Chapter 2
Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas, envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam, quando ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes, ocultando em bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no decair fatal do seu destino. E a terra de infinita misericórdia deixou cerrar na campa esse cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem que uma folha desmaiasse murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a alentava e, estremecido, dela recebia recompensa de fadigas carinhosas.
Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas, entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo ali desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra. Indiferente ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar. Nem um só veio de água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma só flor do prado se estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um só átomo de fecundidade se atrofiou em toda a criação! Aos cativos da vaidade e da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube chorar quem, transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o leite gerador.
II
E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera cabana, de colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e virgem, despido, tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados que a gente pobre ali ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.
Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das prisões em que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a semear, banhando sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a férvida energia com os arrancos heróicos do seu braço e o pulsar gigantesco do seu peito, o cavador criou verde abundância onde fora a infecunda e negra gândara, e tirou o pão e os frutos do chão áspero onde nem os silvados já medravam.
Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada, anunciou nos fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto dum benigno casal, servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o embalar do berço acompanhou com o rumor alado duma esperança essa vitoria que em torno se espraiava, dilatando-se na infatigável ânsia de remir pela seara farta e latejante os longuíssimos tempos de indigência, a que a ingratidão humana, criminosa, abandonara aquelas pequenas geiras devastadas. Mais tarde, em horas negras, tenebrosas, as ambições e a guerra assoladoras vieram separar o cavador dos filhos que criou para companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, labutando dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam sem pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a morte sobre os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a prostrar atrozmente o nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos afecto, protecção e piedade, o auxílio compassivo na desgraça e o sorrir de simpatia, quando a ventura ao passar o bafeja generosa. Outros, não mais felizes, seduzidos pela visão da cidade e seu engano, enfermos das demências do tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela própria vontade escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e de contínuo o movem e entesouram, fundindo num só cadinho incandescente a fome e o ferro, minério bruto e corações humanos, lubrificando maquinas com lágrimas e fundando o palácio em sepulturas, pondo a brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua crueldade, as ossadas dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, sem algum dia terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.
Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas da agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se esvai na tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da gândara, amando todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé que à terra o consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e renovou no repetir das estações a verdura e o pão e a sombra e o refrigério, sem lamento ou desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper da aurora ao cair da noite.
III
A terra que ele amou, amou-o também!...
Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando alegremente pela enxada; murchou endurecido o prado à míngua do sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva verdejante, quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua culpa não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os demais mas eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao despontar da aurora respondeu o jorro da água límpida tirada entre o mover estrídulo das rodas pelo jugo robusto que a elevava da frescura dos poços obscuros à claridade rútila dos céus.
Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo criador humilde do seu viço,--aquela mesma terra desdenhosa que, indiferente, sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença.
CULTO DE QUIMERAS
I
Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm devastado,--quase ao cimo da encosta--, voltei-me a olhar o vale e os montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os campanários que as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por necessidade instante de repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e ao prazer de esforçado caminhar preferi essa delícia calma de contemplar.
E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me enleado e preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos céus de claríssima gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do frescor das sombras da floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que cada qual se agita e é seu delírio.
Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me a caverna em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio ou sobre a pedra que caiu dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um deus protegia os lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os campos entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma vida só, vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se ocultava uma vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno, Hércules e Ceres, Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as Amadriades que viviam nos rios e nas árvores, todos tinham na terra seu quinhão, onde reinavam livres; e todos, nessa hora de visões, por mim passaram, severos ou folgando, rindo ou chorando, tristes e majestosos uns, outros alados, dizendo seus mistérios e incitando-me a que, adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu poder.
Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo, confiado ao império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na poeira, no vento, na folha e na neblina, em rochedos e águas e no murmúrio da asa mais leve do menor insecto, sorrindo, consolando e castigando, soltando com igual prodigalidade afagos e ameaças, esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a abundância e a fome, o mal e o bem, toda a infinda vibração das nossas almas.
Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou derruir, aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e inquirindo friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes celestes, benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no sangue fraco e impuro a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares alegrias e a serenidade, a exaltação suprema, a mais sublime, a consagração plena dos mortais em altares de religiosa poesia e de um dever mais forte do que a mísera carne transitória!
Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!...
Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e nos seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos traçaram.
II
No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a sua voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério, sacudindo a letífera inércia e o torpor em que a venenosa sede de saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho--senão, pior ainda!, por cobiça--, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e das ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.
Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar que a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então que ampares os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã afugentou.
Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das florestas, e os tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida me tiras as quimeras, irisada espuma capitosa da taça que gota a gota vou bebendo,--que lhe encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e mortífera amargura?!
ANSEIO DA MANHÃ
I
Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas, domados uns em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre essa multidão tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o dormir a custo afugentado;--crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem que no céu, pouco a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um véu, embargando o pregão da claridade.
Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas, vagueavam em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que é seu destino e glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes, deixavam conquistar-se pelos fachos da luz que além rompia.
Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no trabalho, reconhecendo toda a sua fraqueza e sujeição. No bronze solene que difunde os mandados austeros da oração, segredando-a, igual e única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e enfermos, à fera e à borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao mais timorato musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à firmeza invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses servos que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa mãe, banhando-a com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua bênção nos proteja e ampare; no palpitar do jugo aureolado pela própria exalação do espesso hálito condensando-se em frescores de Novembro, que a leiva bebe enquanto o ferro a rasga para os trigais:--em todo o ambiente cantava uma só voz religiosa, como nenhuma outra tão pura e casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá ouvir-se nos apertados templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho foram grandes perante o louco imaginar dos seus obreiros.
E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua força e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante de brilhos sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo filtro que repassa o coração e o inunda de amor quando o anima.
Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe ao encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e, mal a têm vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos vestidas de ouropéis que imediatamente deixam, por preferirem a doçura do manto lutuoso que em sorte coube à sua condição. Sem tardar, ei-las que voltam, prosseguindo na indecisa jornada flutuante; e--suave castigo dum orgulho ingénuo, bem de perto seguido de indulgência ou talvez de remorso ou contrição! as névoas renovavam seus combates, turvando a cada instante a opalina transparência da manhã.
Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro, isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre, até que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas, depois de haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.
II
Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã, tal qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas que me escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa, resgatada, a eternos reinos de bem-aventurança! Que a ténue irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes abrandasse as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa! E que ao fim em mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de luz perdida em águas cristalinas!
A ASA DO REMORSO
I
Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada despertam o povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre o rio erguem-se mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a pureza. Os píncaros severos da montanha desprendem da escuridão da noite a fortaleza. E na oficina e nos lares acordam fumos de carinhos e penas e trabalho.
E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência exausta de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a que a luz da manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma senti-me o escravo do ardor mundano, das cobiças, dos ódios, das vaidades, da cegueira que me oculta um irmão em cada homem e que me arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a exprobrar-lhe os erros, a mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade e de perdão e que ouvindo-a a deixei esmorecer, de culpa em culpa, traindo-lhe os mandados.
Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, cantou a toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. Comungava na taça da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta das cobiças e dos ódios, sem conhecer espinhos da ambição, confiando na suprema misericórdia que lhe alimente o sangue e o ninho e lhe module o inspirado enlevo dos seus hinos e a cada mágoa traga seu consolo, imaculada voz dum peito inocente, turíbulo sagrado, a toutinegra depunha no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir em busca de sustento.
Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da própria impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e tão cruel me induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, cerrados para o louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave cantava e eram uma oração, que eu esquecera e eram redenção.
II
Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor por ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável predestinada à consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, ensinou-me a invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, para a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em ti buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é também minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas horas de repouso e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus lábios; que para me sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo e o seu tumulto e assim purificado, assim armado desse escudo inviolável, fortalecido contra todas as tentações de desvario, atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me isentasse.
Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido o meu espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o pensamento e outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me lembrasse a culpa cantando os teus louvores e a tua grandeza.
Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus tesoiros e me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas aves, teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada aurora que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de infância que à minha mãe ouvi no seu regaço!
SERVAS DA LUZ
I
Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores, servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição estranha o segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a escuridão é densa e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o poente se toldou de sombras, começam essas flores a volver sua face para os lugares onde o sol há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba, subtil inspiração as ensinou a serem fieis à luz tão firmemente que nem a treva nem a tempestade nem a alvura do luar e a imensidade de astros brilhantes povoando o espaço puderam transviá-las e perdê-las naquela adoração do sol que é sua crença. Enquanto o sol se afasta divagando por ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu primeiro alento, o raiar da aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber seus fogos.
II
Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e deixas que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à morte, ignorando donde a luz se ergue--aqueles mesmos homens aos quais deste a consciência do amor da luz?!...
Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade, divina aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em tua graça, pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz voltar a minha face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos fatais da escuridão!
TROFÉUS DO ESTIO
I
Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que vertessem sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia e a treva, o Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus fogos incendiando-lhes a fecundidade.
Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O viço converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta. Murcharam os prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu frescor, levanta agora o vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra nua. Rolam no chão as palhas trituradas como restos de vidas insepultas.
São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na vitória, na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade santa e dolorosa.
Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão, para lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de doçura, para madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos salve dos golpes traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores aquela mesma terra que por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao despertar-lhe sua paixão constante de abundância, o seu fascinante arfar de formosura e a pródiga caridade do seu seio.
II
Abrase-me, Senhor, o teu ardor! Que se me converta em pó o mísero invólucro deste ser que nasceu para servir-te, e desfeito em teus férvidos alentos crie uma gota desse imenso amor que é o teu eterno cálice de vida!--Tal qual o Estio abrasa e queima a terra para transmudar em pão a rocha árida e fria, incendeia de amor meu coração para em tua fé remir os infiéis!
LOUCOS DE HUMILDADE
I
Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro, sobre a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos ensombrados das suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas, batidas pelas lufadas de Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio.
Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas, turvava a atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto sob bandos de nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas errantes, cinzas dispersas de apagados lares.
Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as suas neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta e é seu destino. E incessantemente a repetiam--assim como no coração volta a saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte no repetir da mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens.
Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as protegem e gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam enleadas nas hastes de robustos nenúfares, em cuja espessura habitam mais isentas da mortal violência das correntes.
Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as anima, chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que sofremos, pensando haver nascido para expandir-se e seguirem erradias seus caprichos na luz de mansas águas transparentes, também elas sentiriam afinal um cativeiro na dureza das hastes que as amparam e enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria imobilidade e à própria sorte?!...
Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas, arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da graça que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre ele um sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero rigor, sob o queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos ramos banhados em alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida promessa de doçura, alentos da primavera que suspeita e de cujas primícias de alegria será para nós o portador bem-vindo.
Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a ira e toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva, sorri na encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus combates. Rebelde ao vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das águas mais subido, repousa os nossos olhos, já fatigados desse tropel de lutas de extermínio, essa mancha de deleitosa cor e de brandura. Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa, afronta e vence a túrbida violência em que astros funestos dilaceram, fúnebremente, a terra desolada.
II
Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma, vem recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto emaciado estão marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as canseiras, velhice e privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo que algum dia entumeceu as veias duma face enamorada de ventura e prazer, e em ventura enlevando os que a buscavam. Aqueles sadios braços que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, são mal definidas sombras esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os olhos que brilharam amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos moços do arraial, esmoreceram todo o seu calor, amortecidos em descorados véus, quase sem luz.
Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na luz os seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em que resignada arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o sonho e outros sonhos trazendo em sua voz:
--«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»
III