Robur, o Conquistador

Part 9

Chapter 93,882 wordsPublic domain

Em summa foi preciso moderar o andamento,—o que permittiu a Uncle Prudent e a Phil Evans voltar ao seu beliche. No interior dos seus aposentos, como bem dissera o engenheiro, o _Albatrós_ tinha uma atmosphera perfeitamente respiravel.

Mas que solidez tinha aquelle apparelho, para poder resistir a tal deslocamento? Era prodigioso. Quanto aos propulsores da frente e de traz, nem já se viam girar. Era com um infinito poder de penetração que elle entrava na camada de ar.

A ultima cidade notada de bordo, era Astrakan, situada quasi no extremo norte do mar Caspio.

A estrella do Deserto (foi decerto algum poeta russo que assim a denominou), tinha então descido da quinta á sexta grandeza. Aquella simples séde de governo mostrára por instantes as suas velhas muralhas coroadas de inuteis ameias, as suas torres antigas no centro da cidade, as suas mesquitas contiguas ás egrejas de estylo moderno, a sua cathedral cujas cupulas, douradas e semeadas de estrellas azues, pareciam recortadas n’um pedaço do firmamento; tudo quasi ao nivel d’essa embocadura do Volga que mede dois kilometros. Depois a partir d’esse ponto, o vôo do _Albatrós_ não foi mais do que uma especie de desfilada através das alturas do céo, como se fôsse tirado por esses fabulosos hippogrifos, que transpõem uma legua em cada movimento de aza.

Eram duas horas da manhã, do dia 4 de julho, quando a aeronave tomou rumo na direcção noroéste, seguindo quasi o valle do Volga.

As _steppes_ do Don e do Oural seguiam dos dois lados do rio. Se fôsse possivel lançar a vista sobre aquelles vastos territorios, mal haveria tempo para contar as cidades e aldeias. Afinal, quando veiu a noite, a aeronave ia além de Moscow. Em dez horas, tinha transposto os dois mil kilometros que separam Astrakan da antiga capital de todas as Russias.

De Moscow a S. Petersburgo, a linha de caminho de ferro não conta mais de mil e duzentos kilometros. Era portanto questão de meio dia. De modo que o _Albatrós_, pontual como um expresso, alcançou S. Petersburgo e as margens do Neva pelas duas da manhã.

A claridade da noite, debaixo d’esta latitude onde abunda tão pouco o sol de junho, permitte abraçar um instante o conjunto d’aquella vasta capital.

Depois foi o golpho de Finlandia, o archipelago de Abo, o Baltico, a Suecia, na latitude de Stockolmo, a Noruega na latitude de Christiania. Dez horas apenas para aquelles dois mil kilometros. Como se pode imaginar, nenhum poder conseguiria então travar a velocidade do _Albatrós_, como se a resultante da sua fôrça de projecção e de attracção terrestre o tivesse mantido n’uma trajectoria immutavel em volta do globo.

E comtudo parou, e precisamente por cima da famosa cascata de Rjukanfos, na Noruega. O Gusta, cujo cume domina aquella admiravel região do Telemarck, foi como que um limite gigantesco que elle não devia ultrapassar no oéste.

De modo que a partir d’aquelle ponto, o _Albatrós_ voltou francamente para o sul, sem moderar a sua velocidade.

E durante aquelle vôo inverosimil o que fazia Fricollin? Permanecia mudo no fundo do beliche, dormindo o melhor que podia, excepto nas horas da refeição.

Francisco Tapage fazia-lhe então companhia e gosava com os seus terrores.

—Então! meu rapaz, disse elle, já não gritas?... Não te prendas!... É questão de duas horas de suspensão!... Hein! com a velocidade que levamos agora, que excellente banho de ar para o rheumatismo!

—Parece-me que tudo se desmancha! repetia Fricollin.

—Talvez, meu valente Fry! talvez! Mas vamos tão rapidamente que nem poderiamos cahir! É o que vale!

—Acha isso?

—Á fé de gascão!

Para dizer a verdade e sem exaggerar como Francisco Tapage, o certo era que, graças áquella rapidez, o trabalho dos helices suspensivos tinha minorado um pouco. O _Albatrós_ deslisava na camada de ar á maneira de um foguete.

—E isto durará muito tempo assim? perguntou Fricollin.

—Muito tempo?... Oh! não! respondeu o mestre cozinheiro. Apenas toda a vida!

