Robur, o Conquistador

Part 8

Chapter 83,879 wordsPublic domain

O engenheiro não tinha tenção de passear o seu apparelho por sobre aquellas maravilhosas regiões do Industão. Galgar o Himalaya para mostrar de que admiravel engenho de locomoção elle dispunha, convencer mesmo os que não queriam deixar-se convencer, era tudo quanto desejava. Quer isto dizer que o _Albatrós_ era perfeito, embora não exista a perfeição n’este mundo? É o que havemos de vêr.

Em todo o caso, se no seu fôro intimo Uncle Prudent e o seu collega não podiam deixar de admirar o poder de um tal apparelho de locomoção aerea, não o deixaram conhecer. Só procuravam o ensejo de se safar. Nem mesmo admiravam o soberbo espectaculo que se lhes offerecia, emquanto o _Albatrós_ seguia as orlas pittorescas do Pendjab.

Ha na base do Himalaya uma facha de terrenos pantanosos d’onde transpiram vapores doentios; é o Terai, onde a febre existe no estado endemico. Isso porém não era cousa que embaraçasse o _Albatrós_, nem compromettesse a saude do seu pessoal. Dirigiu-se, sem se apressar muito, para o angulo que o Industão forma no ponto de juncção do Turkestan com a China. No dia 29 de junho, nas primeiras horas do dia, abria-se deante d’elle o incommensuravel valle de Cachemir.

Sim, incomparavel essa garganta que deixam entre si o grande e o pequeno Himalaya! Sulcada de centenas de contrafortes de montanhas, que a enorme cordilheira leva até á bacia do Hydaspe, é banhada pelos caprichosos meandros do rio, que assistiu ao choque dos exercitos de Porus e de Alexandre, isto é, a India e a Grecia em lucta na Asia central. Esse Hydaspe continúa alli, ao passo que as duas cidades, fundadas pelo Macedonio, em commemoração da sua victoria, desappareceram a ponto de não se conhecer onde existiram.

Durante essa manhã, o _Albatrós_ pairou por sobre o Srinagar, mais conhecido pelo nome de Cachemir. Uncle Prudent e o seu companheiro viram uma cidade soberba, ao longo das duas margens do rio, com as suas pontes de madeira da grossura de um fio, os seus chalets adornados de balcões recortados; as suas ribas ensombradas de altos ulmeiros; os seus tectos cobertos de musgo, que tomavam o aspecto de ninhos de toupeira; os seus canaes multiplos, com barcos do tamanho de nozes e barqueiros do tamanho de formigas; os seus palacios, os seus templos, os seus kiosques; as suas mesquitas, os seus bangalós, á entrada dos bairros,—todo esse conjunto duplicado pelo reflexo das aguas; depois a sua velha cidadella de Hari-Parvata, no alto de uma collina, como o mais importante dos fortes de Paris no alto do Monte Valeriano.

—Seria Veneza, disse Phil Evans, se estivessemos na Europa.

—E se estivessemos na Europa, respondeu Uncle Prudent, nós saberiamos encontrar o caminho da America!

O _Albatrós_ não se demorou sobre o lago que o rio atravessa, e retomou o vôo através do valle do Hydaspe.

Durante meia hora apenas, tendo descido a uns dez metros do rio, permaneceu estacionario. Então, por meio de um tubo de borracha deitado abaixo, Tom Turner e os seus companheiros puzeram-se a refazer a sua provisão de agua, que foi aspirada por meio de uma bomba que as correntes dos accumuladores puzeram em movimento.

Durante esta operação, Uncle Prudent e Phil Evans tinham olhado um para o outro. Um mesmo pensamento lhes havia passado pelo cerebro. Estavam a uns passos apenas do Hydaspe, ao alcance das margens. Ambos eram bons nadadores. Um mergulho lhes daria a liberdade, e quando tivessem desapparecido, como é que Robur os poderia apanhar? Para os seus propulsores terem a possibilidade de se pôrem em acção, não era preciso que o apparelho estivesse pelo menos dois metros acima do lago?

N’um instante passaram-lhes pelo espirito todas as considerações pró e contra. N’um instante as pesaram. E afinal íam-se atirar da plataforma abaixo, quando muitos pares de mãos se descarregaram sobre os seus hombros.

Tinham estado a observal-os. Ficaram na impossibilidade de fugir.

