Chapter 1
Produced by Pedro Saborano
JAIME DE MAGALHÃES LIMA
Rogações de Eremita
CASA EDITORA DE A. FIGUEIRINHAS
PORTO
Empresa Gráfica "A Universal".--Porto.
HOMENAGEM DO EDITOR
Rogações de Eremita
Composição e impressão Empresa Gráfica «A UNIVERSAL» de Figueirinhas & Mota Ribeiro, Lda. --Rua Duque de Loulé, 111--Porto.--
Jaime de Magalhães Lima
Rogações de Eremita
CASA EDITORA de A. FIGUEIRINHAS Deposito geral: Livraria Portuense de Lopes & C.ª--Suc. 119, Rua do Almada, 123--Porto.
_No ermo que eu percorro neste mundo,--ermo de corações cativos dos meus sonhos--ao suplicar dos céus a claridade na qual a alma habite e se engrandeça, deixei na terra gotas do meu sangue, onde a dor o soltou do peito ansiado por abundância de erros e de culpas e por amargura de infinitas mágoas, e onde jorrou seus cantos de alegria em louvor e contemplação da beleza eterna._
_E, como assim vulnerável tenha sido, misteriosa comunhão uniu-me àqueles, solitários e crentes, que na cruz da aspiração também sofreram. Muitas vezes me guiou o rasto estranho, se porventura o vi ensanguentado de sangue igual ao meu pela paixão que o derramou em oferenda a altares de amor. São rogações de todos esses passos as que neste livro traduzi e confesso para quem no mesmo error se houver perdido ou se tiver remido em iguais enlevos._
ROSAS DO MEU CAMINHO
I
Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria, brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol brando que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu fulgor candente do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio do campo onde desponta o prado que no inverno o cobre e é a sua túnica,--cantavam com as rosas a doçura e em minha alma infundiam subtilmente os salutares enlêvos dos seus sonhos.
Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão, mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e o coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite. Um resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor.
Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo meu peito ferido na jornada agreste em que dolorosamente se consome sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas sempre que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes mendigas. Por singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor as rosas e a pobreza.
II
Senhor! No meu caminho entretecei as rosas na pobreza, para que, adorando em extasi vosso encanto, eu adore também as vossas dores e o meu peito comungue da miséria! Que todo o meu coração se enleie e prenda nas grinaldas, Senhor, com que coroais de espinhos e de rosas vossos servos; e que, enquanto sentir deleite infindo na doçura que sobre a terra semeastes, eu vos seja fiel inteiramente sentindo ao mesmo tempo e em igual fervor toda a infinita agrura da desgraça.
AS TAÇAS DO BANQUETE
I
No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres abundam e os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais queridas e vi meus companheiros de igual sorte ora erguidos na sua embriaguez ora prostrados pelos seus travores.
Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e todas continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo mudadas em desengano e dor.
Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável. Vi ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda, insaciáveis, de contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as elevando até que do mais alto as precipitam no torvo abismo das desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso e inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se em fumo e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e em seus altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira, a sua fé perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a própria humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das taças que anjos bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra penam suas penas, até a própria humildade eu vi chorar porque, salvando os bem-aventurados em cujo coração habita e resplandece, não lhes pôde poupar a compaixão de quantos desfalecem no martírio, pois, desventurados, não partilham das bênçãos da alegria no Senhor, naquela conformidade austera e santa que é a nossa redenção suprema e única.
II
Senhor! Sê piedoso! Socorram-me os teus anjos. Reanimem-me em cálices de vida; humedeçam-me os lábios na tua paz; iluminem-me o mundo na tua luz.
Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as noites, essa sombra de gélidas vigílias que me murmura o desespero e a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo cruelmente:
Doçura! louco, só na morte a encontras!
A DOR E A VIDA
Na mão de Deus, na sua mão direita, Descançou afinal meu coração.
ANTERO DE QUENTAL.
I
Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas, abandonarem campos e florestas e partirem velozes à procura de terras sorridentes, animadas pelos carinhos tépidos do sol.
Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas que ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e perfume, pela graça, pela força e pela opulência, pelo florir de impulsos da sua seiva.
Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino desfalece à mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor do Estio, incensado de aromas e reflectindo os delírios da cor pulverizada. Onde irá saciar a sede ardente de intenso resplendor que lhe alimente as cobiças profundas do seu ser? Porque foi acorrentado à imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o ameaça? Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços infinitos, de céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo azul? Que culpa lhe forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado a rastejar exposto à contingência das estações altivas, sem piedade, queimando sob o sol canicular, sufocando nos gelos a expansão, inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos homens e as suas mágoas, para prosseguirem no combate austero da suprema beleza que sonharam? Porque, liberta, a ave se eximiu a padecer igual escravidão?!...
Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da tormenta, vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas que aos seus amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem pátria aos ninhos embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o poeta chorou a sorte negra que o entregava às penas do inverno.
II
E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio beija-lo cândida e singela, na palidez etérea que é o seu manto, a Dor, a companheira do poeta.
E disse:
--«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim alcançaste renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se isenta de veneno e se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste no caminho, quanto perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso, toda a atracção, toda a harmonia, todo o laço, felicidade, risos e ternuras, tudo para ti foi breve e se afogou nos abismos mortais donde surgira, abandonando-te errante, ao desamparo, no louco vaguear do coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, numa aurora perene, sem poente, esse facho de ardor que te consome e é a suprema gloria, a eternidade.
«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito cuja bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são sombrios, duma sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa outra sombra que por erro temeste e será sempre confessionário e templo da minha alma.
«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu rumo, em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido então de quanto foge e passa na incerteza, redimido em meu peito hás-de subir à divina presença do Senhor!»
Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.
Por sua vez beijou a mensageira.
--«Bendita sejas!» disse.
E nesse instante passou na treva estranho clarão.
III
Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A macerada face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos, humildemente isentos de desanimo, suavemente escravos dum poder que sem cessar o fortalece e ampara nas provações mais ásperas do mundo.
Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a atormenta e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria, surda ao seu anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e profanado.
Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre iras das rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis rasgados pelas neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito ferido por paixões humanas, onde quer que o destino cegamente castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um arrojo, um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos seus combates loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero, redobrando de ardor em atormentá-lo--a Dor foi companheira do poeta, no seu seio chorou divinas lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.
Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem caído em desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério! Fielmente a serviu nos seus mandados!
IV
Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes o encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o prado que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou cerrar seus olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado dos vencidos.
Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação resgatada para a terra e para os céus em um só Deus. Cantava os seus louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra e bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria luz que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e bela» se formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o tempo» no qual as criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é «humilde e casta», e também pelo «irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a terra e por seus frutos, e pela «irmã morte» que à sua paz nos arrebata.
Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em torno ela espargia.
E disse-lhe a visão:
«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o perfume das rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, exultaram renovos na verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te entenebrecem de terror e dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua luz bendita. Onde cai uma lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus olhos! Beija a minha fronte! Aviventa teu ser mortificado na salutar candura que me alenta!
E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria e a vida e a exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito em caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta restituiu à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, aquele que à Dor votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse supremo amor que na bondade se libertou de toda a contingência.
V
Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam, Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos, visitem-me as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me conduzam, para na Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as vossas penas, «na mão de Deus, na sua mão direita, descansando afinal meu coração!»
MAIS FORTE QUE O MAR
I
Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora amado no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso de carinho, afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e ao passá-las deixou nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, coruscante entre o negrume da cerração ambiente.
Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou suas iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e iluminaram-nas pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e pairaram sobre elas sorridentes as primaveras brandas incitando toda a terra a renascer em alegria.
Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a exaltação da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais pôde apagar esse sulco vermelho sobre o mar que ali deixara o peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas lúgubre derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes a fúria temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! Em vão ali passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão tentaram afundar na voragem aquele sangue que do coração brotara por saudade!
Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.
II
Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a salvação e lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a remir na consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa etérea bondade omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde, concedei-me, Senhor, aquela bênção que ao peregrino ferido concedeste, permitindo-lhe a graça de traçar nas ondas com o seu sangue a dor pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde quer que o destino o dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente, que o meu coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que em saudade amortalhe os seus anseios!...
Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente!
HUMILHAÇÃO
I
Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde deixara a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos. Macilento, esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma sepultura, atravessa a cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o desamparo são o seu cortejo e com horror o escoltam; tomando por pureza a inanidade, arrogantes se afastam a tremer de macular o orgulho na miséria dum corpo pestilento de seus erros.
Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para beijar o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na treva da embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus crimes.
De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma ferina ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros homens maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a todos gera e por igual corrompe.
Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em que Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos a ternura generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a piedade ao criminoso, não sabendo sorrir à sua face e tendo por dignidade a cobardia que os privou de ver irmãos, os seus iguais, em quantos seres a criação produz, para que o nosso coração todos confunda numa só luz de amor e de bondade.
II
Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,--porque me roubas aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com que dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!... Porque, Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o mal, e de cobrir de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua lembrança?!...
Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu peito, salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos homens bem e mal em vez de os confundir no teu sagrado amor omnisciente.
BÊNÇÃO DO POENTE
I
Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa lhe ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido por estranha letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras contra o ardor do sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento no crescer como moroso no arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram seus frutos generosos na paz dessa propícia quietação. Ao redor do casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é largo e os céus são amplos, esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol perdido ao poente se escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram as urzes roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva, já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em sombras.
Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas quebradas e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os vinhedos e as aldeias e a inquietação da água nas jornadas, eterna aventureira,--todos vão a dissolver-se nessa neblina, duma inundante alvura caprichosa, caótica, erradia, absorvente e mansa na avidez, como afagando o mundo e resumindo-o em um só sonho incerto, indefinível.
Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a vida em serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a movem em seu anseio, desde a arrogância da montanha austera até à pequenez da célula mais ínfima, consagraram juntas numa paz divina a trégua religiosa de seus feitos, talvez a consciência da inanidade final de todo o esforço, porventura uma dúvida, uma céptica interrogação dos seus destinos, senão o antegozo da morte experimentada em passageiro cessar das energias.
Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de lágrimas, o poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é irrevogável maldição do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse crepúsculo em que a vastidão da terra adormeceu sorridente e benigna, alguém, ser de bondade, um alado eco fugitivo, um murmúrio de esperança, me segreda a confiança e a fé, robusta crença na libertação final de toda a angústia, na fatal paralisia dos tumultos da nossa alma e do mundo, tarde ou cedo remidos, confundidos em amorosa quietação de penas, amortalhados em mortalha branca como esta que eu vi crepuscular, vestindo em alva neblina a terra e os astros.
II
Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o coração, quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a exaltação da minha alma pela serena luz que ele acendia no meu peito turvado de combates. Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se perdiam apagadas! Tão alto e tão profundo o meu sentir, não souberam dizê-lo esses murmúrios frouxos e mortais de lábios débeis que mortais nasceram.
Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho, desvairado, na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e ordem que é a razão de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti:
--Senhor! Senhor! Senhor!...
O SONO DO TRIGAL
I
Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas, violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas quais a verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.
As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a cantar o voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde melancolia da campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma faustosa dos carvalhos, o arrelvado extenso em desafogo, livre de manchas das plantas altas, e o que se alarga na espessura umbrosa, todos repousam quietos e calados, pressentindo a visita salutar que dos céus lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de humidade, alimento e riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e das vergônteas frágeis, ainda tenras, em cuidados de robustecer-se, para suportarem calmas estivais.
E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o seu segredo!
Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;--aquele que ao mais leve passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas repetidas sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio incessante rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e fortuna que concede aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo trigal se sujeitou à extática mudez de todo o ambiente.
Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.
II
Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência de impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos à lei suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se abandonou à paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim submisso que deixou de elaborar fartas sementes.
De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os sucos, que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira e semeia, constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das doçuras com que suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de alegria, flores sanguíneas! os lábios das crianças.
Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao seio. Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se derrama, transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E entretanto, fervorosa e muda, uma vida se consumia ali em outra vida.
Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e força.
TERRA LACRIMOSA
I
Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes cegas no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em luz de eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando erguer-se por entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os aviltados míseros do mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e porque, desvanecidos, contemplando-se, só da própria grandeza iam sonhando, sem baixarem seus olhos aos humildes, desconheceram a alegria, beleza e formosura que os pequeninos têm por seu quinhão.
Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a opressão, a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força subjugasse. As riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que, confiado e firme, seria poderoso e invencível; e entretanto o seu corpo definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica dos astros castigasse, escarnecendo, as ambições.