—Ah!... exclamára o negro, recomeçando as suas lamentações.

—Toma sentido, Fry, toma sentido! dizia Francisco Tapage, porque olha que o mestre pode mandar-te para o balouço.

E Fricollin engulia os seus suspiros com os pedaços de comida que mettia na bôcca em duplicado.

Durante este tempo, Uncle Prudent e Phil Evans, que não eram homens para se recriminarem inutilmente, acabavam de tomar uma resolução. Era evidente que a fuga se não podia realisar. Se não era possivel pôr o pé em terra, não se poderia fazer saber aos seus habitantes o que era feito, depois que haviam desapparecido, do presidente e secretario do Weldon-Institute! por quem haviam sido arrebatados; a bordo de que machina voadora estavam retidos? e provocar talvez,—mas de que maneira, Deus do céo!—uma audaciosa tentativa da parte dos seus amigos para os arrancar ás mãos d’esse Robur?

Mas corresponderem-se? de que modo? Seria bastante fazer como os marinheiros em afflicção que lançam á agua uma garrafa contendo um documento indicativo do local do naufragio?

Mas aqui o mar era a atmosphera. A garrafa não fluctuaria. A menos de não cahir justamente sobre a cabeça de algum transeunte, rachando-a, corria-se o risco de não ser encontrada.

Em summa, os dois collegas não tinham senão este meio á sua disposição e iam sacrificar uma das garrafas de bordo, quando Uncle Prudent teve outra idéa. Elle tomava rapé, como se sabe, e pode-se perdoar este ligeiro defeito a um americano, que podia fazer peior.

Ora como tomasse rapé, tinha uma caixa,—n’aquella occasião vasia. Era de aluminio. Atirada ao chão, se algum honesto cidadão a encontrasse, apanhal-a-hia, e apanhando-a, leval-a-hia a uma estação de policia, e alli tomariam conhecimento do documento destinado a dar a conhecer a situação das duas victimas de Robur, o Conquistador.

É o que se fez. A nota era curta, mas dizia tudo e dava a direcção do Weldon-Institute, com um pedido para ser enviada ao seu destino.

Então Uncle Prudent, mettendo a nota na caixa, envolveu esta n’um espesso trapo de lã, e atou-a com cordel, tanto para impedir que se abrisse durante a quéda, como para se não partir no chão. Não havia mais do que esperar occasião favoravel.

Realmente, a manobra mais difficil, durante aquella prodigiosa travessia da Europa, era sahir do beliche, ir de rastos sobre a plataforma, com risco de ser arrebatado; e tudo isso em segredo.

Por outro lado, era preciso que a caixa não cahisse n’algum mar, golpho, lago ou outra qualquer porção de agua. Seria perdel-a.

Não era, comtudo, impossivel entrarem os dois collegas em communicação com o mundo habitado.

Era dia claro, n’aquella occasião; e era melhor esperar pela noite, e aproveitar, quer uma diminuição de actividade, quer uma paragem, para sahir do beliche. Talvez então se pudesse ir até á borda da plataforma, e não deixar cahir a preciosa caixa senão em cima de uma cidade.

Além d’isso, mesmo que todas aquellas condições se déssem, o projecto não poderia ser posto em execução,—pelo menos n’aquelle dia.

Com effeito o _Albatrós_, depois de ter deixado a terra noruegueza á altura do Gusta, tinha tomado para o sul. Seguia precisamente o zero de longitude que não é outro na Europa senão o meridiano de Paris. Passou portanto por cima do mar do norte, produzindo uma bem natural estupefacção a bordo d’esses milhares de barcos que fazem cabotagem entre a Inglaterra, Hollanda, França e Belgica. A não ser que a caixa cahisse exactamente sobre a ponte de um d’esses navios, o mais certo era ir para o fundo.

Uncle Prudent e Phil Evans foram pois obrigados a esperar uma occasião mais favoravel; e, como se vae vêr, uma excellente occasião se lhes ia offerecer.

Ás dez da tarde acabava o _Albatrós_ de alcançar as costas da França, pouco mais ou menos á altura de Dunkerque. A noite estava muito escura. Por um instante se poude vêr o pharol de Gris-Nez cruzar os seus fogos electricos com o pharol do Passo de Calais. Então o _Albatrós_ avançou por sobre o territorio francez, mantendo-se a uma altura média de mil metros.