Mas d’esta vez não se renderam sem resistencia. Quizeram repellir os que os seguravam. Mas era gente solida, essa gente do _Albatrós_.

—Meus senhores, contentou-se com dizer o engenheiro, quando se tem o prazer de viajar em companhia de Robur, o Conquistador, como os senhores muito bem me chamaram, e a bordo do seu admiravel _Albatrós_, não se deixa esse Robur assim á ingleza! Direi mesmo que não se deixa nunca!

Phil Evans arrastou comsigo o seu collega, que se ía entregar a algum acto de violencia. Ambos entraram para o seu compartimento, resolvidos a fugir, fôsse para onde fôsse, embora isso lhes custasse a vida.

O _Albatrós_ tinha retomado a sua direcção para oéste. Durante esse dia, com uma velocidade média, transpoz o territorio de Caboulistan, cuja capital avistaram por momentos, depois a fronteira do reino de Herát, a mil e cem kilometros de Cachemir.

N’aquellas regiões, ainda tão disputadas, n’este caminho aberto aos russos para as possessões inglezas da India, appareceram ajuntamentos de homens, columnas d’elles, comboios, n’uma palavra, tudo que constitue o pessoal e o material de um exercito em marcha. Ouviram-se tiros de peça e o crepitar da fusilaria. Mas o engenheiro não se mettia em negocios de outrem, a não ser que fôsse para elle um ponto de honra ou uma questão de humanidade. Continuou ávante. Se o Herát, como dizem, é a chave da Asia central, pouco lhe importava que essa chave estivesse n’uma algibeira ingleza ou n’uma algibeira moscovita. Os interesses terrestres nada tinham que vêr com esse atrevido, que tinha feito do ar o seu unico dominio.

Além de que não tardou que o paiz desapparecesse debaixo de um verdadeiro furacão de areia, como é frequente n’aquellas regiões. Esse vento, que se chama “tebbad„, transporta elementos febris com a poeira imponderavel que levanta na sua passagem. E quantas caravanas não veem a morrer n’aquelles turbilhões!

Quanto ao _Albatrós_, no intuito de escapar a essa poeira que podia prejudicar a finura das suas engrenagens, foi buscar a dois mil metros uma zona mais pura.

Assim desappareceu a fronteira da Persia e as suas vastas planicies que permaneceram invisiveis. O andamento era moderado, apesar de não haver a receiar nenhum escolho.

Com effeito, se a carta indica algumas montanhas, são ellas cotadas a altitudes médias. Mas, nas proximidades da capital, convinha evitar o Damavend, cujo cume, cheio de neve, tem a altura de cêrca de seis mil e seiscentos metros, e depois a cordilheira de Elbrouz, ao pé da qual está construida Teheran.

Desde os primeiros clarões do dia 2 de julho appareceu esse Damavend, emergindo do simún de areias.

O _Albatrós_ encaminhou-se pois de maneira a passar por sobre a cidade, que o vento envolvia n’uma nuvem de fina poeira.

Apesar d’isso, pelas seis da manhã, puderam-se notar largos fossos, em volta do recinto, e no meio, o palacio do Shah, as suas muralhas revestidas de tijolos, as suas bacias, que pareciam talhadas em enormes turquezas de um azul brilhante.

Não passou de uma rapida visão. A partir d’aquelle ponto, o _Albatrós_, alterando o seu itinerario, dirigiu-se quasi que directamente ao norte. Algumas horas depois, achava-se por cima de uma pequena cidade, construida n’um angulo septentrional da fronteira persa, sobre as margens de uma grande extensão de agua, cujo termo se não podia notar nem ao norte nem ao sul.

Aquella cidade era o porto de Ashurada, a estação russa mais avançada do sul. Aquella extensão de agua era um mar, o mar Caspio.

Já se não viam turbilhões de poeira. Era a vista de um conjunto de casas á européa, dispostas ao longo de um promontorio, com um campanario a dominal-as.

O _Albatrós_ desceu sobre aquelle mar, cujas aguas estão tresentos pés abaixo do nivel do oceano. Junto á tarde, ía ao longo da costa,—outr’ora turkestana, hoje russa,—que sobe até o golpho de Balkan, e no dia seguinte, 3 de julho, pairava cem metros acima do mar Caspio.

