAS DA LUZ TROFÉUS DO ESTIO LOUCOS DE HUMILDADE ORAÇÃO DOS LARES CANTARES DAS SEBES COMPANHEIRO E GUARDA REINO INFINITO PODERES DA TERRA PERPETUAS DO ROMEIRO PODER DO VERBO UNÇÃO DE GLORIA SACRO HOLOCAUSTO SAGRAÇÃO DO ESCRAVO MALDIÇÃO PROFISSÃO DE FÉ DRÍADE ENFERMA MONJAS DO OUTONO A TERRA ESCRAVA MISTÉRIOS DE CERES HORAS DO MEU PEITO ÁGUAS VIÚVAS PUREZA AMARGA TIRANIA DO FOGO
Casa Editora de A. Figueirinhas
PORTO
Paulo Combes
O Livro da Esposa, br. 500, enc. 700
O Livro da Dona-de-Casa, br. 500, enc. 700
O Livro da Mãe, br. 500, enc. 700
O Livro da Educadora, br. 500, enc. 700
Jaime de Magalhães Lima
Rogações de Eremita, br. 300
José Agostinho
A Mulher em Portugal, br. 500, enc. 700
O Caminho das Lágrimas, br. 600, enc. 800
Cristo (Poema), 1.º vol. br. 500
A Religião e a Arte, br. 100
Frederico Mistral
Mireia--Tradução de João Aires de Azevedo e Manuel Teles--br. 500, enc. 700
Bossuet
Sermões, vol. I, br. 500, enc. 700
Sermões, vol. II, br. 500, enc. 700
Maria Pinto Figueirinhas
Contos das Crianças, br. 300, enc. 500
O Livro das Maravilhas, br. 300, enc. 500
Os Serões das Crianças, br. 100
Pedir Catálogos da Casa Editora de A. Figueirinhas--Porto
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