A sua velocidade não tinha diminuido. Passava como uma bomba por sobre cidades, villas, aldeias, tão numerosas n’aquellas ricas provincias da França septentrional. Eram, sobre esse meridiano de Paris,—depois de Dunkerque—, Doulens, Amiens, Criel, Saint-Denis. Nada o fez desviar da linha recta. Foi assim que, perto da meia noite, elle estava por sobre a “Ville-Lumiére„, que merece aquelle nome quando os seus habitantes estão a dormir,—ou pelo menos deviam estar.

Mas que extranha phantasia levou o engenheiro a fazer alto sobre a cidade parisiense? não se sabe. O que é certo é que o _Albatrós_ baixou de modo a dominal-a de alguns centos de pés apenas. Robur sahiu então do seu beliche e todo o pessoal veio respirar o ar para a plataforma.

Uncle Prudent e Phil Evans não perderam a excellente occasião que se lhes offerecia. Sahindo dos seus compartimentos, os dois, procuraram isolar-se, afim de poder escolher o momento mais propicio. Era sobretudo preciso evitar serem vistos.

O _Albatrós_, semelhante a um gigantesco escaravelho, continuava suavemente por sobre a grande cidade. Percorreu a linha dos boulevards, tão brilhantemente illuminados pelos apparelhos Edison. Subia até elles um ruido de trens, e o rodar das carruagens sobre os multiplos rails que irradiam sobre Paris. Depois veiu pairar á altura dos mais altos monumentos, como se tivesse querido ir de encontro á esphera do Pantheon ou á cruz dos Invalidos. Esvoaçou desde os dois minaretes do Trocadéro até á torre metallica do Campo de Marte, cujo enorme reflector inundava toda a capital com os seus clarões electricos.

Aquelle passeio aereo, aquelle vaguear de noctambulo, durou cêrca de uma hora. Era como uma paragem nos ares, antes de recomeçarem a interminavel viagem.

E talvez mesmo o engenheiro Robur quizesse dar aos parisienses o espectaculo de um meteoro que os seus astronomos não haviam previsto. Os pharoes do _Albatrós_ foram postos em actividade. Dois feixes de luz passearam então sobre as praças, esquares, jardins, palacios e sobre as sessenta mil casas da cidade, lançando enormes jorros de luz, de um horisonte a outro.

Evidentemente fôra visto o _Albatrós_, d’aquella vez; não só bem visto, mas ouvido tambem, porque Tom Turner, embocando a sua trombeta, enviou sobre a cidade uma vibrante fanfarra.

N’essa occasião, Uncle Prudent, inclinando-se por sobre o parapeito, abriu as mãos e deixou cahir a caixa de rapé.

Quasi em seguida o _Albatrós_ subiu rapidamente.

Então, através das alturas do céo parisiense, subiu um hurrah immenso da multidão, que era enorme ainda nos boulevards, hurrah de estupefacção que se dirigia ao phantastico meteoro.

De subito se apagaram os pharoes da aeronave, fez-se de novo a sombra em volta d’ella, ao mesmo tempo que o silencio, e seguiram o caminho com uma velocidade de duzentos kilometros por hora.

É tudo o que se devia ter visto da capital da França.

Ás quatro da manhã, o _Albatrós_ tinha transposto obliquamente todo o territorio. Depois, afim de não perder tempo em transpôr os Pyrinéos ou os Alpes, deslisou á superficie da Provença até á ponta do Cabo das Antibes. Ás nove, os San-pietrini, reunidos no terraço de S. Pedro de Roma, ficavam embasbacados ao vêl-o passar por cima da Cidade Eterna. Duas horas depois, dominava a bahia de Napoles, balouçava-se um instante entre as volutas fuliginosas do Vesuvio. Afinal, depois de ter cortado o Mediterraneo com um vôo obliquo, desde a primeira hora depois do meio dia, era visto pelas vigias da Guletta, na costa tunisina.

Depois da America, a Asia! Depois da Asia, a Europa! Eram mais de trinta mil kilometros que o prodigioso apparelho acabava de fazer em menos de vinte e tres dias!

E agora, eil-o por sobre as regiões conhecidas ou desconhecidas da terra de Africa!

* * * * *

Talvez queiram saber o que veiu a succeder á famosa caixa de tabaco, depois da sua quéda?

A caixa cahira na rua de Rivoli, em frente do numero 210, no momento em que aquella rua estava deserta.