Nenhuma terra á vista, nem do lado da Asia, nem do lado da Europa. Á superficie do mar, algumas vélas brancas, enfunadas pela brisa. Eram os navios indigenas, que se reconheciam pela sua forma, kesebeys de dois mastros, kayuks, antigos barcos piratas de um mastro, teimils, simples botes de serviço ou de pesca. Aqui e acolá subiam até o _Albatrós_ algumas nuvens de fumo, lançadas pelos canos dos vapores de Ashurada, que a Russia mantém para fazer a policia das aguas turcumanas.

N’aquella manhã, o contramestre Tom Turner conversava com o mestre cozinheiro, François Tapage, e a uma pergunta d’este, respondera:

—Sim, estaremos cêrca de quarenta e oito horas por cima do mar Caspio.

—Bem! respondeu o mestre cozinheiro. Isso permittir-nos-ha decerto pescar.

—Perfeitamente!

Se se gastariam quarenta e oito horas em percorrer as cento e vinte e cinco milhas que aquelle mar mede de comprimento, sobre duzentas de largo, é porque a velocidade do _Albatrós_ seria muito moderada, e mesmo nulla durante as operações de pesca.

Ora aquella resposta de Tom Turner foi ouvida por Phil Evans, que estava então na frente.

N’aquelle momento, Fricollin teimava em o maçar com as suas incessantes queixas, pedindo-lhe para intervir junto a seu amo, afim de elle ser pousado em terra.

Sem responder áquelle pedido absurdo, Phil Evans voltou atraz para ir ter com Uncle Prudent. Ahi, com todas as precauções para não serem ouvidos, contou as phrases trocadas entre Tom Turner e o mestre cozinheiro.

—Phil Evans, respondeu Uncle Prudent, quero crer que nos não resta illusão alguma com respeito ás intenções d’esse miseravel a nosso respeito?

—Nenhuma! respondeu Phil Evans. Não nos dará a liberdade senão quando lhe convier, se é que nol-a dará!

—N’esse caso devemos tentar tudo para deixarmos o _Albatrós_.

—Famoso apparelho, devemos confessar!

—É possivel! exclamou Uncle Prudent, mas apparelho de um patife que nos retem, desprezando todo o direito. Ora este apparelho representa para nós e para os nossos um perigo permanente. Se conseguissemos destruil-o ...

—Tratemos primeiro de nos salvar; depois veremos.

—Pois sim! respondeu Uncle Prudent, e aproveitemos as occasiões que se vão proporcionar ... Evidentemente o _Albatrós_ vae atravessar o mar Caspio, e lançar-se depois sobre a Europa, quer ao norte, por sobre a Russia, quer ao oéste, por sobre as regiões meridionaes. Pois bem! em qualquer ponto que ponhamos o pé, estará segura a nossa salvação até o Atlantico. É conveniente portanto estarmos promptos para tudo.

—Mas, perguntou Phil Evans, fugir de que maneira?

—Ora ouça, disse Uncle Prudent. Succede ás vezes, durante a noite, que o _Albatrós_ paira a uns centos de pés acima do solo. Ha a bordo alguns cabos com esse comprimento, e com um pouco de ousadia, talvez se pudesse deslisar por um d’elles abaixo ...

—Sim, respondeu Phil Evans, e n’esse caso não hesitarei.

—Nem eu, disse Uncle Prudent. Mas note que, excepto o homem do leme que fica atraz, ninguém está de noite acordado. Ora, precisamente um d’aquelles cabos está na frente, e, sem se ser visto, sem se ser ouvido, não era difficil desenrolal-o.

—Bem, disse Phil Evans. Vejo com prazer, Uncle Prudent, que está mais sereno. É melhor assim. Mas eis-nos sobre o mar Caspio. Numerosos navios estão á vista. O _Albatrós_ vae descer e parar durante a pesca ... Não poderiamos aproveitar d’isso?

—Oh! somos vigiados, mesmo quando mal imaginâmos, respondeu Uncle Prudent. Bem o viu, quando nos quizemos lançar ao Hydaspe.

—E quem nos diz que não somos tambem vigiados de noite? observou Phil Evans.

—Mas é necessario acabarmos com isto! exclamou Uncle Prudent, sim! acabar com este _Albatrós_ e com o seu dono!

Como se vê, sob o imperio da colera, os dois collegas,—Uncle Prudent principalmente—podiam ser levados a praticar os actos mais temerarios e talvez os mais contrarios á sua propria segurança.