No dia seguinte foi apanhada por uma honrada varredoura, que se apressou a leval-a á Prefeitura de Policia.

Alli, tomada ao principio por um apparelho explosivo, foi desatada, desenrolada, aberta com a maxima cautela.

De subito houve uma especie de explosão ... Um formidavel espirro, que o chefe de segurança não tinha podido suster!

Tiraram então o documento de dentro da caixa, e, com geral surpreza, leu-se o seguinte:

“Uncle Prudent e Phil Evans, presidente e secretario do Weldon-Institute de Philadelphia, arrebatados na aeronave do engenheiro Robur.

“Participem isto aos amigos e conhecimentos.

U.P. e P.E.„

Era o inexplicavel phenomeno explicado finalmente aos habitantes dos Dois Mundos. Era o socego restituido aos numerosos observatorios que funccionam á superficie do globo terrestre.

CAPITULO XII

DE COMO O ENGENHEIRO ROBUR PROCEDE, COMO SE QUIZESSE CONCORRER PARA UM PREMIO MONTHYON

N’este ponto da viagem de circumaviação do _Albatrós_, é permittido fazer as seguintes perguntas:

Quem é afinal esse Robur, cujo nome se não conhece até agora? Passa a sua vida nos ares? A sua aeronave não descança nunca? Não tem um retiro em qualquer logar inaccessivel, onde, embora não precise de descançar, vá pelo menos abastecer-se? Seria espantoso se assim não fôsse. Os mais poderosos voadores teem sempre um abrigo ou um ninho em qualquer parte.

Além d’isso, o que pretendia o engenheiro fazer d’aquelles dois incommodos prisioneiros? Pretendia conserval-os em seu poder, condemnal-os á aviação perpetua? Ou então, depois de os haver passeado por sobre a Africa, a America, a Australia, o Oceano Indico, o Atlantico, o Pacifico, para os convencer de vez, mesmo a despeito d’elles, dar-lhes liberdade, dizendo:

—Agora, meus senhores, espero que se mostrarão menos incredulos com respeito ao “Mais pesado que o ar„!

Em todo o caso, o tal ninho, a ave Robur não se incommodou em o procurar na fronteira septentrional da Africa. Contentou-se com passar o fim d’aquelle dia por sobre a regencia de Tunis, desde o cabo Bon até o cabo Carthago, ora esvoaçando, ora pairando, á mercê de um capricho. Um pouco depois, dirigiu-se para o interior, e enfiou o admiravel vale da Medjerda, seguindo o seu caminho pardacento, perdido entre os arbustos de cactus e loureiros rosas. E que centos de papagaios elle não espantou, que pousados nos fios telegraphicos pareciam esperar pelos despachos, na sua passagem, para os levar nas suas azas!

Depois, tendo vindo a noite, o _Albatrós_ balouçou sobre as fronteiras da Krumeria, e, se ainda restava um krumir, este não deixou decerto de se prostrar em terra, invocando Allah, á apparição d’aquella aguia gigantesca.

No dia seguinte de manhã era Bone, e as graciosas collinas dos arredores; era Philippeville, agora uma pequenina Argel, com os seus novos caes em arcadas, as suas admiraveis vinhas, cujas cepas eriçam todo aquelle campo, que parece recortado no campo bordelez, ou nos torrões da Borgonha.

Este passeio de quinhentos kilometros, por sobre a grande e pequena Kabylia, terminou ao meio dia á altura da Kasbah de Argel.

Que espectaculo para os passageiros da aeronave! o ancoradouro aberto entre o Cabo Matifú e a Ponta Pescada, esse littoral ornado de palacios, de marabuts, de casas de campo; esses valles caprichosos, revestidos nos seus mantos de vinhas; esse Mediterraneo, tão azul, sulcado pelos vapores transatlanticos, que parecem lanchas a vapor!

E foi assim até Oran, a pittoresca, cujos habitantes, mais retardatarios nos jardins da cidade, puderam vêr o _Albatrós_ confundir-se com as primeiras estrellas da noite.

Se Uncle Prudent e Phil Evans perguntassem a si proprios a que phantasia obedecia o engenheiro Robur, ao passear a prisão volante por sobre a terra argelina,—essa continuação da França do outro lado do mar, que mereceu o nome de lago francez,—deviam ter pensado que a sua phantasia estava satisfeita, duas horas depois do pôr do sol.