O sentimento da sua impotencia, o desdem ironico com que Robur os tratava, as respostas brutaes que elle lhes dava, tudo contribuia para tornar tensa uma situação cujo aggravamento era cada dia mais manifesto.

N’esse mesmo dia uma nova scena esteve para produzir uma altercação das mais lamentaveis entre Robur e os dois collegas. Mal imaginava Fricollin que seria elle quem a provocasse.

Vendo-se sobre este mar sem limites, o poltrão teve uma grande surpresa. Como uma creança, como um negro que era, poz-se a gemer, a gritar, a agitar-se em mil contorsões e caretas.

—Quero-me ir embora!... quero-me ir embora! gritava elle. Não sou passaro!... Não fui feito para voar!... Ponham-me em terra!... depressa!...

É claro que Uncle Prudent não se importava nada com socegal-o,—pelo contrario. De modo que aquelles berros acabaram por impacientar Robur, fortemente.

Ora como Tom Turner e os seus companheiros iam proceder ás manobras da pesca, o engenheiro, para se vêr livre de Fricollin, ordenou que o fechassem no seu compartimento. Mas o negro continuou a debater-se, a patear, a berrar cada vez mais.

Era meio dia. O _Albatrós_ estava então a uns cinco ou seis metros apenas do nivel do mar. Algumas embarcações, espantadas com a sua presença, tinham desatado a fugir. Não tardaria em ficar deserta aquella porção do mar Caspio.

Como se pode imaginar, n’estas condições em que elles não tinham mais do que atirar-se á agua para fugir, os dois collegas deviam ser, e eram de facto, objecto de uma vigilancia especial. Admittindo mesmo que elles se atirassem pela borda fora, facil seria apanhal-os com o barco de cautchuc do _Albatrós_. Portanto nada se podia fazer durante a pesca, a que Phil Evans julgou dever assistir, emquanto que Uncle Prudent, em perpetuo estado de raiva, se retirava para o seu beliche.

Como se sabe, o mar Caspio é uma depressão vulcanica do solo. N’aquella bacia caem as aguas d’esses grandes rios, o Volga, o Ural, o Kur, o Kuma, o Yemba e outros. Sem a evaporação que lhe absorve a agua a mais, aquella cavidade, de uma superficie de dezesete mil leguas quadradas, de uma profundidade média comprehendida entre sessenta e quatrocentos pés, teria inundado as costas do norte e léste, baixas e pantanosas. Apesar de não estar em communicação nem com o mar Negro, nem com o mar de Aral, cujos niveis são muito superiores ao seu, não deixa por isso de crear uma grande quantidade de peixe,—d’esses, claro está, que se não dão mal com as aguas, de um amargo pronunciado, devido á naphta que alli trazem as correntes desde o extremo meridional.

Ora, com a idéa da variedade que ia trazer ao seu passadio, o pessoal do _Albatrós_ não dissimulava o prazer que isso lhe ia dar.

—Attenção! exclamou Tom Turner, que acabava de fisgar um peixe de um bello tamanho, quasi do feitio do tubarão.

Era um magnifico solho, de sete pés de comprido, da especie chamada Belonga, entre os russos, e cujos ovos, misturados com sal, vinagre e vinho branco, constituem o caviar. Talvez que os solhos, ou esturjões, pescados no rio, sejam melhores que os pescados no alto mar; mas estes foram bem recebidos a bordo do _Albatrós_.

Comtudo, o que tornou aquella pesca mais fructifera ainda, foi a rêde de arrastar que apanhou, a esmo, carpas, douradas, salmões, lucios marinhos, e sobretudo uma quantidade de outros peixes, os _sterlets_, de tamanho médio, que os ricos apreciadores mandam vir vivos de Astrakan, a Moscow e S. Petersburgo. Estes iam passar do seu elemento natural para as caldeiras de bordo, sem despesa de transporte.

A gente de Robur puxava alegre as redes que o _Albatrós_ arrastára durante algumas milhas. O gascão François Tapage gritava de prazer, justificando bem o seu nome. Uma hora de pesca bastou para encher os viveiros da aeronave, que se dirigiu para o norte.

Durante esta paragem, Fricollin não tinha deixado de berrar, de bater nas paredes do quarto, de fazer finalmente uma algazarra dos diabos.

—Aquelle maldito negro não se calará! disse Robur, já com a paciencia exgottada.

—Quer-me parecer, meu caro senhor, que elle está no seu direito de se queixar! respondeu Phil Evans.

—Sim, como eu no direito de poupar este supplicio aos meus ouvidos! replicou Robur.

—Engenheiro Robur!... bradou Uncle Prudent, que acabava de apparecer na plataforma.

—Presidente do Weldon-Institute?

Avançaram um para o outro. Encaravam-se fixamente.

Depois, Robur, encolhendo os hombros:

—No extremo de uma corda! disse elle.

Tom Turner tinha comprehendido. Fricollin foi tirado do beliche.

Que gritos elle não deu quando o contramestre e um dos seus companheiros o seguraram e o ataram a uma especie de celha, a que prenderam a extremidade de um cabo!

Era precisamente um d’esses cabos de que Uncle Prudent queria fazer o uso que sabemos.

O negro julgára a principio que ia ser enforcado ... Mas não! devia ser apenas suspenso.

Com effeito foi desenrolado o cabo para fora, no comprimento de cem pés, e Fricollin achou-se a balançar no espaço.

Podia agora gritar á vontade. Mas o pavor estrangulava-o, e ficou sem fala.

Uncle Prudent e Phil Evans tinham querido oppôr-se áquella execução: fôram porém repellidos.

—É uma infamia!... É uma cobardia! exclamou Uncle Prudent, que estava fora de si.

—Serio! respondeu Robur.

—É um abuso da fôrça contra o qual eu hei de protestar de outro modo que não sejam só palavras.

—Pois proteste.

—Hei de me vingar, engenheiro Robur!

—Pois vingue-se, presidente do Weldon-Institute!

—Hei de me vingar de si e dos seus!

O pessoal do _Albatrós_ approximára-se em disposições pouco benevolas. Robur fez um signal para se afastarem.

—Sim! de si e dos seus!... continuou Uncle Prudent, que o seu collega em vão tentava socegar.

—Quando queira! respondeu o engenheiro.

—E por todos os meios possiveis!

—Basta! disse então Robur n’um tom ameaçador, basta! Ha mais cabos a bordo! Cale-se, ou, quando não, faz-se ao amo o que se fez ao creado!

Uncle Prudent calou-se, não de medo, mas porque lhe deu uma tal suffocação, que Phil Evans teve de o levar para o beliche.

Havia uma hora que o tempo se modificára singularmente. Havia symptomas que não enganavam. Estava eminente uma tempestade. A saturação electrica da atmosphera fôra levada a tal ponto que pelas duas e meia Robur presenceára um phenomeno que elle jamais observára.

Nas bandas do norte, d’onde provinha a tempestade, subiam volutas de vapor quasi luminosas, o que decerto era devido á variação da carga electrica das camadas de nuvens.

O reflexo d’aquellas fachadas fazia correr, á superficie do mar, myriades de luzes, cuja intensidade se tornava tanto mais viva quanto o céo começava a escurecer.

O _Albatrós_ e o meteoro não tardariam em encontrar-se, visto caminharem um para o outro.

E Fricollin? Fricollin continuava sempre a reboque, e reboque é o termo proprio, porque o cabo fazia um angulo muito aberto com o apparelho lançado a uma velocidade de cem kilometros, o que deixava a celha um tanto atraz.

Calcule-se o seu espanto quando os relampagos começavam a sulcar o espaço em volta d’elle, emquanto o trovão rolava nas profundezas do céo.

Todo o pessoal de bordo occupava-se em manobrar, de prevenção contra a tempestade, quer para se elevar mais alto que ella, quer para se distanciar, lançando-se através das camadas inferiores.

O _Albatrós_ achava-se então na sua altura média,—mil metros proximamente,—quando rebentou uma trovoada de uma violencia extrema. O tufão subiu rapidamente. Em alguns segundos, as nuvens em fogo precipitaram-se sobre a aeronave.

Phil Evans veiu então interceder a favor de Fricollin e pedir que o trouxessem para bordo. Mas Robur não tinha esperado pelo pedido. Tinha dado as suas ordens, e já se tratava de içar a corda, quando de repente se produziu um afrouxamento inexplicavel na rotação dos helices suspensivos.

Robur deu então um pulo para os compartimentos centraes.

—Fôrça! fôrça!... gritou elle ao machinista. É preciso subir rapidamente e mais alto que a tempestade.

—Impossivel, mestre!