Um movimento do leme acabava de encaminhar o _Albatrós_ para o suéste, e no dia seguinte, depois de se ter desembaraçado da parte montanhosa do Tell, viu o astro do dia levantar-se sobre as areias do Sahará.

Eis o itinerario do dia 8 de julho. Vista da pequena aldeia de Geryville, creada, como Laghouat, sobre o limite extremo do deserto, para facilitar a conquista ulterior da Kabylia. Passagem do desfiladeiro do Stillen, com certa difficuldade, contra uma brisa violentissima. Travessia do deserto, ora lenta, por sobre verdejantes oasis ou ksars, ora com uma rapidez fogosa, que vencia o vôo das gypaétas. Muitas vezes mesmo, foi preciso fazer fogo contra temiveis aves, que, aos bandos de doze e de quinze, não receavam precipitar-se sobre a aeronave, com grande espanto de Fricollin.

Mas, se as gypaétas não podiam responder senão com gritos horrorosos, com bicadas e patadas, os indigenas não menos selvagens, não lhes pouparam tiros de espingarda, sobretudo quando passavam a montanha do sal, cujo arcabouço, verde e côr de violeta, transparecia sob o véo branco que a cobria.

Dominavam então o grande Sahará. Alli se viam os restos dos bivaques de Abdel-Kader. Alli o paiz é sempre perigoso para o viajante europeu, principalmente na confederação do Beni-Mzal.

O _Albatrós_ teve então de subir ás zonas mais altas, afim de escapar a um assalto do _simún_ que passeava uma lamina de areia avermelhada á superficie do solo, como faria um excesso de maré á superficie do Oceano. Em seguida, os planaltos desolados da Chebka espraiaram o balastro de lavas ennegrecidas até ao fresco e verde valle de Ain-Massin. Seria difficil imaginar a variedade d’aquelles territorios que o olhar podia abraçar no seu conjunto. Ás collinas cobertas de arvores e arbustos succediam-se longas ondulações pardacentas, ás pregas, como um albornoz arabe, cujos soberbos recortes accidentavam o solo. Ao longe viam-se as “oueds„ de aguas torrenciaes, bosques de palmeiras, grupos de pequenas cabanas sobre um monticulo, em volta de uma mesquita, e entre outras Metliti, onde vegeta um chefe religioso, o grande Marabut Sidi Chick.

Antes da noite, alguns centos de kilometros foram transpostos por sobre um territorio chatissimo, sulcado de grandes dunas. Se o _Albatrós_ tivesse querido fazer alto, teria pousado em terra no fundo do oasis de Marglá, sob um immenso bosque de palmeiras. A cidade apresentou-se muito visivel com os seus tres quarteirões distinctos, o antigo palacio do sultão, especie de Kasbah fortificada, as suas casas construidas de tijolos que o sol se encarregou de cozer, e os seus poços artesianos, abertos no valle, onde a aeronave podia refazer a sua provisão liquida. Mas graças á sua extraordinaria velocidade, as aguas do Hydaspe, sugadas no valle de Cachemir, enchiam ainda os seus depositos, no meio dos desertos de Africa.

Teria o _Albatrós_ sido visto pelos Arabes, Mozabitas, e negros que habitam o oasis de Marglá? Certamente que sim, porque foi saudado por alguns centos de tiros de espingarda, cujas balas voltaram á terra, sem o haverem alcançado.

Veiu depois a noite, essa noite silenciosa do deserto, cujos segredos Felicien David interpretou tão bem!

Durante as horas seguintes, desceram para o sudoéste, cortando os caminhos do El-Goléa, um dos quaes foi reconhecido em 1859, pelo intrepido viajante Francisco Duveyrier.

A escuridão era profunda. Nada puderam vêr do railway transsahariano em construcção, segundo o projecto Duponchel, longa fita de ferro que deve ligar Argel a Tombuctú por Laghuat, Gardaia, e alcançar mais tarde o golpho da Guiné.

O _Albatrós_ entrou então na região equatorial, para além do tropico de Cancer. A mil kilometros da fronteira septentrional do Sahará, transpunha o caminho em que o major Lang encontrou a morte em 1846; cortava os caminhos das caravanas de Marrocos ao Sudão, e sobre essa porção de deserto que os Tuaregs espumam, ouvia o que se chama o “canto das areias„, murmurio dôce e plangente que parece surgir do solo.