—O que ha?

—As correntes estão desarranjadas!... Dão se intermittencias!...

E de facto o _Albatrós_ baixava sensivelmente.

Como acontece com as correntes dos fios electricos durante a tempestade, o funccionamento electrico não actuava senão de um modo incompleto nos accumuladores da aeronave. Mas, o que não passa de um inconveniente, quando se trata de despachos telegraphicos, aqui era nada menos que o apparelho precipitado no mar, sem se poder ser senhor d’elle.

—Deixa-o descer, gritou Robur, e saiâmos da zona electrica! Vamos, rapazes! tenham sangue frio!

O engenheiro tinha-se posto em pé sobre o banco de quarto. Os homens, no seu posto, estavam prestes a executar as ordens do mestre.

O _Albatrós_, apesar de ter baixado alguns centos de metros, estava ainda immerso na nuvem, no meio de relampagos que se cruzavam como peças de fogo de artificio. Era caso de imaginarem que ia ser fulminado. Os helices afrouxaram-se ainda mais, e o que até então não fôra mais do que uma descida um pouco mais rapida, ameaçava agora tornar-se n’uma quéda.

Finalmente, em menos de um minuto estaria no nivel do mar. E dado o mergulho, nada havia que o pudesse arrancar áquelle abysmo.

De subito appareceu por cima d’elle uma nuvem electrica. O _Albatrós_ estava apenas a sessenta pés da crista das ondas. Em dois ou tres segundos, estas teriam inundado a plataforma.

Mas Robur, aproveitando o instante propicio, metteu-se no compartimento central, segurou nas alavancas de impulsão, soltou a corrente das pilhas que já não neutralisava a tensão electrica da atmosphera ambiente ... N’um momento restituiu aos helices a sua velocidade normal, susteve a quéda, e manteve o _Albatrós_ a pequena altura, ao mesmo tempo que os seus propulsores o arrastavam para longe da tempestade, que não tardou em ser transposta.

Inutil é dizer que Fricollin tomára um banho forçado, durante alguns segundos apenas. Quando foi trazido para bordo, estava molhado como se estivesse mergulhado até o fundo do mar. Como se pode imaginar, não gritou mais.

No dia seguinte, 4 de julho, o _Albatrós_ tinha transposto o limite septentrional do mar Caspio.

CAPITULO XI

ONDE A COLERA DE PRUDENT CRESCE NA RAZÃO DO QUADRADO DA VELOCIDADE

Se alguma vez Uncle Prudent e Phil Evans renunciaram a toda a esperança de escapar, foi durante as cincoenta horas que se seguiram. Teria Robur receado que a guarda dos seus prisioneiros fôsse menos facil durante essa travessia da Europa? É possivel. Sabia, além d’isso, que elles estavam resolvidos a tudo para fugir.

Seja como fôr, toda a tentativa teria sido então um suicidio. Saltar de um expresso, que vae com a velocidade de cem kilometros por hora, não é talvez mais do que arriscar a vida; mas saltar de um rapido, que vae na razão de duzentos kilometros, seria desejar a morte.

Ora, é precisamente essa velocidade, a maxima de que podia dispôr,—que fôra imprimida ao _Albatrós_. Excedia o vôo da andorinha, isto é, cento e oitenta kilometros por hora. Tinha-se notado que, desde algum tempo, os ventos do nordéste dominavam com uma persistencia muito favoravel á direcção do _Albatrós_, porque seguia no mesmo sentido, isto é, de um modo geral para o oéste. Mas esses ventos começavam a acalmar, e tornou-se em breve impossivel manterem-se na plataforma, sem terem a respiração cortada pela rapidez do deslocamento. Os dois collegas, n’um certo momento, teriam mesmo sido lançados pela borda fora, se não tivessem sido apertados contra as paredes dos seus compartimentos pela pressão do ar.

Felizmente, através as portinholas do seu cubiculo, o homem do leme deu por elles, e uma campainha electrica preveniu os homens, que estavam nos compartimentos da frente.

Quatro d’elles vieram ter cá atraz, de rastos sobre a plataforma.

Que os que se teem achado no mar, a bordo de um navio, direito ao vento, durante uma tempestade, evoquem as suas recordações, e comprehenderão qual era a violencia de uma tal pressão. Unicamente, aqui, era o _Albatrós_ que a creava pela sua incomparavel velocidade.