Apenas se deu um incidente: uma nuvem de gafanhotos se ergueu no espaço, e cahiu uma tal carregação d’elles a bordo, que o navio aereo esteve prestes a sossobrar. Trataram porém de deitar fora o excesso da carga, menos alguns centos de que François Tapage fez provisão. E cozinhou-os de um modo tão succulento, que Fricollin esqueceu por momentos os seus transes perpetuos.

—Isto vale por camarões! dizia elle.

Estavam então a mil e oitocentos kilometros do oasis de Marglá, quasi no limite norte d’esse immenso reino do Sudão.

Pelas duas da tarde appareceu uma cidade no cotovello formado por um grande rio. Era o rio Niger. A cidade, Tombuctú.

Se até então não tinham tido que visitar essa Méka africana senão os viajantes do Mundo Antigo, os Batuta, os Khazan, os Imbert, os Mungo-Park, os Adams, os Laing, os Caillé, os Barth, os Lenz, n’esse dia, graças aos acasos da mais singular aventura, dois americanos podiam falar d’ella _de visu, de auditu e de olfactu_, no seu regresso á America, se lá regressassem de facto.

_De visu_, porque o seu olhar poude chegar a todos os pontos d’aquelle triangulo de cinco a seis kilometros, formado pela cidade; _de auditu_, porque esse dia era um dia de grande mercado, e faziam uma algazarra espantosa; _de olfactu_, porque o nervo olfactivo não podia ser muito agradavelmente affectado pelos odores da praça de Yubu-Kamo, onde está o mercado de carne, perto do palacio dos antigos reis So-mais.

Em todo o caso o engenheiro entendeu não dever deixar ignorar ao presidente e ao secretario do Weldon-Institute que elles tinham a felicidade extrema de contemplar a Rainha do Sudão, agora em poder dos Tuaregs de Taganet.

—Meus senhores, Tombuctú! lhes disse no mesmo tom em que dois dias antes lhes dissera:

“A India, meus senhores!„

Depois continuou:

—Tombuctú, aos 18 graus de latitude norte, e 5°,56´ de longitude a oéste do meridiano de Paris, com uma costa de duzentos e quarenta e cinco metros acima do nivel médio do mar. Importante cidade de doze a trese mil habitantes, outr’ora illustrada pela arte e pela sciencia! Talvez quizessem fazer alto alli durante alguns dias?

Uma tal proposta não podia ser feita senão por ironia, pelo engenheiro.

—Mas, continuou elle, seria perigoso para os extrangeiros, no meio dos negros, dos Berberes, dos Fullanes, e dos Arabes que a habitam, sobretudo se considerarmos que a nossa chegada em aeronave lhes poderia desagradar.

—Meu caro senhor, respondeu Phil Evans no mesmo tom, para termos o prazer de o deixar, arriscar-nos-hiamos de bom grado a sermos mal recebidos pelos indigenas. Prisão por prisão, mais vale Tombuctú que o _Albatrós_!

—É questão de gôsto, replicou o engenheiro. Em todo o caso, não tentarei a aventura, porque tenho de responder pela segurança dos hospedes que me fazem a honra de viajar commigo ...

—De maneira que, sr. engenheiro Robur,—disse Uncle Prudent, não podendo conter a indignação,—de maneira que, não se contenta com ser carcereiro? Ao attentado junta o insulto?

—Oh! a ironia unicamente!

—Não ha armas a bordo?

—Ha sim! um arsenal completo!

—Dois revolvers bastariam, se eu tivesse um e o senhor outro!

—Um duello! exclamou Robur, um duello, que poderia produzir a morte de um de nós!

—Que a produzia com certeza!

—Pois, meu caro presidente do Weldon-Institute, não pode ser. Prefiro conserval-o vivo.

—Para ter a certeza de viver tambem! É prudente!

—Prudente ou não, é isso que me convem. Fica-lhe a liberdade de pensar de outro modo e de se queixar a quem quizer, se o pode fazer.

—Já o fiz, engenheiro Robur!

—Serio?

—Pois era tão difficil, quando atravessavamos as regiões habitadas da Europa, deixar cair um documento ...

—E os senhores fizeram isso? disse Robur, arrebatado por um irresistivel movimento de colera.

—E se o tivessemos feito?

—Se o tivessem feito ... mereceriam ...

—Mereceriamos o que, sr. engenheiro?

—Ir fazer companhia ao documento, pela borda fora!

—Ora experimente lá! exclamou Uncle Prudent. Já o fizemos!